É possível equilibrar o trabalho social com lazer, hobby e ócio?

7 de junho de 2024

Sara Dias propõe caminhos para lidarmos com a Cultura da Agitação, estilo de vida que valoriza o trabalho incessante

Um grupo de pessoas está em volta de uma mulher sentada em uma mesa.

“Para resistir à pressão de ser produtivo o tempo inteiro, é essencial enxergar a utilidade do inútil” (Mariane Santana)


Você já desejou ter mais tempo para você? Tempo para descansar, para fazer as coisas que gosta ou para apenas não fazer nada.E quando você consegue um pouco desse tempo, para você é fácil deixar de fazer “tudo” que você tem a fazer, inclusive relacionado ao trabalho?


Com base nesses questionamentos a pesquisadora, escritora e Professora Mestra Mariane Santana, integrante do Núcleo de Estudos das Espacialidades Contemporânea da Universidade de São Paulo - USP, problematiza a relação do indivíduo com o trabalho e o descanso, baseando-se principalmente nas teorias da “prática sobre si” de Michel Foucault.


Mariane cita que vivemos condicionados à uma Cultura da Agitação (Hustle Culture), ou seja, uma cultura que valoriza um estilo de vida de trabalho incessante, que prega que o valor das pessoas está naquilo que produzem.


“A Cultura da Agitação legitima a exploração e a precarização do trabalho. Nesse contexto, as pessoas se sentem mal por estarem descansando ou tendo momentos de lazer”.


A Cultura da Agitação está presente também no Terceiro Setor?


Eu diria que sim. Individualmente, quando não conseguimos questionar e priorizar a nossa utilização do tempo frente às necessidades da causa social em que atuamos, mas principalmente quando, em nível organizacional, é normalizada práticas que não consideram o caráter exaustivo vivenciado no Terceiro Setor e o intensificam ainda mais, realizando reuniões em horários de almoço, enviando mensagens de trabalho fora do horário de expediente ou não considerando tempo e espaço para a descompressão.


Mariana Santana ressalta que “as pessoas impactadas pela cultura da agitação raramente têm tempo para a família, amigos, o lazer ou o autocuidado [...] já que todo o tempo passa a ser ocupado com as preocupações do trabalho”.


O tempo no trabalho ou fora dele


A relação com o tempo, no trabalho ou o fora dele, é um atravessador desses questionamentos, e o contraponto ao super foco no fazer laboral, ou no amor à causa, é o permitir-se descansar, ou dedicar seu tempo livre para o que melhor lhe convier.


Como nos lembra Michelle Prazeres, jornalista, educadora e fundadora do Instituto Desacelera, de São Paulo:


“Descanso não é merecimento,

  Descanso não é prêmio para quem foi produtivo/a,

  Descanso não é combustível para ser mais produtivo/a,

  Descanso é constitutivo da experiência,

  Descanso faz parte da vida,

  Descanso é direito”


Alguns exemplos das escolhas que se pode fazer com o tempo fora do trabalho, estão resumidas em três palavras, que parecem ter os mesmo significados, mas que se diferenciam entre si. São elas: o lazer, o hobbie e o ócio.


O Lazer


Explorado de forma intensa pelo sociólogo francês Joffe Dumazier em seus livros “Lazer e cultura popular” (1973) e “Sociologia empírica do lazer” (1979), a palavra lazer “se apresenta na dinâmica social brasileira, carregada dos valores do capital, relacionando-se diretamente com o tempo de reposição de energia para o trabalho”.


Para o autor, o tempo de lazer é realizado pelo “adulto trabalhador” em quatro principais períodos:

  • Fim do dia
  • Fim de semana
  • Fim do ano letivo (férias)
  • Fim da vida (aposentadoria)


E tem como característica os 3 D’s: Descanso, diversão e desenvolvimento da personalidade.


No livro “Manual de lazer e recreação - o mundo lúdico ao alcance de todos”, Thiago Silva e Kaoê Gonçalves complementam:


“As características do lazer são liberdade de escolha e busca de um estado de prazer e espontaneidade, e suas funções traduzem a busca de equilíbrio mental (psicológica), a integração e a socialização (social), e a manutenção de um bom estado de saúde (terapêutica)”.


O Hobby


Expressão inglesa designada para representar o tempo gasto de forma intencional para si mesmo, descreve atividades escolhidas para serem realizadas em seu tempo livre, como por exemplo: atividades artísticas, esportivas, leitura, escrita, e ações como cozinhar, plantar, costurar etc.


Para o Ph.D. Emílio da Silva Neto, Doutor em Engenharia e Gestão pela Universidade Federal de Santa Catarina, “o hobby é composto de momentos em que se faz aquilo que dá prazer, convém, faz bem, carrega a bateria, dá paz, faz feliz”. Porém, para que se possa colher de seus benefícios, há de se ter compromisso com ele, definindo horários e realizando-os de forma periódica.


Em sua dissertação de mestrado em Psicologia, intitulada “A relação da autoeficácia, ajustamento emocional e qualidade de vida em adultos”, (2014) para a Universidade Lusófona de Humanidade e Tecnologia, de Lisboa, a pesquisadora Eugénia Maria de Almeida Francisco defendeu que:


“Em relação ao ajustamento emocional e aos hobbies, os resultados demonstraram que os sujeitos que praticam hobbies têm melhor ajustamento emocional do que os que não praticam. Estes últimos, têm valores superiores de depressão e ansiedade, embora só a depressão revele uma diferença estatisticamente significativa. Os hobbies afetam de forma positiva o equilíbrio emocional, a saúde e o desenvolvimento pessoal”.


O ócio


Palavra de múltiplos significados e interpretações, “ócio” pode ser o tempo em que não se faz nada, livre de compromissos e obrigações, pode ser entendido de forma negativa, como tempo inútil, improdutivo e supérfluo, ou mesmo supervalorizado como o tempo de abertura às novas ideias, como o “ócio criativo” defendido pelo sociólogo italiano Domenico De Masi.


Quando reconhecido como um tempo livre, sem uma finalidade utilitarista, o ócio pode se transformar em uma atitude autoreflexiva e contemplativa do ser, sendo um momento propício para que a percepção intuitiva nos ofereça outras formas de perceber a realidade.


O ócio pode ser experimentado, inclusive, em momentos de silêncio. O pesquisador e médico italiano Luciano Bernardi, responsável pelo hospital San Matteo, de Pavia, Itália, descobriu que reservar um tempo para o silêncio restaura o sistema nervoso, ajuda a manter a energia e condiciona nossas mentes para serem mais adaptáveis e responsivas aos ambientes complexos em que tanto de nós vivemos.


E se o trabalho no Terceiro Setor for meu lazer ou meu hobby?


Já ouvi uma afirmação parecida com essa em uma conversa sobre autocuidado e saúde mental no trabalho do Terceiro Setor, e apesar de achar que isso é possível, me desperta algumas reflexões.


No artigo “When passion leads to Burnout” (Quando o amor leva ao burnout), da Harvard Business Review, de 2019, a escritora Jennifer Moss exemplifica:


“Quando equiparamos o trabalho que amamos a ‘não trabalhar de verdade’, propagamos a crença de que, se o amamos tanto, deveríamos fazer mais - o tempo todo, na verdade. Quem precisa de um dia de folga quando não está trabalhando de verdade?! Há toda uma indústria caseira empenhada em proliferar esta mentalidade [...] Este tipo de mentalidade leva ao esgotamento e as consequências podem ser terríveis e difíceis de detectar”.


Um dado relevante para quem está propenso ao desequilíbrio do tempo livre em favor do trabalho é que períodos muito longos sem descanso comprometem a capacidade cognitiva e física, fazendo com que o desempenho diminua e o estresse crônico possa se instaurar. 


Mesmo que as demandas, principalmente no Terceiro Setor, estejam constantemente lutando contra o relógio, há um movimento em favor de uma produtividade saudável e sustentável que precisa ser realizado e priorizado e isso se inicia com a observação dos próprios limites.


Agora, a pergunta que faço, como no início deste texto é: o quanto temos nos permitido e conseguido desfrutar de tempo de lazer, hobby e até mesmo para o ócio, para o descanso ou simplesmente para nós?


Que tipo de reorganização de tempo precisamos fazer para que as pausas possam ser valorizadas, priorizadas e façam parte de nossa rotina?


Por onde começar novas práticas?


Refletir sobre “como” e com “o quê” gastamos nosso tempo é uma tarefa complexa. Para além do que é prioridade e necessidade para cada pessoa em determinado momento da vida, temos também movimentos “automáticos” de uma cultura da produtividade a todo custo que nos impede de descansar e nos cuidar, sem experimentar o sentimento de culpa e de inutilidade.


Para guiar uma autoavaliação de como isso chega para você e em sua organização, responda às seguintes perguntas:


  • Quanto tempo faz que não tira férias? 
  • Você tem conseguido realizar algum hobby ou desfrutar de momentos de lazer?
  • É possível encontrar uma pessoa que te cubra por uma semana, quando percebe que necessita de uma pausa? 
  • Que mudanças precisaria fazer para garantir um tempo para você?


E em esfera organizacional:


  • Em momentos de finalização de projetos, que tipos de rituais de checagem da energia da equipe você tem feito? 
  • Há espaços de descompressão ou de fortalecimento de vínculo entre as pessoas da equipe?


Amplie essa discussão: Agende conversas para ouvir a percepção da sua equipe. Reserve um tempo livre na agenda para recuperar sua energia, caso não seja possível um dia inteiro, reserve meio período livre para você. Evite preenchê-lo com afazeres domésticos e descanse sem culpa. 


Se você deseja saber mais sobre aspectos que perpassam o autocuidado e cuidado coletivo no Terceiro Setor, leia também o artigo: https://www.portaldoimpacto.com/autocuidado-a-historia-do-termo-no-campo-social-e-da-saude




Referências

AQUINO, C. A. B.;  MARTINS, J. C. O. Ócio, lazer e tempo livre na sociedade do consumo e do trabalho. Rev. Mal-Estar Subj. [online]. 2007, vol.7, n.2 [citado  2024-05-20], pp. 479-500 . Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1518-61482007000200013&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 1518-6148.


BERNARDI, L., PORTA, C., SLEIGHT,  P. Cardiovascular, cerebrovascular, and respiratory changes induced by different types of music in musicians and non‐musicians: the importance of silence. Heart. 2006 Apr;92(4):445-52. doi: 10.1136/hrt.2005.064600. Epub 2005 Sep 30. PMID: 16199412; PMCID: PMC1860846. Disponível em:
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1860846/


DE MASI, D. (2000). O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante. 

DUMAZEDIER, J. (1973). Lazer e cultura popular (M. L. S. Machado, Trad.). São Paulo: Perspectiva. 

DUMAZEDIER, J. (1979). Sociologia empírica do lazer. São Paulo: Perspectiva.

FRANCISCO, E.M.A. (2014) “A relação da autoeficácia, ajustamento emocional e qualidade de vida em adultos”, [Dissertação] Mestrado em Psicologia Clínica e da Saúde, Universidade Lusófona de Humanidade e Tecnologia. Lisboa.


MOSS, J. (2029) When passion leads to Burnout”. da Harvard Business Review. Disponível em:
https://hbr.org/2019/07/when-passion-leads-to-burnout


NETO, E. S. Hobby, mais que ócio criativo (2020). [Artigo] OCP News. Disponível em:
https://ocp.news/colunista/emilio-silva/hobby-mais-que-ocio-criativo.


SILVA, T. A.C.; FERRAZ, K.G. (2017) Manual de lazer e recreação - o mundo lúdico ao alcance de todos. São Paulo: Phorte.


Sara Dias é pesquisadora e facilitadora do movimento e do bem-estar. 

Profª Mestra em Artes da Cena pela UNICAMP,  pós-graduanda em Gestão de Pessoas e Psicologia Organizacional e instrutora de Yoga. Possui experiência como educadora social desde 2006 e desenvolve projetos relacionados à Saúde Mental e Bem-Estar no Terceiro Setor. 


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A experiência mostra que articular financiamento privado, cooperação técnica com o poder público e o engajamento de organizações de base é um caminho consistente para gerar impacto real e sustentável. Nesse novo cenário, o uso de dados e evidências deixou de ser opcional. A atuação precisa ser responsiva às necessidades reais dos territórios, e isso só é possível por meio da observação sistemática, da geração cidadã de dados e da tomada de decisões baseadas em evidências. O investimento social privado no Brasil amadureceu — e espera projetos bem estruturados, com governança sólida e clareza de resultados. É impossível falar de inovação sem falar de ética. Tecnologias como a Inteligência Artificial precisam ser desenvolvidas e utilizadas com base em princípios claros: respeito à privacidade e à LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), justiça social, mitigação de vieses discriminatórios, controle social sobre dados e sistemas, segurança da informação e responsabilidade ambiental. O impacto climático da tecnologia, muitas vezes invisível, também precisa entrar na equação. Regulamentação e compromisso das empresas e investidores são indispensáveis. O financiamento das organizações também passa por mudanças relevantes. Doações online, campanhas como o Dia de Doar, cessão de tecnologias e licenças por empresas e, sobretudo, o fortalecimento dos mecanismos de incentivo fiscal têm ampliado as possibilidades de sustentabilidade. Quando uma empresa direciona parte de seus impostos para projetos sociais no território onde atua, o recurso retorna diretamente para a comunidade, em forma de educação, inovação e oportunidades. Isso fortalece a democracia e aproxima o investimento social da vida real das pessoas. As parcerias intersetoriais, aliás, tendem a se tornar ainda mais estratégicas. Políticas de ESG impulsionaram empresas a assumirem compromissos mais concretos com impacto social e ambiental. Quando essa agenda sai do discurso e se traduz em atuação no território, com cooperação técnica e investimento de longo prazo, os resultados são muito mais consistentes. Diante de um cenário marcado por polarização política e desinformação, o papel das organizações da sociedade civil também se amplia. Educação midiática, consumo crítico da informação e inclusão digital são hoje pilares da defesa da democracia. Eu acredito que capacitar pessoas em habilidades digitais é também fortalecer sua capacidade de participação cidadã. O terceiro setor está, sim, mais profissionalizado — e isso é necessário. 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