Síndrome do Esgotamento Profissional - Burnout

2 de dezembro de 2022

Este conteúdo foi produzido por Sara Dias


A natureza do trabalho no terceiro setor é repleta de entrega, doação e empenho. Normalmente, quem está envolvido com a causa social, tem a tendência de colocar muito de si em cada ação, a doar atenção, energia, olhos atentos e escuta. Quem escolhe ou é escolhido por essa área, não imagina que em meio a tão boas intenções a jornada pode se tornar pesada demais e culminar em um esgotamento por completo.


Foi assim comigo em 2017 e tem sido assim com pessoas conhecidas. O adoecimento físico, emocional e mental também chega para quem está fazendo o bem.


Dentre tantas mazelas emergidas nas últimas décadas, principalmente em relação às práticas laborais, a Síndrome de Burnout tem sido uma das que provocam maiores prejuízos, pois leva a pessoa a uma perda total da capacidade de continuar trabalhando. 

De acordo com pesquisas realizadas pelo International Stress Management Association (Isma-BR), profissionais da área da educação e da saúde, que estão diariamente em contato intenso e contínuo com o público atendido, são os mais acometidos.


Em suas primeiras definições, feitas pelo psicanalista norte-americano Freudenberger em 1974, burnout
caracterizava-se como um "incêndio interno" ou “aquilo que deixou de funcionar por exaustão de energia”. Mais tarde, a partir de 1976, a Psicóloga Social Christina Malash relaciona esta síndrome diretamente ao ambiente de trabalho e atribui três fatores multidimensionais ao seu aparecimento:



. Exaustão emocional (esgotamento físico e mental)

. Despersonalização (frieza, indiferença e impessoalidade com o atendido)

. Baixa realização pessoal no trabalho (baixa autoestima)


Hoje o Burnout é definido pedo CID (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde) como estresse crônico no local de trabalho.


A Síndrome de Burnout não aparece de um dia para o outro, não é um colapso inesperado. Ela, na verdade, é desencadeada por períodos longos e crônicos de estresse, somados à falta de percepção e atitudes da estrutura organizacional para se contornar a situação conflitiva e oferecer medidas para o restabelecimento da saúde do indivíduo.


Em seu quadro evolutivo, a pessoa começa  a sentir falta de vontade, ânimo ou prazer de ir trabalhar. Juntamente com isso, pode sentir dores nas costas, pescoço e coluna, irritabilidade, alterações de humor, dificuldade de concentração, insônia e etc. 


Sentimentos como angústia, impotência, insegurança, despreparo frente ao trabalho, frustração, dentre outros, também aparecem e vão deixando os dias ainda mais insuportáveis. Ao final, pode-se ocasionar afastamento psiquiátrico, frente às doenças psicossomáticas ou também aumentar a incidência de alcoolismo, drogadição e pensamentos de morte.


Em sua dissertação de mestrado em Administração pela Universidade Estadual de Londrina, Luciane Walichek, pesquisou os fatores associados à Síndrome de Burnout no terceiro setor. A mesma ressalta que, apesar das causas envolverem aspectos emocionais, sociais, organizacionais e familiares, observa-se que organizações em que a gestão ainda não é conscientizada da importância da saúde mental de seus colaboradores e mantém dinâmicas de trabalho sem planejamentos estratégicos e táticos para orientação, organização e direção dos processos, tornam os ambientes ainda mais propícios para que a sensação de insatisfação, esgotamento e frustração se prolifere.


A consequência de não se atentar para o acúmulo de estresse da equipe, e subsequente aparecimento de casos de Burnout, não afetam apenas a pessoa acometida deste adoecimento. Para as organizações, a perda está em problemas com qualidade dos serviços, produtividade, alta rotatividade, diminuição da satisfação profissional, perda de recursos financeiros com novas contratações e, o pior, mal exemplo de gestão retornando para a sociedade. O que é um grande paradoxo com a sua missão.


Em minha experiência com o Burnout, trabalhando em uma entidade do terceiro setor, fui tomada por uma multiplicidade de sintomas psicossomáticos, porém, o que para mim foi mais grave, era a incapacidade que eu sentia de ver sentido em meu trabalho, tudo parecia-me em vão, havia muita irritabilidade, falta de paciência e esgotamento do afeto por aquilo que eu fazia. Precisei me desligar da instituição e dar um bom tempo para retornar ao trabalho.


Hoje, minha maior esperança é de ver o ecossistema do impacto social contornando as estatísticas, encontrando formas de não adoecer, mas sim de gerar grande satisfação nos agentes de mudança. Ações como apoio terapêutico individual ou grupal, capacitações visando o aprendizado e o desenvolvimento de técnicas de relaxamento, assim como, maior reconhecimento e valorização, escuta e conexão com as equipes, podem fazer, e já fazem, muita diferença neste cenário.



Links:

ISMA-BR: http://www.ismabrasil.com.br/

Dissertação LUCIANE DE FÁTIMA WALICHEKI - A relação das características de uma organização do terceiro setor e a Síndrome de Burnout: Um estudo na Escola Profissional e Social do Menor de Londrina. Disponível em: http://repositorio.uem.br:8080/jspui/bitstream/1/3216/1/000166338.pdf




Sara Dias é Prof.ª Mestra em Artes da Cena pela UNICAMP e Instrutora de Yoga, atua como educadora social desde 2006 e atualmente desenvolve projetos relacionados ao bem-estar no terceiro setor. 


Contato: saradias.ds@gmail.com


Inscreva-se na nossa Newsletter

Últimas publicações

Por Instituto Phomenta 11 de junho de 2026
Nem todo edital é uma oportunidade. Entenda os riscos do desvio de missão e como captar recursos de forma estratégica.
Por Jaice Balduino 1 de junho de 2026
O doador brasileiro está mudando: mais seletivo, exigente e orientado por impacto. Descubra o que as organizações sociais precisam oferecer para conquistar e fidelizar quem doa no cenário atual.
Por Instituto Phomenta 26 de maio de 2026
Quem está no dia a dia da gestão de uma ONG conhece bem o dilema: a gente passa tanto tempo cuidando dos projetos e atendendo a ponta que a nossa própria estrutura vai ficando para trás. Já diz o ditado: “em casa de ferreiro…”. Nosso financeiro roda no limite, a equipe fica sobrecarregada, os processos são travados e a liderança vive exausta. A verdade é que a gente se acostumou a operar no modo de sobrevivência. Então, que tal dar um passo para trás e avaliar o todo? Durante o FIFE 2026, o sociólogo Domingos Armani trouxe uma provocação que cutucou feridas necessárias. Ele alertou que muitas organizações ainda insistem em carregar crenças e estigmas que funcionam como mapas obsoletos. Só que, o grande problema de usar um mapa velho é que o mundo mudou, e o desenho antigo já não bate com o terreno real de hoje. Insistir na ideia de que investir na própria estrutura é "gastar dinheiro que deveria ir para o projeto" é um desses mapas velhos que precisamos rasgar. Fortalecer a casa, o chamado Desenvolvimento Institucional (DI), é o que garante que a ONG continue existindo e gerando impacto no longo prazo. E essa mudança de mentalidade muda tudo, inclusive o jeito de captar recursos. Mudar a postura para financiar a sua estratégia Captar recursos para o Desenvolvimento Institucional, ou seja para estruturar a gestão, investir em tecnologia e manter o time funcionando, exige parar de pedir dinheiro apenas para o "projeto da vez". No painel da Plataforma Conjunta, ainda no FIFE, o debate girou em torno de como virar essa chave diante dos financiadores. Para ajudar a avaliar como a sua organização está se posicionando, montamos um checklist prático com os principais aprendizados da mesa: Checklist de postura para o fortalecimento da ONG [ ] Você se explica pela estratégia ou pelo portfólio? Quando vai conversar com um parceiro, você gasta todo o tempo listando as oficinas da semana ou apresenta primeiro a missão e a visão de futuro da organização? Grandes parceiros querem financiar o futuro da sua causa, não apenas uma ação pontual. [ ] Você sabe compartilhar vulnerabilidades? Se a sua organização fosse perfeita e não tivesse nenhum problema de gestão, ela não precisaria de apoio. Fale da sua vulnerabilidade, mas com estratégia. Acompanha o próximo ponto! [ ] O desafio vem acompanhado de uma solução? Mostrar os pontos fracos da gestão para o parceiro só funciona se você já apresentar a rota para resolver o problema. A vulnerabilidade precisa vir colada com a sua capacidade de planejamento. [ ] O estigma da escassez foi abandonado? A gestão já superou a velha crença de que o Terceiro Setor precisa trabalhar sofrendo, com ferramentas defasadas e computadores lentos? Modernizar a estrutura interna é uma decisão de eficiência, não um luxo. Saiba que você pode merece e precisa de estrutura. Modernizar para não parar no caminho Se os mapas antigos não funcionam mais, o papel de quem gere é desenhar novas rotas. Olhar para o Desenvolvimento Institucional serve para dar musculatura para a organização. Quando paramos de “vender o almoço para pagar o jantar” e começamos a financiar a nossa própria estratégia, a ONG ganha a sustentabilidade que precisa para transformar a realidade na ponta de forma estruturada e contínua.
Por Instituto Phomenta 14 de maio de 2026
Quem trabalha em ONG sabe que a comunicação costuma ser o pratinho que mais cai. Com tantas atividades executadas ao mesmo tempo, a estratégia acaba ficando para trás porque o operacional consome todo o dia. Mas o uso da Inteligência Artificial (IA) tem mostrado que dá para mudar esse cenário. Esse foi um dos temas centrais do Fórum Interamericano de Filantropia Estratégica (FIFE 2026), o principal encontro sobre gestão do Terceiro Setor no Brasil. O debate focou em como a tecnologia pode organizar processos e liberar tempo para o que realmente importa. O cenário brasileiro é curioso: de um lado, a OpenAI aponta que o Brasil é o terceiro país que mais usa o ChatGPT no mundo (atrás apenas de EUA e Índia), com cerca de 140 milhões de mensagens diárias enviadas por aqui. Por outro lado, o uso estratégico nas ONGs ainda engatinha. Um levantamento do IDIS com mais de 1,5 mil organizações revela que 62% delas ainda estão em um estágio baixo ou inexistente de adoção de IA. Ou seja, a tecnologia está na nossa mão, mas o setor social ainda está descobrindo como transformá-la em aliada da gestão. Para tirar proveito real dessas ferramentas, o segredo é o jeito que você as alimenta. Durante a palestra de Marco Iarussi, publicitário social e fundador da Curta Causa, aprendemos que o "treinamento" que você dá à IA é o que define se o resultado será genérico ou útil. Mão na massa: Passo a passo para montar seu plano com IA Para a IA aprender sobre a sua realidade e não entregar respostas vazias, siga este roteiro: 1. Não mude de conversa Escolha um único chat para tratar do seu plano de comunicação, seja no ChatGPT, Gemini ou Claude. Se você abre uma conversa nova toda vez, a IA "esquece" o contexto. Mantendo o mesmo canal, ela guarda o histórico e entende as necessidades específicas da sua organização. 2. Dê informações reais Antes de pedir o plano completo, descubra o que a IA já "pensa" sobre você. Isso serve para corrigir erros e fornecer dados que ela ainda não tem. Prompt: "O que você sabe sobre a causa [inserir sua causa] e o que conhece sobre o trabalho da [nome da sua ONG]?" 3. Alinhe o que é um plano de verdade Veja se o robô entende o seu universo. Se ele tiver uma visão muito comercial, o plano parecerá uma propaganda de loja, o que não funciona para o setor social. Prompt: "Para você, o que não pode faltar em um plano de comunicação para uma ONG? Liste os pontos principais." (Leia e diga o que você concorda ou não). 4. Descubra o que ninguém está falando Use a ferramenta para encontrar novos ângulos e sair do óbvio. Prompt: "O que o pessoal mais fala sobre [sua causa] hoje? E o que você acha que ainda não foi dito, mas que ajudaria as pessoas a entenderem melhor o nosso impacto?" 5. Peça o plano prático Agora que o chat está treinado, peça a estrutura final. Prompt: "Com base em tudo o que já conversamos aqui, monte um calendário de 30 dias para as nossas redes sociais. O foco deve ser [ex: prestação de contas ou atrair novos voluntários]." Onde entra a ética e o seu papel Usar a tecnologia para facilitar o dia a dia é inteligência de gestão, mas exige cuidado. A IA serve para fazer o primeiro rascunho e organizar as ideias, mas a palavra final, a conferência dos dados e o olhar humano sobre a causa precisam ser seus. O objetivo é automatizar o que for repetitivo para que você tenha fôlego. Com a comunicação organizada, sobra tempo para construir relacionamentos de verdade e focar no que nenhuma máquina substitui a confiança e o olho no olho com quem apoia a sua organização. 
Por Camila Pasin 30 de abril de 2026
Empresas brasileiras deixaram de ser apenas financiadoras e se tornaram plataformas de engajamento. Entenda como transformar uma simples doação em uma verdadeira aliança de impacto.
Por Gabriel Pires 9 de abril de 2026
Minha OSC precisa de um código de ética? No terceiro setor, valores sem regras claras podem gerar conflitos e riscos. Entenda por que o código de ética é essencial para a gestão das OSCs.
mostrar mais

Participe do nosso grupo no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão

Entrar para o grupo