O amanhã agora é hoje. O que fazer na OSC?

10 de fevereiro de 2023

Este conteúdo foi produzido por Susana Barbosa


Hora de revisar, elaborar e executar o Planejamento Estratégico da OSC


“2023! 2023! 2023!” Todos ansiosos pela virada do ano. Eu, particularmente, não via a hora de virarmos a página depois de tanta luta e sofrimentos enfrentados em 2022. É certo que, muita coisa a gente leva na mente e no coração, mas a concretização de um novo tempo nos dá um gás para temos esperança de dias melhores. Bom, ele chegou, já estamos quase na metade de fevereiro. E agora é hora de revisar ou iniciar, no caso de algumas OSCs (Organizações da Sociedade Civil), os planejamentos estratégicos. Neste portal que eu escrevo, nesta casa Phomenta, eu aprendi em 2020 a importância do planejamento para o crescimento das OSCs. Eu aprendi que muito mais do que manter uma OSC aberta, é importante fazê-la crescer. Para isso, depende de gestão, conhecimento, aprendizado e muita análise. Saber ouvir as pessoas é fundamental. 


Eu sou a favor sempre da construção coletiva. Algumas coisas são inegociáveis, como a identidade da OSC (exceto se ela seja revisada também). Então aí está a dica para partirmos no planejamento da OSC. Importante atentar para que, a identidade da OSC seja preservada sempre. As pessoas que são voluntários, colaboradores, parceiros, embaixadores, assim o fazem porque acreditam na causa que a OSC defende e executa. 


Geralmente chegamos no dia 3 de janeiro já anotando tudo, mexendo nas planilhas, organizando reuniões e tantos outros compromissos. Que tal fazer o caminho contrário? Gosto de pensar em um retorno com um belo café para o Time, uma roda de conversa sobre o ano anterior e as nossas expectativas para o ano que se inicia. Isso mesmo, não tem nada de novo nisso, mas tem profundidade, porque liderar é trazer as pessoas para perto e não as levar para longe. E nem pense que as ideias surgirão todas em uma única semana na mente do gestor. Claro que não. Isso é impossível! E isso vale para todos os começos: de ano, de mês, de trimestre…


Planejar demanda tempo


O ideal, assim como as empresas multinacionais e nacionais de grande porte fazem, é pensar, ainda no ano anterior, as novas propostas para a Organização. Assim conseguimos, com calma e organização, direcionar os trabalhos da OSC. Os planejamentos seguirão o norte muito do que os indicadores, monitoramento e avaliação dos projetos sinalizaram. Por isso é extremamente importante executá-los na OSC. Sim, sei, e compreendo perfeitamente que, para OSCs de pequeno porte, esse processo é mais complexo, mas comece aos poucos e à medida que o crescimento acontecer será mais fácil a adaptação. 


Planejar norteia e credibiliza a gestão da OSC


A pior coisa é saber qual o rumo a OSC deve tomar. Apagar incêndio não é a melhor coisa, e isso apresenta desorganização diante dos parceiros, dos atendidos e da comunidade onde o trabalho é desenvolvido. Por isso, sem medo, por mais resistências que possa haver da governança, de alguns colaboradores, dedique tempo sim para o planejamento.


Peter Drucker, pai da administração, sempre disse que o planejamento aponta para o futuro, mas que também começa no tempo presente. Talvez você esteja se perguntando: mas qual a ferramenta para utilizar no planejamento? Bem, isso é muito peculiar de cada OSC, depende da infraestrutura, dos recursos financeiros e do conhecimento técnico da parte da gestão. Pesquise. Será encontrada uma que vai se identificar mais com a OSC. Isso se aprende e conquista ao longo do tempo. Importante é saber que o amanhã chegou e é agora.

 

Então planeje-se a curto, médio e longo prazo, para que a OSC seja de fato uma ponte entre a comunidade e as políticas públicas que lhe são de direitos, constituídas na Constituição Federal de 1988. Bom ano!




Guarulhense, filha de dois baianos (José Deon e Maria Alice), casada com Roberto Matos, bacharel em Teologia (Universidade Metodista de São Paulo). Extensão em Projetos Sociais pela PUC-SP. Pós-graduação (gestão empresarial) e sociologia da educação. Gestora da Ação Vida desde 2012 e empreendedora social no Dicas3Setor.


Contato: dicas3setorong@gmail.com 



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Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer um desafio estrutural: muitas organizações de base, especialmente em territórios periféricos, ainda têm dificuldade de incorporar tecnologia às suas soluções. Não por falta de visão, mas por falta de acesso à educação, à formação técnica e a investimentos sociais. É comum vermos tecnologias avançadas sendo desenvolvidas por startups e organizações de impacto, enquanto quem atua diretamente no território não dispõe dos recursos necessários para utilizá-las. Sem articulação, essa equação não fecha. Por isso, outra tendência que se consolida é a valorização de redes, consórcios e articulações territoriais. Organizações que atuam de forma isolada tendem a ter mais dificuldade de acessar investimentos. Financiadores buscam cada vez mais iniciativas coletivas, capazes de envolver múltiplos atores, setores e saberes. A experiência mostra que articular financiamento privado, cooperação técnica com o poder público e o engajamento de organizações de base é um caminho consistente para gerar impacto real e sustentável. Nesse novo cenário, o uso de dados e evidências deixou de ser opcional. A atuação precisa ser responsiva às necessidades reais dos territórios, e isso só é possível por meio da observação sistemática, da geração cidadã de dados e da tomada de decisões baseadas em evidências. O investimento social privado no Brasil amadureceu — e espera projetos bem estruturados, com governança sólida e clareza de resultados. É impossível falar de inovação sem falar de ética. Tecnologias como a Inteligência Artificial precisam ser desenvolvidas e utilizadas com base em princípios claros: respeito à privacidade e à LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), justiça social, mitigação de vieses discriminatórios, controle social sobre dados e sistemas, segurança da informação e responsabilidade ambiental. O impacto climático da tecnologia, muitas vezes invisível, também precisa entrar na equação. Regulamentação e compromisso das empresas e investidores são indispensáveis. O financiamento das organizações também passa por mudanças relevantes. Doações online, campanhas como o Dia de Doar, cessão de tecnologias e licenças por empresas e, sobretudo, o fortalecimento dos mecanismos de incentivo fiscal têm ampliado as possibilidades de sustentabilidade. Quando uma empresa direciona parte de seus impostos para projetos sociais no território onde atua, o recurso retorna diretamente para a comunidade, em forma de educação, inovação e oportunidades. Isso fortalece a democracia e aproxima o investimento social da vida real das pessoas. As parcerias intersetoriais, aliás, tendem a se tornar ainda mais estratégicas. Políticas de ESG impulsionaram empresas a assumirem compromissos mais concretos com impacto social e ambiental. Quando essa agenda sai do discurso e se traduz em atuação no território, com cooperação técnica e investimento de longo prazo, os resultados são muito mais consistentes. Diante de um cenário marcado por polarização política e desinformação, o papel das organizações da sociedade civil também se amplia. Educação midiática, consumo crítico da informação e inclusão digital são hoje pilares da defesa da democracia. Eu acredito que capacitar pessoas em habilidades digitais é também fortalecer sua capacidade de participação cidadã. O terceiro setor está, sim, mais profissionalizado — e isso é necessário. 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Você pode amar muito um time e ainda assim vê-lo perder campeonatos por anos. Pode ter a maior torcida do país, uma história gigante e uma camisa pesada. Mas sem gestão, isso não se sustenta. No terceiro setor acontece algo muito parecido. Sou corinthiana e não acompanho o futebol tão de perto. Mesmo assim, é impossível ignorar o que Palmeiras e Flamengo vêm construindo nos últimos anos. Escrevo este artigo no final de 2025 e, ao olhar para os principais campeonatos do período recente, Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil, esses dois clubes seguem protagonizando finais, títulos e campanhas consistentes. Não por acaso, também passaram a aparecer em premiações internacionais que reconhecem excelência em gestão, como o Globe Soccer Awards. Mas nem sempre foi assim. E é exatamente aí que essa história interessa às organizações da sociedade civil. Quando a virada não acontece no campo Palmeiras e Flamengo já viveram fases marcadas por dívidas, crises internas e resultados bem abaixo do potencial que tinham. A mudança não começou com um craque, nem com um gol histórico. Começou fora de campo. Por volta de 2012 e 2013, os dois clubes passaram a tratar a gestão como eixo central. Planejamento financeiro, profissionalização das equipes, governança e visão de longo prazo deixaram de ser discurso e passaram a orientar decisões concretas. Se você não gosta de futebol, continue comigo. O ponto aqui não é o esporte. É entender que amor, tradição e propósito são fundamentais, mas não substituem uma boa gestão. Com gestão, a gente vai mais longe. O que o Palmeiras ensina No Palmeiras, a virada tem um nome bastante conhecido: Paulo Nobre. Ao assumir a presidência do clube em 2013, encontrou um cenário delicado, com dívidas e pouca previsibilidade. Uma das decisões mais simbólicas foi emprestar recursos próprios para reorganizar as finanças do time. Um gesto arriscado, mas inserido em uma estratégia maior. A partir daí, vieram parcerias estratégicas como a Crefisa, a profissionalização da gestão e a criação de novas fontes de receita. A modernização do Allianz Parque transformou o estádio em um ativo que gera renda muito além dos jogos, com shows e eventos. É a lógica de enxergar a estrutura como meio para sustentar a missão, algo bastante familiar para quem atua no terceiro setor. O Flamengo e a coragem de arrumar a casa O Flamengo sempre teve popularidade e potencial. O que faltava era organização. A virada começou com decisões duras e pouco populares, como uma política rigorosa de controle de gastos e reorganização financeira. Antes de investir pesado em contratações, o clube investiu em processos, equipe técnica qualificada e responsabilidade fiscal. Os títulos vieram depois. Não como milagre, mas como consequência. O que tudo isso tem a ver com as OSCs? Muito mais do que parece. Os dois clubes mostram que investir na base (jovens atletas em formação para o time principal) é apostar no longo prazo, mesmo quando o retorno não é imediato. No terceiro setor, isso aparece na formação de equipes, no fortalecimento institucional e no desenvolvimento de lideranças. Eles também reforçam uma verdade incômoda: amor não é estratégia. Paixão move, mas não organiza fluxo de caixa, não constrói indicadores e não garante sustentabilidade. Há ainda a importância de diversificar fontes de receita, inclusive para organizações grandes e reconhecidas, e de contar com profissionais qualificados, além de investir em quem já faz parte da equipe. Nada disso acontece do dia para a noite. O processo é longo, exige constância e escolhas difíceis. Um convite para quem lidera organizações sociais  Se você lidera uma OSC, vale a reflexão. O quanto da sua energia está concentrada apenas na causa e o quanto está direcionada para fortalecer a gestão que sustenta essa causa? Gestão não esfria o propósito. Pelo contrário. Ela protege a missão, amplia o impacto e garante que o trabalho continue existindo daqui a cinco, dez ou vinte anos. No futebol e no terceiro setor, amor é o ponto de partida. Gestão é o que transforma esse amor em legado.
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