Quais são os Objetivos do Desenvolvimento Interior (ODI)? Por que eles importam?

22 de fevereiro de 2024

Lançado em 2022, os Objetivos de Desenvolvimento Interior (ODI) mapeiam as competências que os indivíduos precisam fortalecer para contribuir com a prática dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Saiba quais são:

Em 2015, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU proporcionaram-nos um plano abrangente para um mundo sustentável até 2030. Uma agenda mundial para a construção e implementação de políticas públicas que visam guiar a humanidade até 2030.

 

O ponto de partida para a iniciativa focada em desenvolvimento interior (IDG em inglês) foi a reflexão de que o ODS fornece objetivos e uma visão do que precisa acontecer, mas o progresso em direção a essa visão tem sido decepcionante até o momento, porque nos falta a capacidade interna para lidar com o nosso ambiente e desafios cada vez mais complexos. 

 

Os Objetivos de Desenvolvimento Interior (ODI) são uma estrutura lançada em 2022 para apoiar o alcance dos ODS. Não é uma discussão de um ou outro, mas uma polaridade importante de navegar na complexidade que vivemos: SER e FAZER.

 

Os IDGs, ou ODIs, mapeiam quais as capacidades, qualidades ou competências que precisamos promover entre indivíduos, grupos e organizações que desempenham papéis cruciais no trabalho para cumprir os ODS. Envolve uma série de habilidades cognitivas e emocionais.

 

Aqui ainda estão em âmbito de objetivos, sabendo que processos de desenvolvimento não se limitam a lógica de objetivos, essa linguagem de desenvolvimento vem ocupando uma posição hegemônica e busca construir um campo que não dialoga com outras formas de viver ou ver o mundo. Gosto de olhar ambos (ODS e ODI) como componentes de um campo maior da sustentabilidade que se propõe debater regras e lógicas que se desenvolvem em torno do futuro da humanidade, trazendo para mesa atores importantes que normalmente não estão presentes na construção dos objetivos de desenvolvimento. 


Como não podemos avançar em nada sem olhar o componente humano, os Objetivos de Desenvolvimento Interior trazem para discussão habilidades que foram divididas em 5 categorias. Essas categorias estão sendo revisadas e afinadas através de uma pesquisa global que indico ao final.

Uma fileira de cartões com formatos diferentes

E o que isso tem a ver com o setor de impacto sócio ambiental? Acredito que a mudança precisa acontecer fora, mas também precisa acontecer dentro, inclusive dentro de cada um de nós.

 

Não é possível seguir fazendo melhor o que fazemos. Em 20 anos de atuação no setor, evoluímos, mas não transformamos. Agora o transformar está relacionado com olhar com cuidado as linguagens que estão postas, mas não se limitar a elas. Não estou aqui para criar uma disputa de campos, mas para refletir como avançamos em um novo fazer sem sucumbir ao campo que tem mais poder. 


Existem aberturas para que como líderes e organizações trabalhemos as diferentes dimensões do desenvolvimento.


Kaithin Frost e Chris Corring trabalham bem essa integração através da lente sistêmica. Trago aqui uma tradução dos campos que integram no seu trabalho e que tomo como base:


Três círculos azuis com as palavras sistema interno sistema engagement e sistema externo

O sistema interno está relacionado às condições internas da liderança, das pessoas (dialogando com objetivos do desenvolvimento interno), já o externo está relacionado as iterações ou mesmo intervenções (dialogando aqui com desenvolvimento sustentável) e ainda traz o elemento do engajamento (que está no ambiente das perspectivas, do diálogo, do sensemaking e da colaboração).


Precisamos dialogar com desenvolvimento, mas imaginar além. 

 

Com esse olhar crítico, trago um início de diálogo que não tem nada de novo, mas uma busca de ampliar uma visão sobre a nossa forma de atuar. 


Nos últimos anos, também estamos cada vez mais lidando com problemas mais complexos, com a sensação de que o que sabemos ou achamos que sabemos não nos serve mais. Um olhar para nossas capacidades individuais e coletivas precisa ser aspectos centrais do nosso olhar, planejar e fazer. 



Precisamos agir agora para co-criarmos o mundo que queremos.


Referências:

Chris Corrigan, https://www.chriscorrigan.com/parkinglot/books-and-papers/

Elimar Pinheiro do Nascimento, Sustentabilidade: o campo de disputa de nosso futuro civilizacional


Uma mulher vestindo uma blusa verde e um colar vermelho sorri para a câmera

Consultora independente em desenvolvimento institucional, trabalhando em parcerias com algumas organizações e também atuando como mentora de novas lideranças.


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Você pode amar muito um time e ainda assim vê-lo perder campeonatos por anos. Pode ter a maior torcida do país, uma história gigante e uma camisa pesada. Mas sem gestão, isso não se sustenta. No terceiro setor acontece algo muito parecido. Sou corinthiana e não acompanho o futebol tão de perto. Mesmo assim, é impossível ignorar o que Palmeiras e Flamengo vêm construindo nos últimos anos. Escrevo este artigo no final de 2025 e, ao olhar para os principais campeonatos do período recente, Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil, esses dois clubes seguem protagonizando finais, títulos e campanhas consistentes. Não por acaso, também passaram a aparecer em premiações internacionais que reconhecem excelência em gestão, como o Globe Soccer Awards. Mas nem sempre foi assim. E é exatamente aí que essa história interessa às organizações da sociedade civil. Quando a virada não acontece no campo Palmeiras e Flamengo já viveram fases marcadas por dívidas, crises internas e resultados bem abaixo do potencial que tinham. A mudança não começou com um craque, nem com um gol histórico. Começou fora de campo. Por volta de 2012 e 2013, os dois clubes passaram a tratar a gestão como eixo central. Planejamento financeiro, profissionalização das equipes, governança e visão de longo prazo deixaram de ser discurso e passaram a orientar decisões concretas. Se você não gosta de futebol, continue comigo. O ponto aqui não é o esporte. É entender que amor, tradição e propósito são fundamentais, mas não substituem uma boa gestão. Com gestão, a gente vai mais longe. O que o Palmeiras ensina No Palmeiras, a virada tem um nome bastante conhecido: Paulo Nobre. Ao assumir a presidência do clube em 2013, encontrou um cenário delicado, com dívidas e pouca previsibilidade. Uma das decisões mais simbólicas foi emprestar recursos próprios para reorganizar as finanças do time. Um gesto arriscado, mas inserido em uma estratégia maior. A partir daí, vieram parcerias estratégicas como a Crefisa, a profissionalização da gestão e a criação de novas fontes de receita. A modernização do Allianz Parque transformou o estádio em um ativo que gera renda muito além dos jogos, com shows e eventos. É a lógica de enxergar a estrutura como meio para sustentar a missão, algo bastante familiar para quem atua no terceiro setor. O Flamengo e a coragem de arrumar a casa O Flamengo sempre teve popularidade e potencial. O que faltava era organização. A virada começou com decisões duras e pouco populares, como uma política rigorosa de controle de gastos e reorganização financeira. Antes de investir pesado em contratações, o clube investiu em processos, equipe técnica qualificada e responsabilidade fiscal. Os títulos vieram depois. Não como milagre, mas como consequência. O que tudo isso tem a ver com as OSCs? Muito mais do que parece. Os dois clubes mostram que investir na base (jovens atletas em formação para o time principal) é apostar no longo prazo, mesmo quando o retorno não é imediato. No terceiro setor, isso aparece na formação de equipes, no fortalecimento institucional e no desenvolvimento de lideranças. Eles também reforçam uma verdade incômoda: amor não é estratégia. Paixão move, mas não organiza fluxo de caixa, não constrói indicadores e não garante sustentabilidade. Há ainda a importância de diversificar fontes de receita, inclusive para organizações grandes e reconhecidas, e de contar com profissionais qualificados, além de investir em quem já faz parte da equipe. Nada disso acontece do dia para a noite. O processo é longo, exige constância e escolhas difíceis. Um convite para quem lidera organizações sociais  Se você lidera uma OSC, vale a reflexão. O quanto da sua energia está concentrada apenas na causa e o quanto está direcionada para fortalecer a gestão que sustenta essa causa? Gestão não esfria o propósito. Pelo contrário. Ela protege a missão, amplia o impacto e garante que o trabalho continue existindo daqui a cinco, dez ou vinte anos. No futebol e no terceiro setor, amor é o ponto de partida. Gestão é o que transforma esse amor em legado.
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