Papo de impacto - A jornada de impacto social de Fernando Alves

10 de agosto de 2023

Este conteúdo foi produzido por Diego Borges Ferreira


Entrevistado: Fernando Alves, Diretor-executivo da Rede Cidadã


Uma das principais etapas do processo de crescimento e aprendizado de uma iniciativa de impacto social é como ela pode aprender com as experiências de pessoas e iniciativas que fazem parte desse ambiente repleto de oportunidades e desafios. Atualmente vivemos em um ambiente no qual conexões construtivas são uma grande ferramenta de crescimento que pode ajudar a abrir portas e experimentar novas ideias e soluções.


Pensando em levar essas experiências para o público do Portal do Impacto e para aqueles que acompanham a minha coluna, eu realizei uma entrevista com um profissional que tem muito para compartilhar com iniciativas sociais no Brasil e exterior, o Diretor Executivo da
Rede CidadãFernando Alves.


Ele é um dos fundadores da Rede Cidadã, graduado em Ciências Sociais e pós-graduado em Gestão de Pessoas pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Foi professor de História, Sociologia, Ciência Política, Antropologia e Cidadania Empresarial.


Foi também Diretor de Recursos Humanos, Secretário de Administração e Secretário dos Direitos de Cidadania na Prefeitura de Belo Horizonte, na gestão do prefeito Célio de Castro. É Terapeuta Sistêmico, coautor da metodologia para Expansão da Consciência, que já foi aplicada para mais de 26.000 pessoas. Fernando também é Diretor Executivo da Rede Cidadã e do Mandala Instituto e liderou a inclusão social de mais de 116.000 pessoas no mundo do trabalho.


A  Rede Cidadã é uma Entidade de Assistência Social (empresa social), que desenvolve programas e projetos de forma continuada, permanente e planejada. É uma das primeiras organizações a investir no trabalho social em rede e desde 2002  reúne sociedade civil, empresas, órgãos públicos, organizações sociais e voluntários, para trazer soluções em geração de trabalho e renda.


Em 2023 pelo oitavo ano consecutivo a Rede Cidadã ficou entre as 200 melhores organizações sociais do mundo! Está no 74º lugar do ranking internacional thedotgood. e em 4º do nacional. Também está entre as 20 melhores ONGs do Brasil segundo Prêmio iBest 2023, os iBest 20+ na categoria Ações Sociais!


Sou responsável pela gestão das atividades da Rede Cidadã  no LinkedIn há três anos e atualmente, a entidade é a iniciativa de impacto social no Brasil e América Latina com mais presença na plataforma. Utilizamos o Linkedin como ferramenta de crescimento e geração de impacto social com o trabalho realizado pela Rede Cidadã.


Nessa entrevista o Fernando fala sobre sua jornada, conquista, desafios e dicas que podem apoiar profissionais, empresas, startups e organizações que acompanham o Portal do Impacto e entendem a importância dessa iniciativa. Confira!


01 - Como começou seu interesse em impacto social e como isso levou sua jornada profissional à rede cidadã? Aproveite e conte mais sobre o trabalho que a Rede Cidadã realiza. 


Minha visão de impacto social surgiu quando descobri a relevância da gestão profissional trazida para o campo social. No mundo privado, ou diria mesmo, no campo do econômico, ninguém tem dúvidas da importância das ferramentas da gestão moderna. Coisas como metas, prazos, indicadores e metodologias de trabalho.


Então, descobri que projetos de impacto social exigiriam uma boa gestão e ações destinadas para impactos de transformação da realidade social. Nesse sentido, desde a primeira hora, resolvemos fundar a Rede Cidadã voltada para a preparação de jovens para o mundo do trabalho. Na época de fundação da Rede Cidadã, as pesquisas mostravam que 2/3 da população economicamente ativa e desempregada era constituída por jovens de 18 a 25 anos, e isso comprometeria a vida destas novas gerações. Com isso, a juventude se tornou o foco da Rede Cidadã e, hoje ampliando para a família, preparar pessoas para a vida e o trabalho continua sendo o campo de toda a nossa atuação.


No entanto, escolhemos como nosso principal indicador o número de jovens inseridos no mercado de trabalho, e não apenas capacitados. Afinal, apenas capacitar não gera impacto social, decidimos assumir que a inclusão formal no mundo do trabalho deveria ser o nosso principal impacto, levando renda efetiva para o jovem e sua família. 


02 - Quais foram os principais desafios que a Rede Cidadã enfrentou nos primeiros anos de atividade? Com a sua experiência é possível compartilhar com a gente os principais desafios que iniciativas sociais enfrentam atualmente? 


Numa economia como a nossa, o principal desafio sempre é o investimento financeiro inicial. Na criação da Rede Cidadã, a falta absoluta deste tipo de recurso foi substituída pela construção de parcerias que nos levaram a ter profissionais remunerados pela Prefeitura de BH, pela Fiat, e pela FIEMG, e ocupar espaços e infraestrutura cedidos pela FIEMG, pela Sociedade Mineira dos Engenheiros e pelo Instituto Florestam Fernandes.


Curiosamente, a Rede Cidadã em seu primeiro ano de existência chegou a articular, gerenciar e executar 12 projetos, sem ter conta em banco, tudo acontecendo por meio de parcerias. A Rede Cidadã, literalmente, veio ao mundo sem depender de captação de recursos financeiros. Fomos capazes de articular ativos existentes e integrar em rede esforços colaborativos gerando impacto social.


Atualmente, o desafio para o Terceiro Setor, além da permanente busca de investimentos financeiros, está o desafio da gestão profissional, do foco no que é relevante, e na capacidade de utilizar indicadores capazes de assegurar a efetividade dos resultados, o que significa medir os impactos sociais.


03 - Quais são os principais programas e projetos atualmente em andamento na organização? Poderia compartilhar algumas dicas para organizações com dificuldades em tirar seus projetos do papel?


A Rede Cidadã tem foco em projetos de Empregabilidade e de Aprendizagem, este último com base na Lei do Jovem Aprendiz. Nos últimos 20 anos, esses projetos inseriram 113 mil jovens no mundo do trabalho.


Atualmente, criamos a Trilha de Desenvolvimento do Usuário e da Família, visando atender a todos os públicos mobilizados pelas políticas públicas da Assistência Social, sobretudo, jovens de vilas e comunidades de baixa renda, jovens em situação de medidas socioeducativas, comunidade LGBTQIPN+, adultos, idosos, podendo ser ou não familiares. Assim, como integrar os diferentes públicos, a Trilha tem o objetivo de integrar os diferentes projetos e integrar diferentes fontes de investimento financeiro.


Só existe um jeito das organizações sociais tirarem projetos do papel: muito trabalho. O que significa criar projetos que sejam soluções demandadas pela comunidade e não pelo interesse da organização, articular a convergência de parceiros, garantir a execução do planejamento com clareza de metas, prazos e custos.


04 - O ambiente de iniciativas sociais é muito conectado! Poderia falar mais sobre como a Rede Cidadã se relaciona com outras organizações sociais e com isso amplia o impacto do trabalho realizado? 


A articulação de parceiros, a formação de sinergias, a construção de um trabalho em rede, sempre foram aspectos do que podemos chamar de DNA da nossa Organização. Se de um lado temos mais de 3 mil empresas que contratam os projetos da Organização, temos um leque de mais de 600 ongs parceiras, além de mais de 100 órgãos públicos, criando uma ampla rede de aliados que colaboram para nossos resultados. Sem as parcerias em formato e trabalho de complementaridade em rede, a Organização jamais teria conquistado os resultados aqui comentados.

A conexão de parceiros se tornou um elemento chave para o sucesso dos indicadores de resultados da nossa organização. Sem os parceiros, jamais em tão pouco tempo, 20 anos, a Rede Cidadã conseguiria o volume de resultados.


05 - A Rede Cidadã é uma iniciativa que desenvolve muitas parcerias! Poderia falar mais sobre as parcerias com o setor público e privado? Aproveite e compartilhe alguma dica para organizações que têm dificuldade em se relacionar com esses setores. 


Toda parceria é resultado da convergência de interesses. Nesse sentido, o Terceiro Setor precisa evoluir cada vez mais do lugar de que recebe doações para o parceiro capaz de vender serviços, capaz de entregar resultados para os investidores em projetos sociais e ambientais. Isso significa aprender a ser um ator na lógica do mercado privado. As empresas já romperam com o velho paradigma de filantropia, elas querem organizações profissionais, contratos com foco em resultados. E por sua vez, as organizações precisam aprender a disputar licitações públicas, a ter ofertas de soluções para políticas públicas e com isso disputar os recursos públicos destinados para ações complementares ao inerente trabalho do Estado em suas dimensões sociais ou ambientais.


06 - Quais são os principais aprendizados e realizações que alcançou como diretor-executivo da rede cidadã nos últimos anos? 


Os aprendizados de todo esse período foram sobre a importância de inovar em nossa metodologia de trabalho, no desenho dos projetos sociais e mesmo na capacidade de incorporar novas estratégias na busca de novos parceiros e investidores.


Creio que a principal realização foi desenvolver a metodologia socioemocional para ser aplicada na base da pirâmide social. Reunir vivências de elevado impacto de autoconhecimento permitiu oferecer aos segmentos sociais de baixa renda o acesso a recursos capazes de desenvolver em nossos públicos a inteligência emocional, cada vez mais reconhecida como fundamental para o mundo do trabalho.


Essa metodologia ganhou o Prêmio Ser Humano da ABRH/MG, e mostrou ser capaz de reduzir turnover e aumentar o tempo de permanência no trabalho de públicos desafiadores para o mercado de trabalho, como jovens em medidas socioeducativas e pessoas em situação de rua.

07 - Como as equipes da Rede Cidadã enfrentam crises ou situações de emergência? Consegue compartilhar algumas dicas para organizações que precisam lidar com situações complicadas? 


Não vejo diferenças das equipes da Rede Cidadã para qualquer outra organização empresarial quando o tema é o enfrentamento de crises. Talvez o melhor testemunho de um bom momento de aprendizado em lidar com crises, tenha ocorrido na pandemia.

Neste período, conseguimos criar um grande campo de união interna, de presença viva e constante entre as equipes e os dirigentes da organização, apesar dos laços de relacionamentos terem sido predominantemente virtuais, foram constantes e estimuladores da confiança necessária para todos juntos superarmos os desafios que toda a humanidade passava. 


08 - O Porta do Impacto tem como objetivo levar conteúdo para iniciativas de impacto social de diversos setores. Poderia deixar um recado final para as organizações que frequentam o portal e estão procurando crescer suas atividades? 


Acredito que as respostas anteriores também respondam esta última questão. Talvez, aqui pudesse acrescentar e destacar sobre a relevância de se tratar o campo social como aquele onde se encontram as pessoas, e elas possuem nome, CPF e endereço. Isto significa retirar o social da mera linguagem da estatística, das diretrizes genéricas das políticas públicas, e trazer para o centro do trabalho social cada pessoa, cada sujeito de direitos de cidadania.


Somente isso, poderá oferecer a prática efetiva do conceito de impacto social, posto que a verdade do resultado de um projeto precisa expressar que é o portador de direitos restaurados.



A importância de compartilhar experiências e ideias que ajudem a comunidade de iniciativas sociais


Sempre bom destacar que o Portal do Impacto tem o objetivo de compartilhar conteúdos gratuitos para as Organizações da Sociedade Civil (OSCs ou ONGs) e seus empreendedores nos temas de gestão, captação de recursos, tecnologia, comunicação e outros temas relevantes para o Terceiro Setor. Sempre tento trazer na minha coluna o melhor conteúdo envolvendo o Linkedin como ferramenta de trabalho e crescimento para essas iniciativas e seus colaboradores.



Minha rotina de trabalho como gestor das atividades da Rede Cidadã no Linkedin.


O LinkedIn é minha principal ferramenta de trabalho na Rede Cidadã e também a que mais utilizo quando apoio empresas, startups e organizações sociais no Brasil e exterior. Com ela já apoiei a Rede Cidadã a alcançar ótimos resultados em atividades que envolvem, por exemplo, comunicação, parcerias, comerciais e prospecção de talento. Essa experiência enriquecedora de crescimento também envolve a gestão do Fernando e as equipes que fazem parte da Rede Cidadã em diversos setores. Com isso tenho certeza que essa entrevista pode levar um conteúdo muito útil para iniciativas sociais que atuam em diversas causas e tem seus objetivos e desafios.


Boa Leitura, pessoal!






Diego Borges Ferreira: Profissional com experiência em comunicação no LinkedIn, networking, gestão de comunidade e treinamento de equipes em empresas, startups e organizações que desejam aprender a utilizar a plataforma. Principalmente com iniciativas que tem foco em impacto social e nas quais já apoiou diversas no Brasil e exterior. 

E-mail: liondiegos@gmail.com


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Você pode amar muito um time e ainda assim vê-lo perder campeonatos por anos. Pode ter a maior torcida do país, uma história gigante e uma camisa pesada. Mas sem gestão, isso não se sustenta. No terceiro setor acontece algo muito parecido. Sou corinthiana e não acompanho o futebol tão de perto. Mesmo assim, é impossível ignorar o que Palmeiras e Flamengo vêm construindo nos últimos anos. Escrevo este artigo no final de 2025 e, ao olhar para os principais campeonatos do período recente, Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil, esses dois clubes seguem protagonizando finais, títulos e campanhas consistentes. Não por acaso, também passaram a aparecer em premiações internacionais que reconhecem excelência em gestão, como o Globe Soccer Awards. Mas nem sempre foi assim. E é exatamente aí que essa história interessa às organizações da sociedade civil. Quando a virada não acontece no campo Palmeiras e Flamengo já viveram fases marcadas por dívidas, crises internas e resultados bem abaixo do potencial que tinham. A mudança não começou com um craque, nem com um gol histórico. Começou fora de campo. Por volta de 2012 e 2013, os dois clubes passaram a tratar a gestão como eixo central. Planejamento financeiro, profissionalização das equipes, governança e visão de longo prazo deixaram de ser discurso e passaram a orientar decisões concretas. Se você não gosta de futebol, continue comigo. O ponto aqui não é o esporte. É entender que amor, tradição e propósito são fundamentais, mas não substituem uma boa gestão. Com gestão, a gente vai mais longe. O que o Palmeiras ensina No Palmeiras, a virada tem um nome bastante conhecido: Paulo Nobre. Ao assumir a presidência do clube em 2013, encontrou um cenário delicado, com dívidas e pouca previsibilidade. Uma das decisões mais simbólicas foi emprestar recursos próprios para reorganizar as finanças do time. Um gesto arriscado, mas inserido em uma estratégia maior. A partir daí, vieram parcerias estratégicas como a Crefisa, a profissionalização da gestão e a criação de novas fontes de receita. A modernização do Allianz Parque transformou o estádio em um ativo que gera renda muito além dos jogos, com shows e eventos. É a lógica de enxergar a estrutura como meio para sustentar a missão, algo bastante familiar para quem atua no terceiro setor. O Flamengo e a coragem de arrumar a casa O Flamengo sempre teve popularidade e potencial. O que faltava era organização. A virada começou com decisões duras e pouco populares, como uma política rigorosa de controle de gastos e reorganização financeira. Antes de investir pesado em contratações, o clube investiu em processos, equipe técnica qualificada e responsabilidade fiscal. Os títulos vieram depois. Não como milagre, mas como consequência. O que tudo isso tem a ver com as OSCs? Muito mais do que parece. Os dois clubes mostram que investir na base (jovens atletas em formação para o time principal) é apostar no longo prazo, mesmo quando o retorno não é imediato. No terceiro setor, isso aparece na formação de equipes, no fortalecimento institucional e no desenvolvimento de lideranças. Eles também reforçam uma verdade incômoda: amor não é estratégia. Paixão move, mas não organiza fluxo de caixa, não constrói indicadores e não garante sustentabilidade. Há ainda a importância de diversificar fontes de receita, inclusive para organizações grandes e reconhecidas, e de contar com profissionais qualificados, além de investir em quem já faz parte da equipe. Nada disso acontece do dia para a noite. O processo é longo, exige constância e escolhas difíceis. Um convite para quem lidera organizações sociais  Se você lidera uma OSC, vale a reflexão. O quanto da sua energia está concentrada apenas na causa e o quanto está direcionada para fortalecer a gestão que sustenta essa causa? Gestão não esfria o propósito. Pelo contrário. Ela protege a missão, amplia o impacto e garante que o trabalho continue existindo daqui a cinco, dez ou vinte anos. No futebol e no terceiro setor, amor é o ponto de partida. Gestão é o que transforma esse amor em legado.
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O adoecimento mental da população brasileira tem se intensificado nos últimos anos e já se reflete de forma direta no mundo do trabalho. O aumento de afastamentos por transtornos mentais, a ampliação de quadros de ansiedade e a exaustão profissional passaram a ocupar o centro dos debates sobre produtividade, gestão de pessoas e sustentabilidade organizacional. No Terceiro Setor, esse cenário não é diferente — e apresenta contornos ainda mais críticos. Dados da Pesquisa Saúde Mental e Bem-Estar no Terceiro Setor (2023), realizada pelo Instituto Phomenta, revelam que 55% dos profissionais do setor expressam algum nível de preocupação com sua saúde mental e bem-estar. Esse contexto foi debatido no Webinar Tendências para o Terceiro Setor 2026, promovido pelo Instituto Phomenta, que apontou a saúde mental como uma das principais tendências e desafios estruturais para as organizações sociais nos próximos anos. A pesquisa ouviu 842 profissionais, de 214 cidades, em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal. Os dados mostram que o alto comprometimento com a causa convive com estresse constante, sensação de urgência permanente e dificuldade de estabelecer limites entre vida pessoal e trabalho, um paradoxo cada vez mais presente no cotidiano das organizações da sociedade civil. Cuidar de quem cuida Durante muito tempo, o trabalho no Terceiro Setor esteve associado à ideia de propósito como fator de proteção emocional. Os dados da pesquisa indicam que essa narrativa já não se sustenta. Entre os respondentes, 38% classificam sua saúde mental como regular e 17% como ruim, evidenciando um cenário de alerta que afeta tanto profissionais quanto lideranças. O recorte de gênero revela desigualdades importantes. As mulheres, que representam 65% da força de trabalho no Terceiro Setor, são as que expressam maiores níveis de preocupação: 60% relatam algum grau de insatisfação com sua saúde mental e bem-estar, frente a 45% dos homens. Entre os jovens, os índices são ainda mais elevados. Profissionais de 18 a 24 anos e de 25 a 34 anos apresentam os piores indicadores, com 69% e 70%, respectivamente, avaliando sua saúde mental como regular ou ruim. Esses dados foram destacados no Webinar Tendências para o Terceiro Setor 2026 como um sinal de que o setor precisa repensar suas práticas internas se quiser manter equipes engajadas e sustentáveis. A NR-1 e o impacto direto na gestão das organizações Outro ponto central do debate foi a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1). A partir de maio de 2025, organizações com pessoas contratadas sob regime CLT passam a ter a responsabilidade de identificar, prevenir e gerenciar riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Entre os fatores de risco mais recorrentes, a pesquisa da Phomenta aponta: excesso de demandas e tarefas, indicado por 64% dos respondentes como principal fator de estresse; jornadas prolongadas e dificuldade de equilíbrio entre vida pessoal e trabalho; ausência de reconhecimento e suporte institucional; conflitos interpessoais e condições precárias de trabalho. Os efeitos desse modelo aparecem nos sintomas relatados: 77% dos profissionais mencionam ansiedade como um dos principais impactos, e 64% relatam exaustão física. Durante o webinar, foi reforçado que o cumprimento da NR-1, embora necessário, não é suficiente para enfrentar um problema estrutural. O desafio está na revisão das práticas de gestão de pessoas, incluindo distribuição de tarefas, modelos de liderança, processos decisórios e a forma como o cuidado é incorporado, ou negligenciado, na cultura organizacional. Saúde mental como estratégia de sustentabilidade A pesquisa também evidencia que mais de 70% dos respondentes não percebem ações intencionais de suas organizações voltadas à promoção do bem-estar. Esse dado foi amplamente debatido no Webinar Tendências para o Terceiro Setor 2026, que destacou a urgência de transformar o cuidado em estratégia institucional. Entre as organizações que adotam ações voltadas à saúde mental, os profissionais citam iniciativas como atendimento psicológico, espaços de diálogo, formações, flexibilidade no trabalho e momentos de convivência. Ainda assim, esses esforços seguem sendo exceção, e não regra. No Terceiro Setor, cuidar da saúde mental das equipes deixou de ser um tema secundário. Trata-se de uma condição para a permanência das pessoas, para a qualidade do trabalho realizado e para a coerência entre missão institucional e práticas internas. A crise de saúde mental convida o setor a um exercício de autocrítica. Não é possível enfrentar desigualdades externas se, internamente, as relações de trabalho reproduzem exaustão, urgência permanente e invisibilização do cuidado. Em 2026, organizações que colocarem as pessoas no centro da gestão estarão mais preparadas para sustentar seu impacto social no longo prazo. Assista completo:
Por Instituto Phomenta 12 de janeiro de 2026
As transformações no cenário internacional de financiamento foram um dos alertas mais sensíveis apresentados no Webinar: Tendências de 2026 para o Terceiro Setor, realizado pelo Instituto Phomenta. Em um contexto de instabilidade política, mudanças de prioridades globais e retração de recursos externos, organizações brasileiras já sentem os impactos de uma filantropia internacional mais seletiva, menos previsível e cada vez mais estratégica. Em 2026, essa tendência se consolida e exige das organizações sociais um reposicionamento em relação à forma como acessam, gerenciam e diversificam suas fontes de recursos. A retração do financiamento internacional Durante o webinar, foram destacados movimentos recentes que ajudam a explicar o cenário atual, como a redução de repasses de países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o enfraquecimento de programas tradicionais de cooperação internacional e o encerramento ou redirecionamento de iniciativas históricas, como a USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional). Essas mudanças não acontecem de forma isolada. Elas refletem disputas geopolíticas, reorientação de agendas nacionais e uma priorização maior de crises internas por parte de países doadores. Para muitas organizações do Sul Global, isso representa a perda de fontes que, por décadas, sustentaram projetos e estruturas institucionais. Menos recursos, mais exigências Além da diminuição do volume de recursos, o webinar destacou um aumento significativo no nível de exigência dos financiadores internacionais que permanecem ativos. Entre os critérios mais observados estão: capacidade de gestão financeira e institucional; governança estruturada; indicadores consistentes de resultados; alinhamento com agendas globais específicas; histórico de parcerias e execução. Em 2026, organizações com baixa maturidade institucional tendem a enfrentar ainda mais barreiras para acessar recursos internacionais, mesmo quando atuam em causas prioritárias. O papel do financiamento público no Brasil Em contraste com a retração internacional, observamos o crescimento dos repasses federais no Brasil nos últimos anos. Esse movimento abre oportunidades, mas também traz desafios próprios. Acesso a recursos públicos exige preparo técnico, capacidade de prestação de contas, adequação jurídica e fôlego financeiro para lidar com prazos e burocracias. Para muitas organizações, isso demanda investimentos prévios em estrutura e equipe, o que nem sempre é possível sem apoio externo. Ainda assim, o aumento do financiamento público reforça a importância de olhar para o território nacional como parte estratégica da sustentabilidade financeira. Diversificação como estratégia de sobrevivência Uma das principais reflexões trazidas é que depender de uma única fonte de recursos se torna cada vez mais arriscado. Em 2026, a diversificação deixa de ser recomendação e passa a ser condição de sobrevivência. Isso envolve combinar diferentes fontes, como: filantropia nacional; parcerias com empresas; recursos públicos; doações individuais; prestação de serviços alinhados à missão. O impacto das mudanças na autonomia das organizações As transformações na filantropia internacional também afetam a autonomia das organizações sociais. Com menos recursos disponíveis e maior competição, cresce o risco de adaptação excessiva a agendas externas, em detrimento das demandas reais dos territórios. Por isso a importância de manter o foco na missão e no impacto social, mesmo diante de pressões financeiras. Organizações mais preparadas institucionalmente tendem a negociar melhor, fazer escolhas mais estratégicas e preservar sua coerência. O que essa tendência exige das organizações Em 2026, o cenário de financiamento será mais restrito, mais técnico e mais competitivo. Organizações que investem em desenvolvimento institucional, planejamento financeiro e fortalecimento da gestão terão mais condições de atravessar esse contexto com menos rupturas. Como discutido no webinar, adaptar-se às mudanças da filantropia internacional não significa abandonar princípios, mas sim construir bases mais sólidas para seguir atuando com impacto, autonomia e sustentabilidade no longo prazo. Confira o Conteúdo:
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