Por que minha iniciativa social não deslancha?

22 de abril de 2021

Há 15 anos, um jovem da periferia decidiu compartilhar o seu talento artístico e ajudar as crianças e adolescentes de sua comunidade, oferecendo oportunidades de lazer, alegria, sociabilidade, autoconhecimento e autoestima. No quintal da casa da sua mãe, ele e a turma que ia se juntando, improvisaram instrumentos musicais a partir de latas, que viraram tambores, chocalhos e pandeiros. Uma animação só, que parecia a de uma escola de samba infanto-juvenil!


É um caso real, conduzido em um ambiente de pobreza e violência.

O grupo foi crescendo e o quintal se tornou pequeno para reunir tanta gente e alegrar os sábados, domingos e feriados pela manhã… Com o tempo, a turma foi ganhando visibilidade e passou a ser convidada para tocar em espaços maiores. O jovem músico virou “tio” da garotada e começou a receber apoio de comércios locais, de escolas  públicas ou de igrejas que queriam brilhar como “amigas da comunidade” nos eventos populares. Ele se tornara nitidamente uma liderança local.


Alguns anos depois, esse jovem da periferia enxergou nessa dinâmica bem-sucedida uma oportunidade para si próprio, ou seja, unir o seu dom musical e capacidade de liderança para se tornar um empreendedor social. Só que agora ele já estava casado e com dois filhos. Daí, não poderia continuar atuando de forma (apenas) generosa e voluntária. Teria que encontrar maneiras para que essa sua iniciativa social da música conseguisse custear o seu próprio sustento e também o das outras pessoas que fossem se engajando.


O desafio estava, pois, lançado. De imediato, viu que teria que formalizar o empreendimento, o que significou obter um “CNPJ” para poder começar a existir.  Daí em diante, ele teria que fazer tudo da maneira “legal”, seguir todas as obrigações impostas pelo governo e arcar com os respectivos custos da empreitada. Foi quando ele percebeu como o mundo formal é desafiador e cheio de exigências, que muitas vezes parece querer atrapalhar as boas intenções.


Obstinado, o nosso empreendedor social comunitário não esmoreceu. Ao contrário, frente aos desafios impostos, ele até se sentiu mais forte para perseguir o seu sonho: transformar vidas por meio da música. Iria começar na comunidade em que nascera, e depois expandir para outras comunidades também vulneráveis.


Ele decidiu ir atrás dos seus amigos e conhecidos da comunidade. Uma vez que a sua causa era do bem, ele achava que iria poder contar com a colaboração generosa deles. Na realidade, foi assim no princípio. Conseguiu orientação e apoio para criar uma OSC (organização da sociedade civil), com o formato de “associação” e com todos os quesitos mínimos necessários para garantir a sua existência, como a especificação de quem seriam os associados e conselheiros, redação do Estatuto, definição da sede, e por aí vai… Até de  um sobrado abandonado na região ele conseguiu para ser a sede.


Mas não tardou e as dificuldades foram aumentando. Começou com o sobrado, ou melhor, com os elevados custos para a sua legalização e recuperação/adequação. Os seus olhos brilhavam só de pensar que iria poder atender a garotada e os seus familiares com um padrão “de primeiro mundo”.


Ele fazia de tudo para superar as dificuldades que ia encontrando:  assistia a todos os cursos e seminários gratuitos de gestão do terceiro setor; participava de reuniões com representantes do setor público e com políticos para tentar angariar simpatia e poder apresentar o seu pretendido trabalho; buscava aproximação com as igrejas locais; resgatava as velhas amizades; se inscrevia em todos os editais de seleção de projetos de que tinha notícia pela internet; visitava algumas empresas e instituições locais buscando apoio. Era incansável e obstinado!


Porém, o nosso empreendedor foi aos poucos percebendo que, uma vez com a associação já formalizada, estava muito difícil prosseguir. Parecia que o seu sonho estava ficando cada vez mais distante, estava difícil se manter motivado e exibir aquela empolgação genuína e vibrante dos tempos das batucadas no quintal da casa de sua mãe, anos atrás. A duras penas, o máximo que ele estava conseguindo eram doações pontuais de um ou outro material para remendar o sobrado; e também apoio técnico voluntário para elaborar um projeto social e um site, ambos consistentes com o desejo dele de ajudar e o seu sucesso do passado, porém (possivelmente) com quase nenhuma sintonia com as necessidades presentes das famílias locais ou da própria Associação.

Por que aquela iniciativa social, tão fervorosamente desejada pelo nosso empreendedor social, com sucesso estrondoso antes mesmo de se tornar uma OSC, não estava deslanchando?


Parecia até que ele tinha sido atingido pela “maldição do sobrado”, tamanha era a sua preocupação inicial com a recuperação do prédio. Também havia o sentimento dele de estar preso dentro de um círculo fortemente perverso, sem saída: a Associação não começava a funcionar porque não tinha dinheiro nem financiadores. Mas também não tinha financiadores, porque não estava funcionando e ainda não tinha resultados para mostrar (aos financiadores). Então, como  destravar esse círculo impiedoso?


Você já passou por isso? O que você fez para superar todas essas dificuldades?


Por que essa iniciativa, que 15 anos atrás parecia fazer tanto “sucesso” nessa mesma comunidade, não comove mais e nem atrai parcerias e investimentos sociais?


Sem dúvida, essa é uma pergunta complexa. Eu não teria uma resposta pronta para dar, mas vejo que não apenas nas iniciativas sociais, mas em geral, a fase do nascimento é uma etapa crucial na vida de uma organização. É preciso investir um bom tempo no planejamento, ter paciência com os primeiros meses, às vezes anos, de modo que a organização encontre a sua razão de ser, legitimidade, apoio da comunidade e parcerias diversas; e consiga ir gradualmente desenvolvendo e moldando o seu modo de atuar.


No caso relatado do nosso empreendedor social, pudemos ver que ele  tinha muitas qualidades, um histórico bonito e empolgante, mas incorreu em vários erros de gestão. Dentre as suas qualidades, destaco o idealismo, as boas intenções, ser uma pessoa entusiasmada, ser da própria comunidade em que pretende atuar, ser entrosado e ser proativo. Porém, ele cometeu alguns erros iniciais de gestão graves e capazes de inviabilizar o seu empreendimento social, tais como: atuação individualizada; perder o foco com facilidade; colocar os meios na frente dos fins; perder a sintonia com  as necessidades da comunidade; querer crescer rápido e pular etapas.


Texto adaptado do
“Por que uma iniciativa social não deslancha”, de Maria Cecília Prates, publicado no blog Estratégia Social.


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Maria Cecilia Prates

Maria Cecília Prates é economista, mestre em economia e doutora em administração (Linkedin). É autora de livros, como “Manual de Planejamento e avaliação de projetos sociais em organizações sociais” e “Ecossistema das iniciativas sociais no Brasil”, e autora do blog Estratégia Social.



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A experiência mostra que articular financiamento privado, cooperação técnica com o poder público e o engajamento de organizações de base é um caminho consistente para gerar impacto real e sustentável. Nesse novo cenário, o uso de dados e evidências deixou de ser opcional. A atuação precisa ser responsiva às necessidades reais dos territórios, e isso só é possível por meio da observação sistemática, da geração cidadã de dados e da tomada de decisões baseadas em evidências. O investimento social privado no Brasil amadureceu — e espera projetos bem estruturados, com governança sólida e clareza de resultados. É impossível falar de inovação sem falar de ética. Tecnologias como a Inteligência Artificial precisam ser desenvolvidas e utilizadas com base em princípios claros: respeito à privacidade e à LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), justiça social, mitigação de vieses discriminatórios, controle social sobre dados e sistemas, segurança da informação e responsabilidade ambiental. O impacto climático da tecnologia, muitas vezes invisível, também precisa entrar na equação. Regulamentação e compromisso das empresas e investidores são indispensáveis. O financiamento das organizações também passa por mudanças relevantes. Doações online, campanhas como o Dia de Doar, cessão de tecnologias e licenças por empresas e, sobretudo, o fortalecimento dos mecanismos de incentivo fiscal têm ampliado as possibilidades de sustentabilidade. Quando uma empresa direciona parte de seus impostos para projetos sociais no território onde atua, o recurso retorna diretamente para a comunidade, em forma de educação, inovação e oportunidades. Isso fortalece a democracia e aproxima o investimento social da vida real das pessoas. As parcerias intersetoriais, aliás, tendem a se tornar ainda mais estratégicas. Políticas de ESG impulsionaram empresas a assumirem compromissos mais concretos com impacto social e ambiental. Quando essa agenda sai do discurso e se traduz em atuação no território, com cooperação técnica e investimento de longo prazo, os resultados são muito mais consistentes. Diante de um cenário marcado por polarização política e desinformação, o papel das organizações da sociedade civil também se amplia. Educação midiática, consumo crítico da informação e inclusão digital são hoje pilares da defesa da democracia. Eu acredito que capacitar pessoas em habilidades digitais é também fortalecer sua capacidade de participação cidadã. O terceiro setor está, sim, mais profissionalizado — e isso é necessário. 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Por Nathalia Albuquerque 2 de março de 2026
Você pode amar muito um time e ainda assim vê-lo perder campeonatos por anos. Pode ter a maior torcida do país, uma história gigante e uma camisa pesada. Mas sem gestão, isso não se sustenta. No terceiro setor acontece algo muito parecido. Sou corinthiana e não acompanho o futebol tão de perto. Mesmo assim, é impossível ignorar o que Palmeiras e Flamengo vêm construindo nos últimos anos. Escrevo este artigo no final de 2025 e, ao olhar para os principais campeonatos do período recente, Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil, esses dois clubes seguem protagonizando finais, títulos e campanhas consistentes. Não por acaso, também passaram a aparecer em premiações internacionais que reconhecem excelência em gestão, como o Globe Soccer Awards. Mas nem sempre foi assim. E é exatamente aí que essa história interessa às organizações da sociedade civil. Quando a virada não acontece no campo Palmeiras e Flamengo já viveram fases marcadas por dívidas, crises internas e resultados bem abaixo do potencial que tinham. A mudança não começou com um craque, nem com um gol histórico. Começou fora de campo. Por volta de 2012 e 2013, os dois clubes passaram a tratar a gestão como eixo central. Planejamento financeiro, profissionalização das equipes, governança e visão de longo prazo deixaram de ser discurso e passaram a orientar decisões concretas. Se você não gosta de futebol, continue comigo. O ponto aqui não é o esporte. É entender que amor, tradição e propósito são fundamentais, mas não substituem uma boa gestão. Com gestão, a gente vai mais longe. O que o Palmeiras ensina No Palmeiras, a virada tem um nome bastante conhecido: Paulo Nobre. Ao assumir a presidência do clube em 2013, encontrou um cenário delicado, com dívidas e pouca previsibilidade. Uma das decisões mais simbólicas foi emprestar recursos próprios para reorganizar as finanças do time. Um gesto arriscado, mas inserido em uma estratégia maior. A partir daí, vieram parcerias estratégicas como a Crefisa, a profissionalização da gestão e a criação de novas fontes de receita. A modernização do Allianz Parque transformou o estádio em um ativo que gera renda muito além dos jogos, com shows e eventos. É a lógica de enxergar a estrutura como meio para sustentar a missão, algo bastante familiar para quem atua no terceiro setor. O Flamengo e a coragem de arrumar a casa O Flamengo sempre teve popularidade e potencial. O que faltava era organização. A virada começou com decisões duras e pouco populares, como uma política rigorosa de controle de gastos e reorganização financeira. Antes de investir pesado em contratações, o clube investiu em processos, equipe técnica qualificada e responsabilidade fiscal. Os títulos vieram depois. Não como milagre, mas como consequência. O que tudo isso tem a ver com as OSCs? Muito mais do que parece. Os dois clubes mostram que investir na base (jovens atletas em formação para o time principal) é apostar no longo prazo, mesmo quando o retorno não é imediato. No terceiro setor, isso aparece na formação de equipes, no fortalecimento institucional e no desenvolvimento de lideranças. Eles também reforçam uma verdade incômoda: amor não é estratégia. Paixão move, mas não organiza fluxo de caixa, não constrói indicadores e não garante sustentabilidade. Há ainda a importância de diversificar fontes de receita, inclusive para organizações grandes e reconhecidas, e de contar com profissionais qualificados, além de investir em quem já faz parte da equipe. Nada disso acontece do dia para a noite. O processo é longo, exige constância e escolhas difíceis. Um convite para quem lidera organizações sociais  Se você lidera uma OSC, vale a reflexão. O quanto da sua energia está concentrada apenas na causa e o quanto está direcionada para fortalecer a gestão que sustenta essa causa? Gestão não esfria o propósito. Pelo contrário. Ela protege a missão, amplia o impacto e garante que o trabalho continue existindo daqui a cinco, dez ou vinte anos. No futebol e no terceiro setor, amor é o ponto de partida. Gestão é o que transforma esse amor em legado.
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Quer doar, mas não sabe se o dinheiro vai chegar onde precisa? No Brasil, a desconfiança ainda trava doações. Veja como doar de forma efetiva e gerar impacto social real.
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O adoecimento mental da população brasileira tem se intensificado nos últimos anos e já se reflete de forma direta no mundo do trabalho. O aumento de afastamentos por transtornos mentais, a ampliação de quadros de ansiedade e a exaustão profissional passaram a ocupar o centro dos debates sobre produtividade, gestão de pessoas e sustentabilidade organizacional. No Terceiro Setor, esse cenário não é diferente — e apresenta contornos ainda mais críticos. Dados da Pesquisa Saúde Mental e Bem-Estar no Terceiro Setor (2023), realizada pelo Instituto Phomenta, revelam que 55% dos profissionais do setor expressam algum nível de preocupação com sua saúde mental e bem-estar. Esse contexto foi debatido no Webinar Tendências para o Terceiro Setor 2026, promovido pelo Instituto Phomenta, que apontou a saúde mental como uma das principais tendências e desafios estruturais para as organizações sociais nos próximos anos. A pesquisa ouviu 842 profissionais, de 214 cidades, em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal. Os dados mostram que o alto comprometimento com a causa convive com estresse constante, sensação de urgência permanente e dificuldade de estabelecer limites entre vida pessoal e trabalho, um paradoxo cada vez mais presente no cotidiano das organizações da sociedade civil. Cuidar de quem cuida Durante muito tempo, o trabalho no Terceiro Setor esteve associado à ideia de propósito como fator de proteção emocional. Os dados da pesquisa indicam que essa narrativa já não se sustenta. Entre os respondentes, 38% classificam sua saúde mental como regular e 17% como ruim, evidenciando um cenário de alerta que afeta tanto profissionais quanto lideranças. O recorte de gênero revela desigualdades importantes. As mulheres, que representam 65% da força de trabalho no Terceiro Setor, são as que expressam maiores níveis de preocupação: 60% relatam algum grau de insatisfação com sua saúde mental e bem-estar, frente a 45% dos homens. Entre os jovens, os índices são ainda mais elevados. Profissionais de 18 a 24 anos e de 25 a 34 anos apresentam os piores indicadores, com 69% e 70%, respectivamente, avaliando sua saúde mental como regular ou ruim. Esses dados foram destacados no Webinar Tendências para o Terceiro Setor 2026 como um sinal de que o setor precisa repensar suas práticas internas se quiser manter equipes engajadas e sustentáveis. A NR-1 e o impacto direto na gestão das organizações Outro ponto central do debate foi a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1). A partir de maio de 2025, organizações com pessoas contratadas sob regime CLT passam a ter a responsabilidade de identificar, prevenir e gerenciar riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Entre os fatores de risco mais recorrentes, a pesquisa da Phomenta aponta: excesso de demandas e tarefas, indicado por 64% dos respondentes como principal fator de estresse; jornadas prolongadas e dificuldade de equilíbrio entre vida pessoal e trabalho; ausência de reconhecimento e suporte institucional; conflitos interpessoais e condições precárias de trabalho. Os efeitos desse modelo aparecem nos sintomas relatados: 77% dos profissionais mencionam ansiedade como um dos principais impactos, e 64% relatam exaustão física. Durante o webinar, foi reforçado que o cumprimento da NR-1, embora necessário, não é suficiente para enfrentar um problema estrutural. O desafio está na revisão das práticas de gestão de pessoas, incluindo distribuição de tarefas, modelos de liderança, processos decisórios e a forma como o cuidado é incorporado, ou negligenciado, na cultura organizacional. Saúde mental como estratégia de sustentabilidade A pesquisa também evidencia que mais de 70% dos respondentes não percebem ações intencionais de suas organizações voltadas à promoção do bem-estar. Esse dado foi amplamente debatido no Webinar Tendências para o Terceiro Setor 2026, que destacou a urgência de transformar o cuidado em estratégia institucional. Entre as organizações que adotam ações voltadas à saúde mental, os profissionais citam iniciativas como atendimento psicológico, espaços de diálogo, formações, flexibilidade no trabalho e momentos de convivência. Ainda assim, esses esforços seguem sendo exceção, e não regra. No Terceiro Setor, cuidar da saúde mental das equipes deixou de ser um tema secundário. Trata-se de uma condição para a permanência das pessoas, para a qualidade do trabalho realizado e para a coerência entre missão institucional e práticas internas. A crise de saúde mental convida o setor a um exercício de autocrítica. Não é possível enfrentar desigualdades externas se, internamente, as relações de trabalho reproduzem exaustão, urgência permanente e invisibilização do cuidado. Em 2026, organizações que colocarem as pessoas no centro da gestão estarão mais preparadas para sustentar seu impacto social no longo prazo. Assista completo:
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