Como formar, desenvolver e apoiar a equipe dos projetos sociais de educação?

2 de dezembro de 2021

Este conteúdo foi produzido por Partilha

Depois de falar sobre diagnóstico, elaboração e planejamento pedagógico de projetos de educação, chegou a tão esperada hora de conversarmos um pouco sobre um dos pilares da execução: a equipe. Nesta série, estamos refletindo sobre como promover Desenvolvimento Social por meio de projetos educacionais e entendendo o quanto uma gestão eficiente, eficaz e integrada faz a diferença para os processos e os resultados. Vem prosear com a gente sobre como formar, desenvolver e apoiar seu time!


O primeiro ponto que quero destacar é que fazer a gestão da equipe talvez seja uma das principais atividades de um gestor de projetos educacionais. Sei que essa é uma missão para todo gestor, mas no caso de projetos de educação precisamos nos atentar para algumas especificidades. Vou compartilhar aqui algumas dicas e cuidados que aprendi ao longo da minha caminhada como gestora de projetos, educadora e formadora de educadores sociais.


A minha primeira dica é: entenda que sua equipe é formada por indivíduos. Antes de seu time representar o CNPJ da instituição, ele é constituído por CPFs. Todas as vezes que preciso conduzir ações de formação com educadores sociais, faço questão de distinguir isso, e é impressionante como as pessoas têm dificuldade de se apresentar como indivíduos quando estão sendo formadas para suas atividades profissionais. Mas por que isso é importante? No segundo texto desta série, em que discutimos sobre o planejamento pedagógico, destaquei que as escolhas educacionais não são aleatórias; elas partem de concepções de mundo. Desse modo, é preciso entender, compreender, construir e compartilhar a partir das concepções dos indivíduos que estão designados para fazer o trabalho! Não é uma tarefa fácil, mas ela é fundamental para que seu projeto tenha coerência e resultados. 


O que é preciso saber dessas pessoas?
Segunda dica: conheça o que elas pensam sobre educação e terceiro setor, o que desejam para a comunidade, por qual motivo estão trabalhando com projetos sociais de educação, qual é a visão e disposição delas para a formação continuada… Isso pode potencializar seu time e evitar problemas futuros na execução do trabalho e na relação com os beneficiários.



Outro desafio das organizações sociais que desenvolvem projetos de educação é como alocar as pessoas para cada um dos projetos. Em muitos casos, a equipe é fixa e, portanto, vai sendo “escalada” para os projetos. A
terceira dica de hoje é verificar quais são os possíveis matchs entre projetos em execução e o time. Observe quais competências você precisa em cada projeto e quais profissionais atendem melhor àquela demanda. Além disso, é importante observar quais são as experiências anteriores e o “perfil” de cada educador. É um quebra-cabeças que vale muito a pena montar ー inclusive, você pode contar com o olhar da equipe técnica e dos próprios beneficiários para isso.


Apesar de as pessoas terem concepções, crenças, formações, saberes e práticas muito individuais, é necessário compreender o contexto, o público alvo, a essência e os objetivos da instituição para ampliar os resultados de um projeto. Desse modo, vamos à
quarta dica: é preciso que haja alinhamento. Todo o time precisa estar na mesma página quanto às definições que foram tomadas lá na elaboração do projeto e caminhar juntos na mesma direção. Se cada pessoa da equipe conduz os beneficiários por caminhos e formas muito particulares, muito dificilmente haverá resultados de impacto. Como fazer isso? Conversas, reuniões de alinhamento, café com prosa, feedbacks individuais e/ou em pequenos grupos. 


Mas de qual equipe estou falando? Aqui vai uma das dicas mais importantes de hoje!
Quinta dica: em uma instituição que trabalha com educação, todos são educadores! Não estou dizendo que todas as pessoas respondem tecnicamente sobre os trabalhos educacionais. O que estou dizendo é que se o educador conduz a formação na sala de aula de um jeito, e o porteiro transmite uma mensagem muito diferente na entrada e na saída da instituição, as crianças e os adolescentes vão ficar confusos e seu processo de desenvolvimento será muito prejudicado. Por isso, aquele alinhamento da dica anterior é para todo mundo, afinal, como diria um famoso provérbio africano, “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”.


Sendo assim, a nossa
sexta dica é: trabalhe em rede. O processo educativo começa desde antes de o beneficiário chegar ao educador. Portanto, para ter efetividade e sustentabilidade das ações educacionais propostas, é necessária a integração de toda a instituição.


Falando em projetos de educação e trabalho em rede, inevitavelmente precisamos comentar sobre os voluntários. Muitas organizações contam com processos de voluntariado muito bem estruturados e que fazem muita diferença para os projetos. Se esse é o seu caso, aí vai a
sétima dica: integre também seu voluntário. Não é porque o trabalho dele é pontual que não faz toda diferença para a formação do seu público.


E aí pode vir mais uma pergunta: como escolher qual ação o voluntário vai fazer ou qual voluntário vai apoiar cada projeto? Lembra do
match? Oitava dica: o voluntário também faz parte da equipe, então faça as perguntas da terceira dica para ele também. Aliás, todas as dicas valem para a gestão dessa pessoa que tanto pode contribuir, não é mesmo?


Equipe bem formada, alinhada, integrada… agora sim podemos começar!
Nona dica: tenha um programa estruturado de formação de seus educadores, que pode ser conduzido pela equipe interna ou externa. O contexto educacional e social muda a todo instante, então é fundamental fornecer educação continuada para a equipe.


E, por fim, a última dica e talvez a mais importante: acompanhe, apoie, inspire, encoraje, acolha, ouça, aprenda, ensine, enfim: esteja perto de seus educadores. Conduzir pessoas em seus processos de desenvolvimento, atravessados por tantos desafios institucionais e pontuais, é realmente desafiador. Um time forte é aquele que tem espaço e oportunidades para refletir em conjunto, compartilhar desafios e aprendizados e criar soluções coletivas. Não deixe de fazer parte disso!


Investir um texto todinho para falar da equipe é um indicador do quanto esse aspecto é importante para o sucesso do seu projeto. De nada adianta uma excelente elaboração, recursos disponíveis, materiais inovadores e uma comunicação externa afiada se quem está lá na ponta não se sente fortalecido, engajado, capacitado, inspirado, reconhecido, desafiado e apoiado para fazer a diferença.


A transformação social que tanto desejamos é resultado da forma como a plantamos. Preparar a terra, adubar o solo, escolher as sementes, plantar e cuidar com competência e acolhimento é o que fará brotar os frutos que tanto esperamos.


Obrigada pela companhia nessas reflexões tão importantes. Espero ter contribuído com você, com sua equipe, com seus projetos e com sua instituição. Afinal, os bastidores são fundamentais para que o espetáculo aconteça!



Este conteúdo foi produzido por Partilha

Ana Carolina Ferreira, apaixonada por educação e terceiro setor, graduada em Letras, especialista em Gestão de Projetos e graduanda em Psicologia. Fundadora da Partilha, dedica-se ao desenvolvimento de pessoas, empresas e instituições sociais, assessorando programas educacionais.


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Ferramentas de computação em nuvem, automação de processos e sistemas de gestão já impactam profundamente a comunicação e a administração das organizações. E, sem dúvida, a Inteligência Artificial é o próximo grande divisor de águas. A IA já é uma realidade acessível ao terceiro setor, mas ainda pouco dominada de forma qualificada, segura e estratégica. Existe um enorme potencial para geração de conhecimento, análise de dados, automação, pesquisa e avaliação de projetos. É possível, por exemplo, utilizar ferramentas de IA para analisar evidências científicas, apoiar processos de avaliação, medir resultados e até realizar auditorias internas de gestão. Ainda assim, o setor carece de investimento em formação, treinamento e desenvolvimento de soluções de IA criadas pelo terceiro setor e para o terceiro setor. Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer um desafio estrutural: muitas organizações de base, especialmente em territórios periféricos, ainda têm dificuldade de incorporar tecnologia às suas soluções. Não por falta de visão, mas por falta de acesso à educação, à formação técnica e a investimentos sociais. É comum vermos tecnologias avançadas sendo desenvolvidas por startups e organizações de impacto, enquanto quem atua diretamente no território não dispõe dos recursos necessários para utilizá-las. Sem articulação, essa equação não fecha. Por isso, outra tendência que se consolida é a valorização de redes, consórcios e articulações territoriais. Organizações que atuam de forma isolada tendem a ter mais dificuldade de acessar investimentos. Financiadores buscam cada vez mais iniciativas coletivas, capazes de envolver múltiplos atores, setores e saberes. A experiência mostra que articular financiamento privado, cooperação técnica com o poder público e o engajamento de organizações de base é um caminho consistente para gerar impacto real e sustentável. Nesse novo cenário, o uso de dados e evidências deixou de ser opcional. A atuação precisa ser responsiva às necessidades reais dos territórios, e isso só é possível por meio da observação sistemática, da geração cidadã de dados e da tomada de decisões baseadas em evidências. O investimento social privado no Brasil amadureceu — e espera projetos bem estruturados, com governança sólida e clareza de resultados. É impossível falar de inovação sem falar de ética. Tecnologias como a Inteligência Artificial precisam ser desenvolvidas e utilizadas com base em princípios claros: respeito à privacidade e à LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), justiça social, mitigação de vieses discriminatórios, controle social sobre dados e sistemas, segurança da informação e responsabilidade ambiental. O impacto climático da tecnologia, muitas vezes invisível, também precisa entrar na equação. Regulamentação e compromisso das empresas e investidores são indispensáveis. O financiamento das organizações também passa por mudanças relevantes. Doações online, campanhas como o Dia de Doar, cessão de tecnologias e licenças por empresas e, sobretudo, o fortalecimento dos mecanismos de incentivo fiscal têm ampliado as possibilidades de sustentabilidade. Quando uma empresa direciona parte de seus impostos para projetos sociais no território onde atua, o recurso retorna diretamente para a comunidade, em forma de educação, inovação e oportunidades. Isso fortalece a democracia e aproxima o investimento social da vida real das pessoas. As parcerias intersetoriais, aliás, tendem a se tornar ainda mais estratégicas. Políticas de ESG impulsionaram empresas a assumirem compromissos mais concretos com impacto social e ambiental. Quando essa agenda sai do discurso e se traduz em atuação no território, com cooperação técnica e investimento de longo prazo, os resultados são muito mais consistentes. Diante de um cenário marcado por polarização política e desinformação, o papel das organizações da sociedade civil também se amplia. Educação midiática, consumo crítico da informação e inclusão digital são hoje pilares da defesa da democracia. Eu acredito que capacitar pessoas em habilidades digitais é também fortalecer sua capacidade de participação cidadã. O terceiro setor está, sim, mais profissionalizado — e isso é necessário. 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Por Nathalia Albuquerque 2 de março de 2026
Você pode amar muito um time e ainda assim vê-lo perder campeonatos por anos. Pode ter a maior torcida do país, uma história gigante e uma camisa pesada. Mas sem gestão, isso não se sustenta. No terceiro setor acontece algo muito parecido. Sou corinthiana e não acompanho o futebol tão de perto. Mesmo assim, é impossível ignorar o que Palmeiras e Flamengo vêm construindo nos últimos anos. Escrevo este artigo no final de 2025 e, ao olhar para os principais campeonatos do período recente, Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil, esses dois clubes seguem protagonizando finais, títulos e campanhas consistentes. Não por acaso, também passaram a aparecer em premiações internacionais que reconhecem excelência em gestão, como o Globe Soccer Awards. Mas nem sempre foi assim. E é exatamente aí que essa história interessa às organizações da sociedade civil. Quando a virada não acontece no campo Palmeiras e Flamengo já viveram fases marcadas por dívidas, crises internas e resultados bem abaixo do potencial que tinham. A mudança não começou com um craque, nem com um gol histórico. Começou fora de campo. Por volta de 2012 e 2013, os dois clubes passaram a tratar a gestão como eixo central. Planejamento financeiro, profissionalização das equipes, governança e visão de longo prazo deixaram de ser discurso e passaram a orientar decisões concretas. Se você não gosta de futebol, continue comigo. O ponto aqui não é o esporte. É entender que amor, tradição e propósito são fundamentais, mas não substituem uma boa gestão. Com gestão, a gente vai mais longe. O que o Palmeiras ensina No Palmeiras, a virada tem um nome bastante conhecido: Paulo Nobre. Ao assumir a presidência do clube em 2013, encontrou um cenário delicado, com dívidas e pouca previsibilidade. Uma das decisões mais simbólicas foi emprestar recursos próprios para reorganizar as finanças do time. Um gesto arriscado, mas inserido em uma estratégia maior. A partir daí, vieram parcerias estratégicas como a Crefisa, a profissionalização da gestão e a criação de novas fontes de receita. A modernização do Allianz Parque transformou o estádio em um ativo que gera renda muito além dos jogos, com shows e eventos. É a lógica de enxergar a estrutura como meio para sustentar a missão, algo bastante familiar para quem atua no terceiro setor. O Flamengo e a coragem de arrumar a casa O Flamengo sempre teve popularidade e potencial. O que faltava era organização. A virada começou com decisões duras e pouco populares, como uma política rigorosa de controle de gastos e reorganização financeira. Antes de investir pesado em contratações, o clube investiu em processos, equipe técnica qualificada e responsabilidade fiscal. Os títulos vieram depois. Não como milagre, mas como consequência. O que tudo isso tem a ver com as OSCs? Muito mais do que parece. Os dois clubes mostram que investir na base (jovens atletas em formação para o time principal) é apostar no longo prazo, mesmo quando o retorno não é imediato. No terceiro setor, isso aparece na formação de equipes, no fortalecimento institucional e no desenvolvimento de lideranças. Eles também reforçam uma verdade incômoda: amor não é estratégia. Paixão move, mas não organiza fluxo de caixa, não constrói indicadores e não garante sustentabilidade. Há ainda a importância de diversificar fontes de receita, inclusive para organizações grandes e reconhecidas, e de contar com profissionais qualificados, além de investir em quem já faz parte da equipe. Nada disso acontece do dia para a noite. O processo é longo, exige constância e escolhas difíceis. Um convite para quem lidera organizações sociais  Se você lidera uma OSC, vale a reflexão. O quanto da sua energia está concentrada apenas na causa e o quanto está direcionada para fortalecer a gestão que sustenta essa causa? Gestão não esfria o propósito. Pelo contrário. Ela protege a missão, amplia o impacto e garante que o trabalho continue existindo daqui a cinco, dez ou vinte anos. No futebol e no terceiro setor, amor é o ponto de partida. Gestão é o que transforma esse amor em legado.
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