Gestão de Mudança como estratégia em saúde mental

2 de novembro de 2023

Baseada em uma área de estudo de Administração, a Gestão de Mudança, é uma ferramenta que tem como enfoque a necessidade de constante adaptação. Conheça mais sobre o termo e saiba como planejar processos de forma estratégica:

Existem momentos em nossa vida em que não estamos bem. Pode ser algo passageiro, por situações cotidianas, que nos deixam tristes, frustrados e desapontados, mas, por vezes, quando esses sentimentos se prolongam, podem ser caracterizados como um sofrimento psíquico, ou seja, "períodos prolongados de intensa angústia, que promovem uma ruptura do equilíbrio biopsicossocial anteriormente estabelecido, geralmente, de difícil manejo pela própria pessoa em sofrimento" (Costa, 2014).


Quando isso ocorre, somos levados a procurar alternativas para lidar com essas fases, e podemos fazer isso de diversas maneiras, porém, se desejamos experimentar melhoras efetivas e a longo prazo, precisamos agir, e uma das estratégias possíveis e eficazes de se fazer isso, é por meio da gestão de mudança.


Empresto o termo Gestão de Mudanças da área da Administração, especificamente do contexto das Gestão de Mudanças Organizacionais, que apesar de não encontrar apenas uma possibilidade de definição na literatura,  pode ser compreendido como um processo estruturado de modificação (de uma situação atual para uma situação desejada), valendo-se de estratégias que possam aumentar sua probabilidade de sucesso, visto que períodos de transformações são repletos de desafios, obstáculos e resistências. 


Mudar não é fácil. Experimentamos essa sensação toda vez que queremos adicionar ou cortar um hábito em nossa rotina, imagine então quando essas modificações podem envolver nossa estabilidade financeira, emocional ou profissional. É por esse motivo que esses períodos precisam ser pensados e planejados, a fim de nos oferecer um parâmetro de segurança que diminua o sentimento de angústia frente ao desconhecido. Com planejamento, nós estruturamos a transformação e não apenas reagimos aos fatos.


O Guia de Gestão de Mudanças nas Organizações, do PMI (Project Management Institute), de 2013, apresenta uma estrutura, que aqui está adaptada para 5 estágios, em que podemos nos basear para organizar ideias e planos de alteração de nossa realidade.


Por onde começar?

  1. Formular a mudança: Este é o estágio da autoavaliação de nossa situação atual, onde aguçamos nossa percepção para identificar o que tem nos causado desconforto e o que queremos fazer com isso. Nesta fase definimos também onde queremos chegar e os aspectos a serem transformados, afinal “se você não sabe para onde ir, qualquer caminho serve” (Lewis Carroll, autor de Alice no país das maravilhas).
  2. Planejar a mudança: Estabelecido o foco, passamos a desenhar nosso percurso. Podemos nos fazer perguntas como: 
  • Em quanto tempo quero estabelecer essa mudança?
  • Preciso aprender algo novo? Se sim, o quê?
  • Que ações preciso realizar para me aproximar e atingir o que desejo?
  • Há pessoas que conheço que posso conversar sobre isso?
  • Vou precisar fazer ajustes financeiros como cortar gastos ou aumentar a renda extra?


Nesta fase, é recomendável estabelecer pequenas metas, como forma de acompanhar e avaliar o seu avanço.


3. Implementar a mudança: Aqui começam as pequenas ações em direção ao objetivo. Elas podem ser divididas em práticas diárias, semanais, mensais ou em outra periodicidade que faça mais sentido.


Neste período, onde ainda há muita insegurança, é muito importante ter pessoas em quem você confia e que acredita que pode servir como um mentor, conselheiro ou terapeuta, auxiliando nos questionamentos, formação de opinião e reafirmação de seus objetivos. A psicoterapia é altamente aconselhável, por ser feita periodicamente e por um profissional apto a compreender a complexidade em que os problemas pessoais se originam, auxiliando-o a gerenciá-los e superá-los.


4. Gerenciar a mudança: A partir do início das ações, até a conquista da situação ideal, é necessária uma atitude de atenção e flexibilidade ao observar o que nos acontece de forma prevista e até de forma inesperada.

 

Durante este processo, observamos se as pequenas metas estão obtendo resultados visíveis ou se estão aparecendo fatores impeditivos na continuidade delas, atuando estrategicamente para que este processo seja saudável e adaptável.


5. Sustentar a mudança: Nesta última etapa, temos a tarefa de buscar a automotivação até que os resultados venham. Não sabemos quanto tempo pode demorar, por isso, o melhor a se fazer é aprender a aproveitar o caminho e celebrar cada pequena conquista.


Um dos mais conhecidos teóricos da área de Gestão de mudanças, o psicólogo alemão Kurt Lewin (1890-1947), já estudava as facilidades e dificuldades encontradas nos processos de transformação afirmando que existem duas forças atuando nesta decisão:


As forças propulsoras - dirigem o comportamento no sentido pró-mudança e na quebra de paradigma, fortalecendo o sentido para que ela aconteça e gerando motivação.


As forças restritivas - Freiam ou tentam impedir o movimento no sentido da mudança, podendo se manifestar por meio do medo do desconhecido, conformismo, crenças limitantes ou outros tipos de resistências.


Por esse motivo, uma parte muito importante da gestão de mudança se dedica a estudar os fatores que podem influenciar o comportamento das pessoas durante este processo, já que, como o cérebro entende as mudanças primeiramente como ameaças, naturalmente uma de 

suas reações é a de se opor fortemente a elas.


Sendo assim, apresento a seguir como a psicologia e o yoga (duas áreas que tenho mais proximidade e identificação e que lidam com o manejo da saúde mental) lidam com essas objeções, oferecendo suporte e direcionamento para quem precisa passar por transições na vida e não sabe como fazê-lo.


Mudança na Psicologia


O ambiente terapêutico também é um espaço de estudo e construção de mudanças. Zita Sousa, em sua dissertação intitulada “Psicoterapia, Narrativa e Mudança: Histórias sobre o processo terapêutico”, de 2006, para o Instituto de Educação e Psicologia da Universidade do Minho, de Braga, Portugal, explorou de forma ampla como isso ocorre.


A autora, citando Jack Martin (1994) explica que “a psicoterapia constitui uma forma específica de conversação e atividade interpessoal, que perspectiva apoiar o indivíduo na mudança de suas teorias pessoais [...]. Quando as teorias correntes não são satisfatórias ou não permitem alcançar objetivos pessoais, a mudança torna-se necessária”. 


Neste sentido, compreendemos que o processo terapêutico, por meio da auto reflexão, possibilita ao indivíduo revisitar suas narrativas de vida, identificando aquilo que não está sintonizado com sua “essência”, gerando incômodo e insatisfação, e possibilitando dessa forma que as transformações sejam planejadas, testadas e realizadas.


Se você deseja saber mais sobre a prática da terapia, leia o texto disponível neste link

Mudança no Yoga

Dentro da filosofia do Yoga o processo de mudança é uma ação contínua, tanto para circunstâncias internas (referentes à personalidade), como externas (referente às relações sociais, profissionais, financeiras etc), possibilitando que habilidades como a resiliência e flexibilidade sejam constantemente fortalecidas.


O que inspira essa prontidão é o Niyama “Tapas”. Niyamas, palavra sânscrita que significa observâncias, indicam aspectos do trabalho sobre si a fim de organizar a vida interior, já “Tapas”, um dos cinco niyamas, corresponde ao autoaperfeiçoamento e autodisciplina realizados com perseverança e paciência, sendo compreensivo e generoso com seu percurso.


Como no Yoga a autotransformação é algo que nunca cessa, praticá-lo pode preparar a pessoa não apenas para mudanças circunstanciais ou urgentes, em que se precisa fortalecer a saúde mental, mas também para levá-la a estar a cada dia mais perto daquilo que a satisfaz e a deixa feliz.



Para saber mais sobre o Yoga

E finalmente, a Gestão de Mudança no Terceiro Setor


Infelizmente, uma grande parte do trabalho nas organizações sociais do terceiro setor ainda acontece em meio a um cenário de instabilidade, seja por acontecer em grande parte na realização de projetos que não oferecem certeza de continuidade nos recursos, seja pela alta taxa de rotatividade das equipes.


Esse é um contexto adoecedor, que apesar de apresentar dados de motivação elevada por parte dos seus trabalhadores, sendo 58% dos não-líderes e 77% dos líderes afirmando estarem motivados com seu trabalho, como apresentado na Pesquisa de Saúde Mental da Phomenta, de 2023, a médio e longo prazo podem levar a níveis de estresse crônicos e seus sintomas decorrentes, como ansiedade, exaustão e insônia.


Por esse motivo, e em contraposição a uma prática usual que é a de agir reagindo às circunstâncias emergentes, é necessário que tanto no nível organizacional quanto (e principalmente) a nível pessoal, haja uma preparação para ações planejadas de mudança.


Desejamos que as organizações sociais, fortalecidas em seus processos de gestão, possam oferecer às suas equipes, processos de mudanças, ou adaptação das novas realidades propostas, com segurança psicológica, confiança e parceria, assim como, para o indivíduo que trabalha neste contexto, possibilidades de enfrentar essa realidade com mais ferramentas e escolhas conscientes.


Conclusão


Por vezes a mudança será algo desejado e em outras é inevitável. Então, para que possamos ter melhores resultados e preservação da saúde mental no processo, precisamos agir de forma estratégica.


A gestão de mudanças, inspirada no contexto da administração, oferece um caminho estruturado que torna possível a passagem por estes momentos de autotransformação com mais confiança e resiliência. Já a psicologia e o yoga, podem oferecer o suporte emocional tão necessário para que este processo seja contínuo e saudável.




Referências:


COSTA, I.I. Sofrimento humano e sofrimento psíquico: da condição humana às “dores psíquicas”. In: COSTA, I.I. (org.). Sofrimento humano, crise psíquica e cuidado: dimensões do sofrimento e do cuidado humano na contemporaneidade. Brasília: Editora Universidade de Brasília. 2014, p.21-67.


Martin, J. (1994). The construction and understanding of psychotherapeutic change: Conversations, memories, and theories. New York: Teachers College.


PMI - Project Management Institute: A practice guide (2013). Newtown Square, Pa: Project Management Institute.


PHOMENTA. Pesquisa: A saúde mental e o bem-estar dos trabalhadores do terceiro setor. Campinas: SP. 2023. Disponível em: https://www.phomenta.com.br/pesquisa-saude-mental-e-bem-estar


SOUSA, Z. C. R., (2006). Psicoterapia, Narrativa e Mudança: Histórias sobre o processo terapêutico. Dissertação. 


Universidade do Minho - Instituto de Educação e Psicologia, Mestrado em Psicologia na Especialidade de Psicologia Clínica.


Braga: Portugal. Disponível em: https://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/6265





Sara Dias é Profª Mestra em Artes da Cena pela UNICAMP e Instrutora de Yoga, atua como educadora social desde 2006 e atualmente desenvolve projetos relacionados ao bem-estar no terceiro setor.



Inscreva-se na nossa Newsletter

Últimas publicações

Por Instituto Phomenta 9 de julho de 2026
A Inteligência Artificial (IA) não vai salvar nenhuma Organização da Sociedade Civil (OSC). Todo mundo já entendeu que ela é indispensável, que agiliza os processos, que ajuda no corre do dia a dia e que tem mil e uma utilidades. Mas ela, sozinha, não vai tirar a sua organização do vermelho e nem vai desafogar a sua equipe. A IA é uma ferramenta poderosa para apoiar a sua gestão, mas ela só funciona se for treinada e alimentada do jeito certo. E a grande pergunta é: você já sabe como fazer isso? A verdadeira inovação da tecnologia no terceiro setor não está nas ferramentas gratuitas e famosas que todo mundo usa na internet. O segredo está em construir uma estratégia modelada exclusivamente para a captação de recursos via editais. Se as exigências de quem financia mudaram, a forma como as ONGs planejam seus projetos precisa evoluir na mesma velocidade. É exatamente por isso que nasceu o Captação com Causa. Esse projeto, que tem duração de 18 meses, e é uma iniciativa da Fundação FEAC com apoio do Instituto Phomenta, tem um objetivo bem prático: foram selecionadas 10 organizações sociais de Campinas, que após formações, passam a utilizar uma plataforma de IA totalmente customizada para o terceiro setor. Por que focar em IA para buscar recursos? O que move esse projeto é uma ferida antiga das ONGs: o maior problema das organizações brasileiras hoje não é a falta de editais. As oportunidades estão publicadas por aí, na internet. O verdadeiro desafio das equipes, que quase sempre são enxutas, está em quatro passos básicos da rotina: Saber exatamente o que procurar para não aceitar qualquer dinheiro e acabar desviando da própria missão; Conseguir filtrar quais oportunidades realmente valem a pena e fazem sentido; Criar o hábito de buscar recursos de forma constante, e não só quando o caixa aperta; Transformar esse monte de informação em dinheiro no bolso para manter os projetos de pé. Escrever um projeto para um edital é complexo. Os formulários exigem justificativas profundas, orçamentos detalhados e até análise de riscos. Para equipes que já passam o dia se desdobrando no atendimento direto às comunidades, a IA entra como copiloto. Ela assume o trabalho mecânico de escrever e revisar textos, devolvendo para o captador o que ele tem de mais escasso: tempo para pensar na estratégia. Mas… como não deixar o texto com cara de robô? As ferramentas gratuitas que vemos por aí costumam "alucinar", que é o termo técnico para quando a IA inventa dados falsos ou cria argumentos superficiais simplesmente porque ela não conhece a realidade da sua ONG. Para blindar os projetos contra esse erro, o Captação com Causa ajuda as organizações a criarem um ambiente protegido e seguro, alimentando a inteligência artificial com a identidade real da instituição. Esse treino consiste em criar um perfil superdetalhado dentro do sistema, incluindo: O histórico da organização e as causas que ela defende; A região onde ela atua e o perfil das pessoas que ela atende; Dados locais e o impacto real que ela já gera no território. Quanto mais rico e detalhado for esse perfil, mais a IA se transforma em uma assistente exclusiva da causa. A partir daí, a máquina passa a escrever falando a mesma língua do financiador. Ela aprende a usar os termos técnicos que os avaliadores de editais procuram, cruza as palavras-chave exigidas e ajuda a encaixar a história da sua comunidade dentro das metas do orçamento. Falando a linguagem de quem investe Hoje em dia, as empresas e institutos que financiam projetos sociais mudaram a forma de avaliar as propostas. Eles não olham mais apenas para o número bruto de pessoas atendidas; eles querem ver o valor real do impacto gerado. Por isso, o projeto treina a IA para usar uma métrica chamada SROI (Retorno Social sobre o Investimento) . Para se ter uma ideia de como isso funciona: pesquisas do setor mostram que, para cada R$ 1 investido em projetos sociais por meio de incentivos fiscais no Brasil, cerca de R$ 7,59 retornam em benefícios reais para a sociedade e para a economia. Quando a IA é ensinada a cruzar os dados públicos da sua cidade (como pesquisas do IBGE) com o histórico de entregas da sua ONG, ela ajuda a provar matematicamente o valor do seu trabalho. O seu projeto deixa de parecer um "custo" para o investidor e passa a ser visto como um investimento seguro e transformador. O que muda na prática para as organizações? Com esse método bem aplicado, as inovações que as ONGs podem esperar mudam completamente o jogo da captação: Fim do desespero de última hora: A organização sai daquele modelo de correr atrás de edital na véspera do vencimento e passa a ter uma rotina organizada e previsível; Propostas sem erros bobos: Os projetos ficam muito mais robustos, diminuindo drasticamente as reprovações por preenchimento incompleto, metas vagas ou erros de orçamento; Mais confiança dos financiadores: Uma ONG que consegue provar seu impacto com dados seguros conquista a confiança de grandes investidores e garante sua sustentabilidade no longo prazo. Quer saber mais sobre captação estratégica e tecnologia? Aproveite para conferir nossos outros textos sobre sustentabilidade financeira e inteligência artificial no terceiro setor: O perigo do "dinheiro a qualquer custo": não deixe a procura por editais desvirtuar a sua missão: Entenda como a urgência para acessar editais sem alinhamento prévio pode desvirtuar a missão institucional da sua OSC e saiba como selecionar financiadores que respeitem os seus valores reais. Por que sua estratégia de captação precisa de IA (urgente)?: Conheça os dados oficiais sobre a sobrecarga dos captadores de recursos no Brasil e descubra por que a inteligência artificial virou uma ferramenta de infraestrutura obrigatória para criar rotinas eficientes.
Por Instituto Phomenta 4 de julho de 2026
Você com certeza já viveu essa cena: o processo de seleção de voluntários foi um sucesso, a reunião de integração é melhor ainda e todo mundo sai motivado. Duas semanas depois, metade do grupo some sem dar notícias, os e-mails ficam sem resposta e, na hora daquela ação crucial, a coordenação precisa se desdobrar porque metade dos confirmados cancelou em cima da hora. Se a rotina da sua ONG parece um eterno ciclo de recrutar pessoas para cobrir o desfalque das anteriores, saiba que você não está só. Manter voluntários conectados a uma causa a longo prazo é um dos maiores desafios de gestão no Terceiro Setor. Para entender o tamanho do problema, basta olhar para o cenário nacional. Os dados da Pesquisa Voluntariado no Brasil, realizada pelo IDIS/Datafolha (2021) afirmam que, dos 57 milhões de brasileiros e brasileiras que realizam ou já realizaram trabalhos voluntários, apenas 12% fazem ações regularmente. Ainda de acordo com a pesquisa, embora o desejo de fazer o bem seja alto no país, entre os voluntários insatisfeitos e menos entusiasmados aparece a falta de motivação e de apoio/recursos, como fatores que trazem desengajamento.
Por Instituto Phomenta 25 de junho de 2026
Manter uma Organização da Sociedade Civil (OSC) de portas abertas no Brasil é um desafio diário de sobrevivência. Historicamente, a sustentabilidade financeira é o maior gargalo do terceiro setor, mas, frente ao montante de trabalho e às obrigações do dia a dia, ainda não conseguimos olhar para ela de forma estratégica. Assim, tratamos a busca por recursos como um evento de última hora, e não como um processo diário. Os dados do setor desenham um cenário alarmante sobre a estrutura das organizações brasileiras. Segundo a pesquisa da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR)*, 37% dos respondentes apontam como a maior dificuldade da captação a necessidade de dividir o tempo com outras demandas da instituição. Na maioria dos casos, a função é acumulada pela diretoria ou por técnicos que já estão sobrecarregados com a operação na ponta. O resultado é um ciclo vulnerável, especialista em "apagar incêndios": uma corrida desesperada contra o tempo para preencher formulários complexos apenas quando o caixa já entrou no vermelho. Diante dessa escassez crônica de tempo, a Inteligência Artificial (IA) passou a ser uma ferramenta de infraestrutura obrigatória para viabilizar a sustentabilidade institucional, mas poucas organizações ainda sabem como usá-la. A maioria das ONGs usa IA sem estratégia A rotina ideal de captação exige monitoramento constante do mercado, leitura minuciosa de editais, adequação técnica de propostas e relatórios rigorosos de prestação de contas. Mas você leu bem: ideal . Não é o que temos à mão no dia a dia. Para equipes enxutas, a IA se tornou o caminho para assumir essa carga operacional. Na captação de recursos, a máquina atua — ou deveria atuar — como um copiloto técnico: fazendo a triagem de diretrizes complexas e adaptando a linguagem de projetos para diferentes perfis de financiadores, devolvendo ao profissional o tempo necessário para pensar estrategicamente. Porém, de acordo com o levantamento do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) , feito com mais de 1,5 mil organizações, 62% assumem que ainda estão em um estágio baixo ou inexistente de adoção de IA. Vivemos em uma constante urgência para adotar a tecnologia, mas o pouco background gerou um uso amador e desordenado. Um mapeamento recente conduzido também pelo IDIS com mais de 500 entidades revelou que 95% das organizações sociais utilizam IA sem qualquer política ou orientação formal, e 75% dependem exclusivamente de ferramentas gratuitas de mercado. O risco aqui é que, com a soma da pouca estratégia e da falta de substância, as ONGs só consigam gerar, por meio da IA, propostas superficiais e desconectadas da realidade do território. São materiais incipientes, que podem levar à desclassificação imediata dos projetos pelos avaliadores dos editais. Como usar a IA a seu favor? Como resposta direta a esse cenário de equipes sobrecarregadas e necessidade de profissionalização tecnológica, a Fundação FEAC, com apoio do Instituto Phomenta, estruturou o projeto Captação com Causa. A iniciativa de 18 meses foi desenhada justamente para aplicar a IA como uma solução de sustentabilidade em 10 OSCs selecionadas de Campinas. Para combater o uso desordenado e a dependência de plataformas gratuitas apontados pelas pesquisas, o programa introduz no dia a dia das instituições bots customizados e programados especificamente para o contexto do terceiro setor. Em vez de soluções genéricas, as organizações ganham um sistema que filtra editais de forma preditiva e qualifica a escrita técnica das propostas, reduzindo drasticamente o tempo gasto na formatação dos projetos. O foco principal do projeto, que conta com um match funding de R$ 100 mil, é estruturar a captação como uma rotina viável. Por meio de assessoramentos individuais e coletivos, o programa prepara os profissionais para utilizarem a IA com postura crítica, garantindo que a tecnologia trabalhe a serviço da estratégia humana. Ao transformar a tecnologia em uma aliada, o Captação com Causa mira na mobilização de R$ 800 mil entre as participantes e na comprovação de que, com o método correto, a captação de recursos pode deixar de ser um susto sazonal e se tornar uma estratégia previsível, perene e sustentável. Quer saber mais sobre o Captação com Causa? Confira nosso último artigo! *Fonte: Censo ABCR
Por Instituto Phomenta 11 de junho de 2026
Nem todo edital é uma oportunidade. Entenda os riscos do desvio de missão e como captar recursos de forma estratégica.
Por Jaice Balduino 1 de junho de 2026
O doador brasileiro está mudando: mais seletivo, exigente e orientado por impacto. Descubra o que as organizações sociais precisam oferecer para conquistar e fidelizar quem doa no cenário atual.
Por Instituto Phomenta 26 de maio de 2026
Quem está no dia a dia da gestão de uma ONG conhece bem o dilema: a gente passa tanto tempo cuidando dos projetos e atendendo a ponta que a nossa própria estrutura vai ficando para trás. Já diz o ditado: “em casa de ferreiro…”. Nosso financeiro roda no limite, a equipe fica sobrecarregada, os processos são travados e a liderança vive exausta. A verdade é que a gente se acostumou a operar no modo de sobrevivência. Então, que tal dar um passo para trás e avaliar o todo? Durante o FIFE 2026, o sociólogo Domingos Armani trouxe uma provocação que cutucou feridas necessárias. Ele alertou que muitas organizações ainda insistem em carregar crenças e estigmas que funcionam como mapas obsoletos. Só que, o grande problema de usar um mapa velho é que o mundo mudou, e o desenho antigo já não bate com o terreno real de hoje. Insistir na ideia de que investir na própria estrutura é "gastar dinheiro que deveria ir para o projeto" é um desses mapas velhos que precisamos rasgar. Fortalecer a casa, o chamado Desenvolvimento Institucional (DI), é o que garante que a ONG continue existindo e gerando impacto no longo prazo. E essa mudança de mentalidade muda tudo, inclusive o jeito de captar recursos. Mudar a postura para financiar a sua estratégia Captar recursos para o Desenvolvimento Institucional, ou seja para estruturar a gestão, investir em tecnologia e manter o time funcionando, exige parar de pedir dinheiro apenas para o "projeto da vez". No painel da Plataforma Conjunta, ainda no FIFE, o debate girou em torno de como virar essa chave diante dos financiadores. Para ajudar a avaliar como a sua organização está se posicionando, montamos um checklist prático com os principais aprendizados da mesa: Checklist de postura para o fortalecimento da ONG [ ] Você se explica pela estratégia ou pelo portfólio? Quando vai conversar com um parceiro, você gasta todo o tempo listando as oficinas da semana ou apresenta primeiro a missão e a visão de futuro da organização? Grandes parceiros querem financiar o futuro da sua causa, não apenas uma ação pontual. [ ] Você sabe compartilhar vulnerabilidades? Se a sua organização fosse perfeita e não tivesse nenhum problema de gestão, ela não precisaria de apoio. Fale da sua vulnerabilidade, mas com estratégia. Acompanha o próximo ponto! [ ] O desafio vem acompanhado de uma solução? Mostrar os pontos fracos da gestão para o parceiro só funciona se você já apresentar a rota para resolver o problema. A vulnerabilidade precisa vir colada com a sua capacidade de planejamento. [ ] O estigma da escassez foi abandonado? A gestão já superou a velha crença de que o Terceiro Setor precisa trabalhar sofrendo, com ferramentas defasadas e computadores lentos? Modernizar a estrutura interna é uma decisão de eficiência, não um luxo. Saiba que você pode merece e precisa de estrutura. Modernizar para não parar no caminho Se os mapas antigos não funcionam mais, o papel de quem gere é desenhar novas rotas. Olhar para o Desenvolvimento Institucional serve para dar musculatura para a organização. Quando paramos de “vender o almoço para pagar o jantar” e começamos a financiar a nossa própria estratégia, a ONG ganha a sustentabilidade que precisa para transformar a realidade na ponta de forma estruturada e contínua.
mostrar mais

Participe do nosso grupo no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão

Entrar para o grupo