Acesso a recursos: tem diferenças para homens e mulheres?

5 de maio de 2021

Este conteúdo foi produzido por Janela 8


O acesso a financiamento é diferente para homens e mulheres?

Sim, e isso acontece não apenas no universo das OSCs, mas em todas as esferas da sociedade. Mas por que é assim e o que podemos fazer a respeito?


As mulheres e o financiamento das ações sociais


Não apenas na pandemia, mas em situações de crise em geral, as mulheres têm sido exemplo de ativação de redes, de recursos e de iniciativas que surgem para apoiar umas às outras e às populações mais vulneráveis.


De acordo com o Relatório Tempo de Cuidar, da Oxfam, as mulheres respondem por mais de 75% de todo trabalho de cuidado não remunerado do mundo, seja como cuidadoras de crianças, idosos ou cuidando da casa. Também como decorrência da sobrecarga do trabalho doméstico, 42% das mulheres do mundo em idade ativa estavam fora do mercado antes do início da pandemia (entre os homens a fatia era de 6%). Em 2020 no Brasil, o percentual de mulheres fora do mercado de trabalho ficou acima de 50%. Além do impacto econômico, as mulheres foram também as principais afetadas em termos de saúde emocional e aumento dos índices de violência doméstica.


Se por um lado as mulheres são as mais impactadas pelas estruturas e momentos de crise, também por isso, as mulheres assumem o protagonismo em diversas iniciativas sociais históricas e aparecem cada vez mais como símbolos de protesto, resistência e organicidade para superar suas condições concretas.


Quando observamos a sociedade civil organizada e a liderança das OSCs brasileiras, as mulheres são maioria e representam 65% das pessoas empregadas. Seria de se esperar então que as organizações lideradas por mulheres, ou que atuam na temática dos direitos e protagonismo das mulheres, tivessem mais acesso a recursos financeiros para subsidiar suas iniciativas de impacto social. Mas não é isso o que acontece.


De acordo com estudos da organização norte-americana AWID (Associação pelos Direitos da Mulher no Desenvolvimento, em português), o atual cenário de financiamento está longe de ser equitativo em termos de gênero e também não é adequado para responder às necessidades e demandas dos movimentos para avançar direitos e justiça. Quando observadas organizações que atuam diretamente com os direitos das mulheres, por exemplo, percebe-se que elas são sub financiadas e muitas operam com menos de R$40 mil reais por ano, sendo esse orçamento instável e pouco flexível.


Mas por que isso acontece?


No contexto global, os mecanismos e fontes de financiamento do desenvolvimento e filantropia estão se tornando cada vez mais diversificados. Somado a isso, a pauta da equidade de gênero ganhou espaço e mulheres são reconhecidas como agentes-chave do desenvolvimento como nunca antes. Na última década, as organizações de direitos das mulheres estão descobrindo que, seja a discussão da representatividade política ou dos espaços de financiamento, existe a necessidade de ir além da ampliação do debate sobre a perspectiva de gênero e passar para ações de informação e influência para garantir a plena participação de mulheres e meninas na redução das desigualdades e promoção do desenvolvimento.


Por outro lado, ainda vivemos em uma sociedade em que o crescimento econômico e o retorno sobre o investimento são a prioridade. E essa estrutura é pautada em uma lógica (o patriarcado) que classifica homens e mulheres em situações de poder diferentes, dando mais poder aos homens. Nesse sentido, por mais que estejamos evoluindo nos movimentos sociais e que exista de fato um crescimento e diversificação dos atores envolvidos na filantropia, a tomada de decisões e os espaços de poder ainda são ocupados majoritariamente por homens. Esses homens, mesmo aqueles bem-intencionados, podem perpetuar a desigualdade de gênero de maneira inconsciente.


Diversas pesquisas têm sido realizadas para identificar esses vieses inconscientes no comportamento de investidores. De acordo com um estudo realizado nos Estados Unidos (analisado pelo British Council), as perguntas dos investidores utilizam perspectivas que prejudicam as mulheres. Quando os investidores entrevistaram homens, fizeram “perguntas de promoção” (sobre expectativas e realizações) 67% do tempo, mas quando questionaram as empreendedoras mulheres, fizeram “perguntas de prevenção” (sobre segurança e responsabilidade) 66% do tempo. As empresas às quais foram feitas perguntas de promoção levantaram em média 7 vezes mais recursos do que aquelas empresas às quais foram feitas principalmente perguntas de promoção. Da mesma forma, em um estudo realizado no setor do capital de risco, os investidores preferiram os pitches feitos por fundadores do sexo masculino, mesmo quando o conteúdo do pitch era exatamente idêntico.


Trata-se de um contexto complexo principalmente porque os vieses são quase automáticos e fazem parte de uma estrutura que afeta homens e mulheres, mesmo que de maneiras diferentes. Ou seja, as mulheres também tendem a achar inconscientemente que os homens respondem melhor às demandas dos financiadores e muitas vezes reproduzem esses comportamentos quando estão sentadas na cadeira de investidoras.


O que podemos fazer a respeito?


A boa notícia é que financiadores e organizações sociais estão começando a perceber essas questões e a tentar mudar o cenário. O GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas), lançou em 2020 o Guia: O que o Investimento Social Privado pode fazer pelas mulheres? Este guia contém uma série de orientações para financiadores ampliarem a perspectiva de gênero em sua lógica de atuação. Têm sido também propostas uma série de discussões e abordagens.


Do ponto de vista das OSCs, além de identificar e construir relações de ganha-ganha com investidores e demonstrar objetivamente o impacto positivo das ações que serão realizadas, algumas abordagens podem ajudar na interlocução com financiadores e financiadoras de modo a diminuir as brechas de gênero:


- Identificar dentre possíveis fontes de financiamento aquelas que já possuem uma abordagem que adota a perspectiva de gênero e priorizá-las

- Compreender os possíveis vieses inconscientes e, ao identificá-los, falar sobre eles de maneira clara e transparente, de modo que possa servir como aprendizado mútuo

- Construir redes e parcerias entre organizações lideradas por mulheres e dialogar sobre a temática

- Reconhecer a interseccionalidade das questões de gênero com outras questões de diversidade e incluí-las nessa abordagem

Essa é uma pauta importante para homens e mulheres, e conseguiremos evoluir de maneira muito mais rápida e eficiente se tivermos mais homens atuando como aliados. Então fica também o convite para que mais homens façam parte deste movimento e se reconheçam também como parte da solução.



Referências:


Perfil das organizações da sociedade civil no Brasil. LOPEZ, Felix, Garcia (Org.) IPEA, 2018. https://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/livros/livros/180607_livro_perfil_das_organizacoes_da_sociedade_civil_no_brasil.pdf


OXFAM. Relatório Tempo de Cuidar. 2019

https://www.oxfam.org.br/justica-social-e-economica/forum-economico-de-davos/tempo-de-cuidar/


Aplicando uma Lente de Gênero no Apoio ao Empreendedorismo: Insights do Brasil, 2020
https://www.britishcouncil.org.br/sites/default/files/aplicando_uma_lente_de_gener.pdf


Estudos Feministas: Mulheres de luta, Mulheres em Luta, 2020
 
https://thetricontinental.org/pt-pt/estudos-feminismos-1/


Guia GIFE: O que o ISP pode fazer pelas mulheres, 2020

https://convite.gife.org.br/guia-isp-por-direitos-mulheres


Janela 8 acesso a recursos

Carolina de Jongh é curiosa, apaixonada pela vida e se coloca como instrumento para as mudanças que deseja ver no mundo. Administradora de Empresas pela FGV e mestre em Psicologia Social pela USP, fundou a Janela 8 para apoiar organizações na ampliação do protagonismo e dos direitos das mulheres.


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A experiência mostra que articular financiamento privado, cooperação técnica com o poder público e o engajamento de organizações de base é um caminho consistente para gerar impacto real e sustentável. Nesse novo cenário, o uso de dados e evidências deixou de ser opcional. A atuação precisa ser responsiva às necessidades reais dos territórios, e isso só é possível por meio da observação sistemática, da geração cidadã de dados e da tomada de decisões baseadas em evidências. O investimento social privado no Brasil amadureceu — e espera projetos bem estruturados, com governança sólida e clareza de resultados. É impossível falar de inovação sem falar de ética. Tecnologias como a Inteligência Artificial precisam ser desenvolvidas e utilizadas com base em princípios claros: respeito à privacidade e à LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), justiça social, mitigação de vieses discriminatórios, controle social sobre dados e sistemas, segurança da informação e responsabilidade ambiental. O impacto climático da tecnologia, muitas vezes invisível, também precisa entrar na equação. Regulamentação e compromisso das empresas e investidores são indispensáveis. O financiamento das organizações também passa por mudanças relevantes. Doações online, campanhas como o Dia de Doar, cessão de tecnologias e licenças por empresas e, sobretudo, o fortalecimento dos mecanismos de incentivo fiscal têm ampliado as possibilidades de sustentabilidade. Quando uma empresa direciona parte de seus impostos para projetos sociais no território onde atua, o recurso retorna diretamente para a comunidade, em forma de educação, inovação e oportunidades. Isso fortalece a democracia e aproxima o investimento social da vida real das pessoas. As parcerias intersetoriais, aliás, tendem a se tornar ainda mais estratégicas. Políticas de ESG impulsionaram empresas a assumirem compromissos mais concretos com impacto social e ambiental. Quando essa agenda sai do discurso e se traduz em atuação no território, com cooperação técnica e investimento de longo prazo, os resultados são muito mais consistentes. Diante de um cenário marcado por polarização política e desinformação, o papel das organizações da sociedade civil também se amplia. Educação midiática, consumo crítico da informação e inclusão digital são hoje pilares da defesa da democracia. Eu acredito que capacitar pessoas em habilidades digitais é também fortalecer sua capacidade de participação cidadã. O terceiro setor está, sim, mais profissionalizado — e isso é necessário. 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Você pode amar muito um time e ainda assim vê-lo perder campeonatos por anos. Pode ter a maior torcida do país, uma história gigante e uma camisa pesada. Mas sem gestão, isso não se sustenta. No terceiro setor acontece algo muito parecido. Sou corinthiana e não acompanho o futebol tão de perto. Mesmo assim, é impossível ignorar o que Palmeiras e Flamengo vêm construindo nos últimos anos. Escrevo este artigo no final de 2025 e, ao olhar para os principais campeonatos do período recente, Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil, esses dois clubes seguem protagonizando finais, títulos e campanhas consistentes. Não por acaso, também passaram a aparecer em premiações internacionais que reconhecem excelência em gestão, como o Globe Soccer Awards. Mas nem sempre foi assim. E é exatamente aí que essa história interessa às organizações da sociedade civil. Quando a virada não acontece no campo Palmeiras e Flamengo já viveram fases marcadas por dívidas, crises internas e resultados bem abaixo do potencial que tinham. A mudança não começou com um craque, nem com um gol histórico. Começou fora de campo. Por volta de 2012 e 2013, os dois clubes passaram a tratar a gestão como eixo central. Planejamento financeiro, profissionalização das equipes, governança e visão de longo prazo deixaram de ser discurso e passaram a orientar decisões concretas. Se você não gosta de futebol, continue comigo. O ponto aqui não é o esporte. É entender que amor, tradição e propósito são fundamentais, mas não substituem uma boa gestão. Com gestão, a gente vai mais longe. O que o Palmeiras ensina No Palmeiras, a virada tem um nome bastante conhecido: Paulo Nobre. Ao assumir a presidência do clube em 2013, encontrou um cenário delicado, com dívidas e pouca previsibilidade. Uma das decisões mais simbólicas foi emprestar recursos próprios para reorganizar as finanças do time. Um gesto arriscado, mas inserido em uma estratégia maior. A partir daí, vieram parcerias estratégicas como a Crefisa, a profissionalização da gestão e a criação de novas fontes de receita. A modernização do Allianz Parque transformou o estádio em um ativo que gera renda muito além dos jogos, com shows e eventos. É a lógica de enxergar a estrutura como meio para sustentar a missão, algo bastante familiar para quem atua no terceiro setor. O Flamengo e a coragem de arrumar a casa O Flamengo sempre teve popularidade e potencial. O que faltava era organização. A virada começou com decisões duras e pouco populares, como uma política rigorosa de controle de gastos e reorganização financeira. Antes de investir pesado em contratações, o clube investiu em processos, equipe técnica qualificada e responsabilidade fiscal. Os títulos vieram depois. Não como milagre, mas como consequência. O que tudo isso tem a ver com as OSCs? Muito mais do que parece. Os dois clubes mostram que investir na base (jovens atletas em formação para o time principal) é apostar no longo prazo, mesmo quando o retorno não é imediato. No terceiro setor, isso aparece na formação de equipes, no fortalecimento institucional e no desenvolvimento de lideranças. Eles também reforçam uma verdade incômoda: amor não é estratégia. Paixão move, mas não organiza fluxo de caixa, não constrói indicadores e não garante sustentabilidade. Há ainda a importância de diversificar fontes de receita, inclusive para organizações grandes e reconhecidas, e de contar com profissionais qualificados, além de investir em quem já faz parte da equipe. Nada disso acontece do dia para a noite. O processo é longo, exige constância e escolhas difíceis. Um convite para quem lidera organizações sociais  Se você lidera uma OSC, vale a reflexão. O quanto da sua energia está concentrada apenas na causa e o quanto está direcionada para fortalecer a gestão que sustenta essa causa? Gestão não esfria o propósito. Pelo contrário. Ela protege a missão, amplia o impacto e garante que o trabalho continue existindo daqui a cinco, dez ou vinte anos. No futebol e no terceiro setor, amor é o ponto de partida. Gestão é o que transforma esse amor em legado.
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