Como realizar uma boa elaboração de um projeto social de educação?

7 de outubro de 2021

Este conteúdo foi produzido por Partilha

Transformar a realidade social, impactar positivamente comunidades, fazer a diferença para pessoas em situação de vulnerabilidade… todas essas são ações que frequentemente aparecem nos discursos e na prática de pessoas que, assim como eu, trabalham com educação no terceiro setor. Se você é desse time, puxa uma cadeira, pega um café e vem com a gente prosear sobre educação e desenvolvimento social nesta nova série do Portal do Impacto. Por aqui, vamos conversar um pouco sobre os desafios de estruturar, executar e avaliar projetos sociais de educação que realmente provoquem e produzam impacto social.



Mas, antes de começar, quero te contar qual será o foco dessa série. Por trabalhar há quase 20 anos com projetos sociais de educação, sei bem que nossa paixão é estar com os beneficiários, ver a transformação em suas vidas, acompanhar os resultados e ajudar a construir histórias inspiradoras. A “sala de aula” é realmente apaixonante e, de fato, é onde reside nosso objetivo final. 


No entanto, nosso papo de agora foi pensado sob o ponto de vista de gestão, porque os bastidores são fundamentais para que o espetáculo aconteça. A ideia da série é dar dicas para cada uma das etapas que considero essenciais para o desenvolvimento de um projeto social de educação que alcance (e supere) os objetivos pretendidos.


As dicas de hoje se referem à primeira etapa: diagnóstico e elaboração. Antes de começarmos, porém, acho fundamental explicar o que são projetos. Muitas vezes chamamos de projeto tudo aquilo que fazemos na organização, e isso dificulta que obtenhamos a transformação tão desejada.


Projetos são um conjunto de ações e esforços temporários realizados para introduzir mudanças específicas. Ou seja, eles têm começo, meio e fim e um objetivo delimitado. Projetos são focais! Então, a primeira dica é identificar o que é e o que não é projeto na sua instituição. Um jeito bom de fazer isso é observar se aquilo é uma rotina ou se é algo que foi construído com um foco bem determinado. Muitas organizações trabalham com programas e projetos, mas não sabem bem a diferença entre essas atividades, o que pode gerar uma enorme confusão na hora de executar, comunicar e até mesmo mensurar os resultados. Os programas são contínuos e funcionam muitas vezes como “guarda-chuvas” de projetos. Por exemplo: você pode ter um programa de formação de jovens e, dentro desse programa, projetos de informática e orientação profissional. Portanto, é importante fazer essa distinção para que tenhamos mais clareza em todas as etapas dos projetos.


Feito isso, a segunda dica é olhar para os projetos sob a perspectiva não só de educador, mas também de gestor. Habilidades de planejamento, integração, monitoramento e comunicação são essenciais para gestores de projetos de qualquer área, e não seria diferente nos projetos sociais de educação. Dessa forma, o projeto de educação começa muito antes de a sala de aula estar cheia, não é?!


Dito tudo isso, entramos no tema deste primeiro texto: a primeira etapa, o começo de tudo! Vamos falar sobre como realizar um bom diagnóstico e elaborar um projeto social de educação. Como eu disse antes, projeto é quase sinônimo de foco. Então, a terceira dica é delimitar o seu foco e, para isso, vale responder àquelas famosas perguntinhas: o que (ação), como (etapas/metodologia), quem (equipe e beneficiários), quando (período), onde (local), quanto (recursos), por que (justificativa) e para que (finalidade). 


Sei que comecei o texto falando sobre transformação social. Esse é o nosso objetivo final, mas é impossível colocar projetos em prática sem fazer recortes. Para gerar ações educacionais de impacto, é preciso fazer escolhas. Isso não significa que você deve excluir alguém, apenas que precisa concentrar esforços específicos em necessidades específicas. Sendo assim, nossa quarta dica é: faça escolhas conscientes, claras e objetivas para ter os resultados que deseja — e isso não impede que sua instituição tenha vários projetos e programas. 


Quando respondemos àquelas perguntas da terceira dica, já estamos bem adiantados em relação a uma boa elaboração de projetos. Mas não é o suficiente! Quinta dica: nem sempre o que queremos fazer é o que deve ser feito no momento. Não vale elaborar o projeto sozinho, de dentro de sua sala com as portas fechadas. Sua ideia pode ser sensacional, mas com certeza há espaço para melhorá-la!


Nossa sexta dica é: converse! Fale com seu público, com sua equipe, com a diretoria, com os conselhos, com outras instituições. Parece controverso, mas para ter um bom foco é preciso ampliar a imagem do contexto (dica 07).


E, falando em contexto, vem a oitava dica: embase seu trabalho em dados oficiais e políticas públicas. Uma vez feito um bom recorte, esse diálogo é super possível e torna seu projeto relevante e mensurável. 


Mas não deixe de relacionar esses dados com os dados da sua realidade: uma boa pesquisa pode oferecer um diagnóstico do seu público, o que te ajuda a construir todas as ações e a tangibilizar melhor seus possíveis resultados. Dica 09: faça uma pesquisa qualificada sobre o perfil do seu público (aquele que você delimitou depois de ter feito o recorte).


Para finalizar, a décima dica é sobre escrever seu projeto. Não se trata de um calhamaço de folhas que ficarão na gaveta ou serão enviadas para o financiador, mas de um material que deixe claro de onde a ação vai partir, como vai caminhar e aonde quer chegar!


Fazer uma boa gestão de projetos sociais de educação é um trabalho primordial para que aquelas histórias sejam impactadas. É dar condições para que a equipe, a instituição, os beneficiários cheguem à sua máxima potência!


Espero que esse primeiro bate-papo tenha sido útil. É muito bom poder partilhar um pouco de experiência e conhecimento e apoiar tanta gente que quer phomentar impacto social com qualidade e responsabilidade. 


Este conteúdo foi produzido por Partilha

Ana Carolina Ferreira, apaixonada por educação e terceiro setor, graduada em Letras, especialista em Gestão de Projetos e graduanda em Psicologia. Fundadora da Partilha, dedica-se ao desenvolvimento de pessoas, empresas e instituições sociais, assessorando programas educacionais.


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Ferramentas de computação em nuvem, automação de processos e sistemas de gestão já impactam profundamente a comunicação e a administração das organizações. E, sem dúvida, a Inteligência Artificial é o próximo grande divisor de águas. A IA já é uma realidade acessível ao terceiro setor, mas ainda pouco dominada de forma qualificada, segura e estratégica. Existe um enorme potencial para geração de conhecimento, análise de dados, automação, pesquisa e avaliação de projetos. É possível, por exemplo, utilizar ferramentas de IA para analisar evidências científicas, apoiar processos de avaliação, medir resultados e até realizar auditorias internas de gestão. Ainda assim, o setor carece de investimento em formação, treinamento e desenvolvimento de soluções de IA criadas pelo terceiro setor e para o terceiro setor. Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer um desafio estrutural: muitas organizações de base, especialmente em territórios periféricos, ainda têm dificuldade de incorporar tecnologia às suas soluções. Não por falta de visão, mas por falta de acesso à educação, à formação técnica e a investimentos sociais. É comum vermos tecnologias avançadas sendo desenvolvidas por startups e organizações de impacto, enquanto quem atua diretamente no território não dispõe dos recursos necessários para utilizá-las. Sem articulação, essa equação não fecha. Por isso, outra tendência que se consolida é a valorização de redes, consórcios e articulações territoriais. Organizações que atuam de forma isolada tendem a ter mais dificuldade de acessar investimentos. Financiadores buscam cada vez mais iniciativas coletivas, capazes de envolver múltiplos atores, setores e saberes. A experiência mostra que articular financiamento privado, cooperação técnica com o poder público e o engajamento de organizações de base é um caminho consistente para gerar impacto real e sustentável. Nesse novo cenário, o uso de dados e evidências deixou de ser opcional. A atuação precisa ser responsiva às necessidades reais dos territórios, e isso só é possível por meio da observação sistemática, da geração cidadã de dados e da tomada de decisões baseadas em evidências. O investimento social privado no Brasil amadureceu — e espera projetos bem estruturados, com governança sólida e clareza de resultados. É impossível falar de inovação sem falar de ética. Tecnologias como a Inteligência Artificial precisam ser desenvolvidas e utilizadas com base em princípios claros: respeito à privacidade e à LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), justiça social, mitigação de vieses discriminatórios, controle social sobre dados e sistemas, segurança da informação e responsabilidade ambiental. O impacto climático da tecnologia, muitas vezes invisível, também precisa entrar na equação. Regulamentação e compromisso das empresas e investidores são indispensáveis. O financiamento das organizações também passa por mudanças relevantes. Doações online, campanhas como o Dia de Doar, cessão de tecnologias e licenças por empresas e, sobretudo, o fortalecimento dos mecanismos de incentivo fiscal têm ampliado as possibilidades de sustentabilidade. Quando uma empresa direciona parte de seus impostos para projetos sociais no território onde atua, o recurso retorna diretamente para a comunidade, em forma de educação, inovação e oportunidades. Isso fortalece a democracia e aproxima o investimento social da vida real das pessoas. As parcerias intersetoriais, aliás, tendem a se tornar ainda mais estratégicas. Políticas de ESG impulsionaram empresas a assumirem compromissos mais concretos com impacto social e ambiental. Quando essa agenda sai do discurso e se traduz em atuação no território, com cooperação técnica e investimento de longo prazo, os resultados são muito mais consistentes. Diante de um cenário marcado por polarização política e desinformação, o papel das organizações da sociedade civil também se amplia. Educação midiática, consumo crítico da informação e inclusão digital são hoje pilares da defesa da democracia. Eu acredito que capacitar pessoas em habilidades digitais é também fortalecer sua capacidade de participação cidadã. O terceiro setor está, sim, mais profissionalizado — e isso é necessário. 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Por Nathalia Albuquerque 2 de março de 2026
Você pode amar muito um time e ainda assim vê-lo perder campeonatos por anos. Pode ter a maior torcida do país, uma história gigante e uma camisa pesada. Mas sem gestão, isso não se sustenta. No terceiro setor acontece algo muito parecido. Sou corinthiana e não acompanho o futebol tão de perto. Mesmo assim, é impossível ignorar o que Palmeiras e Flamengo vêm construindo nos últimos anos. Escrevo este artigo no final de 2025 e, ao olhar para os principais campeonatos do período recente, Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil, esses dois clubes seguem protagonizando finais, títulos e campanhas consistentes. Não por acaso, também passaram a aparecer em premiações internacionais que reconhecem excelência em gestão, como o Globe Soccer Awards. Mas nem sempre foi assim. E é exatamente aí que essa história interessa às organizações da sociedade civil. Quando a virada não acontece no campo Palmeiras e Flamengo já viveram fases marcadas por dívidas, crises internas e resultados bem abaixo do potencial que tinham. A mudança não começou com um craque, nem com um gol histórico. Começou fora de campo. Por volta de 2012 e 2013, os dois clubes passaram a tratar a gestão como eixo central. Planejamento financeiro, profissionalização das equipes, governança e visão de longo prazo deixaram de ser discurso e passaram a orientar decisões concretas. Se você não gosta de futebol, continue comigo. O ponto aqui não é o esporte. É entender que amor, tradição e propósito são fundamentais, mas não substituem uma boa gestão. Com gestão, a gente vai mais longe. O que o Palmeiras ensina No Palmeiras, a virada tem um nome bastante conhecido: Paulo Nobre. Ao assumir a presidência do clube em 2013, encontrou um cenário delicado, com dívidas e pouca previsibilidade. Uma das decisões mais simbólicas foi emprestar recursos próprios para reorganizar as finanças do time. Um gesto arriscado, mas inserido em uma estratégia maior. A partir daí, vieram parcerias estratégicas como a Crefisa, a profissionalização da gestão e a criação de novas fontes de receita. A modernização do Allianz Parque transformou o estádio em um ativo que gera renda muito além dos jogos, com shows e eventos. É a lógica de enxergar a estrutura como meio para sustentar a missão, algo bastante familiar para quem atua no terceiro setor. O Flamengo e a coragem de arrumar a casa O Flamengo sempre teve popularidade e potencial. O que faltava era organização. A virada começou com decisões duras e pouco populares, como uma política rigorosa de controle de gastos e reorganização financeira. Antes de investir pesado em contratações, o clube investiu em processos, equipe técnica qualificada e responsabilidade fiscal. Os títulos vieram depois. Não como milagre, mas como consequência. O que tudo isso tem a ver com as OSCs? Muito mais do que parece. Os dois clubes mostram que investir na base (jovens atletas em formação para o time principal) é apostar no longo prazo, mesmo quando o retorno não é imediato. No terceiro setor, isso aparece na formação de equipes, no fortalecimento institucional e no desenvolvimento de lideranças. Eles também reforçam uma verdade incômoda: amor não é estratégia. Paixão move, mas não organiza fluxo de caixa, não constrói indicadores e não garante sustentabilidade. Há ainda a importância de diversificar fontes de receita, inclusive para organizações grandes e reconhecidas, e de contar com profissionais qualificados, além de investir em quem já faz parte da equipe. Nada disso acontece do dia para a noite. O processo é longo, exige constância e escolhas difíceis. Um convite para quem lidera organizações sociais  Se você lidera uma OSC, vale a reflexão. O quanto da sua energia está concentrada apenas na causa e o quanto está direcionada para fortalecer a gestão que sustenta essa causa? Gestão não esfria o propósito. Pelo contrário. Ela protege a missão, amplia o impacto e garante que o trabalho continue existindo daqui a cinco, dez ou vinte anos. No futebol e no terceiro setor, amor é o ponto de partida. Gestão é o que transforma esse amor em legado.
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