Como sobreviver ao sentimento de solidão que gerir uma OSC pode provocar?

11 de novembro de 2021

Este conteúdo foi produzido por Daiany França Saldanha


Se, assim como eu, você já se sentiu ou se sente sozinho(a) na gestão da sua organização, te convido a ler este texto até o final. Talvez minha experiência possa te ajudar a lidar melhor com essa situação.


Primeiro, gostaria de compartilhar sobre o sentimento que me fez escrever sobre esse assunto. Faz pouco mais de 7 anos que empreendo em uma Organização da Sociedade Civil. Nos primeiros três, não foram poucas as vezes em que me vi sozinha nas funções de gerir a OSC. Durante alguns momentos, me sentia muito desanimada, pois construíamos lindos planos que não raro “morriam na praia”. Na maioria das vezes, eu tinha que planejar, executar e monitorar os projetos. Tudo muito exaustivo e solitário. 


Então desisti. Não da OSC, de empreender ou de gerenciar. Desisti de fazer as coisas da maneira como vinha fazendo.


A seguir, compartilharei quais atitudes tomei para diminuir (e até zerar) essa sensação de que era a única pessoa que se responsabilizava por fazer a gestão da OSC. Mas, antes disso, vale dizer que parto de um entendimento de que, assim como eu, os dirigentes eleitos nessa organização sempre tiveram duplo papel: participar do conselho de administração e gerir seu dia a dia.


Para alguns modelos de governança, isso não faz sentido, já que esses papéis são exercidos por pessoas diferentes. No entanto, para a maioria das OSCs brasileiras, sobretudo as de pequeno porte financeiro e de base voluntária, essa é a realidade.


A fim de modificar essas situações e alavancar a gestão da organização, a primeira decisão que tomei foi convocar uma assembleia extraordinária para desligar as pessoas que já não estavam mais em condição de contribuir com a gestão. Isso teve um custo razoável com cartório e outras demandas de documentação, mas era o que precisávamos fazer naquele momento. A decisão foi unânime, porque tínhamos todos o mesmo desejo: o crescimento da OSC.


A decisão seguinte foi sair de cena.


Eu estava cansada e precisava descansar. Vinha adiando férias por muito tempo, porque eu me contava que nada daria certo sem mim ou, pior, que as coisas não andariam da minha maneira (que eu, ingenuamente, acreditava ser a melhor forma). 


Foi aí que tudo mudou. Tirei licença da organização por cerca de um ano. Mudei até de cidade. Outras lideranças tiveram que assumir a responsabilidade. De repente (só que não!), eu já não estava sozinha; a partir disso, nos tornamos quatro gestoras!


Foi e vem sendo um grande aprendizado para todas nós. A organização cresceu, e hoje estamos treinando novos gestores. Assumi papéis estratégicos, desejo antigo, e agora temos novos desafios para superar. O mais importante do meu relato é que esse sentimento de solidão já não existe mais para mim, ainda bem.


Se lá atrás eu não tivesse tido a coragem de confrontar meus outros colegas (que estiveram comigo na fundação da organização), nem a ousadia de sair de cena, é provável que ainda hoje eu me sentisse sozinha.


Como última partilha, vou deixar uma provocação para você. Uma das gestoras que hoje lidera a organização certa vez me confessou que queria assumir mais responsabilidades e tornar-se gestora de fato; mas ela não encontrava espaço. Eu não estava dando espaço (nem tempo) para ela compreender a dinâmica da OSC, para se sentir confortável como gestora, para entender que tipo de gestora ela é e gostaria de ser, e por aí vai...


Sendo assim, você está fazendo a gestão sozinha por que de fato não tem mais ninguém para te ajudar ou por que as pessoas não estão encontrando espaço para isso? Permita-se refletir a respeito. 😉


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Daiany França

Daiany França Saldanha é responsável pelo editorial do Portal do Impacto.


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Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer um desafio estrutural: muitas organizações de base, especialmente em territórios periféricos, ainda têm dificuldade de incorporar tecnologia às suas soluções. Não por falta de visão, mas por falta de acesso à educação, à formação técnica e a investimentos sociais. É comum vermos tecnologias avançadas sendo desenvolvidas por startups e organizações de impacto, enquanto quem atua diretamente no território não dispõe dos recursos necessários para utilizá-las. Sem articulação, essa equação não fecha. Por isso, outra tendência que se consolida é a valorização de redes, consórcios e articulações territoriais. Organizações que atuam de forma isolada tendem a ter mais dificuldade de acessar investimentos. Financiadores buscam cada vez mais iniciativas coletivas, capazes de envolver múltiplos atores, setores e saberes. 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Por Nathalia Albuquerque 2 de março de 2026
Você pode amar muito um time e ainda assim vê-lo perder campeonatos por anos. Pode ter a maior torcida do país, uma história gigante e uma camisa pesada. Mas sem gestão, isso não se sustenta. No terceiro setor acontece algo muito parecido. Sou corinthiana e não acompanho o futebol tão de perto. Mesmo assim, é impossível ignorar o que Palmeiras e Flamengo vêm construindo nos últimos anos. Escrevo este artigo no final de 2025 e, ao olhar para os principais campeonatos do período recente, Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil, esses dois clubes seguem protagonizando finais, títulos e campanhas consistentes. Não por acaso, também passaram a aparecer em premiações internacionais que reconhecem excelência em gestão, como o Globe Soccer Awards. Mas nem sempre foi assim. E é exatamente aí que essa história interessa às organizações da sociedade civil. Quando a virada não acontece no campo Palmeiras e Flamengo já viveram fases marcadas por dívidas, crises internas e resultados bem abaixo do potencial que tinham. A mudança não começou com um craque, nem com um gol histórico. Começou fora de campo. Por volta de 2012 e 2013, os dois clubes passaram a tratar a gestão como eixo central. Planejamento financeiro, profissionalização das equipes, governança e visão de longo prazo deixaram de ser discurso e passaram a orientar decisões concretas. Se você não gosta de futebol, continue comigo. O ponto aqui não é o esporte. É entender que amor, tradição e propósito são fundamentais, mas não substituem uma boa gestão. Com gestão, a gente vai mais longe. O que o Palmeiras ensina No Palmeiras, a virada tem um nome bastante conhecido: Paulo Nobre. Ao assumir a presidência do clube em 2013, encontrou um cenário delicado, com dívidas e pouca previsibilidade. Uma das decisões mais simbólicas foi emprestar recursos próprios para reorganizar as finanças do time. Um gesto arriscado, mas inserido em uma estratégia maior. A partir daí, vieram parcerias estratégicas como a Crefisa, a profissionalização da gestão e a criação de novas fontes de receita. A modernização do Allianz Parque transformou o estádio em um ativo que gera renda muito além dos jogos, com shows e eventos. É a lógica de enxergar a estrutura como meio para sustentar a missão, algo bastante familiar para quem atua no terceiro setor. O Flamengo e a coragem de arrumar a casa O Flamengo sempre teve popularidade e potencial. O que faltava era organização. A virada começou com decisões duras e pouco populares, como uma política rigorosa de controle de gastos e reorganização financeira. Antes de investir pesado em contratações, o clube investiu em processos, equipe técnica qualificada e responsabilidade fiscal. Os títulos vieram depois. Não como milagre, mas como consequência. O que tudo isso tem a ver com as OSCs? Muito mais do que parece. Os dois clubes mostram que investir na base (jovens atletas em formação para o time principal) é apostar no longo prazo, mesmo quando o retorno não é imediato. No terceiro setor, isso aparece na formação de equipes, no fortalecimento institucional e no desenvolvimento de lideranças. Eles também reforçam uma verdade incômoda: amor não é estratégia. Paixão move, mas não organiza fluxo de caixa, não constrói indicadores e não garante sustentabilidade. Há ainda a importância de diversificar fontes de receita, inclusive para organizações grandes e reconhecidas, e de contar com profissionais qualificados, além de investir em quem já faz parte da equipe. Nada disso acontece do dia para a noite. O processo é longo, exige constância e escolhas difíceis. Um convite para quem lidera organizações sociais  Se você lidera uma OSC, vale a reflexão. O quanto da sua energia está concentrada apenas na causa e o quanto está direcionada para fortalecer a gestão que sustenta essa causa? Gestão não esfria o propósito. Pelo contrário. Ela protege a missão, amplia o impacto e garante que o trabalho continue existindo daqui a cinco, dez ou vinte anos. No futebol e no terceiro setor, amor é o ponto de partida. Gestão é o que transforma esse amor em legado.
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