Transformações fundamentais à filantropia

2 de junho de 2022

Este conteúdo foi produzido por Pamela Ribeiro

Inspirada pelo artigo do #VozesdoMCD escrito pela Ana Biglione, que fala sobre a necessidade da filantropia se transformar para seguir transformando, trago aqui uma reflexão muito pessoal sobre quais transformações considero fundamentais à filantropia.


De início, acho importante ressaltar que não tenho a pretensão de esgotar aqui tudo o que a filantropia poderia ser, mas destacar o que considero fundamental para uma filantropia realmente transformadora. É importante colocar também que essas mudanças provavelmente são muito mais complexas do que a forma que serão retratadas aqui. Por fim, a visão que trarei aqui é a de um campo filantrópico mais transformador, que será alcançado somente se as mudanças acontecerem em nível organizacional e individual também.

 

  1. Uma filantropia mais doadora. Sabemos que no Brasil a filantropia, ou o investimento social privado, como é mais conhecido, sempre foi mais executor de seus próprios projetos do que financiador de terceiros. Em 2020, em razão da crise gerada pela pandemia, vimos pela primeira vez um investimento social mais doador do que executor, segundo o Censo GIFE 2020. Mas não sabemos o quanto desse volume de doações para o enfrentamento da covid de fato permanecerá nas estratégias mais perenes de doação dos investidores sociais. O que sabemos é da importância de uma filantropia que tenha a doação como sua principal estratégia de atuação.
  2. Uma filantropia que fortaleça a sociedade civil. Aumentar o volume de doações é importante, mas ele deve vir acompanhado do fortalecimento da sociedade civil. A última edição do Censo GIFE, com dados referentes ao ano de 2020, mostrou que uma parcela significativa de investidores sociais (64%) repassou recursos para organizações da sociedade civil, chegando ao montante de R$2,16 bilhões. Porém, a maior parte dos investidores sociais ainda opta por apoiar iniciativas de OSC de forma pontual/ eventual (63%) ou a partir de linhas programáticas pré-estabelecidas (62%), enquanto menos da metade (47%) fez apoio financeiro desvinculado de iniciativas. Este apoio institucional, ou recursos livres, é fundamental para fortalecer a sociedade civil, que pode decidir com autonomia como aplicá-lo. Porém, não é a única forma de promover o fortalecimento institucional, que pode acontecer também por meio do investimento (financeiro ou não) no desenvolvimento institucional das OSC, da forma como o financiador se relaciona com as OSC, entre outras escolhas que devem pautar as políticas e práticas de investimento social.
  3. Uma filantropia baseada em confiança. Aprendi no artigo “Aprofundando a Conversa sobre a Importância de Confiar – Parte I” que confiar é um exercício diário de acreditar nas intenções e no fazer do outro. Confiar nas organizações apoiadas é fundamental para dar a elas autonomia nas escolhas e nas ações, para desburocratizar a relação e para mudar de fato o eixo de poder nesta relação. Não consigo imaginar uma filantropia realmente transformadora que não confie nas organizações apoiadas. Mas sabemos que o exercício de confiar não é fácil, nem simples. Para orientar e apoiar investidores sociais no caminho da filantropia baseada em confiança, recomendo a leitura dos guias do Trust-Based Philanthropy Project (em inglês) e do recém traduzido artigo “Confiança na filantropia: uma ferramenta de acompanhamento e autoavaliação”.
  4. Uma filantropia mais colaborativa. Colaborar nem sempre é a melhor resposta, na medida em que exige disposição e preparação dos envolvidos. Mas, dado que a filantropia busca transformar realidades complexas e lidar com problemas sistêmicos, a colaboração, no sentido de sonhar e realizar junto, se torna fundamental. A pandemia do coronavírus abriu novos caminhos para a ação coordenada e colaborativa entre investidores sociais. Dados do Censo GIFE mostram que 61% dos investidores sociais respondentes do Censo GIFE 2020 disseram que, em decorrência da Covid-19, aumentaram a colaboração em relação à participação em redes e 58% em relação às arquiteturas de mobilização, coordenação, alocação e/ou gestão de recursos com outros investidores sociais, respectivamente. E mais, grande parcela destes investidores sociais declararam que essa prática mais colaborativa veio para ficar. Para conhecer mais sobre desafios, benefícios e práticas colaborativas, recomendo a publicação Filantropia Colaborativa do GIFE e o episódio “Precisamos falar sobre colaboração” do podcast Aqui se Faz, Aqui se Doa.



Texto originalmente publicado #VozesdoMCD, em:                  https://www.linkedin.com/pulse/transforma%25C3%25A7%25C3%25B5es-fundamentais-%25C3%25A0-filantropia-/

Pamela Ribeiro é coordenadora de projetos especiais no GIFE e integrante do comitê coordenador do Movimento por Uma Cultura de Doação.


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Tecnologias como a Inteligência Artificial precisam ser desenvolvidas e utilizadas com base em princípios claros: respeito à privacidade e à LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), justiça social, mitigação de vieses discriminatórios, controle social sobre dados e sistemas, segurança da informação e responsabilidade ambiental. O impacto climático da tecnologia, muitas vezes invisível, também precisa entrar na equação. Regulamentação e compromisso das empresas e investidores são indispensáveis. O financiamento das organizações também passa por mudanças relevantes. Doações online, campanhas como o Dia de Doar, cessão de tecnologias e licenças por empresas e, sobretudo, o fortalecimento dos mecanismos de incentivo fiscal têm ampliado as possibilidades de sustentabilidade. Quando uma empresa direciona parte de seus impostos para projetos sociais no território onde atua, o recurso retorna diretamente para a comunidade, em forma de educação, inovação e oportunidades. 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