Terapia: quando é hora de pedir ajuda?

16 de fevereiro de 2023

Este conteúdo foi produzido por Sara Dias


Sempre me pego pensando nos motivos que nos levam a trabalhar no terceiro setor. Sei que poderia estender essa pergunta para todas as profissões existentes e no porquê escolhemos nos relacionar com elas, porém, acredito que estar no setor de impacto social envolve algumas peculiaridades. 


Vou citar, como exemplo, o altruísmo. Essa característica, que nos faz instintivamente nos preocuparmos com o outro, é muito latente em nós, ela nos faz sairmos de nossas rotinas particulares e nos envolver em causas que podem transformar nossa sociedade, que podem gerar grandes impactos. Podemos citar também a solidariedade, a empatia, a generosidade e o ímpeto de doar. Doação de tempo, de atenção, de recursos, etc.


Agora, dentre tantos aspectos positivos, podemos encontrar alguns que nem sempre trabalham a nosso favor. O autossacrifício é um deles. Ele nos faz colocar um foco excessivo em outras necessidades que não as nossas. Nos faz também ter uma autoimagem de força, quase inabalável, permitindo que não estejamos abertos para pausas, para divisão de tarefas ou pedido de ajuda.


O fato é que somos humanos, não super-heróis. Adoecemos, ficamos deprimidos, temos medos e ansiedades. Precisamos reconhecer nossos limites e escutá-los.


Por muito tempo, a ideia de recorrer a um profissional da área da saúde mental, quando as emoções não iam tão bem, como terapeutas, psicoterapeutas e psiquiatras, era um grande tabu. Havia um mito (e eu ouso dizer que ainda há) de que quem buscava terapia era louco, insano, e provavelmente, estava prestes a ser internado em um hospital psiquiátrico, mais conhecido como manicômio.


Aos poucos essas crenças vêm sendo transformadas e têm tornado a psicoterapia mais próxima e acessível. Isso tem possibilitado um acompanhamento que vai além do tratamento de transtornos graves, como a depressão e ansiedade, mas sim, na prevenção de um esgotamento de nossas forças.


A terapia é uma ferramenta que, por meio do autoconhecimento, pode nos ajudar a compreender nossos sentimentos e emoções. Pode também nos auxiliar a passar por momentos difíceis como luto, separações e conflitos nas relações, nos capacitando a lidar com essas questões da melhor forma possível.


Para Carl Jung, o principal objetivo da terapia psicológica "não é transportar o paciente para um impossível estado de felicidade, mas sim, a ajudá-lo a adquirir firmeza e paciência diante do sofrimento. A vida acontece num equilíbrio entre a alegria e a dor". 


Não há técnica ou receita que nos garanta a felicidade plena, nem mesmo o sentimento de satisfação perante a vida, porém, há caminhos que podem tornar nossa caminhada mais leve, e a terapia é uma delas.


Cito neste texto o psicoterapeuta e psiquiatra Jung, criador da abordagem Junguiana de terapia analítica, porém há inúmeros tipos de profissionais e metodologias que desenvolvem ferramentas como a autoconsciência, resolução de conflitos, descoberta vocacional, superação de traumas, etc. Dentre os profissionais que podem facilitar esses processos estão: psicólogos, psicanalistas, psiquiatras, terapeutas e coaches. Podemos escolher o que mais nos identificamos, não precisamos lidar com tudo sozinhos.


O trabalho interior é um processo contínuo, complexo e evolutivo, mas, uma vez iniciado, irradia por onde passamos e atuamos. Jung, assim afirma, dizendo que: "Conhecer a sua própria escuridão é o melhor método para lidar com as trevas das outras pessoas". E se há um lugar onde lidamos com pessoas, é o terceiro setor.


O empenho individual é imprescindível para o desenvolvimento de um processo terapêutico, contudo, sigo defendendo que, apoio ou suporte psicológico, para trabalhadores do terceiro setor, também é uma questão a ser priorizada pela Gestão de Pessoas. Quando raramente vemos um terapeuta inserido no contexto das ONGs, normalmente ele está inserido em um programa de atendimento ao público atendido por ela e seus familiares. Mas e o cuidado com quem cuida, onde fica?


Esse tema já tem sido priorizado há algum tempo por iniciativas como o The Wellbeing Project - cocriação da Fundação ASHOKA em parceria com a Esalen, do Impact Hub, da Porticus, da Skoll Foundation e da Synergos - que desde 2014 trabalham para “catalisar uma cultura de bem-estar interior para todos os agentes de mudança”. 


Em uma pesquisa desenvolvida pelo mesmo projeto, em 2017, com mais de 250 agentes de mudanças recrutados, eles relatam: “Aprendemos que era universalmente difícil para os respondentes se distanciar de seu trabalho por se identificarem intimamente com suas funções e por sentirem que trabalhar demais era ainda considerado um distintivo de honra dentro do setor. Também ficou claro que as organizações e o setor em geral desempenhavam um papel significativo ao possibilitar uma cultura que apoiava ou rejeitava seu bem-estar interior”. 


Enquanto essa revolução gerencial, a favor do bem-estar no terceiro setor, não se faz a larga escala, seguimos com nossa autoanálise, nossa escuta sensível, quanto ao que nossa saúde mental está nos dizendo, e se for necessário, admitirmos que precisamos de ajuda, e também de pausas e de descanso.



Sara Dias é Prof.ª Mestra em Artes da Cena pela UNICAMP e Instrutora de Yoga, atua como educadora social desde 2006 e atualmente desenvolve projetos relacionados ao bem-estar no terceiro setor. 



Contato: saradias.ds@gmail.com


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Escrever um projeto para um edital é complexo. Os formulários exigem justificativas profundas, orçamentos detalhados e até análise de riscos. Para equipes que já passam o dia se desdobrando no atendimento direto às comunidades, a IA entra como copiloto. Ela assume o trabalho mecânico de escrever e revisar textos, devolvendo para o captador o que ele tem de mais escasso: tempo para pensar na estratégia. Mas… como não deixar o texto com cara de robô? As ferramentas gratuitas que vemos por aí costumam "alucinar", que é o termo técnico para quando a IA inventa dados falsos ou cria argumentos superficiais simplesmente porque ela não conhece a realidade da sua ONG. Para blindar os projetos contra esse erro, o Captação com Causa ajuda as organizações a criarem um ambiente protegido e seguro, alimentando a inteligência artificial com a identidade real da instituição. Esse treino consiste em criar um perfil superdetalhado dentro do sistema, incluindo: O histórico da organização e as causas que ela defende; A região onde ela atua e o perfil das pessoas que ela atende; Dados locais e o impacto real que ela já gera no território. Quanto mais rico e detalhado for esse perfil, mais a IA se transforma em uma assistente exclusiva da causa. A partir daí, a máquina passa a escrever falando a mesma língua do financiador. Ela aprende a usar os termos técnicos que os avaliadores de editais procuram, cruza as palavras-chave exigidas e ajuda a encaixar a história da sua comunidade dentro das metas do orçamento. Falando a linguagem de quem investe Hoje em dia, as empresas e institutos que financiam projetos sociais mudaram a forma de avaliar as propostas. Eles não olham mais apenas para o número bruto de pessoas atendidas; eles querem ver o valor real do impacto gerado. 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Aproveite para conferir nossos outros textos sobre sustentabilidade financeira e inteligência artificial no terceiro setor: O perigo do "dinheiro a qualquer custo": não deixe a procura por editais desvirtuar a sua missão: Entenda como a urgência para acessar editais sem alinhamento prévio pode desvirtuar a missão institucional da sua OSC e saiba como selecionar financiadores que respeitem os seus valores reais. Por que sua estratégia de captação precisa de IA (urgente)?: Conheça os dados oficiais sobre a sobrecarga dos captadores de recursos no Brasil e descubra por que a inteligência artificial virou uma ferramenta de infraestrutura obrigatória para criar rotinas eficientes.
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Você com certeza já viveu essa cena: o processo de seleção de voluntários foi um sucesso, a reunião de integração é melhor ainda e todo mundo sai motivado. Duas semanas depois, metade do grupo some sem dar notícias, os e-mails ficam sem resposta e, na hora daquela ação crucial, a coordenação precisa se desdobrar porque metade dos confirmados cancelou em cima da hora. Se a rotina da sua ONG parece um eterno ciclo de recrutar pessoas para cobrir o desfalque das anteriores, saiba que você não está só. Manter voluntários conectados a uma causa a longo prazo é um dos maiores desafios de gestão no Terceiro Setor. Para entender o tamanho do problema, basta olhar para o cenário nacional. Os dados da Pesquisa Voluntariado no Brasil, realizada pelo IDIS/Datafolha (2021) afirmam que, dos 57 milhões de brasileiros e brasileiras que realizam ou já realizaram trabalhos voluntários, apenas 12% fazem ações regularmente. Ainda de acordo com a pesquisa, embora o desejo de fazer o bem seja alto no país, entre os voluntários insatisfeitos e menos entusiasmados aparece a falta de motivação e de apoio/recursos, como fatores que trazem desengajamento.
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Manter uma Organização da Sociedade Civil (OSC) de portas abertas no Brasil é um desafio diário de sobrevivência. Historicamente, a sustentabilidade financeira é o maior gargalo do terceiro setor, mas, frente ao montante de trabalho e às obrigações do dia a dia, ainda não conseguimos olhar para ela de forma estratégica. Assim, tratamos a busca por recursos como um evento de última hora, e não como um processo diário. Os dados do setor desenham um cenário alarmante sobre a estrutura das organizações brasileiras. Segundo a pesquisa da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR)*, 37% dos respondentes apontam como a maior dificuldade da captação a necessidade de dividir o tempo com outras demandas da instituição. Na maioria dos casos, a função é acumulada pela diretoria ou por técnicos que já estão sobrecarregados com a operação na ponta. O resultado é um ciclo vulnerável, especialista em "apagar incêndios": uma corrida desesperada contra o tempo para preencher formulários complexos apenas quando o caixa já entrou no vermelho. Diante dessa escassez crônica de tempo, a Inteligência Artificial (IA) passou a ser uma ferramenta de infraestrutura obrigatória para viabilizar a sustentabilidade institucional, mas poucas organizações ainda sabem como usá-la. A maioria das ONGs usa IA sem estratégia A rotina ideal de captação exige monitoramento constante do mercado, leitura minuciosa de editais, adequação técnica de propostas e relatórios rigorosos de prestação de contas. Mas você leu bem: ideal . Não é o que temos à mão no dia a dia. Para equipes enxutas, a IA se tornou o caminho para assumir essa carga operacional. Na captação de recursos, a máquina atua — ou deveria atuar — como um copiloto técnico: fazendo a triagem de diretrizes complexas e adaptando a linguagem de projetos para diferentes perfis de financiadores, devolvendo ao profissional o tempo necessário para pensar estrategicamente. Porém, de acordo com o levantamento do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) , feito com mais de 1,5 mil organizações, 62% assumem que ainda estão em um estágio baixo ou inexistente de adoção de IA. Vivemos em uma constante urgência para adotar a tecnologia, mas o pouco background gerou um uso amador e desordenado. Um mapeamento recente conduzido também pelo IDIS com mais de 500 entidades revelou que 95% das organizações sociais utilizam IA sem qualquer política ou orientação formal, e 75% dependem exclusivamente de ferramentas gratuitas de mercado. O risco aqui é que, com a soma da pouca estratégia e da falta de substância, as ONGs só consigam gerar, por meio da IA, propostas superficiais e desconectadas da realidade do território. São materiais incipientes, que podem levar à desclassificação imediata dos projetos pelos avaliadores dos editais. Como usar a IA a seu favor? Como resposta direta a esse cenário de equipes sobrecarregadas e necessidade de profissionalização tecnológica, a Fundação FEAC, com apoio do Instituto Phomenta, estruturou o projeto Captação com Causa. A iniciativa de 18 meses foi desenhada justamente para aplicar a IA como uma solução de sustentabilidade em 10 OSCs selecionadas de Campinas. Para combater o uso desordenado e a dependência de plataformas gratuitas apontados pelas pesquisas, o programa introduz no dia a dia das instituições bots customizados e programados especificamente para o contexto do terceiro setor. Em vez de soluções genéricas, as organizações ganham um sistema que filtra editais de forma preditiva e qualifica a escrita técnica das propostas, reduzindo drasticamente o tempo gasto na formatação dos projetos. O foco principal do projeto, que conta com um match funding de R$ 100 mil, é estruturar a captação como uma rotina viável. Por meio de assessoramentos individuais e coletivos, o programa prepara os profissionais para utilizarem a IA com postura crítica, garantindo que a tecnologia trabalhe a serviço da estratégia humana. Ao transformar a tecnologia em uma aliada, o Captação com Causa mira na mobilização de R$ 800 mil entre as participantes e na comprovação de que, com o método correto, a captação de recursos pode deixar de ser um susto sazonal e se tornar uma estratégia previsível, perene e sustentável. Quer saber mais sobre o Captação com Causa? Confira nosso último artigo! *Fonte: Censo ABCR
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