Por que encontros presenciais são essenciais para fortalecer sua ONG? (e como organizá-los estrategicamente)

17 de novembro de 2025

Na correria do cotidiano na sua organização, você já deve ter se deparado com a dificuldade em realizar encontros presenciais fora dos projetos que executam. 


E se eu te dissesse que a ciência comprova que não é perda de tempo e, sim, estratégia para solidificar suas redes, tornar suas parcerias mais duradouras e sua equipe mais engajada? 


O que a neurociência nos ensina sobre conexões presenciais 


Pesquisas recentes de universidades como Yale e Stanford são categóricas: nossos cérebros funcionam diferente quando estamos fisicamente juntos.


O estudo da Northwestern University (2025), que analisou mais de 12.000 participantes em conferências científicas, descobriu que encontros presenciais são significativamente mais eficazes para construir comunidades do que eventos virtuais.

Por quê? Porque presencialmente conseguimos:

  • Processar linguagem corporal completa (que representa 55% da comunicação)
  • Sincronizar nossos cérebros com outras pessoas (literalmente!)
  • Criar vínculos de confiança através de hormônios que só são liberados na proximidade física
  • Gerar ideias mais criativas (até 42% mais, segundo Stanford)


Marcelle Xavier, fundadora do Instituto Amuta, sistematizou anos de pesquisa numa metodologia chamada "Design de Conexões". Em vez de deixar relacionamentos ao acaso, ela propõe criar experiências intencionais para nutrir vínculos.


Segundo ela, “pertencimento é o encontro do meu desejo de estar com o seu desejo de que eu esteja". E isso acontece especialmente quando criamos espaços onde "a pauta se vai" e as pessoas se conhecem além das questões formais.


Ferramentas práticas que você pode usar na sua organização:


  1. Matriz das relações: antes de planejar qualquer encontro, mapeie as relações dos convidados em duas categorias: 
  • Vínculo: quão próximas as pessoas são? 
  • Nutrição: quanto essa relação alimenta ou desgasta? 

Isso ajuda a construir momentos que fortaleçam esses vínculos entre os participantes. 

  2. Momentos não-estruturados intencionais

  • Reserve um tempo do encontro para conversas livres - minha sugestão é de 20% 
  • Crie “estações de conexão” e momentos estratégicos - logo após uma discussão aprofundada, as pessoas podem ter o desejo de continuar a discussão em grupos menores 

Essa estratégia permite que “a pauta se vá” e as pessoas se conectem para além da agenda formal do encontro. 


  3. Rituais de conexão 

  • Promova dinâmicas onde as pessoas possam se conhecer 
  • Implemente momentos de partilha em grupos menores para fortalecer a confiança e a conexão 


Casos reais do terceiro setor no Brasil 


A pesquisa da Cooperapic (PUC-SP) com 56 organizações mostrou que proximidade física é fator determinante para redes coesas. Organizações que se encontram presencialmente formam clusters mais colaborativos e resistentes.


O GIFE, que mobiliza R$ 4,8 bilhões anuais, atribui crescimento de 20% em 2022 ao "aumento do diálogo entre parceiros" - facilitado pelo retorno dos encontros presenciais pós-pandemia.


Guia prático: organizando encontros potentes com orçamento pequeno 


Para organizações e redes pequenas - até 15 pessoas 


  • Local: use espaços de parceiros, da organização ou dos participantes do encontro 
  • Formato: cafés da manhã coletivos, com cerca de 2 horas de duração (custo médio de R$ 200-300)
  • Atividades: 45 minutos de pauta formal + 1 hora de conexões livres ou guiadas 


Para organizações e redes médias - até 50 pessoas


  • Local: espaços culturais ou comunitários (muitos cedem gratuitamente) 
  • Formato: meio período, com frequência mais espaçada
  • Atividades: World Café*, caminhada coletiva e almoço compartilhado 


Para organizações e redes grandes - mais de 50 pessoas 


  • Local: universidades ou centros de convenções - por meio de parcerias 
  • Formato: evento anual de até 2 dias 
  • Atividades: espaço aberto para que os participantes proponham pautas temáticas de discussão, mostras de trabalho e atividades culturais 


Como saber se o encontro funcionou 


Indicadores imediatos: 


  • Pessoas ficam além do horário previsto? 
  • Suirgem conversas paralelas durante as atividades? 
  • Participantes trocam contatos espontaneamente? 


Indicadores de médio prazo:


  • Aumento de parcerias nos meses seguintes 
  • Maior participação em atividades colaborativas 
  • Criação de grupos para comunicação informal 


Indicadores de longo prazo: 


  • Retenção de parceiros, voluntários e funcionários 
  • Qualidade das colaborações (projetos conjuntos, indicações, apoio mútuo)
  • Fortalecimento de identidade coletiva da organização ou da rede 


Não é gasto, é investimento 


Para organizações que trabalham com impacto social, encontros presenciais não são luxo - são infraestrutura relacional. Em um setor que depende fundamentalmente de pessoas conectadas transformando comunidades, criar espaços intencionais para vínculos profundos é estratégia de sobrevivência e crescimento.


A ciência comprova, a prática valida: quando investimos em encontros presenciais bem planejados, construímos organizações mais resilientes, colaborações mais criativas e redes mais duradouras.


Comece pequeno, mas comece. Sua próxima reunião pode ser o início de uma rede mais conectada.


Próximos passos


  1. Analise suas relações organizacionais usando a matriz das relações 
  2. Planeje um encontro de teste, com foco em 70%, conexões e 30% de pauta oficial
  3. Documente os resultados usando os indicadores sugeridos - ou crie novos e nos conte nos comentários
  4. Ajuste e aumente a frequência e o tamanho conforme os aprendizados que coletar


Para ler mais sobre o assunto


*Método World Café - https://theworldcafe.com/key-concepts-resources/world-cafe-method/ 


Matriz das Relações - Marcelle Xavier -
https://www.linkedin.com/pulse/matriz-das-rela%C3%A7%C3%B5es-marcelle-xavier/


Modelos de colaboração para Impacto Coletivo - Stanford Social Innovation Review -
https://ssir.org/articles/entry/collective_impact 


Censo GIFE 2022-23:
https://gife.org.br/especial-redegife-censo-gife-22-23/ 


Dados sobre colaboração -
https://www.idis.org.br/retrospectiva-2022-crescimento-e-colaboracao/ 


Pesquisa Cooperapic (PUC-SP) -
https://www.scielo.br/j/rap/a/xcdLDqkm9D55yczs3qV6qvh/?lang=pt 




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