Como ONGs podem cocriar com startups e governos para inovar nos territórios

28 de agosto de 2025

Cada vez mais é necessário inovar para superar desafios sociais e criar políticas públicas que favoreçam verdadeiramente a população e seus territórios. Neste cenário, as Organizações Não Governamentais (ONGs) desempenham um papel estratégico, afinal, estão enraizadas nas comunidades e conhecem de perto suas causas e necessidades, um espaço onde por muitas vezes os governos nacionais e subnacionais não conseguem estar.


Por outro lado, muitas vezes, as ONGs acabam por atuar de forma isolada, e por este motivo, enfrentam falta de recursos, mão de obra e inovação. Ao mesmo tempo, startups e governos também enfrentam desafios para chegar em territórios com confiança e legitimidade. 


Há portanto a necessidade de potencializar o melhor dos mundos, e a cocriação intersetorial pode resolver isso. Essa aproximação entre diferentes setores não só amplia o impacto das ações sociais, como também fortalece soluções mais ágeis, escaláveis e conectadas à realidade local, mas ainda é pouco praticada. 


Podemos primeiramente analisar algumas situações onde a cocriação é vantajosa:


ONGs e Startups


Startups são, por natureza, organizações voltadas à busca pela inovação, com a mentalidade focada na metodologia de experimentação, conseguem desenvolver soluções tecnológicas com rapidez. Muitas atraem o público jovem, com muito interesse em resolver problemas sociais e ambientais, mas nem sempre conseguem acesso direto aos territórios ou ao entendimento profundo das demandas locais.


Ao conectar uma startup com uma ONG, é possível desenvolver o aprendizado com problemas reais das comunidades, onde as organizações sociais seriam cruciais para fazer a ponte entre o desafio - pouco visto pelas Startups - e aqueles que vão tentar buscar uma solução - superando o gargalo dessas organizações.


A ONG, a princípio traz a capilaridade e o conhecimento local, coloca as ideias no cenário real, enquanto a startup oferece tecnologia, inovação, gestão de dados e um olhar que naquele momento a organização talvez não conseguisse suprir sozinha.


ONGs e Governos 


Uma relação um pouco mais “clássica”. Seja subnacional, nacionais ou até mesmo nas relações internacionais, a articulação entre ONGS e o poder público é essencial. Há muito tempo entende-se que o estado-nacional não é mais uma fonte total de recursos, na realidade, nunca foi,  e quase ao mesmo tempo entende-se que quem chega onde o estado não chega são as ONGs. 


Ainda sim, para que as soluções criadas pelas ONGs ganhem legitimidade, alcance e continuidade são necessárias políticas, que estão na mão dos governos. Sendo assim, quando ONGs e governos trabalham juntos, é possível alinhar ações à política pública, evitar sobreposição de esforços e construir modelos replicáveis.


As ONGs entram como articuladoras políticas, detentoras do conhecimento pragmático de ação, e até mesmo espaços laboratoriais onde podem ser testadas diversos tipos de estratégias.


No cenário mais que perfeito, a relação aqui é de confiança mútua, onde os governos devem abrir espaços para o funcionamento das ONGs e muitas vezes financiá-las enquanto estas aplicam e desenvolvem políticas públicas. Quando o diálogo entre ONGs e governos é contínuo, abrem-se caminhos para políticas mais inclusivas, eficientes e alinhadas às realidades locais.


Em vista dessas relações, fica a questão: como criar um processo de cocriação?


O cenário de cocriação 


Quando ONGs, startups, governos se unem em torno de objetivos comuns, formam um novo tipo de ecossistema. De um lado temos duas frentes de busca: startups que querem encontrar um espaço para gerar novas ideias e governos que precisam articular suas políticas em algum território. 


As ONGs, com sua presença histórica nos territórios, têm o potencial de ser o fio condutor dessas conexões. Podem articular pontes entre quem tem tecnologia e quem tem a vivência,  e quem toma decisões, além do fator mais importante: quem vive os impactos dessas decisões no dia a dia.


Obviamente não é um espaço fácil, ou um ecossistema simples de se gerar, pelo contrário: a inovação não nasce de um dia para o outro, há muitas camadas de discussão, mas, como mostrado, todos só tendem a ganhar com a cocriação.


Algumas dicas podem ajudar nesse período de busca pela criação de relacionamentos.


Dicas para cocriação a partir das ONGs:


Se você deseja trabalhar com startups e/ou governos, lembre-se de mapear o território de forma colaborativa, identificando quem já atua na região: empresas, universidades, coletivos, órgãos públicos, etc. 


Crie laços de confiança com quem você encontrar, começando com projetos-piloto e ações de pequeno porte que permitam o aprendizado mútuo. E esteja aberto ao novo, muitas inovações e soluções nascem quando todos estão sujeitos a mudança.


Por fim, lembre-se sempre de documentar e compartilhar aprendizados, para inspirar outras organizações e facilitar a replicação de boas práticas.


Conclusão


A cooperação entre ONGs, startups e governos  é uma necessidade para enfrentar os desafios complexos que atravessam os territórios. Cada vez mais é necessário inovar para superar desafios sociais e criar políticas públicas que favoreçam verdadeiramente a população e seus territórios.


A chave para isso? Construir relacionamentos duradouros e de confiança, que espelhem na sociedade resultados da articulação conjunta entre diferentes atores.


Vinicius Santos - Bacharel em Ciências e Humanidades e estudante de Relações Internacionais, tem experiência em pesquisa acadêmica nas áreas de política externa, governança multinível e participação social. Acredita na colaboração entre diferentes setores da sociedade como resposta para construção de um futuro mais justo e sustentável. Compõe a área de Relações Institucionais e Parcerias no Instituto Phomenta, conectando ONGs, empresas, institutos e fundações para o fortalecimento de territórios e causas.


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A experiência mostra que articular financiamento privado, cooperação técnica com o poder público e o engajamento de organizações de base é um caminho consistente para gerar impacto real e sustentável. Nesse novo cenário, o uso de dados e evidências deixou de ser opcional. A atuação precisa ser responsiva às necessidades reais dos territórios, e isso só é possível por meio da observação sistemática, da geração cidadã de dados e da tomada de decisões baseadas em evidências. O investimento social privado no Brasil amadureceu — e espera projetos bem estruturados, com governança sólida e clareza de resultados. É impossível falar de inovação sem falar de ética. Tecnologias como a Inteligência Artificial precisam ser desenvolvidas e utilizadas com base em princípios claros: respeito à privacidade e à LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), justiça social, mitigação de vieses discriminatórios, controle social sobre dados e sistemas, segurança da informação e responsabilidade ambiental. O impacto climático da tecnologia, muitas vezes invisível, também precisa entrar na equação. Regulamentação e compromisso das empresas e investidores são indispensáveis. O financiamento das organizações também passa por mudanças relevantes. Doações online, campanhas como o Dia de Doar, cessão de tecnologias e licenças por empresas e, sobretudo, o fortalecimento dos mecanismos de incentivo fiscal têm ampliado as possibilidades de sustentabilidade. Quando uma empresa direciona parte de seus impostos para projetos sociais no território onde atua, o recurso retorna diretamente para a comunidade, em forma de educação, inovação e oportunidades. 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Por Nathalia Albuquerque 2 de março de 2026
Você pode amar muito um time e ainda assim vê-lo perder campeonatos por anos. Pode ter a maior torcida do país, uma história gigante e uma camisa pesada. Mas sem gestão, isso não se sustenta. No terceiro setor acontece algo muito parecido. Sou corinthiana e não acompanho o futebol tão de perto. Mesmo assim, é impossível ignorar o que Palmeiras e Flamengo vêm construindo nos últimos anos. Escrevo este artigo no final de 2025 e, ao olhar para os principais campeonatos do período recente, Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil, esses dois clubes seguem protagonizando finais, títulos e campanhas consistentes. Não por acaso, também passaram a aparecer em premiações internacionais que reconhecem excelência em gestão, como o Globe Soccer Awards. Mas nem sempre foi assim. E é exatamente aí que essa história interessa às organizações da sociedade civil. Quando a virada não acontece no campo Palmeiras e Flamengo já viveram fases marcadas por dívidas, crises internas e resultados bem abaixo do potencial que tinham. A mudança não começou com um craque, nem com um gol histórico. Começou fora de campo. Por volta de 2012 e 2013, os dois clubes passaram a tratar a gestão como eixo central. Planejamento financeiro, profissionalização das equipes, governança e visão de longo prazo deixaram de ser discurso e passaram a orientar decisões concretas. Se você não gosta de futebol, continue comigo. O ponto aqui não é o esporte. É entender que amor, tradição e propósito são fundamentais, mas não substituem uma boa gestão. Com gestão, a gente vai mais longe. O que o Palmeiras ensina No Palmeiras, a virada tem um nome bastante conhecido: Paulo Nobre. Ao assumir a presidência do clube em 2013, encontrou um cenário delicado, com dívidas e pouca previsibilidade. Uma das decisões mais simbólicas foi emprestar recursos próprios para reorganizar as finanças do time. Um gesto arriscado, mas inserido em uma estratégia maior. A partir daí, vieram parcerias estratégicas como a Crefisa, a profissionalização da gestão e a criação de novas fontes de receita. A modernização do Allianz Parque transformou o estádio em um ativo que gera renda muito além dos jogos, com shows e eventos. É a lógica de enxergar a estrutura como meio para sustentar a missão, algo bastante familiar para quem atua no terceiro setor. O Flamengo e a coragem de arrumar a casa O Flamengo sempre teve popularidade e potencial. O que faltava era organização. A virada começou com decisões duras e pouco populares, como uma política rigorosa de controle de gastos e reorganização financeira. Antes de investir pesado em contratações, o clube investiu em processos, equipe técnica qualificada e responsabilidade fiscal. Os títulos vieram depois. Não como milagre, mas como consequência. O que tudo isso tem a ver com as OSCs? Muito mais do que parece. Os dois clubes mostram que investir na base (jovens atletas em formação para o time principal) é apostar no longo prazo, mesmo quando o retorno não é imediato. No terceiro setor, isso aparece na formação de equipes, no fortalecimento institucional e no desenvolvimento de lideranças. Eles também reforçam uma verdade incômoda: amor não é estratégia. Paixão move, mas não organiza fluxo de caixa, não constrói indicadores e não garante sustentabilidade. Há ainda a importância de diversificar fontes de receita, inclusive para organizações grandes e reconhecidas, e de contar com profissionais qualificados, além de investir em quem já faz parte da equipe. Nada disso acontece do dia para a noite. O processo é longo, exige constância e escolhas difíceis. Um convite para quem lidera organizações sociais  Se você lidera uma OSC, vale a reflexão. O quanto da sua energia está concentrada apenas na causa e o quanto está direcionada para fortalecer a gestão que sustenta essa causa? Gestão não esfria o propósito. Pelo contrário. Ela protege a missão, amplia o impacto e garante que o trabalho continue existindo daqui a cinco, dez ou vinte anos. No futebol e no terceiro setor, amor é o ponto de partida. Gestão é o que transforma esse amor em legado.
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