Doações para OSCs: por confiança ou por projeto?

7 de dezembro de 2023

Sabe a diferença entre doação por confiança e doação por projeto? Saiba mais sobre os tipos de doação e como você pode melhor aplicá-las.

Considero como um avanço no terceiro setor a concessão de doações (ou grantmaking) por projeto social, que se tornou a modalidade dominante nos últimos anos. Pode-se dizer que, do final de 1990 para cá, a lógica do investimento social privado, seja das empresas ou das famílias, foi aos poucos se impondo à lógica das doações por caridade ou boa cidadania. O lado bom (dessa tendência) foi a entrada em cena do monitoramento e avaliação dos resultados, que antes não havia. Já que os recursos disponíveis para doação são escassos, o melhor a fazer é mesmo cobrar resultados, ou seja, verificar eficiência, eficácia e efetividade dos projetos.


Porém, a partir da pandemia da Covid 19 assistimos à defesa das doações baseadas em relações de confiança, voltadas para a missão da organização – não mais por projeto. Por quê? Quais os riscos? Será um retrocesso?


Doações baseadas em relações de confiança: por que estão voltando?


Recomendo assistir ao interessante webinar do GIFE  (2020) organizado pelo Synergos Brasil, por ocasião do lançamento da  versão em português de sua publicação “Funding from a place of trust: Exploring the value of general operating support and capacity buildings”.


O evento começou com o reconhecimento do papel fundamental do terceiro setor no Brasil durante o período da pandemia. Sobretudo das organizações comunitárias que conseguiram atuar com celeridade no atendimento às necessidades mais urgentes das pessoas e famílias vivendo em situação de vulnerabilidade. Essas pessoas se viram, de uma hora para a outra, sem poder trabalhar, nem levar as crianças para a escola e ainda tendo que enfrentar problemas sérios de saúde e até de mortes em família. Assim, muitas organizações da sociedade civil (OSCs) tiveram que se reinventar, interrompendo as suas atividades regulares para terem atuação emergencial e humanitária no fornecimento de cestas básicas, remédios e equipamentos de atendimento hospitalar. E, por sua vez, muitas outras OSCs não aguentaram o tranco, e se viram forçadas a fechar as portas, em razão da descontinuidade de suas doações e verbas públicas, e/ou a inviabilidade do comparecimento físico dos colaboradores, voluntários e até mesmo dos próprios atendidos, além da não disponibilidade de internet ou de recursos tecnológicos suficientes que viabilizassem algum grau de funcionamento virtual.  


Evidentemente em ambiente atípico e cheio de imprevisibilidade como foi o da pandemia, o fato de a organização poder continuar com o aporte de recursos já foi, em si, positivo; ainda mais sendo baseados em relações de confiança do(s) doador(es).  São recursos que “não vinham carimbados” e a organização era livre para aplicá-los de acordo com as suas prioridades. Nesse caso, o pressuposto foi a relação de confiança entre doador e donatário dos recursos.


Em tese, há duas modalidades principais de doações baseadas em relações de confiança: (i) para o desenvolvimento operacional em geral (que pode ser para obras, equipamentos, gestão, e mesmo por projeto); e (ii) para o desenvolvimento de competências na instituição. 


Para a organização, são tidas como vantagens das doações baseadas na confiança: autonomia no uso do recurso; flexibilidade; e equilíbrio de poder entre doador e donatário, com maior liberdade para falar de problemas e desafios. 


Riscos: doações por projeto X doações na base da confiança?


riscos de efetividade de doações para OSCs tanto na modalidade por projeto quanto na modalidade das relações de confiança. Em ambas, a efetividade vai depender sobretudo da capacidade de gestão da organização. Mas há que se reconhecer que o grau de exposição ao risco é muito maior nas doações baseadas na confiança. E por que?


Primeiro, porque é bem mais longo o percurso (de tempo, da cadeia de ações) entre a entrada dos recursos na organização, e a sua saída na outra ponta, sob a forma de benefícios sociais e ambientais. Salvo, como nos tempos atípicos da Covid, em que grande parte dos recursos foram imediatamente transformados em atendimentos emergenciais. Mas não é o usual; normalmente são destinados a itens-meio para o desenvolvimento da organização.


Segundo, dado que a organização receptora tem liberdade para aplicar os recursos como melhor lhe convém, a probabilidade do erro de alocação (dos recursos) se torna amplificada. Por exemplo, suponha que a OSC decida investir na aquisição de novos espaços e equipamentos, ou no treinamento de suas equipes. A menos que se tenha um senso de visão, capacidade de planejamento e gestão muito sólidos, são grandes as chances desses investimentos-meio não se potencializarem nos impactos finais desejados. Ou seja, eles podem acabar sendo desperdiçados pelo meio do caminho, apesar das boas intenções. Já vi isso acontecer bastante....

Em contraposição, nas doações por projeto, os recursos entram na organização e são diretamente alocados no atendimento final, e já tendo um planejamento pré-estabelecido, com indicadores e metas definidos. Nesse caso, os recursos já estão de certa forma “amarrados”, isto é, comprometidos com o que foi acertado com a organização doadora.

   

Será um retrocesso?

De forma alguma considero como retrocesso o retorno às doações baseadas em relações de confiança entre doadores e donatários. Trata-se apenas de um recurso que é mais exigente, que carece que a organização esteja bastante capacitada para geri-lo com autonomia e efetividade. Senão, já que o percurso é mais longo, as chances de vazamento são maiores do que quando o recurso é concedido diretamente para determinado projeto-fim. 


Por outro lado, doações baseadas em confiança não significam recursos aplicados às cegas, sem monitoramento nem avaliação de resultados. Para haver confiança, a pré-condição é a transparência. Assim, essa modalidade de doação implica em haver ‘durante` e à posteriori uma prestação de contas cuidadosa, evidenciando de que modo os investimentos realizados (na confiança) estão contribuindo para os resultados finais da organização.


O ideal é que a OSC consiga combinar, de forma complementar e virtuosa, recursos por projeto e recursos baseados em relações de confiança. Pois, para executar bons projetos, quanto mais preparada e equipada a OSC estiver tanto melhor para a efetividade dos seus projetos.



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Por Nathalia Albuquerque 2 de março de 2026
Você pode amar muito um time e ainda assim vê-lo perder campeonatos por anos. Pode ter a maior torcida do país, uma história gigante e uma camisa pesada. Mas sem gestão, isso não se sustenta. No terceiro setor acontece algo muito parecido. Sou corinthiana e não acompanho o futebol tão de perto. Mesmo assim, é impossível ignorar o que Palmeiras e Flamengo vêm construindo nos últimos anos. Escrevo este artigo no final de 2025 e, ao olhar para os principais campeonatos do período recente, Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil, esses dois clubes seguem protagonizando finais, títulos e campanhas consistentes. Não por acaso, também passaram a aparecer em premiações internacionais que reconhecem excelência em gestão, como o Globe Soccer Awards. Mas nem sempre foi assim. E é exatamente aí que essa história interessa às organizações da sociedade civil. Quando a virada não acontece no campo Palmeiras e Flamengo já viveram fases marcadas por dívidas, crises internas e resultados bem abaixo do potencial que tinham. A mudança não começou com um craque, nem com um gol histórico. Começou fora de campo. Por volta de 2012 e 2013, os dois clubes passaram a tratar a gestão como eixo central. Planejamento financeiro, profissionalização das equipes, governança e visão de longo prazo deixaram de ser discurso e passaram a orientar decisões concretas. Se você não gosta de futebol, continue comigo. O ponto aqui não é o esporte. É entender que amor, tradição e propósito são fundamentais, mas não substituem uma boa gestão. Com gestão, a gente vai mais longe. O que o Palmeiras ensina No Palmeiras, a virada tem um nome bastante conhecido: Paulo Nobre. Ao assumir a presidência do clube em 2013, encontrou um cenário delicado, com dívidas e pouca previsibilidade. Uma das decisões mais simbólicas foi emprestar recursos próprios para reorganizar as finanças do time. Um gesto arriscado, mas inserido em uma estratégia maior. A partir daí, vieram parcerias estratégicas como a Crefisa, a profissionalização da gestão e a criação de novas fontes de receita. A modernização do Allianz Parque transformou o estádio em um ativo que gera renda muito além dos jogos, com shows e eventos. É a lógica de enxergar a estrutura como meio para sustentar a missão, algo bastante familiar para quem atua no terceiro setor. O Flamengo e a coragem de arrumar a casa O Flamengo sempre teve popularidade e potencial. O que faltava era organização. A virada começou com decisões duras e pouco populares, como uma política rigorosa de controle de gastos e reorganização financeira. Antes de investir pesado em contratações, o clube investiu em processos, equipe técnica qualificada e responsabilidade fiscal. Os títulos vieram depois. Não como milagre, mas como consequência. O que tudo isso tem a ver com as OSCs? Muito mais do que parece. Os dois clubes mostram que investir na base (jovens atletas em formação para o time principal) é apostar no longo prazo, mesmo quando o retorno não é imediato. No terceiro setor, isso aparece na formação de equipes, no fortalecimento institucional e no desenvolvimento de lideranças. Eles também reforçam uma verdade incômoda: amor não é estratégia. Paixão move, mas não organiza fluxo de caixa, não constrói indicadores e não garante sustentabilidade. Há ainda a importância de diversificar fontes de receita, inclusive para organizações grandes e reconhecidas, e de contar com profissionais qualificados, além de investir em quem já faz parte da equipe. Nada disso acontece do dia para a noite. O processo é longo, exige constância e escolhas difíceis. Um convite para quem lidera organizações sociais  Se você lidera uma OSC, vale a reflexão. O quanto da sua energia está concentrada apenas na causa e o quanto está direcionada para fortalecer a gestão que sustenta essa causa? Gestão não esfria o propósito. Pelo contrário. Ela protege a missão, amplia o impacto e garante que o trabalho continue existindo daqui a cinco, dez ou vinte anos. No futebol e no terceiro setor, amor é o ponto de partida. Gestão é o que transforma esse amor em legado.
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