Conheça as organizações que constroem um Amanhã decolonial em seus Territórios

2 de dezembro de 2025

Este é o primeiro de cinco artigos da série intitulada Vozes dos Territórios: uma jornada decolonial na Filantropia Brasileira. A série dedica-se a compartilhar com o ecossistema de impacto as experiências e aprendizados na construção da Comunidade Territórios do Amanhã - uma iniciativa Próspera Social, com realização do Instituto Phomenta. 

O que um coletivo que realiza atividades para fortalecimento da saúde mental de jovens negros periféricos de Brasília-DF tem em comum com uma ONG que atua no desenvolvimento de pesquisas e divulgação científica e tecnológica em diferentes cidades da Bahia? 


Para responder a essa e tantas outras perguntas, nasce, em 2022, a Comunidade Territórios do Amanhã, uma iniciativa da Próspera Social, com realização da Phomenta. A Comunidade é um espaço construído intencionalmente para promover o fortalecimento e desenvolvimento institucional de organizações sociais (coletivos e ONGs) que atuam diretamente no atendimento das mais diversas demandas das populações negras, quilombolas e indígenas no Brasil. 


Desde a sua concepção, a Comunidade tem a missão de construir novas perspectivas, a partir de uma visão decolonial de atuação sistêmica dentro do Terceiro Setor. O pensamento decolonial, base que sustenta as práticas e atividades desenvolvidas com esta Comunidade, se constituiu historicamente a partir de experiências que projetaram (e projetam) resistências e formas outras de existir diante do racismo, do patriarcado, do capitalismo, especialmente em territórios atravessados pelas experiências de colonização. 


Define-se, portanto, pela denúncia dos efeitos da colonialidade – ou seja, de tudo aquilo que permaneceu como herança da escravidão e do colonialismo -, ao passo que busca desestruturar as relações de poder, ser e saber da colonialidade. Estes movimentos de base decolonial se conectam com experiências de resistência ancestrais, enquanto operam politicamente na construção de novos conhecimentos que valorizem as múltiplas formas de existir advindas da diversidade de povos e culturas em todo o mundo. Aqui, perspectivas raciais, étnicas, de gênero, de classe, região, sexualidade e afins configuram-se como fundamentais na leitura de mundo, assim como na atuação sobre ele. 


A abordagem de atuação em rede aliada ao pensamento decolonial é uma tentativa de reconhecer os efeitos da colonização e da colonialidade e promover a resistência político-cultural e a descentralização do conhecimento na sociedade brasileira. É a partir desta busca que a Phomenta vem atuando com as 15 organizações que compõem esta Comunidade de prática, de aprendizagem e de fortalecimento emocional de lideranças e organizações atuantes nos mais  distintos territórios do país. 


A Comunidade Territórios do Amanhã fortalece lideranças e organizações presentes em quatro das cinco regiões do Brasil, sendo 11 cidades de seis estados e o Distrito Federal. Juntas, elas impactam mais de 22 mil pessoas por ano, com cerca de 250 voluntários e 136 pessoas empregadas diretamente. Já as lideranças que representam essas organizações são majoritariamente Mulheres (78%) e Negras (70%), seguidas de Indígenas (26%). E, neste artigo, queremos que você conheça um pouco mais sobre cada uma delas. 


Conheça as organizações que estão se dedicando à construção destes Territórios do Amanhã. 

Associação de Cultura e Artes - Casa de Bambas

Rio de Janeiro-RJ


A capoeira e as diferentes expressões artísticas herdadas da cultura afro-brasileira são os vetores da transformação de um território e das juventudes e infâncias que o habitam. A Casa de Bambas tem se dedicado à oferta de oficinas e aulas de capoeira, danças folclóricas e produção de instrumentos musicais na Comunidade Alta em Cordovil, no Rio de Janeiro. 


Para saber mais e apoiar o trabalho da Casa de Bambas, clique aqui


Associação de Mulheres Indígenas da Aldeia Muruary

Santarém/PA


Proteger, difundir e fortalecer a cultura e a ancestralidade de um povo passa, necessariamente, pela proteção e promoção dos direitos das mulheres dentro desse território. A Associação de Mulheres Indígenas da Aldeia Muruary tem atuado, desde 2021, na proteção dos direitos das mulheres indígenas, combatendo as diferentes formas de violência que atingem essas mulheres e, junto disso, atuado diretamente na proteção do território em Santarém, no Pará, com a brigada de incêndio voluntária. 


Para conhecer e apoiar o trabalho das mulheres da Associação de Mulheres Indígenas da Aldeia Muruary, clique aqui


Decodifica

Rio de Janeiro/RJ


Mudar a realidade por meio da geração de dados é o que define o Decodifica. Desde 2021, a organização atua com uma metodologia chamada Geração Cidadã de Dados, envolvendo a população no processo de pesquisas que dizem respeito à realidade vivida pelas comunidades onde atuam, para identificar os desafios enfrentados pela população e propor soluções que mudem o cotidiano prático dessas pessoas. 


Para saber mais e apoiar o trabalho do Decodifica, clique aqui


Associação para Desenvolvimento Local Co-produzido - ADELCO

Fortaleza-CE


Desde 2001, a ADELCO, com sede em Fortaleza, tem atuado para a melhoria das condições socioambientais e fortalecimento político e cultural das populações indígenas do estado do Ceará. Seja por meio das melhorias habitacionais, do saneamento ecológico, da agroecologia, da gestão ambiental e territorial ou das ações de visibilidade para os povos indígenas, a ADELCO tem contribuído com a autonomia, o fortalecimento de capacidades e a preservação dos saberes culturais tradicionais dos povos indígenas, além da preservação e conservação do meio ambiente.


Para conhecer e apoiar o trabalho da ADELCO, clique aqui


Casa Poéticas Negras 

Parati-RJ


“Queremos que nossas narrativas sejam   contadas e protagonizadas por pessoas negras e indígenas.” É assim que a Casa Poéticas Negras se apresenta como um espaço não formal de educação, em um território que ainda possui resquícios coloniais no seu modo de vida e com sua população . Desde 2019, a organização se dedica ao enfrentamento ao racismo estrutural como um espaço não formal de educação, oferecendo programas educacionais afropindorâmicos de longa duração para crianças, jovens e adultos, como contraturno afroreferenciado para crianças de 4 a 10 anos, curso de inglês e cursinho preparatório para ENEM e vestibulares. A organização também é Ponto de Cultura reconhecido e atua nessa frente com uma casa literária, tendo em funcionamento a primeira biblioteca comunitária afropindorâmica da costa verde e participando como casa parceira da FLIP todos os anos com mais de 40 horas de programação afrocentrada.


Para conhecer e apoiar o trabalho da Casa Poéticas Negras, clique aqui


ConexãoAfro 

Brasília-DF


Localizados em Brasília, os jovens do Conexão Afro tem atuado para a construção de um espaço seguro para que os jovens negros possam se conectar, compartilhar vivências e afetos entre eles. Ser um jovem negro no Brasil é um desafio constante, seja pelas violências enfrentadas ou pela sensação de solidão que essa fase da vida traz consigo. O Conexão Afro tem transformado essas dores em resistência e afeto negro em Brasília. 


Para conhecer e apoiar o trabalho do Conexão Afro, clique aqui


Instituto de Preservação dos Direitos Humanos e Preservação do Meio Ambiente - Vale do Sol 

Maceió-AL


O Instituto Vale do Sol atua na promoção de conexão justa e sustentável entre campo e cidade, em diferentes regiões de Alagoas. Por meio de seus projetos e ações, o Instituto transforma realidades e fortalece a agricultura familiar, criando valorização dos saberes tradicionais e garantindo acesso a alimento saudável e livre de agrotóxicos. O carro chefe do Instituto Vale do Sol é a Feira Afroecológica Novo Jardim, um espaço de resistência, cultura e cidadania. Nela, as famílias agricultoras compartilham suas produções e vivências, enquanto geram renda digna e promovem a saúde de comunidades urbanas e rurais. Por meio das redes colaborativas das quais fazem parte, o Instituto Vale do Sol contribui para políticas públicas e práticas sustentáveis em todo o estado, sendo uma referência em justiça socioambiental no Nordeste. 


Para conhecer e apoiar o trabalho do Instituto Vale do Sol, clique aqui


Instituto Feminista Jarede Viana 

Maceió-AL


O instituto feminista Jarede Viana nasceu em 29 de agosto de 2008 em enfrentamento à LGBTfobia nos espaços de saúde e assistência social. Hoje atua com foco em  direitos humanos, especialmente voltados para a garantia da proteção das  mulheres e jovens vulneráveis, com foco na população negra e índigena. O Jarede Viana tem sede  na periferia de Maceió e na Maloca Mata da Cafurna da Etnia Xucuru Cariri em Palmeira dos Índios - AL. Com três frentes de trabalho, dedica-se ao acolhimento institucional para mulheres e seus filhos que tenham sido vítimas de violências, espaços de aprendizagem e oficinas de geração de renda e o enfrentamento ao racismo ambiental e promoção da saúde mental para as famílias impactadas pelo desastre socioambiental em Maceió. 


Para conhecer e apoiar o trabalho desenvolvido, clique aqui.


Instituto Mancala

Salvador/BA


A ciência tem viés, e ele está atrelado a quem faz pesquisa, e para que cada vez mais pessoas indígenas e negras ocupem esses espaços, o Instituto Mancala trabalha em Salvador. Por meio do Mukengi, o Instituto Mancala tem capacitado pesquisadores negros e indígenas para o desenvolvimento de pesquisas sobre insegurança alimentar, meio ambiente e saúde. 


Para conhecer e apoiar o trabalho do Instituto Mancala, clique aqui


Movimento Associativo Indígena Payaya - MAIP

Utinga-BA


As famílias indígenas do povo Payaya, em especial as que vivem às margens do rio Utinga, são as principais atendidas pelo Movimento Associativo Indígena Payaya, também conhecido pela população como MAIP. As atividades são diversas, e passam desde o turismo comunitário para geração de renda, até pelo cultivo de mudas nativas para recuperação de nascentes e plantio de roças agroecológicas. 


Para conhecer e apoiar o trabalho do MAIP, clique aqui


Ponto de Cultura Batá Kossô

Olinda/PE


Desde 2012, o Batá Kossô oferece oficinas de iniciação à musicalização para a população de Olinda. Com uma metodologia própria e reconhecida em outros territórios, o Batá Kossô é mais do que um Ponto de Cultura, é também a materialização da memória cultural dos ritmos populares do Nordeste. Representado por Felipe França, o Bará Kossô realiza a Semana de Artes do Batá Kossô, a festa de Cosme e Damião e seu conhecido desfile oficial durante o carnaval, nas ladeiras da cidade histórica de Olinda. 


Para conhecer e apoiar o trabalho do Ponto de Cultura Batá Kossô, clique aqui


Pretas Ruas

Rio de Janeiro/RJ 


A Pretas Ruas é uma organização fundada e liderada por mulheres negras que atua na defesa, promoção e garantia de direitos, na redução de danos e no fortalecimento de pessoas em situação de rua, abrigos e ocupações. Com base no cuidado, na educação, na cultura e na incidência política, promove formações, ações de advocacy, eventos culturais e projetos de saúde e bem-estar, valorizando a ancestralidade e o protagonismo das mulheres negras e pessoas em situação de rua como caminhos de transformação social.


Para acompanhar e apoiar o trabalho do Pretas Ruas, clique aqui


Projeto Educacional Raízes - Projedur

Salvador/BA


A entrada no ensino superior ainda é uma realidade distante para muitos jovens negros e periféricos de Salvador. É para encurtar essa distância que nasce o Projedur – Projeto Educacional Raízes, em Alto de Coutos, pelas mãos de Maiane Soares. Mestra em Língua e Cultura pela UFBA, Maiane viveu a experiência de projetos sociais educacionais como professora voluntária no GAPPECC, entre 2010 e 2012. Dessa vivência nasceu a certeza: era preciso criar pontes entre o subúrbio ferroviário e as universidades. Pensado em 2016 e iniciado em 2017, o projeto começou com 10 estudantes. No ano seguinte, encontrou acolhida na Escola Municipal Francisca de Sande, crescendo para 35 vagas. Em 2020, a pandemia levou o Projedur ao ambiente virtual, permitindo alcançar estudantes para além de Alto de Coutos. Hoje, junto de uma equipe comprometida, o Projedur segue sua missão: transformar vidas pela educação.


Para acompanhar e apoiar o trabalho do Projeto Educacional Raízes, clique aqui


Rede de Apoio e Incentivo Socioambiental - RAIS

Dourados/MS


Lutar por direitos sociais, ambientais, culturais e territoriais enquanto resiste aos mais diversos ataques ao seu povo e sua própria existência é a realidade vivida pelos povos indígenas do Mato Grosso do Sul. A Rede de Apoio e Incentivo Socioambiental une profissionais técnicos e professores indígenas e não indígenas com profundo conhecimento histórico, prático e técnico sobre os Guarani e os Kaiowa para o desenvolvimento de projetos e programas que fortaleçam estes povos na preservação de seu patrimônio cultural, territorial e social. 


Para conhecer e apoiar o trabalho da Rede de Apoio e Incentivo Socioambiental, clique aqui


Slow Food Xingu

Vitória do Xingu-PA


A chegada cada vez mais facilitada de alimentos ultraprocessados em aldeias e territórios indígenas é uma ameaça direta à existência e à preservação dos saberes ancestrais. Slow Food Xingu, fundada em 2019, se dedica à promoção do cultivo de mandioca e outros alimentos regionais para promoção da soberania alimentar e cultural dos povos Juruna, Xipaya e Kuruaya, em Vitória do Xingu - Pará. Na Comunidade Territórios do Amanhã, a Slow Food Xingu é representada por Murilo Juruna. 


Para acompanhar e apoiar o trabalho do Slow Good Xingu, clique aqui


No próximo artigo, falaremos mais sobre o que é o Pensamento Decolonial e como ele dialoga com o Terceiro Setor na construção de futuros transformadores. Acompanhe nas redes sociais do Portal do Impacto e aqui no site.


Quem assina o artigo:
Agnes Santos, Gerente de Parcerias na Phomenta, com revisão de Maria Clara Cavalcanti, Professora de História, Pesquisadora e Educadora Popular, e todas as organizações da Comunidade Territórios do Amanhã. 


Contamos com o apoio de Kauê Augusto e Camilla Carvalho - equipe gestora da Comunidade Territórios do Amanhã.



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Ferramentas de computação em nuvem, automação de processos e sistemas de gestão já impactam profundamente a comunicação e a administração das organizações. E, sem dúvida, a Inteligência Artificial é o próximo grande divisor de águas. A IA já é uma realidade acessível ao terceiro setor, mas ainda pouco dominada de forma qualificada, segura e estratégica. Existe um enorme potencial para geração de conhecimento, análise de dados, automação, pesquisa e avaliação de projetos. É possível, por exemplo, utilizar ferramentas de IA para analisar evidências científicas, apoiar processos de avaliação, medir resultados e até realizar auditorias internas de gestão. Ainda assim, o setor carece de investimento em formação, treinamento e desenvolvimento de soluções de IA criadas pelo terceiro setor e para o terceiro setor. Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer um desafio estrutural: muitas organizações de base, especialmente em territórios periféricos, ainda têm dificuldade de incorporar tecnologia às suas soluções. Não por falta de visão, mas por falta de acesso à educação, à formação técnica e a investimentos sociais. É comum vermos tecnologias avançadas sendo desenvolvidas por startups e organizações de impacto, enquanto quem atua diretamente no território não dispõe dos recursos necessários para utilizá-las. Sem articulação, essa equação não fecha. Por isso, outra tendência que se consolida é a valorização de redes, consórcios e articulações territoriais. Organizações que atuam de forma isolada tendem a ter mais dificuldade de acessar investimentos. Financiadores buscam cada vez mais iniciativas coletivas, capazes de envolver múltiplos atores, setores e saberes. A experiência mostra que articular financiamento privado, cooperação técnica com o poder público e o engajamento de organizações de base é um caminho consistente para gerar impacto real e sustentável. Nesse novo cenário, o uso de dados e evidências deixou de ser opcional. A atuação precisa ser responsiva às necessidades reais dos territórios, e isso só é possível por meio da observação sistemática, da geração cidadã de dados e da tomada de decisões baseadas em evidências. O investimento social privado no Brasil amadureceu — e espera projetos bem estruturados, com governança sólida e clareza de resultados. É impossível falar de inovação sem falar de ética. Tecnologias como a Inteligência Artificial precisam ser desenvolvidas e utilizadas com base em princípios claros: respeito à privacidade e à LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), justiça social, mitigação de vieses discriminatórios, controle social sobre dados e sistemas, segurança da informação e responsabilidade ambiental. O impacto climático da tecnologia, muitas vezes invisível, também precisa entrar na equação. Regulamentação e compromisso das empresas e investidores são indispensáveis. O financiamento das organizações também passa por mudanças relevantes. Doações online, campanhas como o Dia de Doar, cessão de tecnologias e licenças por empresas e, sobretudo, o fortalecimento dos mecanismos de incentivo fiscal têm ampliado as possibilidades de sustentabilidade. Quando uma empresa direciona parte de seus impostos para projetos sociais no território onde atua, o recurso retorna diretamente para a comunidade, em forma de educação, inovação e oportunidades. Isso fortalece a democracia e aproxima o investimento social da vida real das pessoas. As parcerias intersetoriais, aliás, tendem a se tornar ainda mais estratégicas. Políticas de ESG impulsionaram empresas a assumirem compromissos mais concretos com impacto social e ambiental. Quando essa agenda sai do discurso e se traduz em atuação no território, com cooperação técnica e investimento de longo prazo, os resultados são muito mais consistentes. Diante de um cenário marcado por polarização política e desinformação, o papel das organizações da sociedade civil também se amplia. Educação midiática, consumo crítico da informação e inclusão digital são hoje pilares da defesa da democracia. Eu acredito que capacitar pessoas em habilidades digitais é também fortalecer sua capacidade de participação cidadã. O terceiro setor está, sim, mais profissionalizado — e isso é necessário. O desafio é garantir que essa profissionalização não signifique distanciamento das bases sociais, mas sim mais impacto, mais escuta e mais transformação concreta nos territórios. Para as lideranças do setor, 2026 exigirá competências cada vez mais complexas: análise de dados, gestão de pessoas, captação diversificada de recursos, comunicação transparente, prestação de contas e capacidade de construir parcerias estratégicas entre diferentes setores. Mais do que nunca, impacto social será resultado de articulação, evidência e compromisso real com quem está na ponta. 
Por Kamilly Oliveira 9 de março de 2026
Não é novidade que iniciativas culturais de territórios do Norte e Nordeste enfrentam desafios estruturais para acessar recursos e ampliar seu impacto. Dados de um levantamento realizado pela Iniciativa Pipa, em parceria com o Instituto Nu, mostram que 31% das organizações periféricas de cultura e educação operam com orçamento anual de até R$ 5 mil, enquanto 58% funcionam de forma totalmente voluntária, sem equipes remuneradas. Nesse cenário, a captação de recursos e o acesso a editais seguem como obstáculos frequentes. É a partir dessa realidade que nasce o Phomentando a Cultura: um programa apresentado pelo Ministério da Cultura, Governo do Brasil - ao lado do povo brasileiro, com patrocínio Nubank via Lei Rouanet. Este é um projeto voltado ao fortalecimento de fazedores e trabalhadores da cultura que atuam em organizações, coletivos, grupos, pontos e pontões culturais das regiões Norte e Nordeste. Formação prática para estruturar projetos culturais O Phomentando a Cultura tem como objetivo apoiar iniciativas culturais que já atuam em seus territórios, mas que precisam organizar melhor seus projetos, entender o que os editais realmente avaliam e se preparar para o credenciamento na Lei Rouanet e outros editais de fomento à cultura. Ao longo do programa, os participantes têm acesso a uma jornada de aceleração online, gratuita e acessível, com foco em: Organização e estruturação de projetos culturais Leitura estratégica de editais Preparação para o credenciamento de projetos na Lei Rouanet Orientações para ampliar as chances em editais estaduais, municipais e seleções de empresas, incluindo a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB) A proposta é identificar o que costuma travar a aprovação de projetos e orientar ajustes possíveis dentro da realidade de cada iniciativa. Aceleração com orientação e acompanhamento Diferente de formações genéricas, o programa oferece orientação técnica e acompanhamento, com revisão de documentos, análise de gargalos e direcionamentos para que as organizações consigam avançar em processos de seleção e captação. Os encontros são pensados para quem vive a cultura no dia a dia e precisa de informações objetivas, sem linguagem técnica excessiva ou soluções distantes da realidade dos territórios. Presença nos territórios: caravana pelo Norte e Nordeste Nesta primeira edição, o Instituto Phomenta também promove uma caravana presencial, com eventos de lançamento, conexões e troca de aprendizados em 10 cidades: São Luís (MA) Macapá (AP) Santarém (PA) Olinda (PE) Manaus (AM) Porto Velho (RO) Rio Branco (AC) Teresina (PI) Salvador (BA) Fortaleza (CE) Os encontros presenciais são abertos a fazedores de cultura locais e fazem parte da estratégia de aproximação com os territórios. É a chance de entender ainda melhor o que o programa oferece. A agenda completa pode ser consultada no site. Quem pode participar Mesmo quem não estiver nas cidades visitadas pela caravana pode se inscrever no Phomentando a Cultura. O programa é voltado para: Organizações, coletivos, grupos, pontos ou pontões de cultura sediados em cidades do Norte e Nordeste Pessoas que desenvolvem atividades culturais de forma contínua e impactam seus territórios Inscrições abertas  O Phomentando a Cultura é uma oportunidade gratuita para quem quer fortalecer sua atuação cultural, estruturar melhor seus projetos e ampliar o acesso a recursos. As inscrições estão abertas e podem ser feitas pelo link: https://www.phomenta.com.br/phomentando-a-cultura
Por Nathalia Albuquerque 2 de março de 2026
Você pode amar muito um time e ainda assim vê-lo perder campeonatos por anos. Pode ter a maior torcida do país, uma história gigante e uma camisa pesada. Mas sem gestão, isso não se sustenta. No terceiro setor acontece algo muito parecido. Sou corinthiana e não acompanho o futebol tão de perto. Mesmo assim, é impossível ignorar o que Palmeiras e Flamengo vêm construindo nos últimos anos. Escrevo este artigo no final de 2025 e, ao olhar para os principais campeonatos do período recente, Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil, esses dois clubes seguem protagonizando finais, títulos e campanhas consistentes. Não por acaso, também passaram a aparecer em premiações internacionais que reconhecem excelência em gestão, como o Globe Soccer Awards. Mas nem sempre foi assim. E é exatamente aí que essa história interessa às organizações da sociedade civil. Quando a virada não acontece no campo Palmeiras e Flamengo já viveram fases marcadas por dívidas, crises internas e resultados bem abaixo do potencial que tinham. A mudança não começou com um craque, nem com um gol histórico. Começou fora de campo. Por volta de 2012 e 2013, os dois clubes passaram a tratar a gestão como eixo central. Planejamento financeiro, profissionalização das equipes, governança e visão de longo prazo deixaram de ser discurso e passaram a orientar decisões concretas. Se você não gosta de futebol, continue comigo. O ponto aqui não é o esporte. É entender que amor, tradição e propósito são fundamentais, mas não substituem uma boa gestão. Com gestão, a gente vai mais longe. O que o Palmeiras ensina No Palmeiras, a virada tem um nome bastante conhecido: Paulo Nobre. Ao assumir a presidência do clube em 2013, encontrou um cenário delicado, com dívidas e pouca previsibilidade. Uma das decisões mais simbólicas foi emprestar recursos próprios para reorganizar as finanças do time. Um gesto arriscado, mas inserido em uma estratégia maior. A partir daí, vieram parcerias estratégicas como a Crefisa, a profissionalização da gestão e a criação de novas fontes de receita. A modernização do Allianz Parque transformou o estádio em um ativo que gera renda muito além dos jogos, com shows e eventos. É a lógica de enxergar a estrutura como meio para sustentar a missão, algo bastante familiar para quem atua no terceiro setor. O Flamengo e a coragem de arrumar a casa O Flamengo sempre teve popularidade e potencial. O que faltava era organização. A virada começou com decisões duras e pouco populares, como uma política rigorosa de controle de gastos e reorganização financeira. Antes de investir pesado em contratações, o clube investiu em processos, equipe técnica qualificada e responsabilidade fiscal. Os títulos vieram depois. Não como milagre, mas como consequência. O que tudo isso tem a ver com as OSCs? Muito mais do que parece. Os dois clubes mostram que investir na base (jovens atletas em formação para o time principal) é apostar no longo prazo, mesmo quando o retorno não é imediato. No terceiro setor, isso aparece na formação de equipes, no fortalecimento institucional e no desenvolvimento de lideranças. Eles também reforçam uma verdade incômoda: amor não é estratégia. Paixão move, mas não organiza fluxo de caixa, não constrói indicadores e não garante sustentabilidade. Há ainda a importância de diversificar fontes de receita, inclusive para organizações grandes e reconhecidas, e de contar com profissionais qualificados, além de investir em quem já faz parte da equipe. Nada disso acontece do dia para a noite. O processo é longo, exige constância e escolhas difíceis. Um convite para quem lidera organizações sociais  Se você lidera uma OSC, vale a reflexão. O quanto da sua energia está concentrada apenas na causa e o quanto está direcionada para fortalecer a gestão que sustenta essa causa? Gestão não esfria o propósito. Pelo contrário. Ela protege a missão, amplia o impacto e garante que o trabalho continue existindo daqui a cinco, dez ou vinte anos. No futebol e no terceiro setor, amor é o ponto de partida. Gestão é o que transforma esse amor em legado.
Por Maria Cecília Prates 10 de fevereiro de 2026
Quer doar, mas não sabe se o dinheiro vai chegar onde precisa? No Brasil, a desconfiança ainda trava doações. Veja como doar de forma efetiva e gerar impacto social real.
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