É fácil escolher uma ONG para doar no Brasil?

25 de julho de 2024

Saiba que caminhos e critérios usar para selecionar cuidadosamente uma ong pra fazer doações e acompanhar o trabalho de perto.

Um grupo de pessoas está em uma sala cumprimentando-se mutuamente.

Vou me basear na entrevista do José Luiz Setúbal à revista Veja de 5 anos atrás (29.05.2019), cujo tema continua mais atual do que nunca. Ele é um dos sete filhos de Olavo Setúbal (fundador do Banco Itaú), médico pediatra e, atualmente aos 67 anos de idade, já doou mais de 20% do seu patrimônio em vida. Em 2010 criou a Fundação que tem o seu nome (Fundação José Luiz Egydio Setubal – FJLES), cuja missão é “promover a saúde infantil por meio da assistência, e da geração e disseminação do conhecimento” de modo a apoiar as políticas públicas. 

Um homem de terno está sentado em uma cadeira com as mãos cruzadas.

É preciso estimular a filantropia no Brasil… 


Juntamente com Elie Horn, criador do Instituto Cyrela, eles formam a dupla dos grandes estimuladores da filantropia no Brasil. E, o mais importante, dão o exemplo por meio de atitudes concretas em suas vidas, procurando unir a filantropia com as suas expertises


Na entrevista à revista, o médico chama a atenção para dois fatos importantes. Primeiro, no Brasil, comparativamente a outros países, se doa pouco (ver também: CAF – WGI, 2018). E, segundo, proporcionalmente à sua capacidade de doação, o rico no Brasil doa menos do que o pobre. 


A seu ver, iniciativas como The Giving Pledge, estimuladas por Bill Gates e Warren Buffet, não conseguem mobilizar os muito ricos (bilionários) em nosso país, como nos Estados Unidos ou na França. A principal razão é o medo de expor os familiares a sequestros e assaltos, tendo em vista a falta de segurança pública em nosso país. 


Outra razão é cultural, pois o brasileiro rico tem vergonha de expor o seu nome como doador, tido como “coisa de novo rico”, ou seja, de pessoa que quer aparecer como sendo rico. Como admite o médico, a abordagem deveria ser o extremo oposto: o Brasil precisa justamente é de iluminar esses bons exemplos, para estimular a filantropia nas classes mais abastadas e nas grandes empresas. 


Um fator comumente alegado para o baixo nível das doações em nosso país é a dificuldade em escolher uma ONG com credibilidade, que tenha um trabalho social relevante e efetivo. Para Setúbal essa explicação é “desculpa” e não convence, pois basta “escolher (a organização) com o mesmo rigor usado para contratar o CEO de sua empresa”. 


Mas, será que é mesmo possível adotarmos algum rigor na escolha da organização para a qual pretendemos contribuir, por meio das nossas doações? 


Como ser rigoroso na escolha da organização para doar? 


Tendo a discordar aqui do Dr. José Luiz Setúbal. No Brasil, a grande dificuldade está no acesso às informações das organizações filantrópicas: o que elas fazem? Como elas fazem? Quem elas atendem? Qual a fonte de recursos? Quais os serviços oferecidos atualmente? Quais os resultados alcançados? Qual a sua história? Quem são os dirigentes e gestores? Que tipo de contribuição elas precisam? Como contribuir? 


Não se pode negar que várias dessas informações estão disponíveis com primor nos sites de algumas poucas organizações do terceiro setor, porém a maioria dessas organizações não tem site ou, quanto muito, um site bastante precário. Também, por outro lado e com certa frequência, recebemos ligações de telemarketing solicitando doações e apelando para a nossa compaixão frente ao sofrimento que nos é relatado. 


O ponto é: não basta termos acesso às informações dessa ou daquela organização. Pois, até que ponto um site bem desenvolvido é tão somente uma peça de marketing? Ou até que ponto um pedido de ajuda por telefone é apenas mais um golpe de pilantras? 


Nós, doadores, precisamos, sim, de informações das organizações filantrópicas dadas de modo confiável, comparável e abrangente. Não precisam ser muitas informações, mas poucas e relevantes – ou seja, o mínimo de informações necessárias para que os potenciais doadores comecem a trilhar na direção da organização que eles poderão vir a apadrinhar. Em outras palavras, o que precisamos inicialmente é de uma plataforma com as informações básicas de todas as organizações filantrópicas do país. 


 


O que as organizações poderiam fazer para captar doações? 


Nesse sentido, acredito que um bom ponto de partida para as OSCs seria aproveitar a oportunidade (da existência) da plataforma do  Mapa das Organizações da Sociedade Civil, coordenada pelo IPEA, que é pouco utilizada por elas e passar a intensificar o seu uso. Essa plataforma virtual já contém, para todas as OSCs brasileiras, alguns poucos dados da base CNPJ da Receita Federal (número do cnpj, endereço e área de atuação) e do antigo Ministério do Trabalho (empregos com carteira) que já foram compulsoriamente transferidos para ela. Porém, o nível de inclusão dos dados no Mapa, que é de caráter voluntário, ainda é muito baixo. A grande maioria das organizações não preenche os seus dados nesse Portal. 


Daí porque a minha sugestão é a de que, fazendo uso da infraestrutura tecnológica do Portal que já existe (e é gratuita!), as organizações deveriam começar por responder aos indicadores básicos que já são solicitados no Mapa,e depois irem evoluindo para a inclusão de novos indicadores relevantes de desempenho, com o compromisso de alimentar regularmente esses indicadores. 


Isso posto, em um primeiro momento - e com o Mapa das OSCs “fortalecido”, o doador recorreria a esse Portal para uma triagem inicial das organizações que atendam a seus critérios pessoais para doação – que podem ser em função da causa social, do tipo de trabalho que realizam, da localização, do tipo de contribuição que elas necessitam, do acesso às organizações, do tipo de prestação de contas, das referências aos dirigentes, dentre outros critérios. 


Outra opção também para as OSCs se fazerem visíveis e detentoras de certo grau de confiabilidade – porém, incorrendo em custos para elas, seria buscarem se certificar por meio da obtenção de selos. Por exemplo, a Certificadora Social concede alguns selos em função do atendimento a determinados critérios. 


Já em um segundo momento, o doador entraria em contato direto com os representantes dessas organizações pré-selecionadas para conhecê-las de perto e, assim, poder decidir com qual delas ele vai assumir o compromisso daí para frente, de uma doação sistemática, isto é, regular e pré-definida. Ou então, fazer uma doação única e de um valor maior.  Portanto, o desafio nessa fase é a organização estar estruturada, ter um bom banco de dados dos atendimentos realizados e poder ser capaz de apresentar evidências da solidez e eficácia do seu trabalho social 


CONCLUINDO, para seguirmos a recomendação do Dr. José Luiz Setúbal do “rigor na escolha da ONG a apoiar”, duas pré-condições se fazem necessárias: (i) existência de uma plataforma com as informações básicas de todas as organizações filantrópicas do país; e (ii) cada organização deve ter uma base de dados capaz de apoiar e demonstrar o que ela faz, como faz e que resultados atinge. 


Infelizmente essas duas pré-condições ainda não estão dadas atualmente no Brasil – é um caminho em que precisamos avançar! 


Aliás, quando fiz essa mesma reflexão por ocasião da mencionada entrevista do dr. José Luiz Setúbal à revista Veja, ele próprio comentou que na realidade não havia discordância entre ele e eu, “apenas eu havia tido mais espaço para expor as minhas ideias (sobre essa questão). Pois o jornalista havia tido que colocar no papel o resumo de 3 horas de conversa, e que realmente ele havia feito um milagre....”. 


Um close do rosto de uma mulher sorrindo e usando um colar.

Maria Cecília Prates é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape. Pesquisadora na FGV / IBRE na área social por muitos anos, e depois tem feito monitorias, consultorias, pesquisas em avaliação de projetos sociais e RSC. Site: www.estrategiasocial.com.br 


Inscreva-se na nossa Newsletter

Últimas publicações

Por Instituto Phomenta 11 de junho de 2026
Nem todo edital é uma oportunidade. Entenda os riscos do desvio de missão e como captar recursos de forma estratégica.
Por Jaice Balduino 1 de junho de 2026
O doador brasileiro está mudando: mais seletivo, exigente e orientado por impacto. Descubra o que as organizações sociais precisam oferecer para conquistar e fidelizar quem doa no cenário atual.
Por Instituto Phomenta 26 de maio de 2026
Quem está no dia a dia da gestão de uma ONG conhece bem o dilema: a gente passa tanto tempo cuidando dos projetos e atendendo a ponta que a nossa própria estrutura vai ficando para trás. Já diz o ditado: “em casa de ferreiro…”. Nosso financeiro roda no limite, a equipe fica sobrecarregada, os processos são travados e a liderança vive exausta. A verdade é que a gente se acostumou a operar no modo de sobrevivência. Então, que tal dar um passo para trás e avaliar o todo? Durante o FIFE 2026, o sociólogo Domingos Armani trouxe uma provocação que cutucou feridas necessárias. Ele alertou que muitas organizações ainda insistem em carregar crenças e estigmas que funcionam como mapas obsoletos. Só que, o grande problema de usar um mapa velho é que o mundo mudou, e o desenho antigo já não bate com o terreno real de hoje. Insistir na ideia de que investir na própria estrutura é "gastar dinheiro que deveria ir para o projeto" é um desses mapas velhos que precisamos rasgar. Fortalecer a casa, o chamado Desenvolvimento Institucional (DI), é o que garante que a ONG continue existindo e gerando impacto no longo prazo. E essa mudança de mentalidade muda tudo, inclusive o jeito de captar recursos. Mudar a postura para financiar a sua estratégia Captar recursos para o Desenvolvimento Institucional, ou seja para estruturar a gestão, investir em tecnologia e manter o time funcionando, exige parar de pedir dinheiro apenas para o "projeto da vez". No painel da Plataforma Conjunta, ainda no FIFE, o debate girou em torno de como virar essa chave diante dos financiadores. Para ajudar a avaliar como a sua organização está se posicionando, montamos um checklist prático com os principais aprendizados da mesa: Checklist de postura para o fortalecimento da ONG [ ] Você se explica pela estratégia ou pelo portfólio? Quando vai conversar com um parceiro, você gasta todo o tempo listando as oficinas da semana ou apresenta primeiro a missão e a visão de futuro da organização? Grandes parceiros querem financiar o futuro da sua causa, não apenas uma ação pontual. [ ] Você sabe compartilhar vulnerabilidades? Se a sua organização fosse perfeita e não tivesse nenhum problema de gestão, ela não precisaria de apoio. Fale da sua vulnerabilidade, mas com estratégia. Acompanha o próximo ponto! [ ] O desafio vem acompanhado de uma solução? Mostrar os pontos fracos da gestão para o parceiro só funciona se você já apresentar a rota para resolver o problema. A vulnerabilidade precisa vir colada com a sua capacidade de planejamento. [ ] O estigma da escassez foi abandonado? A gestão já superou a velha crença de que o Terceiro Setor precisa trabalhar sofrendo, com ferramentas defasadas e computadores lentos? Modernizar a estrutura interna é uma decisão de eficiência, não um luxo. Saiba que você pode merece e precisa de estrutura. Modernizar para não parar no caminho Se os mapas antigos não funcionam mais, o papel de quem gere é desenhar novas rotas. Olhar para o Desenvolvimento Institucional serve para dar musculatura para a organização. Quando paramos de “vender o almoço para pagar o jantar” e começamos a financiar a nossa própria estratégia, a ONG ganha a sustentabilidade que precisa para transformar a realidade na ponta de forma estruturada e contínua.
Por Instituto Phomenta 14 de maio de 2026
Quem trabalha em ONG sabe que a comunicação costuma ser o pratinho que mais cai. Com tantas atividades executadas ao mesmo tempo, a estratégia acaba ficando para trás porque o operacional consome todo o dia. Mas o uso da Inteligência Artificial (IA) tem mostrado que dá para mudar esse cenário. Esse foi um dos temas centrais do Fórum Interamericano de Filantropia Estratégica (FIFE 2026), o principal encontro sobre gestão do Terceiro Setor no Brasil. O debate focou em como a tecnologia pode organizar processos e liberar tempo para o que realmente importa. O cenário brasileiro é curioso: de um lado, a OpenAI aponta que o Brasil é o terceiro país que mais usa o ChatGPT no mundo (atrás apenas de EUA e Índia), com cerca de 140 milhões de mensagens diárias enviadas por aqui. Por outro lado, o uso estratégico nas ONGs ainda engatinha. Um levantamento do IDIS com mais de 1,5 mil organizações revela que 62% delas ainda estão em um estágio baixo ou inexistente de adoção de IA. Ou seja, a tecnologia está na nossa mão, mas o setor social ainda está descobrindo como transformá-la em aliada da gestão. Para tirar proveito real dessas ferramentas, o segredo é o jeito que você as alimenta. Durante a palestra de Marco Iarussi, publicitário social e fundador da Curta Causa, aprendemos que o "treinamento" que você dá à IA é o que define se o resultado será genérico ou útil. Mão na massa: Passo a passo para montar seu plano com IA Para a IA aprender sobre a sua realidade e não entregar respostas vazias, siga este roteiro: 1. Não mude de conversa Escolha um único chat para tratar do seu plano de comunicação, seja no ChatGPT, Gemini ou Claude. Se você abre uma conversa nova toda vez, a IA "esquece" o contexto. Mantendo o mesmo canal, ela guarda o histórico e entende as necessidades específicas da sua organização. 2. Dê informações reais Antes de pedir o plano completo, descubra o que a IA já "pensa" sobre você. Isso serve para corrigir erros e fornecer dados que ela ainda não tem. Prompt: "O que você sabe sobre a causa [inserir sua causa] e o que conhece sobre o trabalho da [nome da sua ONG]?" 3. Alinhe o que é um plano de verdade Veja se o robô entende o seu universo. Se ele tiver uma visão muito comercial, o plano parecerá uma propaganda de loja, o que não funciona para o setor social. Prompt: "Para você, o que não pode faltar em um plano de comunicação para uma ONG? Liste os pontos principais." (Leia e diga o que você concorda ou não). 4. Descubra o que ninguém está falando Use a ferramenta para encontrar novos ângulos e sair do óbvio. Prompt: "O que o pessoal mais fala sobre [sua causa] hoje? E o que você acha que ainda não foi dito, mas que ajudaria as pessoas a entenderem melhor o nosso impacto?" 5. Peça o plano prático Agora que o chat está treinado, peça a estrutura final. Prompt: "Com base em tudo o que já conversamos aqui, monte um calendário de 30 dias para as nossas redes sociais. O foco deve ser [ex: prestação de contas ou atrair novos voluntários]." Onde entra a ética e o seu papel Usar a tecnologia para facilitar o dia a dia é inteligência de gestão, mas exige cuidado. A IA serve para fazer o primeiro rascunho e organizar as ideias, mas a palavra final, a conferência dos dados e o olhar humano sobre a causa precisam ser seus. O objetivo é automatizar o que for repetitivo para que você tenha fôlego. Com a comunicação organizada, sobra tempo para construir relacionamentos de verdade e focar no que nenhuma máquina substitui a confiança e o olho no olho com quem apoia a sua organização. 
Por Camila Pasin 30 de abril de 2026
Empresas brasileiras deixaram de ser apenas financiadoras e se tornaram plataformas de engajamento. Entenda como transformar uma simples doação em uma verdadeira aliança de impacto.
Por Gabriel Pires 9 de abril de 2026
Minha OSC precisa de um código de ética? No terceiro setor, valores sem regras claras podem gerar conflitos e riscos. Entenda por que o código de ética é essencial para a gestão das OSCs.
mostrar mais

Participe do nosso grupo no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão

Entrar para o grupo