Projetos sociais: o foco deve ser sempre nos mais vulneráveis?

4 de agosto de 2022

Este conteúdo foi produzido por Maria Cecilia Prates Rodrigues


Muitas vezes somos levados a defender a ideia de que se uma organização do terceiro setor ou uma empresa ou um indivíduo decide apoiar um projeto social, deveria priorizar (no grupo escolhido) as pessoas que estão mais vulneráveis e mais necessitadas de apoio. Será?


Suponhamos uma turma de adolescentes de uma escola da rede pública localizada dentro de uma favela de um grande centro urbano. Vamos considerar que todos esses adolescentes estão, sim, em situação de vulnerabilidade, uma vez que vivem numa região expostos a riscos de todo tipo, como: mais doenças, violência, drogas; e menos oportunidades de acesso à educação, saúde e lazer sadio do que os demais adolescentes da cidade. Ademais, entre eles, o grau de vulnerabilidade pode ser bastante desigual: é maior entre aqueles que têm uma família desestruturada e vivem largados pelas ruas, e menor entre os que contam com um acompanhamento atento dos pais.


Vamos imaginar que se decida criar um projeto social com o foco nos melhores alunos dessa turma. Para isso, são definidos os critérios para selecionar os “melhores alunos da turma” – e apenas aqueles que preencherem os referidos critérios poderão participar do projeto.


Os críticos virão logo com seus argumentos ferozes: uma vez que todos vivem em situação de vulnerabilidade, por que o projeto vai privilegiar justamente aqueles que já estão em melhor situação daquela turma? Por que não priorizar os mais vulneráveis, ou seja, os que não vão bem na escola, que já repetiram de ano, faltam às aulas e estão no limiar para abandonar a escola? Nesse último caso, são certamente os mais necessitados de apoio; porém, no primeiro caso, o retorno de imagem para o apoiador tenderá a ser maior.


Devo confessar que, no passado, eu mesma já me vi frente a esses questionamentos....


Porém, vejo hoje que essas críticas não procedem. Porque são os governos que têm a responsabilidade e o compromisso com a promoção da equidade e da justiça social. Os governos, sim, podem e devem ser cobrados para priorizarem os grupos mais vulneráveis em seus programas sociais. Já os indivíduos, o terceiro setor e as empresas, quando desenvolvem os programas sociais, o compromisso deles é estritamente com o público-alvo que eles se propõem a atender.


Faço essa consideração em razão de duas matérias interessantes que li recentemente no jornal Globo. A primeira de Antonio Gois lembra que Lima Barreto, um dos maiores escritores brasileiros, nasceu em 1881 – era negro e filho de escravos. Naquele ano a taxa de analfabetismo dos brasileiros adultos era superior a 80%; quando ele faleceu, em 1922, essa taxa continuava altíssima, em torno de 71%. Assim, se não fosse a sorte de contar com o apoio do “padrinho” Visconde de Ouro Preto, ele jamais teria tido a oportunidade de estudar em um bom colégio. E o Brasil certamente teria desperdiçado um grande talento e sofrido uma grande perda no campo da literatura.


outro artigo é de Mauro Ventura, e conta o caso do fundador e sócio do Banco Modal, Diniz Ferreira Baptista, que criou a Associação Vencer em 1992, motivado por sua história de vida. Nesses 25 anos de sua existência, a Associação tem buscado selecionar os melhores alunos do último ano do ensino fundamental da rede pública municipal do Rio de Janeiro, e então fornece a eles todo o apoio necessário durante o período do ensino médio, para que eles possam ser bem-sucedidos no vestibular: bolsas de estudo integrais em escolas particulares, livros didáticos, uniformes, transporte, aulas de reforço, atendimento pedagógico e psicológico para eles e seus responsáveis, e orientação profissional. Já passaram pela Associação 623 bolsistas.


Segundo Diniz, o objetivo da Associação é abrir a porta do vestibular para esses adolescentes. Quando eles passam, nada mais pode pará-los. Se eles se esforçarem, vão ter um futuro brilhante. …. um professor da rede pública municipal me dizia uma vez que estava cansado de ver os bons alunos dele virarem empacotadores de supermercado.


Nesses dois exemplos, o público-alvo dessas iniciativas sociais foram os mais talentosos dentre os que viviam em situação de vulnerabilidade e de carência de oportunidades. Ambas foram voltadas para os que já vinham sendo vencedores em seus contextos. Será que isso reduz o mérito dessas ações sociais?


De forma alguma. Os bons projetos sociais são sempre bem-vindos para todas as pessoas em situação de vulnerabilidade, independente do grau. Seja no setor corporativo (como comentei em outro artigo que escrevi) ou no terceiro setor, o que vai definir o valor de uma iniciativa social será a sua efetividade, ou seja, a sua capacidade de transformar vidas, o grau de alcance dos objetivos dos resultados esperados e/ou anunciados junto ao seu público beneficiário.



Maria Cecília é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape (RJ). A área social sempre foi o foco de suas pesquisas durante o período em que esteve como pesquisadora na FGV , e depois em seus trabalhos de monitoria, consultoria, pesquisa e voluntariado.


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Você pode amar muito um time e ainda assim vê-lo perder campeonatos por anos. Pode ter a maior torcida do país, uma história gigante e uma camisa pesada. Mas sem gestão, isso não se sustenta. No terceiro setor acontece algo muito parecido. Sou corinthiana e não acompanho o futebol tão de perto. Mesmo assim, é impossível ignorar o que Palmeiras e Flamengo vêm construindo nos últimos anos. Escrevo este artigo no final de 2025 e, ao olhar para os principais campeonatos do período recente, Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil, esses dois clubes seguem protagonizando finais, títulos e campanhas consistentes. Não por acaso, também passaram a aparecer em premiações internacionais que reconhecem excelência em gestão, como o Globe Soccer Awards. Mas nem sempre foi assim. E é exatamente aí que essa história interessa às organizações da sociedade civil. Quando a virada não acontece no campo Palmeiras e Flamengo já viveram fases marcadas por dívidas, crises internas e resultados bem abaixo do potencial que tinham. A mudança não começou com um craque, nem com um gol histórico. Começou fora de campo. Por volta de 2012 e 2013, os dois clubes passaram a tratar a gestão como eixo central. Planejamento financeiro, profissionalização das equipes, governança e visão de longo prazo deixaram de ser discurso e passaram a orientar decisões concretas. Se você não gosta de futebol, continue comigo. O ponto aqui não é o esporte. É entender que amor, tradição e propósito são fundamentais, mas não substituem uma boa gestão. Com gestão, a gente vai mais longe. O que o Palmeiras ensina No Palmeiras, a virada tem um nome bastante conhecido: Paulo Nobre. Ao assumir a presidência do clube em 2013, encontrou um cenário delicado, com dívidas e pouca previsibilidade. Uma das decisões mais simbólicas foi emprestar recursos próprios para reorganizar as finanças do time. Um gesto arriscado, mas inserido em uma estratégia maior. A partir daí, vieram parcerias estratégicas como a Crefisa, a profissionalização da gestão e a criação de novas fontes de receita. A modernização do Allianz Parque transformou o estádio em um ativo que gera renda muito além dos jogos, com shows e eventos. É a lógica de enxergar a estrutura como meio para sustentar a missão, algo bastante familiar para quem atua no terceiro setor. O Flamengo e a coragem de arrumar a casa O Flamengo sempre teve popularidade e potencial. O que faltava era organização. A virada começou com decisões duras e pouco populares, como uma política rigorosa de controle de gastos e reorganização financeira. Antes de investir pesado em contratações, o clube investiu em processos, equipe técnica qualificada e responsabilidade fiscal. Os títulos vieram depois. Não como milagre, mas como consequência. O que tudo isso tem a ver com as OSCs? Muito mais do que parece. Os dois clubes mostram que investir na base (jovens atletas em formação para o time principal) é apostar no longo prazo, mesmo quando o retorno não é imediato. No terceiro setor, isso aparece na formação de equipes, no fortalecimento institucional e no desenvolvimento de lideranças. Eles também reforçam uma verdade incômoda: amor não é estratégia. Paixão move, mas não organiza fluxo de caixa, não constrói indicadores e não garante sustentabilidade. Há ainda a importância de diversificar fontes de receita, inclusive para organizações grandes e reconhecidas, e de contar com profissionais qualificados, além de investir em quem já faz parte da equipe. Nada disso acontece do dia para a noite. O processo é longo, exige constância e escolhas difíceis. Um convite para quem lidera organizações sociais  Se você lidera uma OSC, vale a reflexão. O quanto da sua energia está concentrada apenas na causa e o quanto está direcionada para fortalecer a gestão que sustenta essa causa? Gestão não esfria o propósito. Pelo contrário. Ela protege a missão, amplia o impacto e garante que o trabalho continue existindo daqui a cinco, dez ou vinte anos. No futebol e no terceiro setor, amor é o ponto de partida. Gestão é o que transforma esse amor em legado.
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O adoecimento mental da população brasileira tem se intensificado nos últimos anos e já se reflete de forma direta no mundo do trabalho. O aumento de afastamentos por transtornos mentais, a ampliação de quadros de ansiedade e a exaustão profissional passaram a ocupar o centro dos debates sobre produtividade, gestão de pessoas e sustentabilidade organizacional. No Terceiro Setor, esse cenário não é diferente — e apresenta contornos ainda mais críticos. Dados da Pesquisa Saúde Mental e Bem-Estar no Terceiro Setor (2023), realizada pelo Instituto Phomenta, revelam que 55% dos profissionais do setor expressam algum nível de preocupação com sua saúde mental e bem-estar. Esse contexto foi debatido no Webinar Tendências para o Terceiro Setor 2026, promovido pelo Instituto Phomenta, que apontou a saúde mental como uma das principais tendências e desafios estruturais para as organizações sociais nos próximos anos. A pesquisa ouviu 842 profissionais, de 214 cidades, em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal. Os dados mostram que o alto comprometimento com a causa convive com estresse constante, sensação de urgência permanente e dificuldade de estabelecer limites entre vida pessoal e trabalho, um paradoxo cada vez mais presente no cotidiano das organizações da sociedade civil. Cuidar de quem cuida Durante muito tempo, o trabalho no Terceiro Setor esteve associado à ideia de propósito como fator de proteção emocional. Os dados da pesquisa indicam que essa narrativa já não se sustenta. Entre os respondentes, 38% classificam sua saúde mental como regular e 17% como ruim, evidenciando um cenário de alerta que afeta tanto profissionais quanto lideranças. O recorte de gênero revela desigualdades importantes. As mulheres, que representam 65% da força de trabalho no Terceiro Setor, são as que expressam maiores níveis de preocupação: 60% relatam algum grau de insatisfação com sua saúde mental e bem-estar, frente a 45% dos homens. Entre os jovens, os índices são ainda mais elevados. Profissionais de 18 a 24 anos e de 25 a 34 anos apresentam os piores indicadores, com 69% e 70%, respectivamente, avaliando sua saúde mental como regular ou ruim. Esses dados foram destacados no Webinar Tendências para o Terceiro Setor 2026 como um sinal de que o setor precisa repensar suas práticas internas se quiser manter equipes engajadas e sustentáveis. A NR-1 e o impacto direto na gestão das organizações Outro ponto central do debate foi a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1). A partir de maio de 2025, organizações com pessoas contratadas sob regime CLT passam a ter a responsabilidade de identificar, prevenir e gerenciar riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Entre os fatores de risco mais recorrentes, a pesquisa da Phomenta aponta: excesso de demandas e tarefas, indicado por 64% dos respondentes como principal fator de estresse; jornadas prolongadas e dificuldade de equilíbrio entre vida pessoal e trabalho; ausência de reconhecimento e suporte institucional; conflitos interpessoais e condições precárias de trabalho. Os efeitos desse modelo aparecem nos sintomas relatados: 77% dos profissionais mencionam ansiedade como um dos principais impactos, e 64% relatam exaustão física. Durante o webinar, foi reforçado que o cumprimento da NR-1, embora necessário, não é suficiente para enfrentar um problema estrutural. O desafio está na revisão das práticas de gestão de pessoas, incluindo distribuição de tarefas, modelos de liderança, processos decisórios e a forma como o cuidado é incorporado, ou negligenciado, na cultura organizacional. Saúde mental como estratégia de sustentabilidade A pesquisa também evidencia que mais de 70% dos respondentes não percebem ações intencionais de suas organizações voltadas à promoção do bem-estar. Esse dado foi amplamente debatido no Webinar Tendências para o Terceiro Setor 2026, que destacou a urgência de transformar o cuidado em estratégia institucional. Entre as organizações que adotam ações voltadas à saúde mental, os profissionais citam iniciativas como atendimento psicológico, espaços de diálogo, formações, flexibilidade no trabalho e momentos de convivência. Ainda assim, esses esforços seguem sendo exceção, e não regra. No Terceiro Setor, cuidar da saúde mental das equipes deixou de ser um tema secundário. Trata-se de uma condição para a permanência das pessoas, para a qualidade do trabalho realizado e para a coerência entre missão institucional e práticas internas. A crise de saúde mental convida o setor a um exercício de autocrítica. Não é possível enfrentar desigualdades externas se, internamente, as relações de trabalho reproduzem exaustão, urgência permanente e invisibilização do cuidado. Em 2026, organizações que colocarem as pessoas no centro da gestão estarão mais preparadas para sustentar seu impacto social no longo prazo. Assista completo:
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