Turismo Sustentável: tendências e oportunidades para organizações sociais

16 de novembro de 2023

Por Leandra Santos


Através da própria experiência com a temática, o Insituto Bancorbrás trás dicas de como o turismo pode ser uma oportunidade para organizações sociais. Vale a pena conferir:

Quando falamos de turismo vem em mente férias, visitas em locais turísticos e culturais, eventos ou até mesmo realizar viagens de negócios, ou esportivas. Neste artigo, abordaremos como o turismo pode ser um importante aliado ao propósito de geração de impacto positivo na sociedade.


Entre os diversos benefícios proporcionados por meio do turismo, cabe destacar a contribuição direta à economia. Conforme divulgado pela Organização Mundial do Turismo - OMT, em 2019, foi registrado o recorde de 1,4 bilhão de viagens internacionais e a estimativa é que esse número chegue a 1,8 bilhão em 2030. Já os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, indicam que o turismo no Brasil contribui, diretamente, para cerca de 3,7% do PIB nacional e 3% do total de empregos no país.


Percebe-se o quanto o turismo é relevante na geração de renda e, consequentemente, no desenvolvimento social e econômico do país. Mas, é importante indicar que a exploração turística também pode desencadear impactos negativos como, por exemplo, a degradação do meio ambiente e a descaracterização da cultura do local visitado.


Diante de tantos desafios é necessário repensar o modelo de negócio e investir ainda mais na busca por meios mais sustentáveis, além disso, observou-se que devido à pandemia da COVID-19, houve o crescimento por parte dos turistas na procura de experiências que consideram esses aspectos, como o Turismo Sustentável, que abordaremos logo a seguir o conceito e os benefícios. 


O que é Turismo Sustentável? 


O Turismo Sustentável, também conhecido como turismo responsável ou eco consciente, é uma abordagem que busca minimizar os impactos negativos no meio ambiente, na cultura local e na economia, ao mesmo tempo, em que promove benefícios positivos para todas essas áreas. Segundo a OMT é o “turismo que considera plenamente seus atuais e futuros impactos econômicos, sociais e ambientais, abordando as necessidades dos visitantes, da indústria, do meio ambiente e das comunidades locais”.


Já o Conselho Global de Turismo Sustentável - GSTC complementa o conceito da OMT afirmando que:


“Turismo sustentável deve fazer uso otimizado dos recursos ambientais que constituem um elemento-chave no desenvolvimento do turismo, mantendo processos ecológicos essenciais e ajudando a conservar o patrimônio natural e a biodiversidade; respeitar a autenticidade sociocultural das comunidades anfitriãs; conservar seu patrimônio cultural, seus valores tradicionais e contribuir para a compreensão e tolerância interculturais; garantir operações econômicas viáveis e de longo prazo, fornecendo benefícios socioeconômicos a todas as partes interessadas que sejam distribuídas de maneira justa, incluindo oportunidades estáveis de geração de emprego, renda e serviços sociais para as comunidades anfitriãs, contribuindo para o alívio da pobreza”.


Abaixo, seguem os principais benefícios gerados por esse modelo:


  • Conservação Ambiental e o Respeito à Cultura: visa proteger a natureza e os ecossistemas. Envolve a minimização da poluição, a conservação da biodiversidade, o uso responsável de recursos naturais e a promoção de práticas amigas do ambiente. Outra premissa é a de respeitar e promover a cultura, tradições e patrimônio local, envolvendo as comunidades no planejamento e no benefício do turismo, em vez de explorá-las.
  • Benefícios Econômicos Equitativos: procura distribuir os benefícios econômicos de forma justa, contribuindo com o desenvolvimento e melhoria da qualidade de vida das comunidades locais. Isso pode ser alcançado por meio da criação de empregos na região, do estímulo ao empreendedorismo local e do apoio a pequenos negócios.
  • Educação e Conscientização: os turistas e os envolvidos na cadeia produtiva do turismo são incentivados a adotar práticas sustentáveis e a compreender o impacto de suas ações, sendo a educação uma parte importante.
  • Planejamento e Gestão Responsável: os destinos turísticos são incentivados a realizar um planejamento adequado e a implementar regulamentações que promovam o turismo sustentável, entre eles: incluir limites à capacidade de visitação e diretrizes para o desenvolvimento de infraestrutura.



Case Instituto Bancorbrás


Antes de indicarmos as oportunidades às organizações sociais, é importante relatarmos brevemente nossa experiência até aqui, porque estamos em processo constante de aprendizado e trocas de experiências. 


Quando nós, do Instituto Bancorbrás, uma Organização da Sociedade Civil-OSC que empreende ações sociais por meio de Investimento Social Privado, iniciamos os estudos de viabilidade de implementação de alguma iniciativa que pudesse nos aproximar do principal negócio da mantenedora, que é o turismo, também nos perguntamos como que esse modelo de negócio poderia unir o social e, consequentemente, a geração de diferencial competitivo para as empresas Bancorbrás. 


Após o brainstorming¹ com a equipe e, também, com as áreas de negócios das empresas Bancorbrás, a resposta encontrada foi o Turismo Sustentável, conforme conceito abordado no tópico acima podemos resumir que a comunidade é a protagonista no desenvolvimento de experiências² aos turistas, ou seja, a população local são os responsáveis pelo planejamento, execução e o gerenciamento das atividades turísticas, com o devido cuidado de preservar o meio ambiente e a cultura local. 


Nesses quase três anos, mergulhamos nesta agenda³ sustentável voltada ao Turismo. A primeira experimentação foi o lançamento de um edital diretivo para identificarmos quais eram as iniciativas já existentes junto às organizações parceiras, situadas em regiões turísticas do país, e a nossa surpresa foi que não recebemos nenhuma inscrição voltada a essa categoria e quando perguntamos o motivo nos indicaram a falta de conhecimento da temática.

Diante dos resultados alcançados, a próxima estratégia implementada foi o mapeamento no território nacional, para tanto, lançamos o banco de projetos para compreendermos na íntegra qual a relevância da iniciativa na comunidade em que se pretendia e/ou eram realizadas as ações de Turismo Sustentável, ou seja, sem qualquer interferência ou indicativo de critérios como previsto em um edital, por exemplo. Neste processo tivemos em média 16 propostas cadastradas e no funil de seleção contamos com 5 etapas: pré-análise das propostas, entrevistas com os proponentes, visitas in loco, análise de viabilidade de investimento das três finalistas e a seleção da proposta. Na etapa de visitas in loco estivemos nas regiões do Ceará, Bahia, São Paulo e Amazonas.


Entre as experiências marcantes neste período, tivemos a expedição Rio Negro, na floresta Amazônica-AM, no formato do Turismo de Base Comunitária - TBC. Esse formato envolve ativamente os membros da comunidade no planejamento, desenvolvimento e operação das atividades turísticas, desde a oferta de serviços de acomodação, guias turísticos, experiências culturais e outras atividades relacionadas ao turismo.


Foram 5 dias imersivos na comunidade de Acajatuba, em que tivemos a oportunidade de conhecer a culinária local, os atrativos culturais como o artesanato e a dança carimbó, mas, o principal, foi o de se conectar e trocar experiências, além de aprender com pessoas incríveis e inspiradoras daquela região. Em todo esse processo, conseguimos constatar o quanto o turismo de forma sustentável pode transformar positivamente a realidade de uma comunidade inteira. Conforme também afirmado pelo relato da Horenilde Gomes, proprietária da pousada Caboclo's Ecolodge, roteiro Expedição Amazônia Rio Negro (AM):  “Estamos com o nosso negócio bem divulgado, fomos fortalecidos e muito bem preparados. Já tive melhorias como o aumento da capacidade da pousada, que tem gerado renda para a comunidade. O nosso maior orgulho é falar de transformação, o mundo precisa desse fortalecimento sustentável.”


Após adquirirmos o nível de conhecimento necessário e de realizarmos uma análise criteriosa de viabilidade de investimento, o próximo passo foi a de firmarmos parceria com a proposta selecionada, a Vivalá, que é uma organização especialista em Turismo Sustentável em unidades de conservação ambiental para o TBC, TBC de Aventura e Volunturismo, em comunidades tradicionais4. Para conhecer mais dessa parceria acesse o link a seguir: https://unbouncepages.com/ib-vivala/.


Até o momento, por meio da parceria, foram criados 9 destinos em comunidades tradicionais nas regiões de Kariri-Xocó - SE, Juatinga - RJ, Chapada Diamantina-BA, Jalapão-TO, Foz do Iguaçu-PR, Chapada dos Guimarães-MT, Petar e Tenodé Porã-SP. Para viabilizar a idealização de novos destinos, é necessário realizar visitas técnicas que envolvem pesquisas naturais, logísticas e comerciais para avaliar o potencial da região. Além disso, é feito o mapeamento dos atores locais5, a fim de criar experiências e oferecer roteiros seguros aos turistas, mobilizando toda a cadeia produtiva. Em outubro, embarcamos para o Rio de Janeiro para realizar uma visita técnica à Ilha Grande-RJ, considerada a maior ilha do estado e a sexta maior ilha marítima do Brasil.

No período de três dias fizemos a travessia trekking6   com quase 40 km em meio a Mata Atlântica e também na costa litorânea. A região já possui um volume considerável de turistas e a intenção com a implementação do TBC de Aventura é que as pessoas possam ter a oportunidade de imergir na comunidade caiçara7 da região.


Por meio dessa iniciativa com a Vivalá, em média, mais de 2.000 pessoas de comunidades tradicionais serão beneficiadas com o desenvolvimento social e econômico dessas localidades. Para o ano de 2024, temos como propósito dar ainda mais visibilidade a essas comunidades e que elas sejam cada vez mais protagonistas.

Turismo como oportunidade para as organizações sociais


Diante de tudo que compartilhamos até aqui, pode estar se perguntando: tá, mas e como essa iniciativa pode ser uma oportunidade para as ações desenvolvidas nas organizações sociais? De antemão, indicamos que são inúmeras possibilidades e abaixo, seguem algumas para inspiração: 


  • Parcerias com o trade turístico: podem estabelecer parcerias com empresas do ramo do turismo, como hotéis, companhias aéreas, agências de viagens, restaurantes e atrações turísticas. Essas parcerias podem envolver doações, descontos em serviços ou colaborações em campanhas de responsabilidade social corporativa.
  • Sensibilização: o turismo pode ser usado como uma plataforma para aumentar a conscientização sobre questões sociais. Por exemplo, as organizações podem realizar passeios temáticos que abordam questões específicas, como conservação ambiental, justiça social ou direitos humanos. Isso ajudará na disseminação de uma consciência sobre as causas e a promoção de ações para fazer a diferença na organização ou comunidade atendida.
  • Voluntariado e engajamento comunitário: o volunturismo permite que pessoas se envolvam em projetos sociais enquanto viajam. Organizações sociais podem coordenar oportunidades de voluntariado em destinos turísticos, permitindo que os viajantes contribuam com seu tempo e habilidades para causas locais.
  • Programas de treinamento e capacitação: o turismo pode ser usado para fornecer treinamento e capacitação a comunidades locais, ajudando-as a desenvolver habilidades que lhes permitam participar do setor do turismo, gerar renda e na contribuição para a profissionalização da comunidade local.
  • Promoção do turismo sustentável: desempenhar o papel de promotores aos turistas da região das práticas sustentáveis, como a importância da conservação dos recursos naturais e o respeito às culturas locais.


Parcerias com iniciativas de turismo sustentável: iniciativas que se dedicam ao turismo sustentável podem colaborar com organizações sociais para desenvolver roteiros de viagem que apoiem causas específicas, tais como: visitas a projetos sociais, comunidades locais e ações de conservação.


O turismo, quando bem integrado com iniciativas sociais, pode ser uma fonte valiosa de recursos e uma maneira efetiva de geração de impacto positivo na sociedade. Então, já tinham pensado nessa possibilidade? Vamos inovar?



¹ Brainstorming:  técnica utilizada para a geração e o debate de ideias, com objetivo de criar soluções para um desafio ou obter insights no desenvolvimento de algo novo. A palavra, traduzida do inglês, significa “tempestade de ideias”.

² Experiências turísticas: busca proporcionar ao turista momentos marcantes e únicos durante a viagem, através de ofertas inovadoras, diferenciadas e inesquecíveis.

³ Agenda 2030: é um compromisso assumido por todos os países que compuseram a Cúpula das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, em 2015 – os 193 Estados-membros da ONU, incluindo o Brasil – e tornou-se a principal referência na formulação e implementação de políticas públicas para governos em todo o mundo.

4Comunidades tradicionais: são grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica. Os mais conhecidos são: indígenas, quilombolas e ribeirinhos.

5Atores locais: são os agentes sociais e econômicos, indivíduos e instituições, que realizam ou desempenham atividades, ou, então, mantém relações num determinado território.

6Trekking: é uma caminhada mais longa, que pressupõe pernoite no meio natural, na maioria das vezes, acampando. Considerado um  nível mais avançado,que  exige mais esforço físico, habilidades, orientação pessoal e superação.

7Caiçara:  comunidades em que, em sua maioria, vivem em pequenas vilas onde praticam a pesca, a agricultura e o artesanato de acordo com suas necessidades, dos estados de São Paulo, Paraná e sul do Rio de Janeiro.


Referências



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Você pode amar muito um time e ainda assim vê-lo perder campeonatos por anos. Pode ter a maior torcida do país, uma história gigante e uma camisa pesada. Mas sem gestão, isso não se sustenta. No terceiro setor acontece algo muito parecido. Sou corinthiana e não acompanho o futebol tão de perto. Mesmo assim, é impossível ignorar o que Palmeiras e Flamengo vêm construindo nos últimos anos. Escrevo este artigo no final de 2025 e, ao olhar para os principais campeonatos do período recente, Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil, esses dois clubes seguem protagonizando finais, títulos e campanhas consistentes. Não por acaso, também passaram a aparecer em premiações internacionais que reconhecem excelência em gestão, como o Globe Soccer Awards. Mas nem sempre foi assim. E é exatamente aí que essa história interessa às organizações da sociedade civil. Quando a virada não acontece no campo Palmeiras e Flamengo já viveram fases marcadas por dívidas, crises internas e resultados bem abaixo do potencial que tinham. A mudança não começou com um craque, nem com um gol histórico. Começou fora de campo. Por volta de 2012 e 2013, os dois clubes passaram a tratar a gestão como eixo central. Planejamento financeiro, profissionalização das equipes, governança e visão de longo prazo deixaram de ser discurso e passaram a orientar decisões concretas. Se você não gosta de futebol, continue comigo. O ponto aqui não é o esporte. É entender que amor, tradição e propósito são fundamentais, mas não substituem uma boa gestão. Com gestão, a gente vai mais longe. O que o Palmeiras ensina No Palmeiras, a virada tem um nome bastante conhecido: Paulo Nobre. Ao assumir a presidência do clube em 2013, encontrou um cenário delicado, com dívidas e pouca previsibilidade. Uma das decisões mais simbólicas foi emprestar recursos próprios para reorganizar as finanças do time. Um gesto arriscado, mas inserido em uma estratégia maior. A partir daí, vieram parcerias estratégicas como a Crefisa, a profissionalização da gestão e a criação de novas fontes de receita. A modernização do Allianz Parque transformou o estádio em um ativo que gera renda muito além dos jogos, com shows e eventos. É a lógica de enxergar a estrutura como meio para sustentar a missão, algo bastante familiar para quem atua no terceiro setor. O Flamengo e a coragem de arrumar a casa O Flamengo sempre teve popularidade e potencial. O que faltava era organização. A virada começou com decisões duras e pouco populares, como uma política rigorosa de controle de gastos e reorganização financeira. Antes de investir pesado em contratações, o clube investiu em processos, equipe técnica qualificada e responsabilidade fiscal. Os títulos vieram depois. Não como milagre, mas como consequência. O que tudo isso tem a ver com as OSCs? Muito mais do que parece. Os dois clubes mostram que investir na base (jovens atletas em formação para o time principal) é apostar no longo prazo, mesmo quando o retorno não é imediato. No terceiro setor, isso aparece na formação de equipes, no fortalecimento institucional e no desenvolvimento de lideranças. Eles também reforçam uma verdade incômoda: amor não é estratégia. Paixão move, mas não organiza fluxo de caixa, não constrói indicadores e não garante sustentabilidade. Há ainda a importância de diversificar fontes de receita, inclusive para organizações grandes e reconhecidas, e de contar com profissionais qualificados, além de investir em quem já faz parte da equipe. Nada disso acontece do dia para a noite. O processo é longo, exige constância e escolhas difíceis. Um convite para quem lidera organizações sociais  Se você lidera uma OSC, vale a reflexão. O quanto da sua energia está concentrada apenas na causa e o quanto está direcionada para fortalecer a gestão que sustenta essa causa? Gestão não esfria o propósito. Pelo contrário. Ela protege a missão, amplia o impacto e garante que o trabalho continue existindo daqui a cinco, dez ou vinte anos. No futebol e no terceiro setor, amor é o ponto de partida. Gestão é o que transforma esse amor em legado.
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O adoecimento mental da população brasileira tem se intensificado nos últimos anos e já se reflete de forma direta no mundo do trabalho. O aumento de afastamentos por transtornos mentais, a ampliação de quadros de ansiedade e a exaustão profissional passaram a ocupar o centro dos debates sobre produtividade, gestão de pessoas e sustentabilidade organizacional. No Terceiro Setor, esse cenário não é diferente — e apresenta contornos ainda mais críticos. Dados da Pesquisa Saúde Mental e Bem-Estar no Terceiro Setor (2023), realizada pelo Instituto Phomenta, revelam que 55% dos profissionais do setor expressam algum nível de preocupação com sua saúde mental e bem-estar. Esse contexto foi debatido no Webinar Tendências para o Terceiro Setor 2026, promovido pelo Instituto Phomenta, que apontou a saúde mental como uma das principais tendências e desafios estruturais para as organizações sociais nos próximos anos. A pesquisa ouviu 842 profissionais, de 214 cidades, em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal. Os dados mostram que o alto comprometimento com a causa convive com estresse constante, sensação de urgência permanente e dificuldade de estabelecer limites entre vida pessoal e trabalho, um paradoxo cada vez mais presente no cotidiano das organizações da sociedade civil. Cuidar de quem cuida Durante muito tempo, o trabalho no Terceiro Setor esteve associado à ideia de propósito como fator de proteção emocional. Os dados da pesquisa indicam que essa narrativa já não se sustenta. Entre os respondentes, 38% classificam sua saúde mental como regular e 17% como ruim, evidenciando um cenário de alerta que afeta tanto profissionais quanto lideranças. O recorte de gênero revela desigualdades importantes. As mulheres, que representam 65% da força de trabalho no Terceiro Setor, são as que expressam maiores níveis de preocupação: 60% relatam algum grau de insatisfação com sua saúde mental e bem-estar, frente a 45% dos homens. Entre os jovens, os índices são ainda mais elevados. Profissionais de 18 a 24 anos e de 25 a 34 anos apresentam os piores indicadores, com 69% e 70%, respectivamente, avaliando sua saúde mental como regular ou ruim. Esses dados foram destacados no Webinar Tendências para o Terceiro Setor 2026 como um sinal de que o setor precisa repensar suas práticas internas se quiser manter equipes engajadas e sustentáveis. A NR-1 e o impacto direto na gestão das organizações Outro ponto central do debate foi a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1). A partir de maio de 2025, organizações com pessoas contratadas sob regime CLT passam a ter a responsabilidade de identificar, prevenir e gerenciar riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Entre os fatores de risco mais recorrentes, a pesquisa da Phomenta aponta: excesso de demandas e tarefas, indicado por 64% dos respondentes como principal fator de estresse; jornadas prolongadas e dificuldade de equilíbrio entre vida pessoal e trabalho; ausência de reconhecimento e suporte institucional; conflitos interpessoais e condições precárias de trabalho. Os efeitos desse modelo aparecem nos sintomas relatados: 77% dos profissionais mencionam ansiedade como um dos principais impactos, e 64% relatam exaustão física. Durante o webinar, foi reforçado que o cumprimento da NR-1, embora necessário, não é suficiente para enfrentar um problema estrutural. O desafio está na revisão das práticas de gestão de pessoas, incluindo distribuição de tarefas, modelos de liderança, processos decisórios e a forma como o cuidado é incorporado, ou negligenciado, na cultura organizacional. Saúde mental como estratégia de sustentabilidade A pesquisa também evidencia que mais de 70% dos respondentes não percebem ações intencionais de suas organizações voltadas à promoção do bem-estar. Esse dado foi amplamente debatido no Webinar Tendências para o Terceiro Setor 2026, que destacou a urgência de transformar o cuidado em estratégia institucional. Entre as organizações que adotam ações voltadas à saúde mental, os profissionais citam iniciativas como atendimento psicológico, espaços de diálogo, formações, flexibilidade no trabalho e momentos de convivência. Ainda assim, esses esforços seguem sendo exceção, e não regra. No Terceiro Setor, cuidar da saúde mental das equipes deixou de ser um tema secundário. Trata-se de uma condição para a permanência das pessoas, para a qualidade do trabalho realizado e para a coerência entre missão institucional e práticas internas. A crise de saúde mental convida o setor a um exercício de autocrítica. Não é possível enfrentar desigualdades externas se, internamente, as relações de trabalho reproduzem exaustão, urgência permanente e invisibilização do cuidado. Em 2026, organizações que colocarem as pessoas no centro da gestão estarão mais preparadas para sustentar seu impacto social no longo prazo. Assista completo:
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As transformações no cenário internacional de financiamento foram um dos alertas mais sensíveis apresentados no Webinar: Tendências de 2026 para o Terceiro Setor, realizado pelo Instituto Phomenta. Em um contexto de instabilidade política, mudanças de prioridades globais e retração de recursos externos, organizações brasileiras já sentem os impactos de uma filantropia internacional mais seletiva, menos previsível e cada vez mais estratégica. Em 2026, essa tendência se consolida e exige das organizações sociais um reposicionamento em relação à forma como acessam, gerenciam e diversificam suas fontes de recursos. A retração do financiamento internacional Durante o webinar, foram destacados movimentos recentes que ajudam a explicar o cenário atual, como a redução de repasses de países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o enfraquecimento de programas tradicionais de cooperação internacional e o encerramento ou redirecionamento de iniciativas históricas, como a USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional). Essas mudanças não acontecem de forma isolada. Elas refletem disputas geopolíticas, reorientação de agendas nacionais e uma priorização maior de crises internas por parte de países doadores. Para muitas organizações do Sul Global, isso representa a perda de fontes que, por décadas, sustentaram projetos e estruturas institucionais. Menos recursos, mais exigências Além da diminuição do volume de recursos, o webinar destacou um aumento significativo no nível de exigência dos financiadores internacionais que permanecem ativos. Entre os critérios mais observados estão: capacidade de gestão financeira e institucional; governança estruturada; indicadores consistentes de resultados; alinhamento com agendas globais específicas; histórico de parcerias e execução. Em 2026, organizações com baixa maturidade institucional tendem a enfrentar ainda mais barreiras para acessar recursos internacionais, mesmo quando atuam em causas prioritárias. O papel do financiamento público no Brasil Em contraste com a retração internacional, observamos o crescimento dos repasses federais no Brasil nos últimos anos. Esse movimento abre oportunidades, mas também traz desafios próprios. Acesso a recursos públicos exige preparo técnico, capacidade de prestação de contas, adequação jurídica e fôlego financeiro para lidar com prazos e burocracias. Para muitas organizações, isso demanda investimentos prévios em estrutura e equipe, o que nem sempre é possível sem apoio externo. Ainda assim, o aumento do financiamento público reforça a importância de olhar para o território nacional como parte estratégica da sustentabilidade financeira. Diversificação como estratégia de sobrevivência Uma das principais reflexões trazidas é que depender de uma única fonte de recursos se torna cada vez mais arriscado. Em 2026, a diversificação deixa de ser recomendação e passa a ser condição de sobrevivência. Isso envolve combinar diferentes fontes, como: filantropia nacional; parcerias com empresas; recursos públicos; doações individuais; prestação de serviços alinhados à missão. O impacto das mudanças na autonomia das organizações As transformações na filantropia internacional também afetam a autonomia das organizações sociais. Com menos recursos disponíveis e maior competição, cresce o risco de adaptação excessiva a agendas externas, em detrimento das demandas reais dos territórios. Por isso a importância de manter o foco na missão e no impacto social, mesmo diante de pressões financeiras. Organizações mais preparadas institucionalmente tendem a negociar melhor, fazer escolhas mais estratégicas e preservar sua coerência. O que essa tendência exige das organizações Em 2026, o cenário de financiamento será mais restrito, mais técnico e mais competitivo. Organizações que investem em desenvolvimento institucional, planejamento financeiro e fortalecimento da gestão terão mais condições de atravessar esse contexto com menos rupturas. Como discutido no webinar, adaptar-se às mudanças da filantropia internacional não significa abandonar princípios, mas sim construir bases mais sólidas para seguir atuando com impacto, autonomia e sustentabilidade no longo prazo. Confira o Conteúdo:
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