Como a tecnologia pode ajudar as ONGs

23 de setembro de 2021

Por Graziele França, especialista contábil na WK Sistemas
 

Em meio a um cenário de pandemia sem precedentes nos últimos anos, o terceiro setor brasileiro viveu um momento histórico: as organizações sociais receberam grandes doações para minimizar os efeitos da crise do coronavírus. Segundo dados do Monitor das Doações Covid-19, em 2020 as companhias privadas doaram cerca de R$6,5 bilhões para ONGs, responsáveis por arrecadar alimentos, equipamentos de proteção individual (EPIs), produtos de limpeza e ajuda financeira para manter hospitais em funcionamento. 


Agora, com o ritmo de vacinação crescendo e a pandemia dando leves indícios de melhora, a preocupação é como manter o ritmo de doações. Ainda que nos três primeiros meses de 2021 o valor arrecadado tenha passado de R$1,9 bilhão, no final de maio o crescimento das contribuições começou a desacelerar e se estagnou, o que preocupou as organizações do terceiro setor. Mesmo em um panorama mais estável, a crise deixou um buraco muito grande que ainda vai precisar de muitos recursos para ser tapado.


Então, como retomar o engajamento e seguir conseguindo ajuda? A resposta está na digitalização do setor. Segundo uma pesquisa da Funraise, empresa que desenvolve tecnologias para captações digitais, 55% dos doadores de todo o mundo preferem contribuir online, com cartões de crédito ou débito, transferências, carteiras digitais ou mensagens de texto. A pandemia já deu o
start nessa tendência, uma vez que, com o isolamento social, as ONGs não puderam mais contar com a ajuda de eventos presenciais ou bazares para arrecadar fundos.


A tecnologia também é extremamente importante para as rotinas administrativas da organização, porque há diversos documentos orçamentários, contábeis, administrativos e trabalhistas que geram um volume de papel e de burocracia muito grande. Não faz mais sentido, na realidade atual, ter essas informações impressas ou usar diversas planilhas para organizar as contas. Um bom sistema de gestão é um excelente aliado não só para integrar e automatizar todas as áreas da organização, mas também para gerar mais transparência, celeridade e segurança nos processos ー pontos indispensáveis para conseguir mais patrocinadores.


Outra questão envolve justamente os doadores: a tecnologia acaba tendo um impacto direto na visão que os apoiadores têm da organização. Se um doador se depara com métodos gerenciais ultrapassados e confusos, dificilmente vai se sentir confiante para colocar dinheiro naquele projeto. Por outro lado, processos modernos geram maior credibilidade e atraem mais pessoas dispostas a ajudar. 


Um exemplo que ilustra muito bem a importância da tecnologia no terceiro setor é a Aliança de Misericórdia, associação que resgata a dignidade humana por meio da evangelização, de obras sociais e da educação. Com 21 anos de atuação, a organização hoje tem 280 colaboradores contratados em regime CLT, 220 missionários, 30 imóveis próprios, aluguéis, comodatos, mais de 50 veículos e está espalhada por 33 cidades do Brasil e em 7 cidades do mundo. Em relação à receita, 46% das verbas são provenientes de sócios, 38% são de verba pública, 4% de parcerias com pessoas jurídicas e 12% de receitas de lojas e eventos.


Com essa diversidade de frentes de atuação, a Aliança tem um fluxo enorme de informações circulando internamente. São mais de 60 contas correntes, 36 CNPJs e mais de 75 centros de custos, e mensalmente é preciso compilar esses dados para contabilizá-los e fazer o gerenciamento dessa movimentação financeira. A organização precisa prestar contas a diversos órgãos ー como a Secretaria Municipal de Assistência Social e o Conselho Estadual da Criança e do Adolescente ー, às pessoas jurídicas e físicas com as quais tem parceria, aos doadores e aos sócios.  Tudo isso precisa ser feito de forma segura e transparente.


Seria impossível dar seguimento a estes procedimentos sem um bom sistema de gestão empresarial (ERP) para apoiá-los. Os 75 centros de custo, por exemplo, são divididos entre os custos administrativos, sociais, de educação e de evangelização. Com o ERP, a associação consegue contabilizar todas as receitas e despesas individualmente e acompanhá-las dentro de um plano de contas. A prestação de contas para auditoria e para os conselhos fiscal e consultivo é feita inteiramente com base nos números extraídos do sistema.


No mundo corporativo, é impossível crescer sem boas parcerias. No mundo das organizações sem fins lucrativos, também. Ser transparente e ter celeridade e segurança nas operações é muito importante, mas não basta entender isso apenas no conceito. Os reflexos da pandemia vão continuar por muito tempo, e é urgente que as ONGs se digitalizem e busquem parcerias tecnológicas para continuar fazendo seu trabalho, que é fundamental para a sociedade.


Por Graziele França, especialista contábil na WK Sistemas


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Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer um desafio estrutural: muitas organizações de base, especialmente em territórios periféricos, ainda têm dificuldade de incorporar tecnologia às suas soluções. Não por falta de visão, mas por falta de acesso à educação, à formação técnica e a investimentos sociais. É comum vermos tecnologias avançadas sendo desenvolvidas por startups e organizações de impacto, enquanto quem atua diretamente no território não dispõe dos recursos necessários para utilizá-las. Sem articulação, essa equação não fecha. Por isso, outra tendência que se consolida é a valorização de redes, consórcios e articulações territoriais. Organizações que atuam de forma isolada tendem a ter mais dificuldade de acessar investimentos. Financiadores buscam cada vez mais iniciativas coletivas, capazes de envolver múltiplos atores, setores e saberes. A experiência mostra que articular financiamento privado, cooperação técnica com o poder público e o engajamento de organizações de base é um caminho consistente para gerar impacto real e sustentável. Nesse novo cenário, o uso de dados e evidências deixou de ser opcional. A atuação precisa ser responsiva às necessidades reais dos territórios, e isso só é possível por meio da observação sistemática, da geração cidadã de dados e da tomada de decisões baseadas em evidências. O investimento social privado no Brasil amadureceu — e espera projetos bem estruturados, com governança sólida e clareza de resultados. É impossível falar de inovação sem falar de ética. Tecnologias como a Inteligência Artificial precisam ser desenvolvidas e utilizadas com base em princípios claros: respeito à privacidade e à LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), justiça social, mitigação de vieses discriminatórios, controle social sobre dados e sistemas, segurança da informação e responsabilidade ambiental. O impacto climático da tecnologia, muitas vezes invisível, também precisa entrar na equação. Regulamentação e compromisso das empresas e investidores são indispensáveis. O financiamento das organizações também passa por mudanças relevantes. Doações online, campanhas como o Dia de Doar, cessão de tecnologias e licenças por empresas e, sobretudo, o fortalecimento dos mecanismos de incentivo fiscal têm ampliado as possibilidades de sustentabilidade. Quando uma empresa direciona parte de seus impostos para projetos sociais no território onde atua, o recurso retorna diretamente para a comunidade, em forma de educação, inovação e oportunidades. 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Você pode amar muito um time e ainda assim vê-lo perder campeonatos por anos. Pode ter a maior torcida do país, uma história gigante e uma camisa pesada. Mas sem gestão, isso não se sustenta. No terceiro setor acontece algo muito parecido. Sou corinthiana e não acompanho o futebol tão de perto. Mesmo assim, é impossível ignorar o que Palmeiras e Flamengo vêm construindo nos últimos anos. Escrevo este artigo no final de 2025 e, ao olhar para os principais campeonatos do período recente, Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil, esses dois clubes seguem protagonizando finais, títulos e campanhas consistentes. Não por acaso, também passaram a aparecer em premiações internacionais que reconhecem excelência em gestão, como o Globe Soccer Awards. Mas nem sempre foi assim. E é exatamente aí que essa história interessa às organizações da sociedade civil. Quando a virada não acontece no campo Palmeiras e Flamengo já viveram fases marcadas por dívidas, crises internas e resultados bem abaixo do potencial que tinham. A mudança não começou com um craque, nem com um gol histórico. Começou fora de campo. Por volta de 2012 e 2013, os dois clubes passaram a tratar a gestão como eixo central. Planejamento financeiro, profissionalização das equipes, governança e visão de longo prazo deixaram de ser discurso e passaram a orientar decisões concretas. Se você não gosta de futebol, continue comigo. O ponto aqui não é o esporte. É entender que amor, tradição e propósito são fundamentais, mas não substituem uma boa gestão. Com gestão, a gente vai mais longe. O que o Palmeiras ensina No Palmeiras, a virada tem um nome bastante conhecido: Paulo Nobre. Ao assumir a presidência do clube em 2013, encontrou um cenário delicado, com dívidas e pouca previsibilidade. Uma das decisões mais simbólicas foi emprestar recursos próprios para reorganizar as finanças do time. Um gesto arriscado, mas inserido em uma estratégia maior. A partir daí, vieram parcerias estratégicas como a Crefisa, a profissionalização da gestão e a criação de novas fontes de receita. A modernização do Allianz Parque transformou o estádio em um ativo que gera renda muito além dos jogos, com shows e eventos. É a lógica de enxergar a estrutura como meio para sustentar a missão, algo bastante familiar para quem atua no terceiro setor. O Flamengo e a coragem de arrumar a casa O Flamengo sempre teve popularidade e potencial. O que faltava era organização. A virada começou com decisões duras e pouco populares, como uma política rigorosa de controle de gastos e reorganização financeira. Antes de investir pesado em contratações, o clube investiu em processos, equipe técnica qualificada e responsabilidade fiscal. Os títulos vieram depois. Não como milagre, mas como consequência. O que tudo isso tem a ver com as OSCs? Muito mais do que parece. Os dois clubes mostram que investir na base (jovens atletas em formação para o time principal) é apostar no longo prazo, mesmo quando o retorno não é imediato. No terceiro setor, isso aparece na formação de equipes, no fortalecimento institucional e no desenvolvimento de lideranças. Eles também reforçam uma verdade incômoda: amor não é estratégia. Paixão move, mas não organiza fluxo de caixa, não constrói indicadores e não garante sustentabilidade. Há ainda a importância de diversificar fontes de receita, inclusive para organizações grandes e reconhecidas, e de contar com profissionais qualificados, além de investir em quem já faz parte da equipe. Nada disso acontece do dia para a noite. O processo é longo, exige constância e escolhas difíceis. Um convite para quem lidera organizações sociais  Se você lidera uma OSC, vale a reflexão. O quanto da sua energia está concentrada apenas na causa e o quanto está direcionada para fortalecer a gestão que sustenta essa causa? Gestão não esfria o propósito. Pelo contrário. Ela protege a missão, amplia o impacto e garante que o trabalho continue existindo daqui a cinco, dez ou vinte anos. No futebol e no terceiro setor, amor é o ponto de partida. Gestão é o que transforma esse amor em legado.
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