Por que as mulheres são maioria no Terceiro Setor?

13 de maio de 2021

Este conteúdo foi produzido por Janela 8

Já sabemos que as mulheres são maioria e representam 65% das pessoas empregadas nas OSCs. Mas isso acontece de maneira aleatória ou casual? Ou é uma aptidão natural das mulheres às áreas do terceiro setor?


As mulheres são maioria no terceiro setor, na educação, na enfermagem e em atividades relacionadas aos cuidados em geral. De acordo com o levantamento do perfil das OSCs do Brasil, as mulheres representam 93% das/os assistentes sociais, 85% das/os profissionais dedicadas/os ao cuidado de idosos, 94% no que se refere à educação infantil e 95% na área de desenvolvimento infantil.


Por que a divisão de trabalho acontece dessa maneira? Mulheres se preocupam mais com as outras pessoas e com a sociedade?

A história vem de longe. Pode até parecer que é vocação, mas desde que nascemos somos ensinadas a cuidar. Meninas antes mesmo de se entenderem como meninas, ganham bonecas e brinquedos que reproduzem a dimensão da casa. E os meninos ganham brinquedos que reproduzem a dimensão das ruas, do mundo externo. Essa construção social tem também origens morais e psicológicas que fazem parte da nossa história e sociedade. 

Compreender essas estruturas é importante para que possamos de fato contribuir para a melhoria social e ambiental sem reforçar estereótipos que possam contribuir para manutenção de desigualdades, mesmo que não seja nossa intenção.


Do ponto de vista histórico da filantropia


Ainda que o termo filantropia tenha sido revisado e que vá para além da caridade e ações beneficentes, do ponto de vista histórico, ela surge com o objetivo de humanizar as elites e colocá-las em um lugar de cultivo de virtudes morais de pessoas respeitáveis, que sejam capazes de se colocar no lugar dos outros e de proteger instituições relevantes para a sociedade como museus e universidades, dentre outros. Esse tipo de filantropia sempre existiu e a participação de homens era preponderante. Foi somente a partir do século XIX que a representatividade feminina nesse processo começou a ter destaque.


Historiadores e historiadoras que estudam a temática relatam ter havido um processo moral e sentimental que mobilizou mulheres ricas e da classe média na Europa para a filantropia a partir do século XIX. Esse período também foi marcado pelo período de instituição da família patriarcal, da separação entre público e privado, e da divisão sexual do trabalho. Às mulheres cabia o ambiente doméstico e de cuidados com os filhos, filhas e pessoas idosas.

Ampliando a participação e visibilidade em espaços públicos


Esse processo moral que mobilizou as mulheres, trouxe a perspectiva de bondade e caridade e contribuiu para que elas acessassem novas possibilidades de autoconsciência, reflexão e ação para além de suas casas. A bondade, capacidade de fazer o bem aos outros, era uma virtude sem gênero até então, e passou a ser cada vez mais associada à definição da feminilidade. Ela também passou a projetar uma imagem muito positiva e socialmente valorizada das mulheres.


Além da Europa, na América Latina e Estados Unidos, percebeu-se um envolvimento das mulheres com a filantropia de uma maneira diferente da antiga forma de fazer caridade, que acontecia no interior das famílias ou de forma individualizada. As mulheres se organizavam em associações ou por meio de campanhas de caráter público. Esse movimento ampliou a visibilidade das mulheres em espaços públicos, mesmo que na época fosse mediada por religiosos ou homens de maneira geral.

Dessa forma, a ideologia da domesticidade e a valorização moral das mulheres através dos cuidados e da maternidade passam a ser o pano de fundo para a sua visibilidade pública.

Mas isso aconteceu apenas para as mulheres de classes privilegiadas? Como ficam as mulheres pobres? E o recorte de raça nesse processo?

As diferentes realidades das mulheres


Certamente o envolvimento de mulheres na filantropia e nas causas sociais não é homogêneo e não aconteceu apenas com aquelas que estavam confinadas ao ambiente doméstico e queriam ampliar suas perspectivas. As mulheres de classes sociais menos privilegiadas e que passavam pelas mais diversas necessidades sempre foram ativas nos movimentos sociais e também ampliaram sua participação.


No caso delas, a urgência e a necessidade de garantir condições mínimas para sua sobrevivência e de seus familiares, eram os principais motivadores para a ação. As mulheres negras, por exemplo, sempre estiveram fora do ambiente doméstico, trabalhando, e sua atuação foi essencial em movimentos como o abolicionismo, a luta pelos direitos civis e políticos das mulheres e por uma grande diversidade de causas sociais e culturais.


E o que isso significa hoje?


Trazendo essa perspectiva para o contexto atual, é importante percebermos que a representatividade feminina no setor das OSCs não é casual e possui bases muito arraigadas na nossa sociedade. É maravilhoso que as mulheres sejam maioria ou estejam em representatividade igualitária neste e em tantos outros setores. O que precisamos refletir é sobre como se dá essa participação e questionar se estão sendo mantidos padrões de desigualdade que podem até passar despercebidos.


Para finalizar, aqui vão algumas perguntas para ajudar nesse processo de reflexão:


- Qual o percentual de homens e mulheres na organização? A representatividade das mulheres e homens é igualmente distribuída nos diferentes níveis hierárquicos?

- Na sua organização, mulheres e homens possuem remuneração equivalente para funções similares?

- Como se dá a representatividade considerando diferentes perfis e realidades das mulheres (negras, periféricas, mães, migrantes, etc)? As oportunidades são as mesmas?

- De que forma a organização incorpora as questões de gênero em suas práticas internas e externas?

- Que estereótipos de gênero estamos mantendo ou reforçando?



Referências:


A feminilização da filantropia: 

https://periodicos.uff.br/revistagenero/article/download/31210/1829


Mulheres em movimentos políticos e sociais no Brasil:

https://www.infoescola.com/historia/mulheres-em-movimentos-politicos-e-sociais-no-brasil/



Este conteúdo foi produzido por Janela 8

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Carolina de Jongh é curiosa, apaixonada pela vida e se coloca como instrumento para as mudanças que deseja ver no mundo. Administradora de Empresas pela FGV e mestre em Psicologia Social pela USP, (linkedin) fundou a Janela 8 para apoiar organizações na ampliação do protagonismo e dos direitos das mulheres.


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Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer um desafio estrutural: muitas organizações de base, especialmente em territórios periféricos, ainda têm dificuldade de incorporar tecnologia às suas soluções. Não por falta de visão, mas por falta de acesso à educação, à formação técnica e a investimentos sociais. É comum vermos tecnologias avançadas sendo desenvolvidas por startups e organizações de impacto, enquanto quem atua diretamente no território não dispõe dos recursos necessários para utilizá-las. Sem articulação, essa equação não fecha. Por isso, outra tendência que se consolida é a valorização de redes, consórcios e articulações territoriais. Organizações que atuam de forma isolada tendem a ter mais dificuldade de acessar investimentos. Financiadores buscam cada vez mais iniciativas coletivas, capazes de envolver múltiplos atores, setores e saberes. 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Tecnologias como a Inteligência Artificial precisam ser desenvolvidas e utilizadas com base em princípios claros: respeito à privacidade e à LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), justiça social, mitigação de vieses discriminatórios, controle social sobre dados e sistemas, segurança da informação e responsabilidade ambiental. O impacto climático da tecnologia, muitas vezes invisível, também precisa entrar na equação. Regulamentação e compromisso das empresas e investidores são indispensáveis. O financiamento das organizações também passa por mudanças relevantes. Doações online, campanhas como o Dia de Doar, cessão de tecnologias e licenças por empresas e, sobretudo, o fortalecimento dos mecanismos de incentivo fiscal têm ampliado as possibilidades de sustentabilidade. Quando uma empresa direciona parte de seus impostos para projetos sociais no território onde atua, o recurso retorna diretamente para a comunidade, em forma de educação, inovação e oportunidades. 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Você pode amar muito um time e ainda assim vê-lo perder campeonatos por anos. Pode ter a maior torcida do país, uma história gigante e uma camisa pesada. Mas sem gestão, isso não se sustenta. No terceiro setor acontece algo muito parecido. Sou corinthiana e não acompanho o futebol tão de perto. Mesmo assim, é impossível ignorar o que Palmeiras e Flamengo vêm construindo nos últimos anos. Escrevo este artigo no final de 2025 e, ao olhar para os principais campeonatos do período recente, Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil, esses dois clubes seguem protagonizando finais, títulos e campanhas consistentes. Não por acaso, também passaram a aparecer em premiações internacionais que reconhecem excelência em gestão, como o Globe Soccer Awards. Mas nem sempre foi assim. E é exatamente aí que essa história interessa às organizações da sociedade civil. Quando a virada não acontece no campo Palmeiras e Flamengo já viveram fases marcadas por dívidas, crises internas e resultados bem abaixo do potencial que tinham. A mudança não começou com um craque, nem com um gol histórico. Começou fora de campo. Por volta de 2012 e 2013, os dois clubes passaram a tratar a gestão como eixo central. Planejamento financeiro, profissionalização das equipes, governança e visão de longo prazo deixaram de ser discurso e passaram a orientar decisões concretas. Se você não gosta de futebol, continue comigo. O ponto aqui não é o esporte. É entender que amor, tradição e propósito são fundamentais, mas não substituem uma boa gestão. Com gestão, a gente vai mais longe. O que o Palmeiras ensina No Palmeiras, a virada tem um nome bastante conhecido: Paulo Nobre. Ao assumir a presidência do clube em 2013, encontrou um cenário delicado, com dívidas e pouca previsibilidade. Uma das decisões mais simbólicas foi emprestar recursos próprios para reorganizar as finanças do time. Um gesto arriscado, mas inserido em uma estratégia maior. A partir daí, vieram parcerias estratégicas como a Crefisa, a profissionalização da gestão e a criação de novas fontes de receita. A modernização do Allianz Parque transformou o estádio em um ativo que gera renda muito além dos jogos, com shows e eventos. É a lógica de enxergar a estrutura como meio para sustentar a missão, algo bastante familiar para quem atua no terceiro setor. O Flamengo e a coragem de arrumar a casa O Flamengo sempre teve popularidade e potencial. O que faltava era organização. A virada começou com decisões duras e pouco populares, como uma política rigorosa de controle de gastos e reorganização financeira. Antes de investir pesado em contratações, o clube investiu em processos, equipe técnica qualificada e responsabilidade fiscal. Os títulos vieram depois. Não como milagre, mas como consequência. O que tudo isso tem a ver com as OSCs? Muito mais do que parece. Os dois clubes mostram que investir na base (jovens atletas em formação para o time principal) é apostar no longo prazo, mesmo quando o retorno não é imediato. No terceiro setor, isso aparece na formação de equipes, no fortalecimento institucional e no desenvolvimento de lideranças. Eles também reforçam uma verdade incômoda: amor não é estratégia. Paixão move, mas não organiza fluxo de caixa, não constrói indicadores e não garante sustentabilidade. Há ainda a importância de diversificar fontes de receita, inclusive para organizações grandes e reconhecidas, e de contar com profissionais qualificados, além de investir em quem já faz parte da equipe. Nada disso acontece do dia para a noite. O processo é longo, exige constância e escolhas difíceis. Um convite para quem lidera organizações sociais  Se você lidera uma OSC, vale a reflexão. O quanto da sua energia está concentrada apenas na causa e o quanto está direcionada para fortalecer a gestão que sustenta essa causa? Gestão não esfria o propósito. Pelo contrário. Ela protege a missão, amplia o impacto e garante que o trabalho continue existindo daqui a cinco, dez ou vinte anos. No futebol e no terceiro setor, amor é o ponto de partida. Gestão é o que transforma esse amor em legado.
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