Avaliação social: precisamos avançar com as ferramentas de prateleira

14 de julho de 2025

Em projetos sociais os resultados estão quase sempre associados a resultados intangíveis, subjetivos e abstratos, como por exemplo: crianças saudáveis, adolescentes com autoconfiança, autoestima de idosos, jovens capacitados para o mercado de trabalho, comunidade engajada, famílias ajustadas, empreendedores bem-sucedidos, e por aí vai… Alcançar esses resultados intermediários são etapas necessárias e imprescindíveis que vão contribuir para o alcance do impacto final pretendido de transformação na vida das pessoas atendidas. 


O problema é que até hoje no Brasil ainda não se tem clareza metodológica sobre como medir esses conceitos tão amplamente adotados na área social, que seja confiável e capaz de captar (ser sensível a) os avanços conseguidos. Então, se não há essa clareza – e aqui me refiro sobretudo à grande maioria das organizações do terceiro setor – como conseguir PLANEJAR bem os projetos sociais?  


Ou seja, como explicitar O QUE queremos mudar? E como saber depois se o que fizemos conseguiu, de fato, chegar AONDE queríamos, ou seja, AVALIAR se as iniciativas conduzidas foram válidas, eficazes e eficientes? 

Medição compartilhada: uma prática que deveria ganhar força no Brasil 


No Reino Unido e EUA desde 2003  – No Reino Unido vêm sendo envidados esforços por organizações think-tanks  (como a New Philanthropy Capital – NPC, ou a Triangle /Outcomes Star)  e nos Estados Unidos (FSG) para construírem sistemas de indicadores “de prateleira” (do inglês, off-the-shelftools) que possam ser compartilhados por organizações do terceiro setor (charities or NGOs – Non-Governmaental Organisations). 


No Reino Unido, organizações sociais trabalhando em uma mesma área-fim (por exemplo, educação de adolescentes em situação de vulnerabilidade) foram se unindo, capitaneadas por alguma organização think-tank como a NPC, para desenvolverem um sistema comum de avaliação de resultados. Nesse sentido, os conceitos abstratos relacionados a objetivos de resultados (por exemplo: autoestima), adotados por organizações trabalhando com públicos semelhantes, foram sendo operacionalizados nos mesmos indicadores ou escalas. 


Feita a operacionalização dos conceitos, as demais ferramentas para medição também começaram a ser desenvolvidas em comum, através do apoio de uma equipe especializada, tais como a construção dos questionários, a estratégia para a sua aplicação, o sistema de base de dados (que pode ser online) e o referencial para análise dos dados coletados. 

No Brasil, no período em que atuei (2011 – 2016) no Programa da POS (Parceria com Organizações Sociais) da Fundação Dom Cabral – FDC (hoje denominado Pilaris), quis começar a difundir essa ideia das ferramentas de prateleira (Avaliação de projetos sociais no terceiro setor: uma agenda em construção, seção IV), mas percebi que o terreno precisava antes ser melhor trabalhado. 


Por isso, no Manual que desenvolvi para apoiar o trabalho com as organizações participantes do Programa (Manual de Planejamento e Avaliação de Projetos Sociais para Organizações Sociais), comecei a incluir alguns instrumentos que pudessem funcionar como “ferramentas de prateleira”. Esses instrumentos vinham de três fontes: conceitos abstratos que já tinham sido traduzidos para a prática e validados; experiências de monitoramento com algumas dessas organizações; ou ainda, foram criados durante as avaliações de projetos sociais que conduzi. 


Para ilustrar melhor a ideia, aqui estão alguns exemplos de instrumentos incluídos no Manual: 


  • Conceito: autoestima (escala de Rosenberg), pág. 40-42 do Manual 
  • Conceito: impulsividade de adolescentes (escala de Barrat), p.66 
  • Conceito: ser cuidadoso com o meio-ambiente / Avaliação de projeto de apicultura (pág. 67-68) 
  • Conceito: bem-estar de crianças e adolescentes, entre 11-16 anos (NPC), Pág. 197-205 
  • Marco lógico: projeto de qualificação digital, Instituto Ramacrisna (pág. 207-210) 
  • Questionário: Preparação de jovens (16-18 anos) para inserção no mercado de trabalho, Associação Projeto Providência (pág. 226 – 230) 


A intenção de compartilhar esses instrumentos no Manual foi oferecer inspiração e facilitar o trabalho de planejamento e avaliação em organizações que atuam com projetos sociais semelhantes, ajudando, assim, a “queimar etapas” e avançar com mais agilidade nesse processo. 

Medição compartilhada: o caso da ferramenta Outcomes Star 


Como surgiu?  Outcomes Star (traduzido ao pé da letra: Estrela de Resultados) é uma ferramenta para medir e apoiar as mudanças / resultados, que foi criada e desenvolvida pela Triangle Consulting Social Enterprise  do Reino Unido. A Triangle, fundada em 2003, se define como “uma empresa inovadora, guiada por uma missão social que é a de apoiar os provedores de serviços sociais a transformarem vidas de pessoas vivendo em situação de vulnerabilidade social, traumas, deficiências ou doenças, por meio da criação e o uso correto de ferramentas que engajem e promovam abordagem facilitadoras”. 


A primeira versão do Outcomes Starcomeçou como uma demanda  (em 2003) da St Mungo`s, uma organização social voltada para o atendimento de moradores de rua, que queria avaliar os resultados do seu trabalho. A ferramenta acabou ganhando tração a partir da constatação de sua aplicabilidade também junto a outras organizações do Reino Unido que atendiam moradores de rua. Foi quando a Triangle, então, avançou naquele protótipo inicial, por meio do desenvolvimento da chamada “jornada da mudança” (do inglês, the Journey of change), das escalas de medição adequadas tanto para os usuários dos serviços (ou clientes) como para os provedores do serviço (ou colaboradores dessas organizações executoras), e do Guia com as orientações para a implementação do instrumento. Assim, em dezembro de 2016 surgia a primeira versão da Outcomes Star, com o foco em moradores de rua. 


O que é a ferramenta? Conforme explicado no site, cada versão da Outcomes Star compreende um conjunto de escalas apresentadas de modo amigável e acessível em formato de uma estrela (figura), em que cada escala (ou cada ponta da estrela) representa uma dimensão relevante do resultado pretendido.  Cada escala é explicitada em estágios (que podem ser 5 ou 10), sendo cada estágio cuidadosamente definido, de modo a caracterizar cada uma das etapas necessárias para promover a mudança sustentável na vida das pessoas atendidas.  A ideia é que a ferramenta seja aplicada pela equipe da organização com cada usuário do serviço, desse modo permitindo visualizar e analisar com clareza a “jornada da mudança”: onde se está no percurso, os resultados alcançados (e os não alcançados), e as evidências do que precisa ser trabalhado. 


Feitas sob medida para diferentes setores sociais, as versões da Outcomes Star são desenvolvidas em colaboração com os usuários dos serviços e os prestadores dos serviços nas organizações sociais executoras. No Reino Unido a ferramenta já é adotada tanto em organizações filantrópicas (as “charities”) como em órgãos do governo, sejam eles locais ou nacionais, como também em outros países da Europa, Ásia e também na Austrália e Estados Unidos 


Para se ter uma ideia sobre a composição de cada versão da Outcomes Star, recomendo uma visita à página do site “Preview the Stars Resources” que  apresenta uma demonstração (em inglês, preview) dos recursos da ferramenta para cada uma das diferentes versões. Por exemplo, a versão do Work Star (Star “Trabalho e Emprego”) já está em sua 3ª edição, haja vista as atualizações e melhoramentos feitos no instrumento. Essa versão conta com  o demonstrativo  do Guia do usuário (User Guide preview), onde estão listadas as 7 dimensões ou escalas contempladas no setor Trabalho e Emprego, sendo apresentadas algumas dessas escalas adotadas, vale a pena olhar para entender melhor como a ferramenta é estruturada!. 


Já no demonstrativo do Guia para a equipe executora (Guidance for Workers preview) estão dadas as orientações para a aplicação do instrumento. 


Estágio da ferramenta - Atualmente existem mais de 50 versões publicadas da ferramenta Outcomes Star para diferentes setores de atuação social, tais como: 


  • Educação; 
  • Trabalho e emprego; 
  • Famílias e crianças;
  • Jovens; 
  • Saúde; 
  • Moradia e sem-teto;
  • Comunidade; 
  • Uso de drogas; 
  • Saúde mental; 
  • Refugiados;
  • Justiça criminal;
  • Abuso doméstico;
  • Desastres naturais;
  • Forças armadas e veteranos;
  • Cuidadores de adultos e;
  • Autismo /TDAH. 


A Outcomes Star é uma ferramenta em constante evolução, sempre em colaboração com organizações executoras dos serviços sociais, universidades, instituições especializadas, e financiadores. 


Como interagir com a ferramenta? Basicamente há duas maneiras. Primeiro, na condição de organização colaboradora no desenvolvimento de uma nova versão da Outcomes Star. Isto ocorre quando a organização social percebe a necessidade de um novo instrumento para orientar a condução do seu trabalho, que ainda não existe na “prateleira” das (versões da Outcomes Star.  Daí essa organização pode colaborar com a Triangle na co-criação ativa do novo instrumento,  por meio de financiamento direto ou via captação de recursos. 
 

A segunda maneira de interagir é na condição de organização usuária da ferramenta. Como a Triangle é detentora dos direitos autorais da ferramenta, é preciso que a organização adquira a licença de uso.A equipe Triangle é enfática em recomendar que, antes de mais nada, é fundamental que a organização social identifique, primeiro, se a abordagem da ferramenta Outcomes Star  é adequada ao trabalho que a organização social realiza. Só depois, buscar identificar qual(is) das versões disponíveis da “família” Outcomes Star pode (m) ser aplicada(s) ao seu serviço / projeto.  


Para que o uso de qualquer versão da  Outcomes Star faça sentido, é importante que a organização atenda a cinco condições (ou necessidades de gestão). Essas condições são fundamentais para que a ferramenta realmente traga resultados e seja aplicada de forma eficaz: 


  1. Se a organização precisa ter um acompanhamento regular e individual dos usuários do serviço / projeto; 
  2.  Se a organização precisa medir resultados / avanços como parte de um serviço / projeto em andamento, ao invés de pesquisas ocasionais; 
  3. Se a organização precisa medir progresso em diferentes dimensões (as pontas da Star); 
  4. Se a organização precisa medir resultados ao longo da “jornada da mudança”, e não apenas ao seu final; 
  5.  Se a organização precisa usar os dados coletados para aprender e melhorar o serviço prestado. 


Desafio: por que não desenvolver um sistema (parecido) Outcomes Star para o Brasil? 


Quem olha superficialmente tende a pensar que Outcomes Star representa um conjunto de conceitos abstratos, que correspondem aos diferentes resultados pretendidos em projetos sociais, que foram tangibilizados e devidamente validados. E que estão na “prateleira” da Triangle, prontos para serem “consumidos”, ou utilizados, por organizações do terceiro setor cujos projetos sociais tenham objetivos de resultado semelhantes.   


Se fosse apenas isso, já seria de grande utilidade para as organizações sociais no Brasil, pois o instrumento poderia ser aplicado pelo menos em dois momentos: antes do início do projeto (momento zero) e ao final dele. Assim, seria possível medir os efeitos diretos do projeto sobre os usuários, observando mudanças em atitudes, percepções ou comportamentos. 


A ferramenta Outcomes Star vai além de simplesmente tornar conceitos abstratos mais aplicáveis. A proposta da Triangle é oferecer um apoio completo às organizações sociais, ajudando a identificar a versão da ferramenta mais adequada (ou mesmo se nenhuma versão se aplica), orientar sobre como utilizá-la na prática e como organizar as informações geradas para melhorar o planejamento e a prestação de contas aos diferentes públicos de interesse. Ou seja, a ferramenta Outcomes Star pretende ser um sistema abrangente de apoio à organização social, para que ela possa se concentrar em sua atividade-fim, que é a de atender aos seus usuários sempre com o foco em resultados. 


Então, bastaria que as organizações sociais NO BRASIL comprassem os direitos de uso das diferentes versões da Outcomes Star que lhes fossem adequadas, fizessem a tradução para português, tudo sob a supervisão on line de uma equipe Triangle? Como, aliás, já vem sendo feito em outros países da Europa, Ásia e também nos Estados Unidos. 


Pode ser. Outra opção é começarmos a construir no Brasilferramentas de avaliação aderentes às especificidades dos projetos sociais no país em seus diferentes setores – como foi a Outcomes Star para o Reino Unido.  Faz sentido? Ou seria “reinventar a roda” em alguns casos, considerando a existência /disponibilidade das várias versões do Outcomes Star? 


Fica, pois, o desafio para avançarmos nessa direção da construção de ferramentas de prateleira de avaliação no Brasil. Um esforço que se mostrará relevante não apenas para nortear o trabalho das organizações do terceiro setor, mas para todo o ecossistema de impacto social, aqui incluído também as organizações com fins lucrativos.  Inclusive, há que se reconhecer que essa caminhada já foi iniciada com a publicação do  Guia de Indicadores da Vitrine de ONGs, pelo Instituto Liga Social em 2021. 



Maria Cecília Prates é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape. Pesquisadora na FGV / IBRE na área social por muitos anos, e depois tem feito monitorias, consultorias, pesquisas em avaliação de projetos sociais e RSC. 

Site: estrategiasocial.com.br 


Inscreva-se na nossa Newsletter

Últimas publicações

Por Instituto Phomenta 25 de junho de 2026
Manter uma Organização da Sociedade Civil (OSC) de portas abertas no Brasil é um desafio diário de sobrevivência. Historicamente, a sustentabilidade financeira é o maior gargalo do terceiro setor, mas, frente ao montante de trabalho e às obrigações do dia a dia, ainda não conseguimos olhar para ela de forma estratégica. Assim, tratamos a busca por recursos como um evento de última hora, e não como um processo diário. Os dados do setor desenham um cenário alarmante sobre a estrutura das organizações brasileiras. Segundo a pesquisa da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR)*, 37% dos respondentes apontam como a maior dificuldade da captação a necessidade de dividir o tempo com outras demandas da instituição. Na maioria dos casos, a função é acumulada pela diretoria ou por técnicos que já estão sobrecarregados com a operação na ponta. O resultado é um ciclo vulnerável, especialista em "apagar incêndios": uma corrida desesperada contra o tempo para preencher formulários complexos apenas quando o caixa já entrou no vermelho. Diante dessa escassez crônica de tempo, a Inteligência Artificial (IA) passou a ser uma ferramenta de infraestrutura obrigatória para viabilizar a sustentabilidade institucional, mas poucas organizações ainda sabem como usá-la. A maioria das ONGs usa IA sem estratégia A rotina ideal de captação exige monitoramento constante do mercado, leitura minuciosa de editais, adequação técnica de propostas e relatórios rigorosos de prestação de contas. Mas você leu bem: ideal . Não é o que temos à mão no dia a dia. Para equipes enxutas, a IA se tornou o caminho para assumir essa carga operacional. Na captação de recursos, a máquina atua — ou deveria atuar — como um copiloto técnico: fazendo a triagem de diretrizes complexas e adaptando a linguagem de projetos para diferentes perfis de financiadores, devolvendo ao profissional o tempo necessário para pensar estrategicamente. Porém, de acordo com o levantamento do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) , feito com mais de 1,5 mil organizações, 62% assumem que ainda estão em um estágio baixo ou inexistente de adoção de IA. Vivemos em uma constante urgência para adotar a tecnologia, mas o pouco background gerou um uso amador e desordenado. Um mapeamento recente conduzido também pelo IDIS com mais de 500 entidades revelou que 95% das organizações sociais utilizam IA sem qualquer política ou orientação formal, e 75% dependem exclusivamente de ferramentas gratuitas de mercado. O risco aqui é que, com a soma da pouca estratégia e da falta de substância, as ONGs só consigam gerar, por meio da IA, propostas superficiais e desconectadas da realidade do território. São materiais incipientes, que podem levar à desclassificação imediata dos projetos pelos avaliadores dos editais. Como usar a IA a seu favor? Como resposta direta a esse cenário de equipes sobrecarregadas e necessidade de profissionalização tecnológica, a Fundação FEAC, com apoio do Instituto Phomenta, estruturou o projeto Captação com Causa. A iniciativa de 18 meses foi desenhada justamente para aplicar a IA como uma solução de sustentabilidade em 10 OSCs selecionadas de Campinas. Para combater o uso desordenado e a dependência de plataformas gratuitas apontados pelas pesquisas, o programa introduz no dia a dia das instituições bots customizados e programados especificamente para o contexto do terceiro setor. Em vez de soluções genéricas, as organizações ganham um sistema que filtra editais de forma preditiva e qualifica a escrita técnica das propostas, reduzindo drasticamente o tempo gasto na formatação dos projetos. O foco principal do projeto, que conta com um match funding de R$ 100 mil, é estruturar a captação como uma rotina viável. Por meio de assessoramentos individuais e coletivos, o programa prepara os profissionais para utilizarem a IA com postura crítica, garantindo que a tecnologia trabalhe a serviço da estratégia humana. Ao transformar a tecnologia em uma aliada, o Captação com Causa mira na mobilização de R$ 800 mil entre as participantes e na comprovação de que, com o método correto, a captação de recursos pode deixar de ser um susto sazonal e se tornar uma estratégia previsível, perene e sustentável. Quer saber mais sobre o Captação com Causa? Confira nosso último artigo! *Fonte: Censo ABCR
Por Instituto Phomenta 11 de junho de 2026
Nem todo edital é uma oportunidade. Entenda os riscos do desvio de missão e como captar recursos de forma estratégica.
Por Jaice Balduino 1 de junho de 2026
O doador brasileiro está mudando: mais seletivo, exigente e orientado por impacto. Descubra o que as organizações sociais precisam oferecer para conquistar e fidelizar quem doa no cenário atual.
Por Instituto Phomenta 26 de maio de 2026
Quem está no dia a dia da gestão de uma ONG conhece bem o dilema: a gente passa tanto tempo cuidando dos projetos e atendendo a ponta que a nossa própria estrutura vai ficando para trás. Já diz o ditado: “em casa de ferreiro…”. Nosso financeiro roda no limite, a equipe fica sobrecarregada, os processos são travados e a liderança vive exausta. A verdade é que a gente se acostumou a operar no modo de sobrevivência. Então, que tal dar um passo para trás e avaliar o todo? Durante o FIFE 2026, o sociólogo Domingos Armani trouxe uma provocação que cutucou feridas necessárias. Ele alertou que muitas organizações ainda insistem em carregar crenças e estigmas que funcionam como mapas obsoletos. Só que, o grande problema de usar um mapa velho é que o mundo mudou, e o desenho antigo já não bate com o terreno real de hoje. Insistir na ideia de que investir na própria estrutura é "gastar dinheiro que deveria ir para o projeto" é um desses mapas velhos que precisamos rasgar. Fortalecer a casa, o chamado Desenvolvimento Institucional (DI), é o que garante que a ONG continue existindo e gerando impacto no longo prazo. E essa mudança de mentalidade muda tudo, inclusive o jeito de captar recursos. Mudar a postura para financiar a sua estratégia Captar recursos para o Desenvolvimento Institucional, ou seja para estruturar a gestão, investir em tecnologia e manter o time funcionando, exige parar de pedir dinheiro apenas para o "projeto da vez". No painel da Plataforma Conjunta, ainda no FIFE, o debate girou em torno de como virar essa chave diante dos financiadores. Para ajudar a avaliar como a sua organização está se posicionando, montamos um checklist prático com os principais aprendizados da mesa: Checklist de postura para o fortalecimento da ONG [ ] Você se explica pela estratégia ou pelo portfólio? Quando vai conversar com um parceiro, você gasta todo o tempo listando as oficinas da semana ou apresenta primeiro a missão e a visão de futuro da organização? Grandes parceiros querem financiar o futuro da sua causa, não apenas uma ação pontual. [ ] Você sabe compartilhar vulnerabilidades? Se a sua organização fosse perfeita e não tivesse nenhum problema de gestão, ela não precisaria de apoio. Fale da sua vulnerabilidade, mas com estratégia. Acompanha o próximo ponto! [ ] O desafio vem acompanhado de uma solução? Mostrar os pontos fracos da gestão para o parceiro só funciona se você já apresentar a rota para resolver o problema. A vulnerabilidade precisa vir colada com a sua capacidade de planejamento. [ ] O estigma da escassez foi abandonado? A gestão já superou a velha crença de que o Terceiro Setor precisa trabalhar sofrendo, com ferramentas defasadas e computadores lentos? Modernizar a estrutura interna é uma decisão de eficiência, não um luxo. Saiba que você pode merece e precisa de estrutura. Modernizar para não parar no caminho Se os mapas antigos não funcionam mais, o papel de quem gere é desenhar novas rotas. Olhar para o Desenvolvimento Institucional serve para dar musculatura para a organização. Quando paramos de “vender o almoço para pagar o jantar” e começamos a financiar a nossa própria estratégia, a ONG ganha a sustentabilidade que precisa para transformar a realidade na ponta de forma estruturada e contínua.
Por Instituto Phomenta 14 de maio de 2026
Quem trabalha em ONG sabe que a comunicação costuma ser o pratinho que mais cai. Com tantas atividades executadas ao mesmo tempo, a estratégia acaba ficando para trás porque o operacional consome todo o dia. Mas o uso da Inteligência Artificial (IA) tem mostrado que dá para mudar esse cenário. Esse foi um dos temas centrais do Fórum Interamericano de Filantropia Estratégica (FIFE 2026), o principal encontro sobre gestão do Terceiro Setor no Brasil. O debate focou em como a tecnologia pode organizar processos e liberar tempo para o que realmente importa. O cenário brasileiro é curioso: de um lado, a OpenAI aponta que o Brasil é o terceiro país que mais usa o ChatGPT no mundo (atrás apenas de EUA e Índia), com cerca de 140 milhões de mensagens diárias enviadas por aqui. Por outro lado, o uso estratégico nas ONGs ainda engatinha. Um levantamento do IDIS com mais de 1,5 mil organizações revela que 62% delas ainda estão em um estágio baixo ou inexistente de adoção de IA. Ou seja, a tecnologia está na nossa mão, mas o setor social ainda está descobrindo como transformá-la em aliada da gestão. Para tirar proveito real dessas ferramentas, o segredo é o jeito que você as alimenta. Durante a palestra de Marco Iarussi, publicitário social e fundador da Curta Causa, aprendemos que o "treinamento" que você dá à IA é o que define se o resultado será genérico ou útil. Mão na massa: Passo a passo para montar seu plano com IA Para a IA aprender sobre a sua realidade e não entregar respostas vazias, siga este roteiro: 1. Não mude de conversa Escolha um único chat para tratar do seu plano de comunicação, seja no ChatGPT, Gemini ou Claude. Se você abre uma conversa nova toda vez, a IA "esquece" o contexto. Mantendo o mesmo canal, ela guarda o histórico e entende as necessidades específicas da sua organização. 2. Dê informações reais Antes de pedir o plano completo, descubra o que a IA já "pensa" sobre você. Isso serve para corrigir erros e fornecer dados que ela ainda não tem. Prompt: "O que você sabe sobre a causa [inserir sua causa] e o que conhece sobre o trabalho da [nome da sua ONG]?" 3. Alinhe o que é um plano de verdade Veja se o robô entende o seu universo. Se ele tiver uma visão muito comercial, o plano parecerá uma propaganda de loja, o que não funciona para o setor social. Prompt: "Para você, o que não pode faltar em um plano de comunicação para uma ONG? Liste os pontos principais." (Leia e diga o que você concorda ou não). 4. Descubra o que ninguém está falando Use a ferramenta para encontrar novos ângulos e sair do óbvio. Prompt: "O que o pessoal mais fala sobre [sua causa] hoje? E o que você acha que ainda não foi dito, mas que ajudaria as pessoas a entenderem melhor o nosso impacto?" 5. Peça o plano prático Agora que o chat está treinado, peça a estrutura final. Prompt: "Com base em tudo o que já conversamos aqui, monte um calendário de 30 dias para as nossas redes sociais. O foco deve ser [ex: prestação de contas ou atrair novos voluntários]." Onde entra a ética e o seu papel Usar a tecnologia para facilitar o dia a dia é inteligência de gestão, mas exige cuidado. A IA serve para fazer o primeiro rascunho e organizar as ideias, mas a palavra final, a conferência dos dados e o olhar humano sobre a causa precisam ser seus. O objetivo é automatizar o que for repetitivo para que você tenha fôlego. Com a comunicação organizada, sobra tempo para construir relacionamentos de verdade e focar no que nenhuma máquina substitui a confiança e o olho no olho com quem apoia a sua organização. 
Por Camila Pasin 30 de abril de 2026
Empresas brasileiras deixaram de ser apenas financiadoras e se tornaram plataformas de engajamento. Entenda como transformar uma simples doação em uma verdadeira aliança de impacto.
mostrar mais

Participe do nosso grupo no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão

Entrar para o grupo