Como a ciência e a pesquisa podem beneficiar e potencializar os esforços das OSCs?

4 de julho de 2024

Saiba como conseguir o apoio de pesquisadores e universidades para fundamentar, aprofundar seu conhecimento da causa em que atua e construir soluções colaborativamente

Uma mulher está ajudando um homem com seu dever de casa em uma biblioteca.

Como empreendedora social e diretora executiva de uma organização de impacto social, sei bem que os recursos financeiros e o tempo são bem escassos no nosso dia a dia. Sei que nossa missão diária é realizar as atividades que geram o impacto positivo que esperamos, mas que muitas vezes somos engolidos pela gestão diária da organização e a inesgotável busca pela captação de recursos e das condições financeiras para sustentar a causa. O cotidiano é corrido, desafiador, muitas vezes frustrante, além de ser uma jornada solitária, ainda que tenhamos um time, voluntários ou conselheiros por perto.


Neste contexto, não é raro nos deixarmos levar no piloto automático, o que pode até tirar um pouco a nossa motivação da missão. E isso é algo que temos que cuidar. Nós escolhemos ser empreendedores sociais justamente por conta da missão do impacto. O que pode ajudar a reacender essa luz é a colaboração com especialistas de outras áreas que podem nos trazer outras formas de solucionar o problema socioambiental ou encontrar evidências sobre a nossa atuação. Então, quem são esses “especialistas de causas” que podem nos ajudar? Quais são os profissionais que você pensa neste momento?


Por um acaso você pensou em cientistas, pesquisadores ou universidades?


No primeiro texto
da série sobre Ciência e Impacto Social, comentei sobre as similaridades e complementaridades entre os pesquisadores cientistas e os profissionais do Terceiro Setor. Essa é uma colaboração que acontece até com bastante frequência em nível mundial, mas é pouco divulgada. Portanto, minha intenção neste texto é trazer alguns exemplos de benefícios e oportunidades desse tipo de colaboração e instigar possíveis parcerias futuras entre esses dois setores, como forma de potencializar as ações da nossa organização de impacto social.


Inovação e Desenvolvimento de Soluções


Quando cientistas começam a escrever um projeto de pesquisa, sempre iniciam explicando o contexto e o problema que querem resolver. Após debruçarem-se horas, meses ou anos em estudos, elaboram o que já existe de solução e o que é diferente da abordagem que estão propondo a testar ou investigar. Esse processo é parecido ao de muitos empreendedores, mas nem sempre nós buscamos a literatura científica para embasar a nossa hipótese de impacto. E está tudo bem. Entretanto, será que buscar o que já foi descoberto pelos pesquisadores e especialistas que dedicam suas horas nessas investigações não pode nos dar uma luz de como inovar em nossas propostas de soluções?


Eu sei que o caminho é cheio de barreiras. Apesar de conseguirmos usar o
Google Acadêmico, como fazer a busca pelo tema que queremos saber? Infelizmente, já te adianto que não é a mesma estratégia que “jogar no Google” de qualquer jeito. Primeiro, na maioria das vezes você terá muito mais resultados se buscar em inglês. Segundo, a maioria das publicações estão em sites pagos ou que somente as universidades têm acesso. Terceiro, é preciso saber fazer a curadoria das publicações e revistas, pois também há pesquisas de baixa qualidade, com algum viés ou interesse. Tem também a questão da linguagem. Além do idioma inglês ser predominante, mesmo para trabalhos feitos no Brasil, ler um artigo científico é bem desafiador, pois é cheio de termos técnicos e um formato diferente de leitura a qual estamos acostumados. 


Mas isso não precisa ser um obstáculo para se envolver com a ciência. As parcerias intencionais são um caminho interessante para quem quer se aprofundar no tema. Fazer uma colaboração com um cientista da área de seu interesse, já facilita todo o processo, pois essa pessoa saberá fazer tudo isso e pode te trazer todas as referências já avaliadas e selecionadas. Assim, vocês conseguem ter base para discutir juntos as inovações e novas soluções para o problema que quer resolver, com base na ciência.


Um exemplo dessa colaboração você pode ouvir no
episódio 8 do Impacto Científico, em que as pesquisadoras Fernanda Deister e Luana Oliveira contam como fizeram a parceria entre universidade e pesquisadores com ONGs para desenvolver uma solução de tratamento de água na comunidade de Monte Verde, em Minas Gerais.


Fundamentação das atividades e da captação de recursos


Outra forma de beneficiar as atividades das OSCs é fazer uma pesquisa com rigor e método científico para trazer dados do impacto que gera ou do problema que quer resolver. Quando falamos em dados e pesquisas, claro que você pode começar a fazer de uma forma exploratória e ir aprendendo ao longo do processo. Aliás, é uma delícia planejar pesquisas e entrevistas na comunidade, fazer o processo e ver o resultado depois. Porém, temos que tomar cuidado ao fazer essas pesquisas e análises, para evitar vieses, amostras não representativas, sem padrão ou resultados que não tratam a realidade ou que, ainda que de forma não intencional, manipulam as nossas decisões.


A opção mais cautelosa é trabalhar com profissionais que já saibam formular perguntas com neutralidade, em formatos já pensados que podem ser analisados posteriormente com estatística, representatividade de amostras e com todos os cuidados que devem ser considerados ao analisar os resultados. Esse método rigoroso traz fundamentos e embasamento em dados, que pode beneficiar tanto as tomadas de decisão das atividades da organização, quanto apoiar nos argumentos da comunicação e no processo de captação de recursos.


Um exemplo para você se inspirar é a história da Iniciativa PIPA no
episódio 7 do Impacto Científico, em que o pesquisador e empreendedor social Gelson Henrique fala como foi importante fazer uma pesquisa para trazer evidências sobre o contexto da filantropia nas periferias brasileiras. Todas as pesquisas que eles fizeram trouxeram luz à discussão e chamaram a atenção dos investidores e filantropos, o que tem ajudado em muito no crescimento da organização, além de, claro, mais atenção ao problema que eles querem resolver.


Resolução de problemas complexos


Há também aqueles casos em que surge um problema complexo no nosso território e nem sabemos por onde começar a resolver. Por que não acionar cientistas para nos ajudar a pensar em estratégias ou até mesmo conduzir uma pesquisa colaborativa sobre o tema?


Esse é o assunto que você vai encontrar no
episódio 14 do Impacto Científico, em que a Camila Camolesi, pesquisadora do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) conta como a comunidade ou organizações da sociedade civil podem acioná-los para ajudar a resolver problemas locais, como plano de mitigação de desastres naturais, contaminação de resíduos, conservação ambiental, entre outros. Normalmente, instituições de pesquisa e desenvolvimento, ou até mesmo universidades, conseguem ter um diálogo mais próximo com os agentes públicos locais e ser um meio onde o município pode investir financeiramente para a resolução do problema. Mas, como já deve ter imaginado, uma pesquisa baseada em evidências, com rigor científico, ajuda nessa captação de recursos e de atenção do setor público.


O interessante deste exemplo é o fato da própria OSC ou comunidade colaborar e participar desde a concepção da pesquisa a ser feita. Conceitos como
Pesquisa Colaborativa e Ciência Cidadã podem ser buscados por você, caso tenha interesse em conhecer mais como esse tipo de colaboração é possível.


Mas onde encontrar cientistas ou pesquisadores dispostos a colaborar?


Eu já ouvi alguns gestores de OSCs, não só do Brasil, que possuem certas dificuldades em contactar cientistas. As principais dúvidas ou frustrações são não saber como procurar, não só sobre o nome da especialidade, ou o termo exato e o tipo de ajuda que precisam, mas também não saber onde buscar e como abordar esses profissionais. Outros casos, quando o contato é feito, ou não recebem resposta ou o processo todo é muito demorado, pois os pesquisadores possuem outras demandas na universidade e o projeto com a OSC fica em segundo plano.


Por outro lado, também há muitos casos de sucesso. Há diversas comunidades científicas que se colocam à disposição de comunidades e organizações sociais sem fins lucrativos. Muitas universidades possuem um centro de impacto social, serviços de extensão ou as empresas juniores que prestam esse tipo de serviço, em sua maioria de forma pro bono ou gratuita. No Brasil este movimento ainda está se estabelecendo, mas sugiro fazer buscas com estes termos perto da sua cidade.


Apesar disso, ainda há muita coisa para ser feita para facilitar essa colaboração. Por isso, deixo aqui o
Impacto Científico à disposição das OSCs da rede da Phomenta. Além do podcast, nós trabalhamos para fomentar essas parcerias, em que treinamos cientistas para colaborar com a comunidade e organizações da sociedade civil. Mas também somos a interface para as OSCs que queiram conhecer mais sobre essas colaborações, sobre como desenvolver algum projeto ou ter acesso a algum estudo específico.


Se este for o seu caso, envie um email para
icientificosocial@gmail.com ou entre em contato comigo no Linkedin ou no Instagram do Impacto Científico que eu terei o maior prazer em te orientar nessa demanda.


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Escrever um projeto para um edital é complexo. Os formulários exigem justificativas profundas, orçamentos detalhados e até análise de riscos. Para equipes que já passam o dia se desdobrando no atendimento direto às comunidades, a IA entra como copiloto. Ela assume o trabalho mecânico de escrever e revisar textos, devolvendo para o captador o que ele tem de mais escasso: tempo para pensar na estratégia. Mas… como não deixar o texto com cara de robô? As ferramentas gratuitas que vemos por aí costumam "alucinar", que é o termo técnico para quando a IA inventa dados falsos ou cria argumentos superficiais simplesmente porque ela não conhece a realidade da sua ONG. Para blindar os projetos contra esse erro, o Captação com Causa ajuda as organizações a criarem um ambiente protegido e seguro, alimentando a inteligência artificial com a identidade real da instituição. Esse treino consiste em criar um perfil superdetalhado dentro do sistema, incluindo: O histórico da organização e as causas que ela defende; A região onde ela atua e o perfil das pessoas que ela atende; Dados locais e o impacto real que ela já gera no território. Quanto mais rico e detalhado for esse perfil, mais a IA se transforma em uma assistente exclusiva da causa. A partir daí, a máquina passa a escrever falando a mesma língua do financiador. Ela aprende a usar os termos técnicos que os avaliadores de editais procuram, cruza as palavras-chave exigidas e ajuda a encaixar a história da sua comunidade dentro das metas do orçamento. Falando a linguagem de quem investe Hoje em dia, as empresas e institutos que financiam projetos sociais mudaram a forma de avaliar as propostas. Eles não olham mais apenas para o número bruto de pessoas atendidas; eles querem ver o valor real do impacto gerado. Por isso, o projeto treina a IA para usar uma métrica chamada SROI (Retorno Social sobre o Investimento) . Para se ter uma ideia de como isso funciona: pesquisas do setor mostram que, para cada R$ 1 investido em projetos sociais por meio de incentivos fiscais no Brasil, cerca de R$ 7,59 retornam em benefícios reais para a sociedade e para a economia. Quando a IA é ensinada a cruzar os dados públicos da sua cidade (como pesquisas do IBGE) com o histórico de entregas da sua ONG, ela ajuda a provar matematicamente o valor do seu trabalho. O seu projeto deixa de parecer um "custo" para o investidor e passa a ser visto como um investimento seguro e transformador. O que muda na prática para as organizações? 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