Avaliação no terceiro setor: o que a prática me ensinou?

15 de dezembro de 2022

Este conteúdo foi produzido por Maria Cecília Prates


De  uns anos para cá, tenho convivido com  organizações do terceiro setor, e tenho sofrido com elas os incômodos provocados pelo ideal da avaliação de impacto herdado do setor público, e pelo ideal da avaliação do ‘retorno econômico’ herdado do setor privado. A meu ver, são ideais desconectados da realidade dessas organizações, sobretudo no caso do Brasil. 


Defendo que os projetos sociais conduzidos pelas organizações do terceiro setor devem ter uma lógica própria de avaliação, e não buscarem se guiar pela metodologia de avaliação de impacto adotada pelo setor público para seus programas sociais. O ponto é que os complexos métodos estatísticos de pesquisa experimental e o rigor científico, tidos como pré-requisitos essenciais nas avaliações de impacto dos programas sociais do setor público, são incompatíveis com o modo de funcionamento e a disponibilidade de recursos, tanto financeiros como humanos, da quase totalidade das organizações sociais.


(Há um padrão ideal para avaliar o impacto social no terceiro setor?


Também defendo que não se deve buscar importar do setor privado os seus métodos objetivos de avaliação, baseados no fluxo de caixa entre receitas e despesas. Isso porque, nos  projetos sociais, diferente dos projetos econômicos, há que se proceder antes à monetização do impacto social, o que é metodologicamente complexo em termos estatísticos e financeiros  e, mesmo assim, ainda fica sujeito às fragilidades dos muitos pressupostos que se fazem necessários para viabilizar a desejada estimativa do custo-benefício. Assim, de muito pouco adianta se chegar a um número preciso do retorno econômico (R$ gerados, para cada R$ 1,00 investido), tão ao gosto do setor empresarial, se a sua imprecisão, ou margem de erro, for muito grande.


(Retorno econômico de projetos sociais corporativos: limites da avaliação


O fato de não seguir a cartilha da pesquisa experimental e/ou do retorno econômico não quer significar que os projetos sociais das organizações filantrópicas não tenham compromisso com a efetividade (ou eficácia) e a eficiência de suas ações. Muito ao contrário! O que tenho procurado enfatizar é que os projetos sociais das organizações do terceiro setor devem ter compromisso, sim, com a promoção da mudança social, e ao menor custo possível. Não serem ação caritativa e de benemerência. E que o papel da avaliação é justamente o de ser um instrumento útil e confiável para orientar o projeto nessa direção.  Deve ter um caráter direto de ferramenta de gestão; de instrumento de aprendizagem; falar a linguagem da organização e interagir com as equipes do projeto; deve ter métodos simples, sem ser simplórios ou “ingênuos”; e deve ter custo compatível com o tamanho do investimento social realizado. 


A partir do trabalho de monitoria que desenvolvi com algumas organizações parceiras do programa da POS/FDC (Parceria com Organizações Sociais / Fundação Dom Cabral) entre 2011-2016,  tornou-se clara a necessidade de um modelo de avaliação social para as organizações filantrópicas, condizente com as suas especificidades.  Passamos, então, a trilhar esse caminho da construção de um modelo de avaliação social para o terceiro setor, buscando identificar alguns pontos centrais nessa agenda:


(Avaliação de projetos sociais no terceiro setor: uma agenda em construção


  • O entendimento do que é projeto social para o terceiro setor.
  • Delimitação dos objetivos de resultado – específicos (ou imediatos) e de impacto.
  • O uso do método do marco lógico para apoiar o planejamento e avaliação dos projetos sociais (Planejamento e avaliação de projetos sociais: o marco lógico revisitado); (Marco lógico: adotado depois do projeto social já planejado?)   O marco lógico aqui entendido no seu papel de descrever a “teoria da mudança” associada ao projeto social. 
  • Como operacionalizar os conceitos abstratos, normalmente adotados para definir os resultados esperados. 
  • Como tratar a causalidade nos projetos sociais.
  • Como coletar e sistematizar as informações avaliativas referentes aos participantes do projeto.



Maria Cecília Prates é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape (RJ). A área social sempre foi o foco de suas pesquisas durante o período em que esteve como pesquisadora na FGV, e depois em seus trabalhos de monitoria, consultoria, pesquisa e voluntariado. 


Contato: mcecilia@estrategiasocial.com.br


Inscreva-se na nossa Newsletter

Últimas publicações

Por Instituto Phomenta 11 de junho de 2026
Nem todo edital é uma oportunidade. Entenda os riscos do desvio de missão e como captar recursos de forma estratégica.
Por Jaice Balduino 1 de junho de 2026
O doador brasileiro está mudando: mais seletivo, exigente e orientado por impacto. Descubra o que as organizações sociais precisam oferecer para conquistar e fidelizar quem doa no cenário atual.
Por Instituto Phomenta 26 de maio de 2026
Quem está no dia a dia da gestão de uma ONG conhece bem o dilema: a gente passa tanto tempo cuidando dos projetos e atendendo a ponta que a nossa própria estrutura vai ficando para trás. Já diz o ditado: “em casa de ferreiro…”. Nosso financeiro roda no limite, a equipe fica sobrecarregada, os processos são travados e a liderança vive exausta. A verdade é que a gente se acostumou a operar no modo de sobrevivência. Então, que tal dar um passo para trás e avaliar o todo? Durante o FIFE 2026, o sociólogo Domingos Armani trouxe uma provocação que cutucou feridas necessárias. Ele alertou que muitas organizações ainda insistem em carregar crenças e estigmas que funcionam como mapas obsoletos. Só que, o grande problema de usar um mapa velho é que o mundo mudou, e o desenho antigo já não bate com o terreno real de hoje. Insistir na ideia de que investir na própria estrutura é "gastar dinheiro que deveria ir para o projeto" é um desses mapas velhos que precisamos rasgar. Fortalecer a casa, o chamado Desenvolvimento Institucional (DI), é o que garante que a ONG continue existindo e gerando impacto no longo prazo. E essa mudança de mentalidade muda tudo, inclusive o jeito de captar recursos. Mudar a postura para financiar a sua estratégia Captar recursos para o Desenvolvimento Institucional, ou seja para estruturar a gestão, investir em tecnologia e manter o time funcionando, exige parar de pedir dinheiro apenas para o "projeto da vez". No painel da Plataforma Conjunta, ainda no FIFE, o debate girou em torno de como virar essa chave diante dos financiadores. Para ajudar a avaliar como a sua organização está se posicionando, montamos um checklist prático com os principais aprendizados da mesa: Checklist de postura para o fortalecimento da ONG [ ] Você se explica pela estratégia ou pelo portfólio? Quando vai conversar com um parceiro, você gasta todo o tempo listando as oficinas da semana ou apresenta primeiro a missão e a visão de futuro da organização? Grandes parceiros querem financiar o futuro da sua causa, não apenas uma ação pontual. [ ] Você sabe compartilhar vulnerabilidades? Se a sua organização fosse perfeita e não tivesse nenhum problema de gestão, ela não precisaria de apoio. Fale da sua vulnerabilidade, mas com estratégia. Acompanha o próximo ponto! [ ] O desafio vem acompanhado de uma solução? Mostrar os pontos fracos da gestão para o parceiro só funciona se você já apresentar a rota para resolver o problema. A vulnerabilidade precisa vir colada com a sua capacidade de planejamento. [ ] O estigma da escassez foi abandonado? A gestão já superou a velha crença de que o Terceiro Setor precisa trabalhar sofrendo, com ferramentas defasadas e computadores lentos? Modernizar a estrutura interna é uma decisão de eficiência, não um luxo. Saiba que você pode merece e precisa de estrutura. Modernizar para não parar no caminho Se os mapas antigos não funcionam mais, o papel de quem gere é desenhar novas rotas. Olhar para o Desenvolvimento Institucional serve para dar musculatura para a organização. Quando paramos de “vender o almoço para pagar o jantar” e começamos a financiar a nossa própria estratégia, a ONG ganha a sustentabilidade que precisa para transformar a realidade na ponta de forma estruturada e contínua.
Por Instituto Phomenta 14 de maio de 2026
Quem trabalha em ONG sabe que a comunicação costuma ser o pratinho que mais cai. Com tantas atividades executadas ao mesmo tempo, a estratégia acaba ficando para trás porque o operacional consome todo o dia. Mas o uso da Inteligência Artificial (IA) tem mostrado que dá para mudar esse cenário. Esse foi um dos temas centrais do Fórum Interamericano de Filantropia Estratégica (FIFE 2026), o principal encontro sobre gestão do Terceiro Setor no Brasil. O debate focou em como a tecnologia pode organizar processos e liberar tempo para o que realmente importa. O cenário brasileiro é curioso: de um lado, a OpenAI aponta que o Brasil é o terceiro país que mais usa o ChatGPT no mundo (atrás apenas de EUA e Índia), com cerca de 140 milhões de mensagens diárias enviadas por aqui. Por outro lado, o uso estratégico nas ONGs ainda engatinha. Um levantamento do IDIS com mais de 1,5 mil organizações revela que 62% delas ainda estão em um estágio baixo ou inexistente de adoção de IA. Ou seja, a tecnologia está na nossa mão, mas o setor social ainda está descobrindo como transformá-la em aliada da gestão. Para tirar proveito real dessas ferramentas, o segredo é o jeito que você as alimenta. Durante a palestra de Marco Iarussi, publicitário social e fundador da Curta Causa, aprendemos que o "treinamento" que você dá à IA é o que define se o resultado será genérico ou útil. Mão na massa: Passo a passo para montar seu plano com IA Para a IA aprender sobre a sua realidade e não entregar respostas vazias, siga este roteiro: 1. Não mude de conversa Escolha um único chat para tratar do seu plano de comunicação, seja no ChatGPT, Gemini ou Claude. Se você abre uma conversa nova toda vez, a IA "esquece" o contexto. Mantendo o mesmo canal, ela guarda o histórico e entende as necessidades específicas da sua organização. 2. Dê informações reais Antes de pedir o plano completo, descubra o que a IA já "pensa" sobre você. Isso serve para corrigir erros e fornecer dados que ela ainda não tem. Prompt: "O que você sabe sobre a causa [inserir sua causa] e o que conhece sobre o trabalho da [nome da sua ONG]?" 3. Alinhe o que é um plano de verdade Veja se o robô entende o seu universo. Se ele tiver uma visão muito comercial, o plano parecerá uma propaganda de loja, o que não funciona para o setor social. Prompt: "Para você, o que não pode faltar em um plano de comunicação para uma ONG? Liste os pontos principais." (Leia e diga o que você concorda ou não). 4. Descubra o que ninguém está falando Use a ferramenta para encontrar novos ângulos e sair do óbvio. Prompt: "O que o pessoal mais fala sobre [sua causa] hoje? E o que você acha que ainda não foi dito, mas que ajudaria as pessoas a entenderem melhor o nosso impacto?" 5. Peça o plano prático Agora que o chat está treinado, peça a estrutura final. Prompt: "Com base em tudo o que já conversamos aqui, monte um calendário de 30 dias para as nossas redes sociais. O foco deve ser [ex: prestação de contas ou atrair novos voluntários]." Onde entra a ética e o seu papel Usar a tecnologia para facilitar o dia a dia é inteligência de gestão, mas exige cuidado. A IA serve para fazer o primeiro rascunho e organizar as ideias, mas a palavra final, a conferência dos dados e o olhar humano sobre a causa precisam ser seus. O objetivo é automatizar o que for repetitivo para que você tenha fôlego. Com a comunicação organizada, sobra tempo para construir relacionamentos de verdade e focar no que nenhuma máquina substitui a confiança e o olho no olho com quem apoia a sua organização. 
Por Camila Pasin 30 de abril de 2026
Empresas brasileiras deixaram de ser apenas financiadoras e se tornaram plataformas de engajamento. Entenda como transformar uma simples doação em uma verdadeira aliança de impacto.
Por Gabriel Pires 9 de abril de 2026
Minha OSC precisa de um código de ética? No terceiro setor, valores sem regras claras podem gerar conflitos e riscos. Entenda por que o código de ética é essencial para a gestão das OSCs.
mostrar mais

Participe do nosso grupo no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão

Entrar para o grupo