Como ser doador no Brasil?

10 de fevereiro de 2026

No Brasil a pobreza e as necessidades sociais são enormes, porém ainda são muito grandes as dificuldades, dúvidas, desconhecimento e desconfianças de quem quer doar dinheiro. Como doar da forma mais efetiva possível, isto é, saber que os recursos doados serão aplicados de maneira efetiva e eficiente para gerar os resultados sociais desejados? 

 

Pressupostos 


O foco aqui é a doação comprometida das pessoas e das famílias. Não me refiro à doação das empresas. 


O foco também é a doação em dinheiro. Vale lembrar que doar dinheiro é (apenas) uma das dimensões da filantropia. Tomando por base a metodologia do World Giving Index (WGI) da organização inglesa Charities Aid Foundation (CAF), há 3 maneiras das pessoas / indivíduos fazerem filantropia: doar dinheiro; doar tempo para alguma organização (trabalho voluntário); ajudar um estranho que precisa de ajuda. 


Um outro aspecto importante a destacar é que na doação em dinheiro o foco está no resultado (ou retorno) social a ser alcançado, pressupondo eficiência – ou seja, boa relação custos / resultados gerados. É diferente, pois, do investimento social que, para além do resultado social para os beneficiados, deve prever também retorno econômico para o(s) investidor(es). Assim a doação de dinheiro é uma entrega gratuita, motivada pelo amor ao próximo, sentimento de ajuda e desejo de retribuição do doador(a) às oportunidades que ele (ela) teve gratuitamente em vida – enquanto outras pessoas não tiveram. 

 

Como doar? 


O IDIS recomenda 5 passos básicos para quem quer doar, que são: 


  1. Decida a(s) causa(s) a ser(em) apoiada(s): Busque identificar quais são as causas mais importantes para você e seus familiares – como, por exemplo: grupos de pessoas em situação de vulnerabilidade (crianças, adolescentes, idosos), desenvolvimento de territórios, educação, saúde, qualificação para o mercado de trabalho, empreendedorismo da base da pirâmide, recuperação de egressos do sistema presidiário, cultura, esportes, microcrédito, defesa de direitos, condições de moradia. 
  2. Defina como apoiar: A colaboração financeira é, geralmente, a principal fonte de sustento das organizações da sociedade civil (OSC) sem fins lucrativos. Além da doação de dinheiro, é possível também a doação de bens móveis (novos e usados), imóveis e terrenos, material escolar, alimentos, sangue, órgãos, medicamentos, etc 
  3. Conheça a organização: Se já conhece a organização, é preciso saber se ela necessita de apoio na forma em que a pessoa quer prestar. Busque mais informações sobre esta organização com amigos, conhecidos, pela Internet e, se possível, vá visitá-la e conhecer de perto o seu trabalho. Caso não conheça nenhuma organização que atue na causa escolhida, entre no Mapa das OSCs (base de dados organizada pelo IPEA, a partir de dados oficiais das OSCs no país) e pesquise, levando em conta causa, localização e outros critérios que julgue relevantes.
  4. Doe: Faça sua doação 
  5. Acompanhe os resultados: Procure conhecer os resultados pelos canais de comunicação da organização apoiada: site, mídias sociais, newsletter e relatório anual. 


Quando doar? 


No Brasil, o que contribui em grande medida para afastar os doadores é a ‘indústria de telemarketing` de algumas OSCs, ainda muito atuante até hoje. As atendentes ligam insistentemente para “pedir ajuda”, a ponto de mais de uma ligação em um mesmo dia. Há de se convir que tal insistência acaba gerando desconfiança e má vontade no trabalho dessas organizações em particular, e até no universo das OSCs em geral.  


No fundo, o estímulo para doar vem da convivência com as mazelas sociais que nos rodeiam a todo tempo. Porém o impulso para doar vem da conscientização interior de cada pessoa, impulso esse que precisa ganhar forma e força para poder se concretizar. 


O ideal seria que cada pessoa pudesse fazer o seu próprio plano de doação, e se tornar sujeito ativo e comprometido com as suas doações. E não assumir atitude passiva, que doa um “dinheirinho” aqui e ali, apenas quando é solicitado (ou importunado!) e a título de grande favor.  


No que se refere à periodicidade, as doações em dinheiro podem ter caráter pontual / emergencial, regular e permanente. 


  1. Nas doações em caráter pontual / emergencial, o doador doa quando é solicitado ou sensibilizado por alguma causa, ou tragédia, ou por um sentimento forte de colaborar com pessoas que precisam de ajuda ou projetos sociais que ele considera relevantes. A doação pode ser individual, ou em grupo (a tradicional campanha ou “vaquinha”, que é quando cada um doa um pouco, e o volume total arrecadado para a causa pode chegar a ser grande).

    Em termos da doação coletiva se evoluiu bastante no Brasil nesses últimos anos, com o avanço das transferências via ‘QR-Code` nos programas das TVs, e também das 
    plataformas digitais de investimento, do tipo crowdfunding e matchfunding (no caso do matchfunding, a empresa ou organização parceira adiciona (x)R$ para cada R$ 1 que for doado / investido). 

  2. Nas doações regulares, o doador se compromete a fazer uma doação financeira todo mês (ou com a periodicidade que ele estabelecer) para a(s) organização(ões) social(is) que ele selecionar. Ou seja, o doador assume o compromisso de colaborar financeiramente com a OSC naquelas datas, como se fosse um “padrinho” ou “sócio benemerente” da organização. 

  3. Na doação em caráter permanente, o doador decide doar parte significativa do seu patrimônio para a organização escolhida. Pode ser um terreno, um imóvel, ou um valor financeiro significativo do patrimônio da pessoa – ou fundo patrimonial filantrópico. Pode ser doação feita em vida, ou após a morte (prevista em testamento). 


Resumidamente pode-se definir (p.17) um fundo patrimonial como sendo caracterizado pela presença de quatro elementos básicos, que são: (i) a existência de um patrimônio capaz de gerar renda, (ii) não gerido pelo antigo titular-doador, com (iii) o objetivo de perpetuar uma atividade de (iv) interesse social. E, para fins didáticos, podem ser usadas as expressões ‘fundo patrimonial próprio` [em que o fundo é gerido pela própria instituição destinatária dos recursos – Fundação] e ´fundo patrimonial segregado` [ previsto no modelo da Lei 13.800 / 2019, no qual o fundo é gerido por uma organização gestora que o repassa para as organizações apoiadas.  


Para qual organização doar? Os diferentes tipos de OSCs que precisam de apoio 


Para o doador, a seleção da organização não é tarefa fácil [ Escolher uma ONG com credibilidade é fácil no Brasil?]. Há diferente tipos de organizações sociais executoras, e o doador pode sentir mais segurança/confiança para doar, desde uma organização de base diretamente envolvida com o trabalho comunitário até uma organização-líder (do tipo guarda-chuva) que congrega várias organizações executoras em diferentes territórios. Assim, para cada decisão, sempre vão surgir questionamentos difíceis. 


  1. Doar diretamente para os empreendedores sociais em fase inicial de ideação e implantação de suas organizações, com o objetivo de melhorar as condições de vida de pessoas da base da pirâmide. Como se sabe, em organizações “nascentes” a probabilidade do fracasso – e, portanto, as chances do desperdício do recurso doado são sempre maiores do que em organizações sociais já em funcionamento. Podem surgir questionamentos do tipo: qual a garantia de que a organização irá conseguir cumprir a sua missão? E se a idealização da organização social não passar de um projeto de crescimento pessoal do empreendedor?

    Dois casos que analisei ilustram as dificuldades para se iniciar uma OSC: 
    Terceiro setor: os 10 requisitos para uma organização começar bem; e Por que uma iniciativa social não deslancha.

  2. Doar diretamente para organizações de base comunitária, dirigidas por lideranças locais, em territórios de alta vulnerabilidade e “historicamente excluídos dos espaços de poder”. Em geral são organizações com alta capilaridade junto às comunidades, porém muitas vezes com funcionamento precário em termos de gestão e acesso à informação. Recentemente conheci os dirigentes de uma associação, que desenvolvem um trabalho “bonito” com famílias e crianças em vulnerabilidade em uma comunidade aqui no Rio de Janeiro. São nitidamente pessoas do bem, muito ativas e dedicadas a ajudar; porém, a organização (que eles coordenam) nem sequer consta no ‘Mapa das OSCs`. Em casos como esse, o doador fica inseguro: será que os recursos serão aplicados com baixa eficiência? Não seria melhor buscar outra alocação para os recursos, que fosse capaz de atender a mais pessoas e de gerar mudanças mais profundas? 

  3. Doar diretamente para organizações da sociedade civil (OSCs) que desenvolvem os seus próprios projetos e são bem geridas estruturadas, tais como a Sistema Divina Providência, o Instituto Ramacrisna, a Fundação Gol de Letra e a Gastromotiva. São organizações do padrão ‘100 Melhores ONGs` do Brasil, premiação organizada pelo Instituto Doar em 2013 (hoje Certificadora Social), para estimular nas OSCs  a busca pela excelência em gestão, governança, sustentabilidade financeira e transparência. Nesse caso, as indagações do doador são de outra natureza: será que os recursos doados vão fazer alguma diferença para o trabalho dessas organizações maduras, que já têm visibilidade e acesso às parcerias com grandes empresas e o setor público? Não seria mais efetivo doar para uma organização pequena, com um bom trabalho social, e onde a doação pudesse representar uma contribuição capaz de realmente fazer a diferença na atuação da organização?

  4. Indiretamente para OSCs líderes, nacionais ou internacionais, que já estão consolidadas e atuam em rede no Brasil todo, por meio de suas organizações comunitárias conveniadas, como por exemplo o ChildFund Brasil. Devo dizer que eu mesma já “apadrinho uma criança no ChildFund” (que quando completa 20 anos idade é substituída por outra criança) há mais de 40 anos, e venho estimulando outras pessoas a fazerem o mesmo. Porém, mesmo aqui, o doador poderia se questionar se as suas doações não iriam acabar perdendo efetividade nos corredores da infra-estrutura do sistema, ou seja, indo alimentar atividades-meio (que, diga-se de passagem, são também necessárias). 


Considerações finais 


O quanto (ou o montante que) cada pessoa pode destinar para doação é uma questão que exige uma reflexão pessoal, que leve em conta o patrimônio da pessoa, sua renda mensal, as obrigações e despesas consigo mesma e a família, estágio de vida da pessoa, dentre outros fatores.  


Acima busquei levantar algumas questões e indagações relevantes que doadores (sejam indivíduos e/ou famílias) já vêm se fazendo, de modo a conseguirem ter uma atitude comprometida com a doação. Precisamos, nós doadores e OSCs, encontrar uma estratégia nessa direção.  



Maria Cecília Prates é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape. Pesquisadora na FGV / IBRE na área social por muitos anos, e depois tem feito monitorias, consultorias, pesquisas em avaliação de projetos sociais e RSC. 


Site: www.estrategiasocial.com.br 


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Escrever um projeto para um edital é complexo. Os formulários exigem justificativas profundas, orçamentos detalhados e até análise de riscos. Para equipes que já passam o dia se desdobrando no atendimento direto às comunidades, a IA entra como copiloto. Ela assume o trabalho mecânico de escrever e revisar textos, devolvendo para o captador o que ele tem de mais escasso: tempo para pensar na estratégia. Mas… como não deixar o texto com cara de robô? As ferramentas gratuitas que vemos por aí costumam "alucinar", que é o termo técnico para quando a IA inventa dados falsos ou cria argumentos superficiais simplesmente porque ela não conhece a realidade da sua ONG. Para blindar os projetos contra esse erro, o Captação com Causa ajuda as organizações a criarem um ambiente protegido e seguro, alimentando a inteligência artificial com a identidade real da instituição. Esse treino consiste em criar um perfil superdetalhado dentro do sistema, incluindo: O histórico da organização e as causas que ela defende; A região onde ela atua e o perfil das pessoas que ela atende; Dados locais e o impacto real que ela já gera no território. Quanto mais rico e detalhado for esse perfil, mais a IA se transforma em uma assistente exclusiva da causa. A partir daí, a máquina passa a escrever falando a mesma língua do financiador. Ela aprende a usar os termos técnicos que os avaliadores de editais procuram, cruza as palavras-chave exigidas e ajuda a encaixar a história da sua comunidade dentro das metas do orçamento. Falando a linguagem de quem investe Hoje em dia, as empresas e institutos que financiam projetos sociais mudaram a forma de avaliar as propostas. Eles não olham mais apenas para o número bruto de pessoas atendidas; eles querem ver o valor real do impacto gerado. 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Por Instituto Phomenta 4 de julho de 2026
Você com certeza já viveu essa cena: o processo de seleção de voluntários foi um sucesso, a reunião de integração é melhor ainda e todo mundo sai motivado. Duas semanas depois, metade do grupo some sem dar notícias, os e-mails ficam sem resposta e, na hora daquela ação crucial, a coordenação precisa se desdobrar porque metade dos confirmados cancelou em cima da hora. Se a rotina da sua ONG parece um eterno ciclo de recrutar pessoas para cobrir o desfalque das anteriores, saiba que você não está só. Manter voluntários conectados a uma causa a longo prazo é um dos maiores desafios de gestão no Terceiro Setor. Para entender o tamanho do problema, basta olhar para o cenário nacional. Os dados da Pesquisa Voluntariado no Brasil, realizada pelo IDIS/Datafolha (2021) afirmam que, dos 57 milhões de brasileiros e brasileiras que realizam ou já realizaram trabalhos voluntários, apenas 12% fazem ações regularmente. Ainda de acordo com a pesquisa, embora o desejo de fazer o bem seja alto no país, entre os voluntários insatisfeitos e menos entusiasmados aparece a falta de motivação e de apoio/recursos, como fatores que trazem desengajamento.
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Manter uma Organização da Sociedade Civil (OSC) de portas abertas no Brasil é um desafio diário de sobrevivência. Historicamente, a sustentabilidade financeira é o maior gargalo do terceiro setor, mas, frente ao montante de trabalho e às obrigações do dia a dia, ainda não conseguimos olhar para ela de forma estratégica. Assim, tratamos a busca por recursos como um evento de última hora, e não como um processo diário. Os dados do setor desenham um cenário alarmante sobre a estrutura das organizações brasileiras. Segundo a pesquisa da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR)*, 37% dos respondentes apontam como a maior dificuldade da captação a necessidade de dividir o tempo com outras demandas da instituição. Na maioria dos casos, a função é acumulada pela diretoria ou por técnicos que já estão sobrecarregados com a operação na ponta. O resultado é um ciclo vulnerável, especialista em "apagar incêndios": uma corrida desesperada contra o tempo para preencher formulários complexos apenas quando o caixa já entrou no vermelho. Diante dessa escassez crônica de tempo, a Inteligência Artificial (IA) passou a ser uma ferramenta de infraestrutura obrigatória para viabilizar a sustentabilidade institucional, mas poucas organizações ainda sabem como usá-la. A maioria das ONGs usa IA sem estratégia A rotina ideal de captação exige monitoramento constante do mercado, leitura minuciosa de editais, adequação técnica de propostas e relatórios rigorosos de prestação de contas. Mas você leu bem: ideal . Não é o que temos à mão no dia a dia. Para equipes enxutas, a IA se tornou o caminho para assumir essa carga operacional. Na captação de recursos, a máquina atua — ou deveria atuar — como um copiloto técnico: fazendo a triagem de diretrizes complexas e adaptando a linguagem de projetos para diferentes perfis de financiadores, devolvendo ao profissional o tempo necessário para pensar estrategicamente. Porém, de acordo com o levantamento do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) , feito com mais de 1,5 mil organizações, 62% assumem que ainda estão em um estágio baixo ou inexistente de adoção de IA. Vivemos em uma constante urgência para adotar a tecnologia, mas o pouco background gerou um uso amador e desordenado. Um mapeamento recente conduzido também pelo IDIS com mais de 500 entidades revelou que 95% das organizações sociais utilizam IA sem qualquer política ou orientação formal, e 75% dependem exclusivamente de ferramentas gratuitas de mercado. O risco aqui é que, com a soma da pouca estratégia e da falta de substância, as ONGs só consigam gerar, por meio da IA, propostas superficiais e desconectadas da realidade do território. São materiais incipientes, que podem levar à desclassificação imediata dos projetos pelos avaliadores dos editais. Como usar a IA a seu favor? Como resposta direta a esse cenário de equipes sobrecarregadas e necessidade de profissionalização tecnológica, a Fundação FEAC, com apoio do Instituto Phomenta, estruturou o projeto Captação com Causa. A iniciativa de 18 meses foi desenhada justamente para aplicar a IA como uma solução de sustentabilidade em 10 OSCs selecionadas de Campinas. Para combater o uso desordenado e a dependência de plataformas gratuitas apontados pelas pesquisas, o programa introduz no dia a dia das instituições bots customizados e programados especificamente para o contexto do terceiro setor. Em vez de soluções genéricas, as organizações ganham um sistema que filtra editais de forma preditiva e qualifica a escrita técnica das propostas, reduzindo drasticamente o tempo gasto na formatação dos projetos. O foco principal do projeto, que conta com um match funding de R$ 100 mil, é estruturar a captação como uma rotina viável. Por meio de assessoramentos individuais e coletivos, o programa prepara os profissionais para utilizarem a IA com postura crítica, garantindo que a tecnologia trabalhe a serviço da estratégia humana. Ao transformar a tecnologia em uma aliada, o Captação com Causa mira na mobilização de R$ 800 mil entre as participantes e na comprovação de que, com o método correto, a captação de recursos pode deixar de ser um susto sazonal e se tornar uma estratégia previsível, perene e sustentável. Quer saber mais sobre o Captação com Causa? Confira nosso último artigo! *Fonte: Censo ABCR
Por Instituto Phomenta 11 de junho de 2026
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