Avaliação social: precisamos avançar com as ferramentas de prateleira

14 de julho de 2025

Em projetos sociais os resultados estão quase sempre associados a resultados intangíveis, subjetivos e abstratos, como por exemplo: crianças saudáveis, adolescentes com autoconfiança, autoestima de idosos, jovens capacitados para o mercado de trabalho, comunidade engajada, famílias ajustadas, empreendedores bem-sucedidos, e por aí vai… Alcançar esses resultados intermediários são etapas necessárias e imprescindíveis que vão contribuir para o alcance do impacto final pretendido de transformação na vida das pessoas atendidas. 


O problema é que até hoje no Brasil ainda não se tem clareza metodológica sobre como medir esses conceitos tão amplamente adotados na área social, que seja confiável e capaz de captar (ser sensível a) os avanços conseguidos. Então, se não há essa clareza – e aqui me refiro sobretudo à grande maioria das organizações do terceiro setor – como conseguir PLANEJAR bem os projetos sociais?  


Ou seja, como explicitar O QUE queremos mudar? E como saber depois se o que fizemos conseguiu, de fato, chegar AONDE queríamos, ou seja, AVALIAR se as iniciativas conduzidas foram válidas, eficazes e eficientes? 

Medição compartilhada: uma prática que deveria ganhar força no Brasil 


No Reino Unido e EUA desde 2003  – No Reino Unido vêm sendo envidados esforços por organizações think-tanks  (como a New Philanthropy Capital – NPC, ou a Triangle /Outcomes Star)  e nos Estados Unidos (FSG) para construírem sistemas de indicadores “de prateleira” (do inglês, off-the-shelftools) que possam ser compartilhados por organizações do terceiro setor (charities or NGOs – Non-Governmaental Organisations). 


No Reino Unido, organizações sociais trabalhando em uma mesma área-fim (por exemplo, educação de adolescentes em situação de vulnerabilidade) foram se unindo, capitaneadas por alguma organização think-tank como a NPC, para desenvolverem um sistema comum de avaliação de resultados. Nesse sentido, os conceitos abstratos relacionados a objetivos de resultados (por exemplo: autoestima), adotados por organizações trabalhando com públicos semelhantes, foram sendo operacionalizados nos mesmos indicadores ou escalas. 


Feita a operacionalização dos conceitos, as demais ferramentas para medição também começaram a ser desenvolvidas em comum, através do apoio de uma equipe especializada, tais como a construção dos questionários, a estratégia para a sua aplicação, o sistema de base de dados (que pode ser online) e o referencial para análise dos dados coletados. 

No Brasil, no período em que atuei (2011 – 2016) no Programa da POS (Parceria com Organizações Sociais) da Fundação Dom Cabral – FDC (hoje denominado Pilaris), quis começar a difundir essa ideia das ferramentas de prateleira (Avaliação de projetos sociais no terceiro setor: uma agenda em construção, seção IV), mas percebi que o terreno precisava antes ser melhor trabalhado. 


Por isso, no Manual que desenvolvi para apoiar o trabalho com as organizações participantes do Programa (Manual de Planejamento e Avaliação de Projetos Sociais para Organizações Sociais), comecei a incluir alguns instrumentos que pudessem funcionar como “ferramentas de prateleira”. Esses instrumentos vinham de três fontes: conceitos abstratos que já tinham sido traduzidos para a prática e validados; experiências de monitoramento com algumas dessas organizações; ou ainda, foram criados durante as avaliações de projetos sociais que conduzi. 


Para ilustrar melhor a ideia, aqui estão alguns exemplos de instrumentos incluídos no Manual: 


  • Conceito: autoestima (escala de Rosenberg), pág. 40-42 do Manual 
  • Conceito: impulsividade de adolescentes (escala de Barrat), p.66 
  • Conceito: ser cuidadoso com o meio-ambiente / Avaliação de projeto de apicultura (pág. 67-68) 
  • Conceito: bem-estar de crianças e adolescentes, entre 11-16 anos (NPC), Pág. 197-205 
  • Marco lógico: projeto de qualificação digital, Instituto Ramacrisna (pág. 207-210) 
  • Questionário: Preparação de jovens (16-18 anos) para inserção no mercado de trabalho, Associação Projeto Providência (pág. 226 – 230) 


A intenção de compartilhar esses instrumentos no Manual foi oferecer inspiração e facilitar o trabalho de planejamento e avaliação em organizações que atuam com projetos sociais semelhantes, ajudando, assim, a “queimar etapas” e avançar com mais agilidade nesse processo. 

Medição compartilhada: o caso da ferramenta Outcomes Star 


Como surgiu?  Outcomes Star (traduzido ao pé da letra: Estrela de Resultados) é uma ferramenta para medir e apoiar as mudanças / resultados, que foi criada e desenvolvida pela Triangle Consulting Social Enterprise  do Reino Unido. A Triangle, fundada em 2003, se define como “uma empresa inovadora, guiada por uma missão social que é a de apoiar os provedores de serviços sociais a transformarem vidas de pessoas vivendo em situação de vulnerabilidade social, traumas, deficiências ou doenças, por meio da criação e o uso correto de ferramentas que engajem e promovam abordagem facilitadoras”. 


A primeira versão do Outcomes Starcomeçou como uma demanda  (em 2003) da St Mungo`s, uma organização social voltada para o atendimento de moradores de rua, que queria avaliar os resultados do seu trabalho. A ferramenta acabou ganhando tração a partir da constatação de sua aplicabilidade também junto a outras organizações do Reino Unido que atendiam moradores de rua. Foi quando a Triangle, então, avançou naquele protótipo inicial, por meio do desenvolvimento da chamada “jornada da mudança” (do inglês, the Journey of change), das escalas de medição adequadas tanto para os usuários dos serviços (ou clientes) como para os provedores do serviço (ou colaboradores dessas organizações executoras), e do Guia com as orientações para a implementação do instrumento. Assim, em dezembro de 2016 surgia a primeira versão da Outcomes Star, com o foco em moradores de rua. 


O que é a ferramenta? Conforme explicado no site, cada versão da Outcomes Star compreende um conjunto de escalas apresentadas de modo amigável e acessível em formato de uma estrela (figura), em que cada escala (ou cada ponta da estrela) representa uma dimensão relevante do resultado pretendido.  Cada escala é explicitada em estágios (que podem ser 5 ou 10), sendo cada estágio cuidadosamente definido, de modo a caracterizar cada uma das etapas necessárias para promover a mudança sustentável na vida das pessoas atendidas.  A ideia é que a ferramenta seja aplicada pela equipe da organização com cada usuário do serviço, desse modo permitindo visualizar e analisar com clareza a “jornada da mudança”: onde se está no percurso, os resultados alcançados (e os não alcançados), e as evidências do que precisa ser trabalhado. 


Feitas sob medida para diferentes setores sociais, as versões da Outcomes Star são desenvolvidas em colaboração com os usuários dos serviços e os prestadores dos serviços nas organizações sociais executoras. No Reino Unido a ferramenta já é adotada tanto em organizações filantrópicas (as “charities”) como em órgãos do governo, sejam eles locais ou nacionais, como também em outros países da Europa, Ásia e também na Austrália e Estados Unidos 


Para se ter uma ideia sobre a composição de cada versão da Outcomes Star, recomendo uma visita à página do site “Preview the Stars Resources” que  apresenta uma demonstração (em inglês, preview) dos recursos da ferramenta para cada uma das diferentes versões. Por exemplo, a versão do Work Star (Star “Trabalho e Emprego”) já está em sua 3ª edição, haja vista as atualizações e melhoramentos feitos no instrumento. Essa versão conta com  o demonstrativo  do Guia do usuário (User Guide preview), onde estão listadas as 7 dimensões ou escalas contempladas no setor Trabalho e Emprego, sendo apresentadas algumas dessas escalas adotadas, vale a pena olhar para entender melhor como a ferramenta é estruturada!. 


Já no demonstrativo do Guia para a equipe executora (Guidance for Workers preview) estão dadas as orientações para a aplicação do instrumento. 


Estágio da ferramenta - Atualmente existem mais de 50 versões publicadas da ferramenta Outcomes Star para diferentes setores de atuação social, tais como: 


  • Educação; 
  • Trabalho e emprego; 
  • Famílias e crianças;
  • Jovens; 
  • Saúde; 
  • Moradia e sem-teto;
  • Comunidade; 
  • Uso de drogas; 
  • Saúde mental; 
  • Refugiados;
  • Justiça criminal;
  • Abuso doméstico;
  • Desastres naturais;
  • Forças armadas e veteranos;
  • Cuidadores de adultos e;
  • Autismo /TDAH. 


A Outcomes Star é uma ferramenta em constante evolução, sempre em colaboração com organizações executoras dos serviços sociais, universidades, instituições especializadas, e financiadores. 


Como interagir com a ferramenta? Basicamente há duas maneiras. Primeiro, na condição de organização colaboradora no desenvolvimento de uma nova versão da Outcomes Star. Isto ocorre quando a organização social percebe a necessidade de um novo instrumento para orientar a condução do seu trabalho, que ainda não existe na “prateleira” das (versões da Outcomes Star.  Daí essa organização pode colaborar com a Triangle na co-criação ativa do novo instrumento,  por meio de financiamento direto ou via captação de recursos. 
 

A segunda maneira de interagir é na condição de organização usuária da ferramenta. Como a Triangle é detentora dos direitos autorais da ferramenta, é preciso que a organização adquira a licença de uso.A equipe Triangle é enfática em recomendar que, antes de mais nada, é fundamental que a organização social identifique, primeiro, se a abordagem da ferramenta Outcomes Star  é adequada ao trabalho que a organização social realiza. Só depois, buscar identificar qual(is) das versões disponíveis da “família” Outcomes Star pode (m) ser aplicada(s) ao seu serviço / projeto.  


Para que o uso de qualquer versão da  Outcomes Star faça sentido, é importante que a organização atenda a cinco condições (ou necessidades de gestão). Essas condições são fundamentais para que a ferramenta realmente traga resultados e seja aplicada de forma eficaz: 


  1. Se a organização precisa ter um acompanhamento regular e individual dos usuários do serviço / projeto; 
  2.  Se a organização precisa medir resultados / avanços como parte de um serviço / projeto em andamento, ao invés de pesquisas ocasionais; 
  3. Se a organização precisa medir progresso em diferentes dimensões (as pontas da Star); 
  4. Se a organização precisa medir resultados ao longo da “jornada da mudança”, e não apenas ao seu final; 
  5.  Se a organização precisa usar os dados coletados para aprender e melhorar o serviço prestado. 


Desafio: por que não desenvolver um sistema (parecido) Outcomes Star para o Brasil? 


Quem olha superficialmente tende a pensar que Outcomes Star representa um conjunto de conceitos abstratos, que correspondem aos diferentes resultados pretendidos em projetos sociais, que foram tangibilizados e devidamente validados. E que estão na “prateleira” da Triangle, prontos para serem “consumidos”, ou utilizados, por organizações do terceiro setor cujos projetos sociais tenham objetivos de resultado semelhantes.   


Se fosse apenas isso, já seria de grande utilidade para as organizações sociais no Brasil, pois o instrumento poderia ser aplicado pelo menos em dois momentos: antes do início do projeto (momento zero) e ao final dele. Assim, seria possível medir os efeitos diretos do projeto sobre os usuários, observando mudanças em atitudes, percepções ou comportamentos. 


A ferramenta Outcomes Star vai além de simplesmente tornar conceitos abstratos mais aplicáveis. A proposta da Triangle é oferecer um apoio completo às organizações sociais, ajudando a identificar a versão da ferramenta mais adequada (ou mesmo se nenhuma versão se aplica), orientar sobre como utilizá-la na prática e como organizar as informações geradas para melhorar o planejamento e a prestação de contas aos diferentes públicos de interesse. Ou seja, a ferramenta Outcomes Star pretende ser um sistema abrangente de apoio à organização social, para que ela possa se concentrar em sua atividade-fim, que é a de atender aos seus usuários sempre com o foco em resultados. 


Então, bastaria que as organizações sociais NO BRASIL comprassem os direitos de uso das diferentes versões da Outcomes Star que lhes fossem adequadas, fizessem a tradução para português, tudo sob a supervisão on line de uma equipe Triangle? Como, aliás, já vem sendo feito em outros países da Europa, Ásia e também nos Estados Unidos. 


Pode ser. Outra opção é começarmos a construir no Brasilferramentas de avaliação aderentes às especificidades dos projetos sociais no país em seus diferentes setores – como foi a Outcomes Star para o Reino Unido.  Faz sentido? Ou seria “reinventar a roda” em alguns casos, considerando a existência /disponibilidade das várias versões do Outcomes Star? 


Fica, pois, o desafio para avançarmos nessa direção da construção de ferramentas de prateleira de avaliação no Brasil. Um esforço que se mostrará relevante não apenas para nortear o trabalho das organizações do terceiro setor, mas para todo o ecossistema de impacto social, aqui incluído também as organizações com fins lucrativos.  Inclusive, há que se reconhecer que essa caminhada já foi iniciada com a publicação do  Guia de Indicadores da Vitrine de ONGs, pelo Instituto Liga Social em 2021. 



Maria Cecília Prates é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape. Pesquisadora na FGV / IBRE na área social por muitos anos, e depois tem feito monitorias, consultorias, pesquisas em avaliação de projetos sociais e RSC. 

Site: estrategiasocial.com.br 


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O adoecimento mental da população brasileira tem se intensificado nos últimos anos e já se reflete de forma direta no mundo do trabalho. O aumento de afastamentos por transtornos mentais, a ampliação de quadros de ansiedade e a exaustão profissional passaram a ocupar o centro dos debates sobre produtividade, gestão de pessoas e sustentabilidade organizacional. No Terceiro Setor, esse cenário não é diferente — e apresenta contornos ainda mais críticos. Dados da Pesquisa Saúde Mental e Bem-Estar no Terceiro Setor (2023), realizada pelo Instituto Phomenta, revelam que 55% dos profissionais do setor expressam algum nível de preocupação com sua saúde mental e bem-estar. Esse contexto foi debatido no Webinar Tendências para o Terceiro Setor 2026, promovido pelo Instituto Phomenta, que apontou a saúde mental como uma das principais tendências e desafios estruturais para as organizações sociais nos próximos anos. A pesquisa ouviu 842 profissionais, de 214 cidades, em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal. Os dados mostram que o alto comprometimento com a causa convive com estresse constante, sensação de urgência permanente e dificuldade de estabelecer limites entre vida pessoal e trabalho, um paradoxo cada vez mais presente no cotidiano das organizações da sociedade civil. Cuidar de quem cuida Durante muito tempo, o trabalho no Terceiro Setor esteve associado à ideia de propósito como fator de proteção emocional. Os dados da pesquisa indicam que essa narrativa já não se sustenta. Entre os respondentes, 38% classificam sua saúde mental como regular e 17% como ruim, evidenciando um cenário de alerta que afeta tanto profissionais quanto lideranças. O recorte de gênero revela desigualdades importantes. As mulheres, que representam 65% da força de trabalho no Terceiro Setor, são as que expressam maiores níveis de preocupação: 60% relatam algum grau de insatisfação com sua saúde mental e bem-estar, frente a 45% dos homens. Entre os jovens, os índices são ainda mais elevados. Profissionais de 18 a 24 anos e de 25 a 34 anos apresentam os piores indicadores, com 69% e 70%, respectivamente, avaliando sua saúde mental como regular ou ruim. Esses dados foram destacados no Webinar Tendências para o Terceiro Setor 2026 como um sinal de que o setor precisa repensar suas práticas internas se quiser manter equipes engajadas e sustentáveis. A NR-1 e o impacto direto na gestão das organizações Outro ponto central do debate foi a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1). A partir de maio de 2025, organizações com pessoas contratadas sob regime CLT passam a ter a responsabilidade de identificar, prevenir e gerenciar riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Entre os fatores de risco mais recorrentes, a pesquisa da Phomenta aponta: excesso de demandas e tarefas, indicado por 64% dos respondentes como principal fator de estresse; jornadas prolongadas e dificuldade de equilíbrio entre vida pessoal e trabalho; ausência de reconhecimento e suporte institucional; conflitos interpessoais e condições precárias de trabalho. Os efeitos desse modelo aparecem nos sintomas relatados: 77% dos profissionais mencionam ansiedade como um dos principais impactos, e 64% relatam exaustão física. Durante o webinar, foi reforçado que o cumprimento da NR-1, embora necessário, não é suficiente para enfrentar um problema estrutural. O desafio está na revisão das práticas de gestão de pessoas, incluindo distribuição de tarefas, modelos de liderança, processos decisórios e a forma como o cuidado é incorporado, ou negligenciado, na cultura organizacional. Saúde mental como estratégia de sustentabilidade A pesquisa também evidencia que mais de 70% dos respondentes não percebem ações intencionais de suas organizações voltadas à promoção do bem-estar. Esse dado foi amplamente debatido no Webinar Tendências para o Terceiro Setor 2026, que destacou a urgência de transformar o cuidado em estratégia institucional. Entre as organizações que adotam ações voltadas à saúde mental, os profissionais citam iniciativas como atendimento psicológico, espaços de diálogo, formações, flexibilidade no trabalho e momentos de convivência. Ainda assim, esses esforços seguem sendo exceção, e não regra. No Terceiro Setor, cuidar da saúde mental das equipes deixou de ser um tema secundário. Trata-se de uma condição para a permanência das pessoas, para a qualidade do trabalho realizado e para a coerência entre missão institucional e práticas internas. A crise de saúde mental convida o setor a um exercício de autocrítica. Não é possível enfrentar desigualdades externas se, internamente, as relações de trabalho reproduzem exaustão, urgência permanente e invisibilização do cuidado. Em 2026, organizações que colocarem as pessoas no centro da gestão estarão mais preparadas para sustentar seu impacto social no longo prazo. Assista completo:
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