Captação de recursos com indivíduos - Parte 3/3

16 de dezembro de 2022

Este conteúdo foi produzido por Pedro Sá


Estamos chegando ao final do ano e com ele também chega ao final nossa série de artigos sobre captação de recursos com indivíduos. Preciso trazer alguns questionamentos pertinentes: até aqui, como você tem avaliado essas perspectivas de captação com indivíduos? Os artigos anteriores te fizeram refletir sobre como funciona o processo e como você pode, com seu time, definir o que mais se adéqua à sua OSC?


Neste artigo vamos tratar da última parte, as estratégias de captação de recursos! Você já tem em mãos os
tipos de doação: pontuais e recorrentes. Já sabe quais tipos de abordagem pode escolher. Agora é hora de entender qual a estratégia mais assertiva para sua organização.


Preparados?


1) Apadrinhamento


A advogada Flávia Ortega, em seu artigo Nova Lei 13.509/2017 dispõe sobre o programa de apadrinhamento, exemplifica muito bem o que é o apadrinhamento, que “consiste em estabelecer e proporcionar à criança e ao adolescente vínculos externos à instituição para fins de convivência familiar e comunitária e colaboração com o seu desenvolvimento nos aspectos social, moral, físico, cognitivo, educacional e financeiro”. 


Qualquer organização pode utilizar essa estratégia de captação de recursos, principalmente as que atendem diretamente a infância e adolescência e são configuradas como abrigos institucionais. De fato, como seria esse apadrinhamento? Eles podem se configurar como: Afetivo, financeiro, prestador de serviço ou doação de material. No texto “
O que é apadrinhamento?” você pode entender de que formas esses apadrinhamentos podem atender aos seus beneficiários e à sua instituição.


A forma mais comum e que muitas organizações adotam é o apadrinhamento financeiro. A ChildFund Brasil explica no seu texto “
Apadrinhamento financeiro: o que é e como funciona” que o apadrinhamento financeiro é uma forma de doação mensal que visa financiar os projetos sociais que atendem o afilhado ou a afilhada de sua escolha.


O funcionamento e o processo de apadrinhamento é peculiar de cada organização, mas há princípios que precisam ser levado em conta como a transparência das ações entre OSC-beneficiário, comunicação assertiva entre padrinhos e OSC, prestação de contas e monitoramento e intermediação das interações afetivas e sociais entre padrinho e afilhado, assegurando que os direitos da criança sejam garantidos.


2) Nota fiscal


O principal propósito desses programa fiscal na maioria dos estados em que existe estabelecido é “o de conscientizar a população sobre a importância de pedir notas fiscais e estimular a participação de todos no controle e na aplicação de recursos públicos através de uma iniciativa que sorteia prêmios e ajuda instituições”. 


E por falar em instituição, cada uma pode fazer o relatório social, no qual apresenta como está aplicando os recursos arrecadados no programa para que seus apoiadores acompanhem o trabalho. O objetivo desse relatório é gerar mais simpatizantes com cada projeto, e assim cada instituição poderá ter mais indicações.


No texto escrito por nossa responsável pelo editorial do Portal do Impacto, Daiany França, o “
Por dentro do Programa Nota Fiscal Paulista” há um passo a passo super importante para quem lê este artigo do estado de São Paulo. Paralelamente também deixo para quem me lê do estado do Ceará, detalhes sobre o programa Sua Nota Tem Valor: saiba como participar, concorrer a prêmios e ajudar a quem precisa. 


3) Heranças


As heranças são formas de estratégia de doação pouco comuns e muitas vezes problemáticas. Isso porque temos duas configurações de doação de bens, a feita em vida que é muito mais simples e gera menos problema, e a feita após o doador morrer, registrada em testamento. A doação feita após a morte do doador por meio de testamento pode ser complexa pelos seguintes pontos:


  • A herança doada post mortem, conforme a lei, só pode ser doada até 50% do total, caso o falecido tenha deixado uma família (ascendente, descendente ou cônjuge).
  • Existe um imposto que tributa esse tipo de doação, Trata-se do ITCMD (Imposto sobre Transmissão “Causa Mortis” e Doação), no artigo Tributação de doação: barreira para a solidariedade, você pode entender mais como funciona.


As doações de heranças em vida se constituem uma forma mais fácil e menos burocrática, vide o exemplo Giving Pledge, que um grande movimento de pessoas com muita visibilidade e muito dinheiro que se refere a pactos firmados publicamente por essas pessoas que se comprometem a doar parte de suas heranças e fortunas ainda em vida. 


Esse processo compete a cada um que se coloca como parte do movimento e possui suas próprias diretrizes sobre quem e como doar. É também um novo perfil de doador que surge, que é a geração Z. No artigo “
A nova geração de doadores” falo um pouco desse perfil e recomendo a leitura.


4) Crowdfunding (vaquinha)

O Crowdfunding, pela própria origem do nome, se constitui na estratégia que mobiliza recursos de muitas pessoas por meio de campanhas, principalmente onlines. Crowdfunding é o financiamento de uma iniciativa a partir da colaboração de um grupo (pode ser pequeno ou muito grande) de pessoas que investem recursos financeiros nela. Se você pegar essa definição, a vaquinha também se encaixa.



5) Arredondamento de compras



Na prática, ao comprar um produto ou serviço, como um remédio na farmácia, um curso on-line ou uma passagem aérea, um indivíduo pode escolher arredondar sua compra e assim doar os “centavos” a mais para uma OSC ou causa. A soma dos centavos vira milhares de reais, que fazem MUITA diferença para inúmeras organizações (e nós sabemos o quanto, hein!).


A ideia é simples: inspirar pessoas a fazerem pequenas doações, dentro de sua rotina de compras. “Se uma conta que deu R$ 17,80, por exemplo, arredonda para R$ 18 e os R$ 0,20 são destinados para apoiar uma causa.”  As micro doações também impactaram a vida de mais de 2 milhões de pessoas nas cerca de 15 transações registradas por minuto, em 2019. Tudo isso graças a uma enorme cadeia de marcas que “vestiram a camisa” e treinaram seus funcionários para entusiasmar os clientes.


Explicamos mais sobre essa estratégia neste Guia.


6) Cofrinho


Algumas formas de captação evoluem com o tempo. Ao olhar para o arredondamento de compras, vejo muito claro que pode ter sido uma combinação de várias experiências de doações, incluindo o “Cofrinho”.

Um jeito de arrecadar recursos à moda antiga, por meio da conhecida “caixinha sapato”, o cofrinho ainda pode ser uma alternativa para OSCs, sobretudo as de pequeno porte financeiro.


Leia também: O poder das microdoações


7) Campanhas anuais (ex: Dia de Doar)


O foco dessa estratégia é desenhar e fortalecer uma campanha para que ela seja executada anualmente e consiga se estabelecer como marca da organização.


Existem hoje muitas campanhas anuais nacionalmente conhecidas como o Criança Esperança que apoiado pela Rede Globo e organizado em parceria com a UNICEF e UNESCO, e também o Teleton que é apoiado pelo SBT e beneficia as atividades da AACD, que atua com pessoas com deficiência. 


Existe um movimento mais novo e que todas as organizações podem aderir que se chama Dia de Doar. O movimento do Dia de Doar vem na sequência de datas comerciais já conhecidas e consolidadas como a Black Friday e a Cyber Monday. 


A ideia do Dia de Doar é promover e difundir a cultura da doação no Brasil e em outros países. De 2013 para cá, o movimento cresceu de forma exponencial e hoje conta com 85 países signatários do movimento. 


Sobre o que é o dia de doar leia: Dia de Doar - Dia internacional para promover a cultura da doação


Sobre dicas de ações para o Dia de doar, segue: Reta final para o Dia de Doar no Brasil e no mundo


Apresentadas as estratégias, avalie com o time da sua organização quais são factíveis, viáveis e que trarão boas possibilidades de retorno. Defina quais tipos de abordagens serão implementadas ou melhoradas e saiba quando escolher por campanhas de doações pontuais ou recorrentes. O planejamento é essencial para que o caminho seja trilhado com menos percalços!


Contem conosco, um feliz natal e boas festas!




Pedro Sá é graduado em Gestão Desportiva e de Lazer pelo Instituto Federal do Ceará (IFCE), possui uma história no setor social desde os 15 anos e, como profissional, já atuou na administração pública e privada; hoje atua como consultor independente em gestão de projetos de impacto e captação de recursos.


Contato: prolazerconsult@gmail.com


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A experiência mostra que articular financiamento privado, cooperação técnica com o poder público e o engajamento de organizações de base é um caminho consistente para gerar impacto real e sustentável. Nesse novo cenário, o uso de dados e evidências deixou de ser opcional. A atuação precisa ser responsiva às necessidades reais dos territórios, e isso só é possível por meio da observação sistemática, da geração cidadã de dados e da tomada de decisões baseadas em evidências. O investimento social privado no Brasil amadureceu — e espera projetos bem estruturados, com governança sólida e clareza de resultados. É impossível falar de inovação sem falar de ética. Tecnologias como a Inteligência Artificial precisam ser desenvolvidas e utilizadas com base em princípios claros: respeito à privacidade e à LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), justiça social, mitigação de vieses discriminatórios, controle social sobre dados e sistemas, segurança da informação e responsabilidade ambiental. O impacto climático da tecnologia, muitas vezes invisível, também precisa entrar na equação. Regulamentação e compromisso das empresas e investidores são indispensáveis. O financiamento das organizações também passa por mudanças relevantes. Doações online, campanhas como o Dia de Doar, cessão de tecnologias e licenças por empresas e, sobretudo, o fortalecimento dos mecanismos de incentivo fiscal têm ampliado as possibilidades de sustentabilidade. Quando uma empresa direciona parte de seus impostos para projetos sociais no território onde atua, o recurso retorna diretamente para a comunidade, em forma de educação, inovação e oportunidades. 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O desafio é garantir que essa profissionalização não signifique distanciamento das bases sociais, mas sim mais impacto, mais escuta e mais transformação concreta nos territórios. Para as lideranças do setor, 2026 exigirá competências cada vez mais complexas: análise de dados, gestão de pessoas, captação diversificada de recursos, comunicação transparente, prestação de contas e capacidade de construir parcerias estratégicas entre diferentes setores. Mais do que nunca, impacto social será resultado de articulação, evidência e compromisso real com quem está na ponta. 
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Por Nathalia Albuquerque 2 de março de 2026
Você pode amar muito um time e ainda assim vê-lo perder campeonatos por anos. Pode ter a maior torcida do país, uma história gigante e uma camisa pesada. Mas sem gestão, isso não se sustenta. No terceiro setor acontece algo muito parecido. Sou corinthiana e não acompanho o futebol tão de perto. Mesmo assim, é impossível ignorar o que Palmeiras e Flamengo vêm construindo nos últimos anos. Escrevo este artigo no final de 2025 e, ao olhar para os principais campeonatos do período recente, Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil, esses dois clubes seguem protagonizando finais, títulos e campanhas consistentes. Não por acaso, também passaram a aparecer em premiações internacionais que reconhecem excelência em gestão, como o Globe Soccer Awards. Mas nem sempre foi assim. E é exatamente aí que essa história interessa às organizações da sociedade civil. Quando a virada não acontece no campo Palmeiras e Flamengo já viveram fases marcadas por dívidas, crises internas e resultados bem abaixo do potencial que tinham. A mudança não começou com um craque, nem com um gol histórico. Começou fora de campo. Por volta de 2012 e 2013, os dois clubes passaram a tratar a gestão como eixo central. Planejamento financeiro, profissionalização das equipes, governança e visão de longo prazo deixaram de ser discurso e passaram a orientar decisões concretas. Se você não gosta de futebol, continue comigo. O ponto aqui não é o esporte. É entender que amor, tradição e propósito são fundamentais, mas não substituem uma boa gestão. Com gestão, a gente vai mais longe. O que o Palmeiras ensina No Palmeiras, a virada tem um nome bastante conhecido: Paulo Nobre. Ao assumir a presidência do clube em 2013, encontrou um cenário delicado, com dívidas e pouca previsibilidade. Uma das decisões mais simbólicas foi emprestar recursos próprios para reorganizar as finanças do time. Um gesto arriscado, mas inserido em uma estratégia maior. A partir daí, vieram parcerias estratégicas como a Crefisa, a profissionalização da gestão e a criação de novas fontes de receita. A modernização do Allianz Parque transformou o estádio em um ativo que gera renda muito além dos jogos, com shows e eventos. É a lógica de enxergar a estrutura como meio para sustentar a missão, algo bastante familiar para quem atua no terceiro setor. O Flamengo e a coragem de arrumar a casa O Flamengo sempre teve popularidade e potencial. O que faltava era organização. A virada começou com decisões duras e pouco populares, como uma política rigorosa de controle de gastos e reorganização financeira. Antes de investir pesado em contratações, o clube investiu em processos, equipe técnica qualificada e responsabilidade fiscal. Os títulos vieram depois. Não como milagre, mas como consequência. O que tudo isso tem a ver com as OSCs? Muito mais do que parece. Os dois clubes mostram que investir na base (jovens atletas em formação para o time principal) é apostar no longo prazo, mesmo quando o retorno não é imediato. No terceiro setor, isso aparece na formação de equipes, no fortalecimento institucional e no desenvolvimento de lideranças. Eles também reforçam uma verdade incômoda: amor não é estratégia. Paixão move, mas não organiza fluxo de caixa, não constrói indicadores e não garante sustentabilidade. Há ainda a importância de diversificar fontes de receita, inclusive para organizações grandes e reconhecidas, e de contar com profissionais qualificados, além de investir em quem já faz parte da equipe. Nada disso acontece do dia para a noite. O processo é longo, exige constância e escolhas difíceis. Um convite para quem lidera organizações sociais  Se você lidera uma OSC, vale a reflexão. O quanto da sua energia está concentrada apenas na causa e o quanto está direcionada para fortalecer a gestão que sustenta essa causa? Gestão não esfria o propósito. Pelo contrário. Ela protege a missão, amplia o impacto e garante que o trabalho continue existindo daqui a cinco, dez ou vinte anos. No futebol e no terceiro setor, amor é o ponto de partida. Gestão é o que transforma esse amor em legado.
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