Onde entra o erro em nosso setor?

2 de fevereiro de 2023

Este conteúdo foi produzido por Fábio Deboni


Vivemos na era do sucesso. Só há espaço para os melhores negócios, as melhores ONGs, os melhores profissionais. Mas a dura vida do, que costumo chamar de ‘fantástica fábrica do impacto socioambiental’, passa longe de ser um mar de flores do sucesso. Muito pelo contrário. É uma rotina de muito trabalho, de uma coleção de desafios, tropeços e cabeçadas, para alguns pequenos flashes de acertos e conquistas. Refiro-me obviamente à grande maioria das organizações deste setor, não àquelas mais privilegiadas que tropeçam menos e se saem muito bem obrigado nas fotos e capas do setor.

 

Pois então, onde entra o fracasso e o erro em nosso setor? Qual espaço temos aberto para dialogar sobre eles? Afinal, eles são uma constante em nosso setor, mas parece que não existem, não é? Parecem ser seres de outro planeta, afinal, só se pode falar sobre coisas positivas e glamourosas no lindo mundo socioambiental.

 

Mas antes que você, caro(a) leitor(a) considere esse texto pessimista, já me explico. A ideia não é falar de pontos negativos do nosso setor – sim, eles existem e são abundantes, mas ficam pra outro momento – mas sim sobre como temos lidado com esses fracassos em nosso setor. Qual espaço o fracasso, o erro, a falha, a ‘cagada’ ocupa em nosso setor, em nossas práticas?

 

Olhando de maneira bastante fria, podemos dizer que ocupam um espaço muito marginal, se é que ocupam algum espaço. Um espaço restrito à rádio corredor, aos bastidores dos eventos, aos cafés e conversas em off. Raramente ocupam espaços nas mesas dos eventos, na programação principal do setor, nas publicações, etc.

 

Mas porque falaríamos sobre fracasso? Qual a utilidade dessa abordagem?

Eu vejo várias utilidades, mas me detenho em pelo menos três:

 

a.    Falar sobre erros e fracassos aproxima o setor da sua realidade – afinal, lidamos com problemas sociais e ambientais, com comunidades, organizações e situações longe do pleno funcionamento, longe das condições ideais, enfim, longe do sucesso. Ora, seria então bastante razoável trazermos esse contexto para nossas atuações, não acha? Não é o que temos visto em nosso setor, infelizmente. Possivelmente nosso esforço de positivar nossa matéria-prima passa pelo desafio de captação de recursos e de parceiros. Compreendo bem essa situação, mas isso não torna os problemas sociais/ambientais que enfrentamos menos duros.

 

b.    Uma adequada abordagem sobre erros pode ser fonte de inspiração para diversas outras organizações e projetos do nosso setor. Afinal, boa parte deles (nós) bate cabeça no dia a dia de intervenções, de captação de $, de aspectos burocráticos, etc. Dividir aprendizados gerados a partir de erros pode ser bastante libertador e inspirador para outros profissionais e organizações, sinalizando que sim, o erro existe e nosso objetivo não é anulá-lo (isso é impossível), mas sim saber lidar com ele de uma maneira mais natural e pedagógica possível. Em outras palavras, ao invés de varrer o erro pra debaixo do tapete, trazê-lo pra mesa e dialogar sobre ele, de maneira organizada e inteligente, obviamente.

 

c.    Testar, errar, redesenhar, testar novamente são práticas muito presentes no mundo das startups mas também muito alinhadas ao campo da inovação social. Afinal, temos problemas complexos para ‘resolvermos’ e é preciso testar, errar, experimentar até encontrarmos as abordagens e práticas mais adequadas em nossos projetos. Para que isso seja uma realidade é fundamental lidarmos com o erro. Ele não pode ser algo a ser evitado, mas, sobretudo, ele estará presente em nossa atuação e precisa ser considerado e ressignificado. Pra isso, o primeiro passo é desconstruirmos o tabu com o qual ainda lidamos com esse assunto. O tabu de não podermos errar. Temos que ser perfeitos, sempre, ainda que saibamos que isso é impossível. O tabu de não podermos falar sobre fracassos. Afinal, isso vai queimar o filme da nossa organização e vai complicar nossa vida de captação de recursos e de parceiros. Será? Afinal, quem nunca errou que atire a primeira pedra. Será que até mesmo nossos financiadores não erram? O ponto central que levanto aqui é como lidar com os erros em nosso projeto ou organização, afinal, eles sempre estarão presentes em nosso dia a dia.

 

 

E como sua organização lida com erros e fracassos? Ela segue varrendo-os para debaixo do tapete? Ou há abertura para tratá-los? Qual? Como? Quem puxa esse tipo de conversa? Quando?

 

Aqui entra um ponto importante. A ideia de trazer erros para a mesa de diálogo de um projeto ou organização não tem como enfoque tornar esse momento um muro de lamentações. Ficar se martirizando não levará a organização a avanços institucionais ou programáticos. A abordagem tem que ser pedagógica. OK, erramos. Os erros foram esses e eles nos trazem que tipo de aprendizado institucional, técnico, burocrático, operacional, programático? Esses aprendizados, por sua vez, nos levam a quais avanços em nossas práticas institucionais?

 

Entendo que o caminho vai nessa direção. Obviamente para isso funcionar é fundamental que haja abertura por parte da liderança da organização para facilitar este tipo de conversa. Conversas significativas que saiam do muro das lamentações e que não caiam numa caça aos culpados. O enfoque não deve nunca ser esse. Reconheço que se trata de uma tarefa difícil, não à toa, muito rara de ver acontecer em nosso setor.

 

Para fechar, deixo alguns exemplos inspiradores sobre o assunto. O primeiro exemplo é uma publicação gringa que destrinchou esse tema dos erros, olhando para o tema do Venture Philanthropy e do Investimento Social. Recomendo a leitura. Embora o enfoque seja mais voltado ao campo dos negócios de impacto, há vários insights que o documento traz que se encaixam bem com o campo das OSCs.

https://www.evpa.ngo/insights/learning-failures-venture-philanthropy-and-social-investment

 

Um segundo exemplo é a série da Aupa (da qual me orgulho de ter contribuído com seu desenho), chamada ‘Eu Errei’. Ela traz 10 empreendedores sociais contando sobre seus erros, de uma maneira super transparente e interessante. Vale muito a pena conferir.

https://aupa.com.br/euerrei/

 

Finalmente uma iniciativa do mundo das startups, que começou no México, mas se tornou global: o ‘Fuckup nights’. Empreendedores(as) são convidados a falar sobre seus fracassos e daí emergem ótimas histórias. No mapa que consta lá no site é possível ver quais histórias brasileiras já passaram por lá.

https://www.fuckupnights.com/

 

É isso. Deixemos o frescor desse início de ano nos inspirar a trazer para mesa nossos erros laborais, institucionais. Afinal, eles são matéria-prima para as transformações socioambientais que tanto almejamos. Licença poética para finalizar:


nunca cometo o mesmo erro

duas vezes

já cometo duas três

quatro cinco seis

até esse erro aprender

que só o erro tem vez

Paulo Leminski



Fábio Deboni - Agrônomo não praticante, escritor, produtor de conteúdo, xereta da inovação social, palmeirense (ninguém é perfeito) e um monte de outras coisas. 


Publica diariamente textos e artigos em seu blog:  https://fabiodeboni.com.br/ 



Linkedin: www.linkedin.com/in/fabiodeboni


Lançou em 2022 seu quinto livro: Inovação Social em tempos de soluções de mercado (aqui: https://www.pacolivros.com.br/inovacao-social-em-tempos-de-solucoes-de-mercado e aqui: https://amzn.to/3UiIp5o). 


Contato: fabio.deboni@gmail.com.


Inscreva-se na nossa Newsletter

Últimas publicações

Por Instituto Phomenta 11 de junho de 2026
Nem todo edital é uma oportunidade. Entenda os riscos do desvio de missão e como captar recursos de forma estratégica.
Por Jaice Balduino 1 de junho de 2026
O doador brasileiro está mudando: mais seletivo, exigente e orientado por impacto. Descubra o que as organizações sociais precisam oferecer para conquistar e fidelizar quem doa no cenário atual.
Por Instituto Phomenta 26 de maio de 2026
Quem está no dia a dia da gestão de uma ONG conhece bem o dilema: a gente passa tanto tempo cuidando dos projetos e atendendo a ponta que a nossa própria estrutura vai ficando para trás. Já diz o ditado: “em casa de ferreiro…”. Nosso financeiro roda no limite, a equipe fica sobrecarregada, os processos são travados e a liderança vive exausta. A verdade é que a gente se acostumou a operar no modo de sobrevivência. Então, que tal dar um passo para trás e avaliar o todo? Durante o FIFE 2026, o sociólogo Domingos Armani trouxe uma provocação que cutucou feridas necessárias. Ele alertou que muitas organizações ainda insistem em carregar crenças e estigmas que funcionam como mapas obsoletos. Só que, o grande problema de usar um mapa velho é que o mundo mudou, e o desenho antigo já não bate com o terreno real de hoje. Insistir na ideia de que investir na própria estrutura é "gastar dinheiro que deveria ir para o projeto" é um desses mapas velhos que precisamos rasgar. Fortalecer a casa, o chamado Desenvolvimento Institucional (DI), é o que garante que a ONG continue existindo e gerando impacto no longo prazo. E essa mudança de mentalidade muda tudo, inclusive o jeito de captar recursos. Mudar a postura para financiar a sua estratégia Captar recursos para o Desenvolvimento Institucional, ou seja para estruturar a gestão, investir em tecnologia e manter o time funcionando, exige parar de pedir dinheiro apenas para o "projeto da vez". No painel da Plataforma Conjunta, ainda no FIFE, o debate girou em torno de como virar essa chave diante dos financiadores. Para ajudar a avaliar como a sua organização está se posicionando, montamos um checklist prático com os principais aprendizados da mesa: Checklist de postura para o fortalecimento da ONG [ ] Você se explica pela estratégia ou pelo portfólio? Quando vai conversar com um parceiro, você gasta todo o tempo listando as oficinas da semana ou apresenta primeiro a missão e a visão de futuro da organização? Grandes parceiros querem financiar o futuro da sua causa, não apenas uma ação pontual. [ ] Você sabe compartilhar vulnerabilidades? Se a sua organização fosse perfeita e não tivesse nenhum problema de gestão, ela não precisaria de apoio. Fale da sua vulnerabilidade, mas com estratégia. Acompanha o próximo ponto! [ ] O desafio vem acompanhado de uma solução? Mostrar os pontos fracos da gestão para o parceiro só funciona se você já apresentar a rota para resolver o problema. A vulnerabilidade precisa vir colada com a sua capacidade de planejamento. [ ] O estigma da escassez foi abandonado? A gestão já superou a velha crença de que o Terceiro Setor precisa trabalhar sofrendo, com ferramentas defasadas e computadores lentos? Modernizar a estrutura interna é uma decisão de eficiência, não um luxo. Saiba que você pode merece e precisa de estrutura. Modernizar para não parar no caminho Se os mapas antigos não funcionam mais, o papel de quem gere é desenhar novas rotas. Olhar para o Desenvolvimento Institucional serve para dar musculatura para a organização. Quando paramos de “vender o almoço para pagar o jantar” e começamos a financiar a nossa própria estratégia, a ONG ganha a sustentabilidade que precisa para transformar a realidade na ponta de forma estruturada e contínua.
Por Instituto Phomenta 14 de maio de 2026
Quem trabalha em ONG sabe que a comunicação costuma ser o pratinho que mais cai. Com tantas atividades executadas ao mesmo tempo, a estratégia acaba ficando para trás porque o operacional consome todo o dia. Mas o uso da Inteligência Artificial (IA) tem mostrado que dá para mudar esse cenário. Esse foi um dos temas centrais do Fórum Interamericano de Filantropia Estratégica (FIFE 2026), o principal encontro sobre gestão do Terceiro Setor no Brasil. O debate focou em como a tecnologia pode organizar processos e liberar tempo para o que realmente importa. O cenário brasileiro é curioso: de um lado, a OpenAI aponta que o Brasil é o terceiro país que mais usa o ChatGPT no mundo (atrás apenas de EUA e Índia), com cerca de 140 milhões de mensagens diárias enviadas por aqui. Por outro lado, o uso estratégico nas ONGs ainda engatinha. Um levantamento do IDIS com mais de 1,5 mil organizações revela que 62% delas ainda estão em um estágio baixo ou inexistente de adoção de IA. Ou seja, a tecnologia está na nossa mão, mas o setor social ainda está descobrindo como transformá-la em aliada da gestão. Para tirar proveito real dessas ferramentas, o segredo é o jeito que você as alimenta. Durante a palestra de Marco Iarussi, publicitário social e fundador da Curta Causa, aprendemos que o "treinamento" que você dá à IA é o que define se o resultado será genérico ou útil. Mão na massa: Passo a passo para montar seu plano com IA Para a IA aprender sobre a sua realidade e não entregar respostas vazias, siga este roteiro: 1. Não mude de conversa Escolha um único chat para tratar do seu plano de comunicação, seja no ChatGPT, Gemini ou Claude. Se você abre uma conversa nova toda vez, a IA "esquece" o contexto. Mantendo o mesmo canal, ela guarda o histórico e entende as necessidades específicas da sua organização. 2. Dê informações reais Antes de pedir o plano completo, descubra o que a IA já "pensa" sobre você. Isso serve para corrigir erros e fornecer dados que ela ainda não tem. Prompt: "O que você sabe sobre a causa [inserir sua causa] e o que conhece sobre o trabalho da [nome da sua ONG]?" 3. Alinhe o que é um plano de verdade Veja se o robô entende o seu universo. Se ele tiver uma visão muito comercial, o plano parecerá uma propaganda de loja, o que não funciona para o setor social. Prompt: "Para você, o que não pode faltar em um plano de comunicação para uma ONG? Liste os pontos principais." (Leia e diga o que você concorda ou não). 4. Descubra o que ninguém está falando Use a ferramenta para encontrar novos ângulos e sair do óbvio. Prompt: "O que o pessoal mais fala sobre [sua causa] hoje? E o que você acha que ainda não foi dito, mas que ajudaria as pessoas a entenderem melhor o nosso impacto?" 5. Peça o plano prático Agora que o chat está treinado, peça a estrutura final. Prompt: "Com base em tudo o que já conversamos aqui, monte um calendário de 30 dias para as nossas redes sociais. O foco deve ser [ex: prestação de contas ou atrair novos voluntários]." Onde entra a ética e o seu papel Usar a tecnologia para facilitar o dia a dia é inteligência de gestão, mas exige cuidado. A IA serve para fazer o primeiro rascunho e organizar as ideias, mas a palavra final, a conferência dos dados e o olhar humano sobre a causa precisam ser seus. O objetivo é automatizar o que for repetitivo para que você tenha fôlego. Com a comunicação organizada, sobra tempo para construir relacionamentos de verdade e focar no que nenhuma máquina substitui a confiança e o olho no olho com quem apoia a sua organização. 
Por Camila Pasin 30 de abril de 2026
Empresas brasileiras deixaram de ser apenas financiadoras e se tornaram plataformas de engajamento. Entenda como transformar uma simples doação em uma verdadeira aliança de impacto.
Por Gabriel Pires 9 de abril de 2026
Minha OSC precisa de um código de ética? No terceiro setor, valores sem regras claras podem gerar conflitos e riscos. Entenda por que o código de ética é essencial para a gestão das OSCs.
mostrar mais

Participe do nosso grupo no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão

Entrar para o grupo