Boas Práticas em Saúde Mental no Terceiro Setor

17 de fevereiro de 2025

Como o tema de saúde mental tem ressoado em sua organização social?

Este é um assunto amplamente discutido e presente nas ações de promoção do bem-estar dos colaboradores ou sua organização ainda necessita de algumas ideias de por onde começar a lidar com essa temática?


Quando falamos em Terceiro Setor, lidamos com a premissa de, que na maioria das vezes, o foco exclusivo do impacto social a ser gerado está no público externo à organização, ou seja, no público atendido por ela, porém, quando o cuidado com o bem-estar da equipe é negligenciado, as consequências podem ser evidenciadas na alta taxa de rotatividade, nos altos índices de faltas e afastamento do trabalho por adoecimento, e na queda da qualidade dos atendimentos, o que no final das contas acabam diminuindo o impacto desejado.


Dessa forma, estar atento e planejar formas de incluir a Saúde Mental nas principais pautas a serem trabalhadas, se torna urgente, além de aumentar a coerência com o discurso de contribuição social efetiva.


Este texto apresenta exemplos e sugestões práticas, de como implementar ou potencializar as ações de bem-estar dentro de sua organização, a começar pelos dados coletados na pesquisa da Phomenta, de 2023, passando pela Campanha do Janeiro Branco e a NR-1.


Pesquisa em Saúde Mental


A Pesquisa “A Saúde Mental e o Bem-Estar dos profissionais do Terceiro Setor”, realizada pela Phomenta, em 2023, evidenciou a proporção do adoecimento emocional, físico e mental dos trabalhadores das organizações sociais, mas também trouxe luz à algumas iniciativas que já estão acontecendo em prol da manutenção de ambientes mais saudáveis para se atuar. São elas:


  • Atendimento psicológico e terapêutico: Disponibilidade de atendimento psicológico, sejam sessões individuais, terapias em grupo ou a presença de um psicólogo dedicado à equipe.
  • Espaços de diálogo: Rodas de conversa, reuniões mensais com todos os colaboradores e espaços para avaliação e resolução de problemas, demonstrando a importância da comunicação aberta e do diálogo no ambiente de trabalho. 
  • Formações e palestras: A promoção de palestras, formações e workshops sobre temas como saúde mental, gestão do tempo e bem-estar 
  • Flexibilidade no trabalho: Práticas como trabalho remoto, flexibilidade de carga horária e autonomia na organização do tempo. 
  • Momentos de confraternização e lazer: Encontros de lazer, confraternizações e atividades recreativas foram citados como formas de aliviar o estresse e promover a integração entre os colaboradores. 
  • Benefícios adicionais: Além dos benefícios tradicionais, muitos participantes mencionaram incentivos como descontos em terapias, sessões de massagem e plataformas de benefícios.


A observação que a pesquisa trás, no entanto, é que vários entrevistados relatam também “a dificuldade destas ações mudarem realmente a forma de se trabalhar dentro das organizações”.  Isso se não houver um investimento da organização em  se criar (e manter) um ambiente de trabalho sustentável onde os trabalhadores se sintam apoiados em suas rotinas diárias.


Um dos depoimentos diz: “Na instituição que estou hoje, falamos muito sobre saúde mental, mas a própria liderança não consegue dar exemplo, trabalhando mais de 10h por dia para conseguir absorver as demandas, e isso gera esse senso de urgência e de sobrecarga na equipe.” 


Isso reforça a necessidade de, não apenas discutirmos a saúde mental nas organizações, mas também de pensarmos em “medidas que promovam mudanças que abordem os causadores de estresse, como o excesso de demanda e prazos apertados”.(Phomenta, 2023, pg. 26).


A Campanha do Janeiro Branco


Uma iniciativa que fortalece a necessidade do cuidado com o bem-estar emocional, incluindo nos locais de trabalho, é a Campanha do Janeiro Branco, criada em 2024, pelo psicólogo Leonardo Abrahão, e que se tornou a Lei Federal (14.556/23).


Seu objetivo é “promover a conscientização e a valorização da saúde mental, criando ações educativas e psicossociais que fomentem uma cultura global de bem-estar mental”. No site da Campanha, Leonardo acrescenta algumas ideias de atividades que podem ser feitas neste período, incluindo:

  • Pesquisas de Clima Organizacional: Realizar uma avaliação anônima sobre o clima organizacional e as percepções dos colaboradores sobre saúde mental no ambiente de trabalho. Usar essas valiosas informações para planejar melhorias e criar um ambiente mais saudável.

    Aproveite para ler o artigo sobre Clima Organizacional, no Portal do Impacto: https://www.portaldoimpacto.com/clima-organizacional-investindo-em-um-ambiente-saudavel

  • Organize sessões interativas: Intervenções artísticas, concursos culturais, sessões de cinema ou dinâmicas que estimulem a criatividade e a reflexão sobre saúde mental. Essas ações tornam o tema mais acessível e envolvente para todos.
  • Lidere pelo exemplo: Os líderes têm um papel essencial na promoção da saúde mental. Demonstre empatia, incentive práticas saudáveis e esteja sinceramente disponível para conversar sobre o tema. Um líder que valoriza o bem-estar inspira toda a equipe.


O gerenciamento do estresse


Todo mundo sabe, mas vale lembrar que: A rotina no Terceiro Setor está marcada por desafios emocionais intensos, devido ao convívio constante com realidades como pobreza, violência e emergências ambientais, que somados à escassez de recursos materiais e alta demanda de trabalho, podem levar ao desgaste emocional e ao esgotamento físico, característicos do Burnout (síndrome do esgotamento profissional).


Nesse contexto, o gerenciamento do estresse torna-se uma ferramenta indispensável para mitigar os impactos do estresse diário, auxiliando na preservação do equilíbrio emocional.


Se deseja saber mais sobre Burnout, leia o texto do Portal do Impacto sobre esse tema: https://www.portaldoimpacto.com/sindrome-do-esgotamento-profissional-burnout


Práticas como técnicas de relaxamento, psicoterapia e fortalecimento de uma rede de apoio, ajudam os profissionais e voluntários a reduzir os impactos negativos dessas situações. Porém, o ideal é que se observe a qualidade do clima organizacional.


Não há ferramenta de gerenciamento de estresse e relaxamento que dê conta de um ambiente com assédio moral ou intensa agressividade.


Avaliação de Riscos


Um movimento que está acontecendo no 2º setor e que pode influenciar e inspirar o Terceiro Setor, em favor da Saúde Mental dos trabalhadores, é a revisão do texto da NR-1, de 2024, uma Norma Reguladora do Ministério do Trabalho e Emprego que visa incluir a avaliação de riscos psicossociais no processo de gestão de Segurança e Saúde no Trabalho.


Fatores como metas excessivas, jornadas extensas, falta de suporte, assédio moral, conflitos interpessoais e ausência de autonomia precisam ser reconhecidos e controlados. Para isso, é essencial implementar planos de ação com medidas preventivas e corretivas, como a reorganização do trabalho e a melhoria dos relacionamentos interpessoais. Essas ações devem ser monitoradas continuamente para avaliar sua eficácia e ajustadas sempre que necessário, explica Viviane Forte, coordenadora-geral de Fiscalização em Segurança e Saúde no Trabalho.


A implementação de práticas inspiradas na NR-1 no Terceiro Setor, pode fortalecer a gestão de pessoas das organizações, garantindo que os riscos psicossociais sejam tratados com a seriedade necessária, podendo diminuir a incidência de adoecimento e de rotatividade no setor.


Não há receita de bolo!


Cuidar da saúde mental no Terceiro Setor é um desafio complexo, mas essencial para garantir a sustentabilidade das organizações e o bem-estar de suas equipes. Não há soluções únicas, mas ações contínuas, como diálogo aberto e adaptações à rotina. Investir em ambientes saudáveis fortalece a equipe, amplia o impacto social e inspira transformação a partir de dentro.


Por isso, olhe, ouça, converse, mapeie e crie as “Boas Práticas em Saúde Mental” de sua organização.


E se assim o fizer, não deixe de nos contar. Estamos curiosos por bons exemplos neste sentido.



Referências:


Phomenta (2023). Pesquisa “A Saúde Mental e o Bem-Estar dos profissionais do Terceiro Setor”. Disponível em: https://www.phomenta.com.br/pesquisa-saude-mental-e-bem-estar


Campanha Janeiro Branco: Disponível em: https://janeirobranco.org.br/10-ideias-para-sua-empresa-participar-do-janeiro-branco/


Ministério do Trabalho e Emprego: Disponível em: https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/noticias-e-conteudo/2024/Novembro/empresas-brasileiras-terao-que-avaliar-riscos-psicossociais-a-partir-de-2025#:~:text=A%20partir%20de%20maio%20de,MTE)%20em%20agosto%20de%202024.


Sara Dias é Profª Mestra em Artes da Cena pela UNICAMP e Instrutora de Yoga, atua como educadora social desde 2006 e atualmente desenvolve projetos relacionados ao bem-estar no terceiro setor. 



Contato: saradias.ds@gmail.com 


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Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer um desafio estrutural: muitas organizações de base, especialmente em territórios periféricos, ainda têm dificuldade de incorporar tecnologia às suas soluções. Não por falta de visão, mas por falta de acesso à educação, à formação técnica e a investimentos sociais. É comum vermos tecnologias avançadas sendo desenvolvidas por startups e organizações de impacto, enquanto quem atua diretamente no território não dispõe dos recursos necessários para utilizá-las. Sem articulação, essa equação não fecha. Por isso, outra tendência que se consolida é a valorização de redes, consórcios e articulações territoriais. Organizações que atuam de forma isolada tendem a ter mais dificuldade de acessar investimentos. Financiadores buscam cada vez mais iniciativas coletivas, capazes de envolver múltiplos atores, setores e saberes. A experiência mostra que articular financiamento privado, cooperação técnica com o poder público e o engajamento de organizações de base é um caminho consistente para gerar impacto real e sustentável. Nesse novo cenário, o uso de dados e evidências deixou de ser opcional. A atuação precisa ser responsiva às necessidades reais dos territórios, e isso só é possível por meio da observação sistemática, da geração cidadã de dados e da tomada de decisões baseadas em evidências. O investimento social privado no Brasil amadureceu — e espera projetos bem estruturados, com governança sólida e clareza de resultados. É impossível falar de inovação sem falar de ética. Tecnologias como a Inteligência Artificial precisam ser desenvolvidas e utilizadas com base em princípios claros: respeito à privacidade e à LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), justiça social, mitigação de vieses discriminatórios, controle social sobre dados e sistemas, segurança da informação e responsabilidade ambiental. O impacto climático da tecnologia, muitas vezes invisível, também precisa entrar na equação. Regulamentação e compromisso das empresas e investidores são indispensáveis. O financiamento das organizações também passa por mudanças relevantes. Doações online, campanhas como o Dia de Doar, cessão de tecnologias e licenças por empresas e, sobretudo, o fortalecimento dos mecanismos de incentivo fiscal têm ampliado as possibilidades de sustentabilidade. Quando uma empresa direciona parte de seus impostos para projetos sociais no território onde atua, o recurso retorna diretamente para a comunidade, em forma de educação, inovação e oportunidades. Isso fortalece a democracia e aproxima o investimento social da vida real das pessoas. As parcerias intersetoriais, aliás, tendem a se tornar ainda mais estratégicas. Políticas de ESG impulsionaram empresas a assumirem compromissos mais concretos com impacto social e ambiental. Quando essa agenda sai do discurso e se traduz em atuação no território, com cooperação técnica e investimento de longo prazo, os resultados são muito mais consistentes. Diante de um cenário marcado por polarização política e desinformação, o papel das organizações da sociedade civil também se amplia. Educação midiática, consumo crítico da informação e inclusão digital são hoje pilares da defesa da democracia. Eu acredito que capacitar pessoas em habilidades digitais é também fortalecer sua capacidade de participação cidadã. O terceiro setor está, sim, mais profissionalizado — e isso é necessário. 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Por Nathalia Albuquerque 2 de março de 2026
Você pode amar muito um time e ainda assim vê-lo perder campeonatos por anos. Pode ter a maior torcida do país, uma história gigante e uma camisa pesada. Mas sem gestão, isso não se sustenta. No terceiro setor acontece algo muito parecido. Sou corinthiana e não acompanho o futebol tão de perto. Mesmo assim, é impossível ignorar o que Palmeiras e Flamengo vêm construindo nos últimos anos. Escrevo este artigo no final de 2025 e, ao olhar para os principais campeonatos do período recente, Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil, esses dois clubes seguem protagonizando finais, títulos e campanhas consistentes. Não por acaso, também passaram a aparecer em premiações internacionais que reconhecem excelência em gestão, como o Globe Soccer Awards. Mas nem sempre foi assim. E é exatamente aí que essa história interessa às organizações da sociedade civil. Quando a virada não acontece no campo Palmeiras e Flamengo já viveram fases marcadas por dívidas, crises internas e resultados bem abaixo do potencial que tinham. A mudança não começou com um craque, nem com um gol histórico. Começou fora de campo. Por volta de 2012 e 2013, os dois clubes passaram a tratar a gestão como eixo central. Planejamento financeiro, profissionalização das equipes, governança e visão de longo prazo deixaram de ser discurso e passaram a orientar decisões concretas. Se você não gosta de futebol, continue comigo. O ponto aqui não é o esporte. É entender que amor, tradição e propósito são fundamentais, mas não substituem uma boa gestão. Com gestão, a gente vai mais longe. O que o Palmeiras ensina No Palmeiras, a virada tem um nome bastante conhecido: Paulo Nobre. Ao assumir a presidência do clube em 2013, encontrou um cenário delicado, com dívidas e pouca previsibilidade. Uma das decisões mais simbólicas foi emprestar recursos próprios para reorganizar as finanças do time. Um gesto arriscado, mas inserido em uma estratégia maior. A partir daí, vieram parcerias estratégicas como a Crefisa, a profissionalização da gestão e a criação de novas fontes de receita. A modernização do Allianz Parque transformou o estádio em um ativo que gera renda muito além dos jogos, com shows e eventos. É a lógica de enxergar a estrutura como meio para sustentar a missão, algo bastante familiar para quem atua no terceiro setor. O Flamengo e a coragem de arrumar a casa O Flamengo sempre teve popularidade e potencial. O que faltava era organização. A virada começou com decisões duras e pouco populares, como uma política rigorosa de controle de gastos e reorganização financeira. Antes de investir pesado em contratações, o clube investiu em processos, equipe técnica qualificada e responsabilidade fiscal. Os títulos vieram depois. Não como milagre, mas como consequência. O que tudo isso tem a ver com as OSCs? Muito mais do que parece. Os dois clubes mostram que investir na base (jovens atletas em formação para o time principal) é apostar no longo prazo, mesmo quando o retorno não é imediato. No terceiro setor, isso aparece na formação de equipes, no fortalecimento institucional e no desenvolvimento de lideranças. Eles também reforçam uma verdade incômoda: amor não é estratégia. Paixão move, mas não organiza fluxo de caixa, não constrói indicadores e não garante sustentabilidade. Há ainda a importância de diversificar fontes de receita, inclusive para organizações grandes e reconhecidas, e de contar com profissionais qualificados, além de investir em quem já faz parte da equipe. Nada disso acontece do dia para a noite. O processo é longo, exige constância e escolhas difíceis. Um convite para quem lidera organizações sociais  Se você lidera uma OSC, vale a reflexão. O quanto da sua energia está concentrada apenas na causa e o quanto está direcionada para fortalecer a gestão que sustenta essa causa? Gestão não esfria o propósito. Pelo contrário. Ela protege a missão, amplia o impacto e garante que o trabalho continue existindo daqui a cinco, dez ou vinte anos. No futebol e no terceiro setor, amor é o ponto de partida. Gestão é o que transforma esse amor em legado.
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