Decisões no Terceiro Setor: como ONGs equilibram impacto e sustentabilidade

24 de fevereiro de 2025

O Terceiro Setor, o setor das ONGs, é marcado por decisões difíceis e únicas. As lideranças das organizações enfrentam diariamente decisões em que precisam ponderar o impacto social, a sustentabilidade econômica e os interesses das diferentes partes interessadas, que vão desde os atendidos aos doadores.


Diferentemente da iniciativa privada, na qual o principal objetivo é o lucro e quase todos os indicadores são convertidos no retorno em reais, as ONGs priorizam o impacto social. Porém, engana-se quem acredita que priorizar o impacto seja tão simples. Primeiramente, a mensuração do impacto pode se tornar complexa, demandar muito tempo e ser cara, o que em muitos casos pode inviabilizar a sua execução. Segundo, porque os tipos de impacto que cada organização gera é muito diferente, dificultando a comparabilidade entre os impactos dentro ou entre projetos e programas.


Nesse sentido, a metodologia SROI é uma alternativa mais viável, principalmente, na tentativa de chegar em um denominador comum para comparar os impactos a partir de algumas premissas e simplificações. E, explicando um pouco mais, SROI (Social Return on Investment) é uma metodologia que  busca atribuir valor financeiro aos impactos sociais e ambientais gerados por uma organização.



Por último, mesmo priorizando o impacto social, uma organização precisa captar doações e/ou gerar receita para financiar as suas atividades. Logo, as ONGs deveriam priorizar o impacto social sem perder de vista a sustentabilidade econômica e as demandas das partes interessadas, principalmente dos atendidos pela organização.


Na prática, essa ponderação de diferentes variáveis para se tomar uma decisão não é tão simples. Abaixo estão algumas decisões que as lideranças das ONGs costumam lidar.


Equilibrando a decisão: atender mais pessoas ou ser sustentável?


As ONGs enfrentam um cenário no contexto brasileiro de demanda latente, o que significa que a demanda por atendimento ou de proteção de uma área (para as ONGs da área ambiental, por exemplo) é maior do que a capacidade da organização. Diante disso, muitas lideranças vão priorizar aumentar o atendimento, pois o que as move para atuar no Terceiro Setor é o impacto social.


Porém, essa decisão pode trazer consequências para a organização. Uma das consequências é tornar a organização menos sustentável, pois decisões consecutivas priorizando o impacto nunca permitirá à organização formar uma reserva de emergência, por exemplo. Além disso, outra possível consequência é a diminuição na qualidade do serviço para aumentar o atendimento, impactando no impacto social, uma vez que o impacto não é apenas sobre quantidade de pessoas ou km2 de área preservada.


Certa vez ouvi de um diretor de uma ONG a frase “onde come uma [criança], comem duas”. Quais as consequências de diminuir a quantidade de alimentação abaixo do recomendado para cada criança ou encher o número de pessoas em uma sala com atividades da ONG?

Diante disso, é fundamental refletir sobre os impactos de cada escolha. Às vezes, o desejo de beneficiar um maior número de pessoas atendidas pode acabar mascarando a necessidade de criar condições adequadas de acolhimento. 


Por isso, cada decisão deve ser ponderada com cuidado, com o olhar para a manutenção do compromisso com a qualidade no atendimento e a sustentabilidade da própria organização.


Qual parte interessada dar mais atenção?


Outra decisão recorrente a toda liderança de uma ONG é onde dedicar tempo para o objetivo principal de maximizar o impacto social, mantendo um modelo sustentável. As organizações, no geral, possuem uma grande limitação de recursos, tanto financeiros como de equipe, voluntários ou funcionários, tornando a decisão de onde alocar energia muito importante.


As diferentes partes interessadas de uma organização, as quais são os atendidos, os doadores, as empresas parceiras, os voluntários, os pais, a comunidade, a prefeitura, os funcionários, os conselheiros e muitos outros, demandam uma atenção a cada relacionamento. Desse modo, diante desse cenário, com uma multiplicidade de partes interessadas, as lideranças das ONGs precisam priorizar qual parte interessada receberá mais atenção e qual receberá menos atenção ou será de responsabilidade de alguma outra pessoa, ou departamento da organização.


Na minha atuação apoiando ONGs, vi diversos casos em que determinadas partes interessadas eram lembradas apenas quando a organização necessitava de algo. Porém, os piores casos que geraram grandes consequências foram quando os relacionamentos (principalmente com doadores, prefeitura e empresas) estavam concentrados em uma única pessoa, usualmente o presidente ou fundador, e quando essa pessoa deixou de fazer parte da ONG, a organização perdeu doações e parcerias relevantes.


Conclusão


O Terceiro Setor possui características próprias,  a partir das quais as lideranças são demandadas a tomar decisões considerando o equilíbrio entre impacto social e sustentabilidade, a multiplicidade de partes interessadas, a limitação de recursos e muitas outras dimensões, como políticas, de valores e técnicas.


Esse artigo faz parte de uma série sobre Decisões no Terceiro Setor. No próximo artigo, compartilharei um modelo com etapas para a tomada de decisão para apoiar lideranças, fundadores, empreendedores e conselheiros que atuam no Terceiro Setor.


Enquanto isso faça a pré-inscrição da sua organização em nosso programas, clicando no link a seguir: https://www.phomenta.com.br/programas-ongs-pre-inscricao



Rodrigo Cavalcante atua conectando e fortalecendo ONGs, financiadores e empresas para gerar impacto social. Com experiência em aceleração de organizações, desenvolvimento de produtos e criação de plataformas como o Portal do Impacto, liderou a expansão da Phomenta, alcançando mais de 500 ONGs apoiadas e 12.000 empreendedores sociais. Foi finalista do Valuable Young Leaders, é host do Podcast do Impacto e já facilitou mais de 100 workshops sobre inovação e gestão no Terceiro Setor. 


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Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer um desafio estrutural: muitas organizações de base, especialmente em territórios periféricos, ainda têm dificuldade de incorporar tecnologia às suas soluções. Não por falta de visão, mas por falta de acesso à educação, à formação técnica e a investimentos sociais. É comum vermos tecnologias avançadas sendo desenvolvidas por startups e organizações de impacto, enquanto quem atua diretamente no território não dispõe dos recursos necessários para utilizá-las. Sem articulação, essa equação não fecha. Por isso, outra tendência que se consolida é a valorização de redes, consórcios e articulações territoriais. Organizações que atuam de forma isolada tendem a ter mais dificuldade de acessar investimentos. Financiadores buscam cada vez mais iniciativas coletivas, capazes de envolver múltiplos atores, setores e saberes. A experiência mostra que articular financiamento privado, cooperação técnica com o poder público e o engajamento de organizações de base é um caminho consistente para gerar impacto real e sustentável. Nesse novo cenário, o uso de dados e evidências deixou de ser opcional. A atuação precisa ser responsiva às necessidades reais dos territórios, e isso só é possível por meio da observação sistemática, da geração cidadã de dados e da tomada de decisões baseadas em evidências. O investimento social privado no Brasil amadureceu — e espera projetos bem estruturados, com governança sólida e clareza de resultados. É impossível falar de inovação sem falar de ética. Tecnologias como a Inteligência Artificial precisam ser desenvolvidas e utilizadas com base em princípios claros: respeito à privacidade e à LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), justiça social, mitigação de vieses discriminatórios, controle social sobre dados e sistemas, segurança da informação e responsabilidade ambiental. O impacto climático da tecnologia, muitas vezes invisível, também precisa entrar na equação. Regulamentação e compromisso das empresas e investidores são indispensáveis. O financiamento das organizações também passa por mudanças relevantes. Doações online, campanhas como o Dia de Doar, cessão de tecnologias e licenças por empresas e, sobretudo, o fortalecimento dos mecanismos de incentivo fiscal têm ampliado as possibilidades de sustentabilidade. Quando uma empresa direciona parte de seus impostos para projetos sociais no território onde atua, o recurso retorna diretamente para a comunidade, em forma de educação, inovação e oportunidades. 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O desafio é garantir que essa profissionalização não signifique distanciamento das bases sociais, mas sim mais impacto, mais escuta e mais transformação concreta nos territórios. Para as lideranças do setor, 2026 exigirá competências cada vez mais complexas: análise de dados, gestão de pessoas, captação diversificada de recursos, comunicação transparente, prestação de contas e capacidade de construir parcerias estratégicas entre diferentes setores. Mais do que nunca, impacto social será resultado de articulação, evidência e compromisso real com quem está na ponta. 
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Você pode amar muito um time e ainda assim vê-lo perder campeonatos por anos. Pode ter a maior torcida do país, uma história gigante e uma camisa pesada. Mas sem gestão, isso não se sustenta. No terceiro setor acontece algo muito parecido. Sou corinthiana e não acompanho o futebol tão de perto. Mesmo assim, é impossível ignorar o que Palmeiras e Flamengo vêm construindo nos últimos anos. Escrevo este artigo no final de 2025 e, ao olhar para os principais campeonatos do período recente, Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil, esses dois clubes seguem protagonizando finais, títulos e campanhas consistentes. Não por acaso, também passaram a aparecer em premiações internacionais que reconhecem excelência em gestão, como o Globe Soccer Awards. Mas nem sempre foi assim. E é exatamente aí que essa história interessa às organizações da sociedade civil. Quando a virada não acontece no campo Palmeiras e Flamengo já viveram fases marcadas por dívidas, crises internas e resultados bem abaixo do potencial que tinham. A mudança não começou com um craque, nem com um gol histórico. Começou fora de campo. Por volta de 2012 e 2013, os dois clubes passaram a tratar a gestão como eixo central. Planejamento financeiro, profissionalização das equipes, governança e visão de longo prazo deixaram de ser discurso e passaram a orientar decisões concretas. Se você não gosta de futebol, continue comigo. O ponto aqui não é o esporte. É entender que amor, tradição e propósito são fundamentais, mas não substituem uma boa gestão. Com gestão, a gente vai mais longe. O que o Palmeiras ensina No Palmeiras, a virada tem um nome bastante conhecido: Paulo Nobre. Ao assumir a presidência do clube em 2013, encontrou um cenário delicado, com dívidas e pouca previsibilidade. Uma das decisões mais simbólicas foi emprestar recursos próprios para reorganizar as finanças do time. Um gesto arriscado, mas inserido em uma estratégia maior. A partir daí, vieram parcerias estratégicas como a Crefisa, a profissionalização da gestão e a criação de novas fontes de receita. A modernização do Allianz Parque transformou o estádio em um ativo que gera renda muito além dos jogos, com shows e eventos. É a lógica de enxergar a estrutura como meio para sustentar a missão, algo bastante familiar para quem atua no terceiro setor. O Flamengo e a coragem de arrumar a casa O Flamengo sempre teve popularidade e potencial. O que faltava era organização. A virada começou com decisões duras e pouco populares, como uma política rigorosa de controle de gastos e reorganização financeira. Antes de investir pesado em contratações, o clube investiu em processos, equipe técnica qualificada e responsabilidade fiscal. Os títulos vieram depois. Não como milagre, mas como consequência. O que tudo isso tem a ver com as OSCs? Muito mais do que parece. Os dois clubes mostram que investir na base (jovens atletas em formação para o time principal) é apostar no longo prazo, mesmo quando o retorno não é imediato. No terceiro setor, isso aparece na formação de equipes, no fortalecimento institucional e no desenvolvimento de lideranças. Eles também reforçam uma verdade incômoda: amor não é estratégia. Paixão move, mas não organiza fluxo de caixa, não constrói indicadores e não garante sustentabilidade. Há ainda a importância de diversificar fontes de receita, inclusive para organizações grandes e reconhecidas, e de contar com profissionais qualificados, além de investir em quem já faz parte da equipe. Nada disso acontece do dia para a noite. O processo é longo, exige constância e escolhas difíceis. Um convite para quem lidera organizações sociais  Se você lidera uma OSC, vale a reflexão. O quanto da sua energia está concentrada apenas na causa e o quanto está direcionada para fortalecer a gestão que sustenta essa causa? Gestão não esfria o propósito. Pelo contrário. Ela protege a missão, amplia o impacto e garante que o trabalho continue existindo daqui a cinco, dez ou vinte anos. No futebol e no terceiro setor, amor é o ponto de partida. Gestão é o que transforma esse amor em legado.
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