Gestão de Pessoas e Bem-estar no Terceiro Setor - Trabalho em equipe 5/6

20 de abril de 2023

Este conteúdo foi produzido por Sara Dias


Antes de ler este texto, imagine minha inspiração profunda [Pausa]. Falar de formação e trabalho em equipe me motiva e me alegra muito.


Escolhi para esse tema, uma metodologia diferente dos outros 05 textos, desta nossa série de 6 artigos, para refletirmos sobre a relação entre "Gestão de Pessoas e Bem-Estar no Terceiro Setor". Vou trazer aqui um estudo de caso, de uma experiência muito significativa que tive em 2018, ao trabalhar com a Embaixadores da Prevenção, de Campinas-SP. 


A Embaixadores da Prevenção é uma organização social, fundada por Sandra Saad e com Coordenação Pedagógica de Helio Braga, que atua principalmente com atividades artístico-pedagógicas, com foco nas virtudes humanas, em escolas, creches e ONGs, para um público de diversas idades. Em minha parceria com a Embaixadores, atuei como educadora e contadora de histórias no projeto "Experimentando os sentidos", para crianças de 5 e 6 anos e auxiliar no projeto “PJAM - Ação no Mundo”, desenvolvido com as professoras, monitoras, gestoras e demais funcionários das instituições.


A natureza do trabalho que realizei junto aos Embaixadores, era equivalente com o de outras ONGs que atuei: contratação CLT, com carga horária de 40 horas semanais, em formato presencial, turmas com uma média de 20 a 30 crianças e um desgaste físico diário moderado. Porém, o que a destaca em meio a tantas instituições que conheci, é a qualidade da condução das equipes, feitas cuidadosamente por Helio Braga, que eu tive o privilégio de presenciar e fazer parte.


Elenquei para este relato, alguns dos pontos fundamentais que fizeram de minha experiência como colaboradora tão especial e que faz com que a formação de equipes da Embaixadores da Prevenção se torne uma ótima referência:


1. Metas e objetivos claros: 


Este aspecto diz respeito à visão compartilhada sobre o que precisa ser alcançado pela equipe e como será feito. 


No caso da Embaixadores da Prevenção, assim como na maioria das ONGs, suas principais atividades são realizadas por meio de projetos, escritos e aprovados por meio da captação de recursos em editais públicos e privados. Ou seja, existem documentos onde o que se espera de resultados, a serem conquistados pela equipe, estão detalhados.


Parece óbvio, mas o compartilhar desses textos, o conversar sobre o que é importante para a instituição em termos de resultados, qualitativos ou quantitativos, periodicamente, tornou e torna até hoje, as equipes profundamente conectadas com a "causa" da organização. E imagina o que pode surgir de um ambiente coletivo que busca as virtudes humanas em suas ações? É muito potente!


2. Comunicação eficaz 


Diz respeito a forma clara, objetiva, respeitosa e empática da comunicação organizacional, em suas instruções, direcionamentos ou alinhamentos, começando pelas lideranças e sendo multiplicada por cada membro da equipe.


Esse tipo de comunicação é cultivada e priorizada por Helio, não só no planejamento e compartilhar das ações, mas também, incentivando o registro das conquistas diárias, seja em diário de papel, em relatórios formais ou nos momentos preciosos de fim de tarde, onde contabilizamos as pequenas conquistas e refletimos sobre os desafios inesperados.


Contato próximo, olho no olho, com sinceridade e atenção, atentando-se, inclusive, para a diversidade de opinião e para os diferentes pontos de vista presentes nas reuniões.


3. Confiança e transparência


É a capacidade de ser sincero, coerente e ético em suas falas e ações, na difícil relação que media as decisões de uma diretoria, acima de si, e a equipe de trabalho.


Na prática, isso se refletiu na sensação de que o gestor, no caso o Helio, era justo e valorizava sua equipe, tanto quanto a diretoria. Ele investia tempo, estudo e sabedoria, nos momentos onde as expectativas de ambos os grupos não estavam alinhadas para resolver da melhor forma.


4. Feedback constantes

 

O feedback é a prática de fazer pontuações positivas ou que precisam ser melhoradas, sobre o comportamento ou o trabalho de alguém. Para ser eficiente, ele precisa ser imbuído de uma comunicação assertiva, eficaz e transparente.


No cotidiano da Embaixadores, os feedbacks são praticados diariamente, na autoavaliação dos trabalhos diários e semanalmente nas reuniões pedagógicas.


As quarta-feiras foram escolhidas, por estar no meio da semana, para ser o dia das reuniões. Aqui a gente observava o que era realizado às segundas e terças e tomava fôlego para as quintas e sextas. É contemplado nesse dia: o momento do planejamento, a pesquisa, o relatório, o separar de materiais, o armazenamento das fotos e vídeos, os ensaios, as conversas. 


Às quartas foram sabiamente planejadas, priorizadas, pensadas, para estreitar os laços da equipe, para possibilitar a organização e a reflexão do que está surpreendendo e o que precisa de atenção.


5. Conhecer e trabalhar com a habilidade de cada um: somar esforços e capacidades


Esse tópico não combina com zona de conforto. Ele fala da habilidade do líder de interessar-se pelas pessoas do seu time, debruçando-se em conhecê-las, ouvi-las atentamente, com frequência, e combinar suas aspirações com o trabalho do grupo.


Pessoas com sabedorias diversas acrescentam e potencializam o trabalho. Hélio sabe disso e faz do interdisciplinar uma arte. Eu contava histórias indígenas para crianças de 5 e 6 anos, no papel da Tatá,  mas apoiava as histórias de minha colega de equipe, a personagem Maria Flor, nas histórias para as crianças de 3 e 4 anos, e nosso colega Bruno, responsável pelo PJAM com as professoras, vez ou outra, vinha nos presentear com o tocar de violão, enquanto eu, fazia minhas aparições como professora de corpo e movimento no PJAM. 


Fora dos nossos projetos, escrevíamos artigos, contávamos histórias em eventos, assistíamos aos espetáculos da outra equipe, do projeto "Por um mundo de Virtudes" e compartilhavámos de nossas habilidades no fazer do outro.


6. Criar possibilidades de crescimento e desenvolvimento


Produzir, fazer acontecer, instigar, motivar, possibilitar o crescimento do outro, por meio de algo novo ou de novas referências para sua área.


Aqui eu listo as inúmeras conquistas em um período de 11 meses, por intermédio da coordenação de Helio: aprendi que saber o nome das pessoas com quem encontro frequentemente, mas que não são meus amigos (como o porteiro, o padeiro, o motorista, ou cada uma das pessoas que ministro aulas), é importante; passei a escrever melhor (no diário, no relatório, sobre meu trabalho); atuei em meu primeiro papel de vilã em uma história infantil; organizei e apresentei uma performance com mais de 100 crianças de 5 anos; estreei como facilitadora em formação para adultos. Encerrei meu período de projeto querendo ficar, orgulhosa do que fiz e de como saí.


7. Motivar relações de proximidade e companheirismo


Incentivar um ambiente com senso comunitário, de admiração e respeito. Priorizar o tratamento educado e cordial, quando não houver afinidades entre pessoas da equipe. Proporcionar espaços de descontração.


Não só das quartas-feiras nossos relacionamentos se nutriam. Almoçávamos juntos com frequência, planejávamos conhecer lugares diferentes, compartilhávamos o pãozinho caseiro nos cafés da tarde. Fomos a feiras de livros, conhecemos ONGs novas, fizemos sessão de cinema. Estar junto fazia parte do trabalho e ao descobrir novas habilidades nas reuniões, gerávamos conexão e admiração do grupo. Havia união.

 

8. Celebrar o sucesso do time e pequenas conquistas 


Aqui falamos de valorização, de impulsionamento. De não esperar o final do projeto para comemorar, para felicitar o outro e a nós mesmos.


Fazíamos isso diariamente.


9. Focar em resultados


Aliançado com o primeiro tópico, sobre metas e objetivos claro, sabendo onde se quer chegar, aqui a equipe é incentivada a entregar seus melhores resultados. Envolve competência, mas também ousadia e criatividade.


Nossa entrega foi impecável, sem deixar a desejar. No meio do caminho, Bruno foi morar na Nova Zelândia, assumimos o PJAM até o fim e trazíamos ele para nossos encontros por videochamada. Entregamos relatórios semestrais, mas também corações saudosos em cada sala de aula que passamos. Fomos elogiados pelas performances artísticas, mas também pela postura profissional, pela pontualidade, pela cordialidade, pela equipe.


Conclusão


Existem grupos de pessoas que trabalham pela mesma causa, na mesma ONG, nos mesmos dias e horários e não é por isso que trabalham como equipes, como um time. 


Líderes inspiradores transformam um grupo de pessoas em equipes e elas entregam, são motivadas e encorajadas a entregar o melhor de si.


Você já teve a experiência fantástica de fazer parte de um time forte e coeso, desfrutando dos aspectos relacionados acima?

Se você tem algum exemplo assim, me escreva, estou colecionando bons exemplos para multiplicá-los.


Se você deseja ler os 4 textos anteriores a este, aqui está os links:

Texto 1/6 Gestão de Pessoas e Bem-estar no Terceiro Setor

Acesse o aqui

Texto 2/6 - Diversidade, Inclusão e Atração

Acesse o aqui

Texto 3/6 - Diversidade, Inclusão e Atração

Acesse o aqui

Texto 4/6 - Salários e benefício

Acesse o aqui


Sara Dias é Prof.ª Mestra em Artes da Cena pela UNICAMP e Instrutora de Yoga, atua como educadora social desde 2006 e atualmente desenvolve projetos relacionados ao bem-estar no terceiro setor. 



Contato: saradias.ds@gmail.com


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Por Nathalia Albuquerque 2 de março de 2026
Você pode amar muito um time e ainda assim vê-lo perder campeonatos por anos. Pode ter a maior torcida do país, uma história gigante e uma camisa pesada. Mas sem gestão, isso não se sustenta. No terceiro setor acontece algo muito parecido. Sou corinthiana e não acompanho o futebol tão de perto. Mesmo assim, é impossível ignorar o que Palmeiras e Flamengo vêm construindo nos últimos anos. Escrevo este artigo no final de 2025 e, ao olhar para os principais campeonatos do período recente, Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil, esses dois clubes seguem protagonizando finais, títulos e campanhas consistentes. Não por acaso, também passaram a aparecer em premiações internacionais que reconhecem excelência em gestão, como o Globe Soccer Awards. Mas nem sempre foi assim. E é exatamente aí que essa história interessa às organizações da sociedade civil. Quando a virada não acontece no campo Palmeiras e Flamengo já viveram fases marcadas por dívidas, crises internas e resultados bem abaixo do potencial que tinham. A mudança não começou com um craque, nem com um gol histórico. Começou fora de campo. Por volta de 2012 e 2013, os dois clubes passaram a tratar a gestão como eixo central. Planejamento financeiro, profissionalização das equipes, governança e visão de longo prazo deixaram de ser discurso e passaram a orientar decisões concretas. Se você não gosta de futebol, continue comigo. O ponto aqui não é o esporte. É entender que amor, tradição e propósito são fundamentais, mas não substituem uma boa gestão. Com gestão, a gente vai mais longe. O que o Palmeiras ensina No Palmeiras, a virada tem um nome bastante conhecido: Paulo Nobre. Ao assumir a presidência do clube em 2013, encontrou um cenário delicado, com dívidas e pouca previsibilidade. Uma das decisões mais simbólicas foi emprestar recursos próprios para reorganizar as finanças do time. Um gesto arriscado, mas inserido em uma estratégia maior. A partir daí, vieram parcerias estratégicas como a Crefisa, a profissionalização da gestão e a criação de novas fontes de receita. A modernização do Allianz Parque transformou o estádio em um ativo que gera renda muito além dos jogos, com shows e eventos. É a lógica de enxergar a estrutura como meio para sustentar a missão, algo bastante familiar para quem atua no terceiro setor. O Flamengo e a coragem de arrumar a casa O Flamengo sempre teve popularidade e potencial. O que faltava era organização. A virada começou com decisões duras e pouco populares, como uma política rigorosa de controle de gastos e reorganização financeira. Antes de investir pesado em contratações, o clube investiu em processos, equipe técnica qualificada e responsabilidade fiscal. Os títulos vieram depois. Não como milagre, mas como consequência. O que tudo isso tem a ver com as OSCs? Muito mais do que parece. Os dois clubes mostram que investir na base (jovens atletas em formação para o time principal) é apostar no longo prazo, mesmo quando o retorno não é imediato. No terceiro setor, isso aparece na formação de equipes, no fortalecimento institucional e no desenvolvimento de lideranças. Eles também reforçam uma verdade incômoda: amor não é estratégia. Paixão move, mas não organiza fluxo de caixa, não constrói indicadores e não garante sustentabilidade. Há ainda a importância de diversificar fontes de receita, inclusive para organizações grandes e reconhecidas, e de contar com profissionais qualificados, além de investir em quem já faz parte da equipe. Nada disso acontece do dia para a noite. O processo é longo, exige constância e escolhas difíceis. Um convite para quem lidera organizações sociais  Se você lidera uma OSC, vale a reflexão. O quanto da sua energia está concentrada apenas na causa e o quanto está direcionada para fortalecer a gestão que sustenta essa causa? Gestão não esfria o propósito. Pelo contrário. Ela protege a missão, amplia o impacto e garante que o trabalho continue existindo daqui a cinco, dez ou vinte anos. No futebol e no terceiro setor, amor é o ponto de partida. Gestão é o que transforma esse amor em legado.
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