4 atitudes simples para construir parcerias confiáveis e duradouras

26 de agosto de 2021

Este conteúdo foi produzido por Pedro Sá

Quais comportamentos e atitudes são necessários para construir e consolidar parcerias confiáveis e duradouras com doadores?


Neste texto, escolhi as quatro práticas que mais me chamam a atenção e me mobilizam como gestor e consultor de organizações da sociedade civil.


Antes, permitam-me destacar que parceria é diferente de apoio. Uma pessoa ou empresa que pontualmente ajuda a divulgar uma campanha, que contribui para um projeto ou que participa de uma ação de mutirão de limpeza de praia ou de banho em abrigos de animais, por exemplo, pode ser uma apoiadora da causa, mas não se configura como uma parceira. Segundo o dicionário, “apoiador” é aquele que presta apoio, auxilia, ampara. Assim, se a sua OSC recebe pontualmente doação de pães da padaria do bairro para incrementar o lanche das crianças beneficiadas, mas não tem um compromisso firmado para isso, a padaria é uma apoiadora, e não uma parceira.


As parcerias pressupõem troca mútua, compromisso e responsabilidade com os acordos firmados. A palavra parceria¹ remete-se a uma reunião de indivíduos para alcançar um objetivo comum: trata-se de uma espécie de sociedade. 


Duas organizações podem ser parceiras na execução de um projeto ou programa e, para isso, devem firmar um termo de parceria, que orientará ambas as partes no que se refere ao objeto e objetivo da parceria, a responsabilidade e os direitos de cada um dentro da cooperação.


Isso posto, não pretendo apresentar aqui nenhuma fórmula mágica. Quando se trata do tema parcerias, gosto de apontar alguns comportamentos e atitudes como orientação. Então, vamos lá:


1. Parceria é relacionamento

Cada parceiro tem sua expertise e habilidade que pode gerar algum benefício para a organização, que, por sua vez, também deve descobrir qual benefício promoverá ao parceiro. Para que isso ocorra da melhor maneira possível, ambos terão que investir em fortalecer o relacionamento. E relacionamento é manter contato, reunir-se periodicamente, alinhar expectativas, compartilhar dificuldades e pensar juntos em soluções. Sem receios. Aqui, vale dizer que, além de relacionamento, parceria é construção contínua de confiança.


2. Parceria é reciprocidade

Como já mencionado, a organização precisa entender quais contrapartidas pode oferecer aos parceiros na execução de um projeto, ação ou outra atividade. É preciso haver equidade nos direitos e deveres para que um não “ganhe mais” do que o outro. Reciprocidade é: eu te ajudo, você me ajuda; eu te apoio, você me apoia; eu faço, você faz; eu ganho, você ganha. Se você quer ter um doador parceiro, reflita: “o que a minha organização pode fazer para ser recíproca nessa parceria?”. 

Dica de ouro: antes de definir exatamente o que a sua OSC vai oferecer como contrapartida, considere perguntar ao parceiro. Você poderá se surpreender com simples ações e soluções sugeridas por ele.


3. Parceria é compromisso

Se você se dispôs a ser parceiro de alguém, tenha em mente que deverá haver, acima de tudo, o compromisso com aquilo pelo qual você se responsabilizou. E isso é vital para construir uma parceria duradoura e confiável. Sem confiança, nenhum relacionamento dura por muito tempo. Pode ser até prejudicial para as partes!


4. Parceria é transparência

Firmou a parceria? Definiu objetivos? Alinhou as responsabilidades de cada um? É hora de acompanhar e se comunicar com boa periodicidade. Cada ação ou atividade que envolva o parceiro precisa ser comunicada com antecedência, na maioria das vezes apenas como um informativo, sem necessidade de aprovação. Se houver tempo hábil para ouvir e considerar a opinião do parceiro, faça isso. Senão, somente informar já será de bom grado. É melhor pecar pelo excesso do que pela omissão. É ótimo que o parceiro se sinta envolvido em todo o processo, então a OSC deve zelar pela transparência na fala, nos processos e nas ações.


Tenho certeza de que esses pontos não esgotam as possibilidades de como a sua organização pode construir parcerias confiáveis e duradouras com doadores. Ainda assim, acredito que, se você conseguir priorizá-los, sua OSC conseguirá iniciar uma parceria confiável e com grandes chances de durar muitos anos, seja com quem for.


Por último, sugiro que converse sobre esses pontos com as pessoas da sua organização e que, juntos, vocês possam refletir sobre eles e sobre quais outros comportamentos e atitudes os ajudariam a conquistar e consolidar parcerias, se é disso que vocês estão precisando no momento.


Lembrem-se: todas (ou quase todas) as soluções estão dentro da sua própria organização. Nosso papel aqui no Portal do Impacto é apenas orientá-los e inspirá-los, mas quem faz acontecer de fato são vocês!


Pedro Sá

Pedro Sá  é graduado em Gestão Desportiva e de Lazer pelo Instituto Federal do Ceará (IFCE), possui uma caminhada no setor social desde os 15 anos, enquanto voluntário em ações sociais em defesa da orfandade, do idoso e das pessoas em situação de rua. Como profissional, já atuou na área administrativa e de atendimento ao cliente; foi consultor de gestão, elaborou projetos e captou recursos para OSCs. Hoje, integra o time de captação de recursos da Nexo Investimento Social. Instagram


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Você pode amar muito um time e ainda assim vê-lo perder campeonatos por anos. Pode ter a maior torcida do país, uma história gigante e uma camisa pesada. Mas sem gestão, isso não se sustenta. No terceiro setor acontece algo muito parecido. Sou corinthiana e não acompanho o futebol tão de perto. Mesmo assim, é impossível ignorar o que Palmeiras e Flamengo vêm construindo nos últimos anos. Escrevo este artigo no final de 2025 e, ao olhar para os principais campeonatos do período recente, Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil, esses dois clubes seguem protagonizando finais, títulos e campanhas consistentes. Não por acaso, também passaram a aparecer em premiações internacionais que reconhecem excelência em gestão, como o Globe Soccer Awards. Mas nem sempre foi assim. E é exatamente aí que essa história interessa às organizações da sociedade civil. Quando a virada não acontece no campo Palmeiras e Flamengo já viveram fases marcadas por dívidas, crises internas e resultados bem abaixo do potencial que tinham. A mudança não começou com um craque, nem com um gol histórico. Começou fora de campo. Por volta de 2012 e 2013, os dois clubes passaram a tratar a gestão como eixo central. Planejamento financeiro, profissionalização das equipes, governança e visão de longo prazo deixaram de ser discurso e passaram a orientar decisões concretas. Se você não gosta de futebol, continue comigo. O ponto aqui não é o esporte. É entender que amor, tradição e propósito são fundamentais, mas não substituem uma boa gestão. Com gestão, a gente vai mais longe. O que o Palmeiras ensina No Palmeiras, a virada tem um nome bastante conhecido: Paulo Nobre. Ao assumir a presidência do clube em 2013, encontrou um cenário delicado, com dívidas e pouca previsibilidade. Uma das decisões mais simbólicas foi emprestar recursos próprios para reorganizar as finanças do time. Um gesto arriscado, mas inserido em uma estratégia maior. A partir daí, vieram parcerias estratégicas como a Crefisa, a profissionalização da gestão e a criação de novas fontes de receita. A modernização do Allianz Parque transformou o estádio em um ativo que gera renda muito além dos jogos, com shows e eventos. É a lógica de enxergar a estrutura como meio para sustentar a missão, algo bastante familiar para quem atua no terceiro setor. O Flamengo e a coragem de arrumar a casa O Flamengo sempre teve popularidade e potencial. O que faltava era organização. A virada começou com decisões duras e pouco populares, como uma política rigorosa de controle de gastos e reorganização financeira. Antes de investir pesado em contratações, o clube investiu em processos, equipe técnica qualificada e responsabilidade fiscal. Os títulos vieram depois. Não como milagre, mas como consequência. O que tudo isso tem a ver com as OSCs? Muito mais do que parece. Os dois clubes mostram que investir na base (jovens atletas em formação para o time principal) é apostar no longo prazo, mesmo quando o retorno não é imediato. No terceiro setor, isso aparece na formação de equipes, no fortalecimento institucional e no desenvolvimento de lideranças. Eles também reforçam uma verdade incômoda: amor não é estratégia. Paixão move, mas não organiza fluxo de caixa, não constrói indicadores e não garante sustentabilidade. Há ainda a importância de diversificar fontes de receita, inclusive para organizações grandes e reconhecidas, e de contar com profissionais qualificados, além de investir em quem já faz parte da equipe. Nada disso acontece do dia para a noite. O processo é longo, exige constância e escolhas difíceis. Um convite para quem lidera organizações sociais  Se você lidera uma OSC, vale a reflexão. O quanto da sua energia está concentrada apenas na causa e o quanto está direcionada para fortalecer a gestão que sustenta essa causa? Gestão não esfria o propósito. Pelo contrário. Ela protege a missão, amplia o impacto e garante que o trabalho continue existindo daqui a cinco, dez ou vinte anos. No futebol e no terceiro setor, amor é o ponto de partida. Gestão é o que transforma esse amor em legado.
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