Fofoca na ONG: como gestores podem lidar com ela?

17 de março de 2022

Este conteúdo foi produzido por Célia Schlithler


Vamos continuar nossa conversa sobre coordenação de grupos?


No texto “Você sabe coordenar grupos?”, falei a respeito da importância da formação em facilitação de grupos e apresentei o primeiro passo no processo de “grupalização”: criar oportunidades para as pessoas se conhecerem melhor, para que elas criem vínculos de confiança e compromisso.


Vínculos de confiança e compromisso são necessários para uma equipe trabalhar bem, mas isso não significa que todos(as) precisam ser amigos(as). Você pode ter vínculos mais fortes com algumas pessoas do que com outras, você pode até não simpatizar com alguém, mas seu sentimento não é de indiferença – aquele que temos em relação a quem não conhecemos e, portanto, em quem não conseguimos confiar e muito menos assumir compromissos juntos.   


Conforme as pessoas vão tendo oportunidades de se conhecerem melhor, a trajetória que as levou a fazer parte daquele grupo ou trabalhar naquela OSC, seus interesses e objetivos individuais podem ir sendo ressignificados na construção de objetivos comuns a todos(as). E este é o segundo ponto que você, coordenador(a) de grupos, precisa estar atento.


Partir do pressuposto de que todo mundo tem clareza sobre os objetivos daquele grupo, equipe ou OSC é um equívoco frequente. É preciso estar sempre retomando as conversas sobre isso, inclusive porque os integrantes dos grupos mudam. 


Então: Os membros do grupo estão reunidos para falar sobre uma nova ação ou projeto? Vão elaborar um novo projeto? Vão fazer o planejamento mensal? Comecem dialogando sobre como cada um(a) entende os objetivos e resultados esperados e como estes se conectam com os propósitos da área e da organização. Seu papel como coordenador(a) é criar um clima de abertura, sem certo e errado, e ir assinalando e “costurando” a construção dos nossos objetivos. Usar o recurso de começar com cada um(a) escrevendo sua opinião em tarjetas (cartões) é uma boa forma de dar voz para todos(as), ao mesmo tempo em que os pontos em comum e as diferentes opiniões vão ficando claros ao organizar as tarjetas na parede.


Deste modo, aqueles objetivos individuais em comum, característicos da situação de agrupamento (lembram da fila em que todos tinham o objetivo de pegar um ônibus?) se transformam em objetivos grupais comuns a todos. Cada um(a) continua com seus interesses individuais, porém com outro significado. Isso porque esses interesses podem ser exteriores, ou seja, a pessoa está naquele grupo ou organização por necessidades impostas pelo contexto. Mas, conforme vai se sentindo parte de um grupo que tem objetivos com os quais se identifica e pode contribuir, estes passam a se conectar com seu projeto de vida, com seus desejos. 


Aqui, vale trazer a visão de Deleuze e Guattari¹ de que o desejo é uma força produtiva e criativa que, portanto, gera transformações. Assim, com confiança e respeito às diferentes visões, os(as) integrantes do grupo expressam seus desejos e assumem o compromisso de se dedicar à realização daquele projeto ou ação, focado em objetivos comuns. 


O terceiro ponto que precisa ser cuidado por quem coordena grupos, é a comunicação. Aliás, “problemas de comunicação” é uma queixa recorrente de grupos que me procuram, e sei que isso não é novidade para ninguém. São as fofocas, os mal-entendidos, a falta de escuta, as indiretas e, até mesmo, as ironias e falta de respeito entre as pessoas. 


Voltando à diferenciação entre grupos e agrupamentos: uma das características deste último é uma comunicação unilateral, aquela em que cada um(a) fala sem se importar com a resposta do(a) outro(a). Sabe o “tá calor hoje, né?” que você diz à pessoa na fila do ônibus? É disso que estou falando. Então, se na sua equipe tem pessoas que falam muito, sem dar espaço para as demais opinarem, e outras que quase nunca falam; se os comunicados são restritos, fazendo com que poucos tenham acesso às informações; se há fofocas e discussões; fique atento(a), pois não existe grupalização sem uma boa comunicação


O diálogo é poderoso, sem ele não há cocriação, interação. Por isso, quem coordena grupos precisa lançar mão de dinâmicas e exercícios para facilitar o verdadeiro diálogo, aquele em que há escuta atenta, espaço de fala, trocas. As pessoas precisam perceber, conscientemente, se conseguem escutar as outras. Se elas estiverem mais preocupadas em preparar suas respostas do que em prestar toda a atenção ao que está sendo falado, não estão escutando de verdade. 


Quem está coordenando o grupo, pode utilizar diversas estratégias, tais como as seguintes:


  • Fazer uma roda de conversa em que, respeitando a ordem do círculo (às vezes, você pode propor quem começa a rodada), cada um(a) opina sobre um tema sem ser interrompido(a) e sem dizer se concorda ou não com o que os(as) outros(as) falaram;
  • Também em roda, o(a) primeiro(a) opina sobre um tema e os(as) próximos(as) somente acrescentam o que pensam a mais ou diferente, sem repetir aquilo que concordam;
  • Na roda, um(a) opina e o(a) seguinte diz o que entendeu sobre o que já foi falado antes de dizer sua opinião; 
  • Pedir para as pessoas trocarem de cadeiras e falarem como se fossem aquela que estava naquele lugar;
  • Pedir para cada um(a) dizer se o que foi pedido (uma atividade, um relatório, enfim, algo novo) ficou claro, como se sente em relação a isso e se propõe alguma mudança;
  • Fazer reuniões de todos que trabalham na organização (quando não for possível fazer “paradas”, podem ser várias reuniões com grupos menores) para explicar novos projetos, eventos e mudanças organizacionais – todos(as) merecem essa consideração e terão mais condições de colaborar.


Dei vários exemplos de estratégias de comunicação verbal, mas outros meios podem ser usados como a escrita, desenhos, dramatizações. Lembre-se, contudo, que é preciso considerar o perfil de cada grupo, pois algumas pessoas podem ter dificuldades de leitura e escrita ou de participarem de algo muito abstrato e simbólico. Outro alerta: atividades “plásticas” como mexer com argila, assim como as dramatizações, desencadeiam mais emoções – tenha certeza de que você consegue lidar bem com o que poderá acontecer. Por último, qualquer dinâmica que envolve o corpo pode gerar constrangimentos, pense bem antes.


Observe sempre se há conversas paralelas, se todos(as) olham e se dirigem a uma mesma pessoa, se uma pessoa tenta monopolizar as conversas, se há piadinhas demais, desvios do assunto, expressões e gestos que indiquem insatisfação. Procure não “apontar” o problema, pois o risco de assumir uma postura autoritária é alto. Faça perguntas, levante hipóteses: “Por que será que vocês estão mudando de assunto? Tenho a sensação de que alguma coisa está incomodando...” .


Nos grupos a comunicação é dialógica. Há escuta atenta, respeito às diferentes opiniões e empatia. As pessoas repensam e modificam suas visões e quando elas admitem isso (“mudei minha opinião após escutar vocês”) é sinal de avanço na grupalização.


Por fim, você que facilita/coordena grupos, nunca se esqueça de que você também faz parte do grupo e é afetado pelos fenômenos que acontecem. É muito importante entender seu papel e saber buscar ajuda. Mas isso é tema para nossa próxima conversa. Obrigada pela atenção e até lá!


¹Para quem quiser saber mais sobre essa visão, sugiro o texto “O desejo e outros conceitos no institucionalismo”, que faz parte do livro de Gregorio Baremblitt, “Compêndio de análise institucional e outras correntes: Teoria e prática”, disponível na
internet



Daiany França

Célia Schlithler é consultora e trabalha com grupalização de equipes, formação de coordenadores de grupos e de facilitadores de redes. Assessora equipes no planejamento e implementação de projetos de impacto social. Trabalhou em OSCs e segue atuando junto a coletivos, OSCs e redes porque acredita em seu papel decisivo no desenvolvimento da democracia e justiça social. 

 

Revisão: Daiany França e Flávia D'Angelo (Phomenta)


Inscreva-se na nossa Newsletter

Últimas publicações

Por Instituto Phomenta 11 de junho de 2026
Nem todo edital é uma oportunidade. Entenda os riscos do desvio de missão e como captar recursos de forma estratégica.
Por Jaice Balduino 1 de junho de 2026
O doador brasileiro está mudando: mais seletivo, exigente e orientado por impacto. Descubra o que as organizações sociais precisam oferecer para conquistar e fidelizar quem doa no cenário atual.
Por Instituto Phomenta 26 de maio de 2026
Quem está no dia a dia da gestão de uma ONG conhece bem o dilema: a gente passa tanto tempo cuidando dos projetos e atendendo a ponta que a nossa própria estrutura vai ficando para trás. Já diz o ditado: “em casa de ferreiro…”. Nosso financeiro roda no limite, a equipe fica sobrecarregada, os processos são travados e a liderança vive exausta. A verdade é que a gente se acostumou a operar no modo de sobrevivência. Então, que tal dar um passo para trás e avaliar o todo? Durante o FIFE 2026, o sociólogo Domingos Armani trouxe uma provocação que cutucou feridas necessárias. Ele alertou que muitas organizações ainda insistem em carregar crenças e estigmas que funcionam como mapas obsoletos. Só que, o grande problema de usar um mapa velho é que o mundo mudou, e o desenho antigo já não bate com o terreno real de hoje. Insistir na ideia de que investir na própria estrutura é "gastar dinheiro que deveria ir para o projeto" é um desses mapas velhos que precisamos rasgar. Fortalecer a casa, o chamado Desenvolvimento Institucional (DI), é o que garante que a ONG continue existindo e gerando impacto no longo prazo. E essa mudança de mentalidade muda tudo, inclusive o jeito de captar recursos. Mudar a postura para financiar a sua estratégia Captar recursos para o Desenvolvimento Institucional, ou seja para estruturar a gestão, investir em tecnologia e manter o time funcionando, exige parar de pedir dinheiro apenas para o "projeto da vez". No painel da Plataforma Conjunta, ainda no FIFE, o debate girou em torno de como virar essa chave diante dos financiadores. Para ajudar a avaliar como a sua organização está se posicionando, montamos um checklist prático com os principais aprendizados da mesa: Checklist de postura para o fortalecimento da ONG [ ] Você se explica pela estratégia ou pelo portfólio? Quando vai conversar com um parceiro, você gasta todo o tempo listando as oficinas da semana ou apresenta primeiro a missão e a visão de futuro da organização? Grandes parceiros querem financiar o futuro da sua causa, não apenas uma ação pontual. [ ] Você sabe compartilhar vulnerabilidades? Se a sua organização fosse perfeita e não tivesse nenhum problema de gestão, ela não precisaria de apoio. Fale da sua vulnerabilidade, mas com estratégia. Acompanha o próximo ponto! [ ] O desafio vem acompanhado de uma solução? Mostrar os pontos fracos da gestão para o parceiro só funciona se você já apresentar a rota para resolver o problema. A vulnerabilidade precisa vir colada com a sua capacidade de planejamento. [ ] O estigma da escassez foi abandonado? A gestão já superou a velha crença de que o Terceiro Setor precisa trabalhar sofrendo, com ferramentas defasadas e computadores lentos? Modernizar a estrutura interna é uma decisão de eficiência, não um luxo. Saiba que você pode merece e precisa de estrutura. Modernizar para não parar no caminho Se os mapas antigos não funcionam mais, o papel de quem gere é desenhar novas rotas. Olhar para o Desenvolvimento Institucional serve para dar musculatura para a organização. Quando paramos de “vender o almoço para pagar o jantar” e começamos a financiar a nossa própria estratégia, a ONG ganha a sustentabilidade que precisa para transformar a realidade na ponta de forma estruturada e contínua.
Por Instituto Phomenta 14 de maio de 2026
Quem trabalha em ONG sabe que a comunicação costuma ser o pratinho que mais cai. Com tantas atividades executadas ao mesmo tempo, a estratégia acaba ficando para trás porque o operacional consome todo o dia. Mas o uso da Inteligência Artificial (IA) tem mostrado que dá para mudar esse cenário. Esse foi um dos temas centrais do Fórum Interamericano de Filantropia Estratégica (FIFE 2026), o principal encontro sobre gestão do Terceiro Setor no Brasil. O debate focou em como a tecnologia pode organizar processos e liberar tempo para o que realmente importa. O cenário brasileiro é curioso: de um lado, a OpenAI aponta que o Brasil é o terceiro país que mais usa o ChatGPT no mundo (atrás apenas de EUA e Índia), com cerca de 140 milhões de mensagens diárias enviadas por aqui. Por outro lado, o uso estratégico nas ONGs ainda engatinha. Um levantamento do IDIS com mais de 1,5 mil organizações revela que 62% delas ainda estão em um estágio baixo ou inexistente de adoção de IA. Ou seja, a tecnologia está na nossa mão, mas o setor social ainda está descobrindo como transformá-la em aliada da gestão. Para tirar proveito real dessas ferramentas, o segredo é o jeito que você as alimenta. Durante a palestra de Marco Iarussi, publicitário social e fundador da Curta Causa, aprendemos que o "treinamento" que você dá à IA é o que define se o resultado será genérico ou útil. Mão na massa: Passo a passo para montar seu plano com IA Para a IA aprender sobre a sua realidade e não entregar respostas vazias, siga este roteiro: 1. Não mude de conversa Escolha um único chat para tratar do seu plano de comunicação, seja no ChatGPT, Gemini ou Claude. Se você abre uma conversa nova toda vez, a IA "esquece" o contexto. Mantendo o mesmo canal, ela guarda o histórico e entende as necessidades específicas da sua organização. 2. Dê informações reais Antes de pedir o plano completo, descubra o que a IA já "pensa" sobre você. Isso serve para corrigir erros e fornecer dados que ela ainda não tem. Prompt: "O que você sabe sobre a causa [inserir sua causa] e o que conhece sobre o trabalho da [nome da sua ONG]?" 3. Alinhe o que é um plano de verdade Veja se o robô entende o seu universo. Se ele tiver uma visão muito comercial, o plano parecerá uma propaganda de loja, o que não funciona para o setor social. Prompt: "Para você, o que não pode faltar em um plano de comunicação para uma ONG? Liste os pontos principais." (Leia e diga o que você concorda ou não). 4. Descubra o que ninguém está falando Use a ferramenta para encontrar novos ângulos e sair do óbvio. Prompt: "O que o pessoal mais fala sobre [sua causa] hoje? E o que você acha que ainda não foi dito, mas que ajudaria as pessoas a entenderem melhor o nosso impacto?" 5. Peça o plano prático Agora que o chat está treinado, peça a estrutura final. Prompt: "Com base em tudo o que já conversamos aqui, monte um calendário de 30 dias para as nossas redes sociais. O foco deve ser [ex: prestação de contas ou atrair novos voluntários]." Onde entra a ética e o seu papel Usar a tecnologia para facilitar o dia a dia é inteligência de gestão, mas exige cuidado. A IA serve para fazer o primeiro rascunho e organizar as ideias, mas a palavra final, a conferência dos dados e o olhar humano sobre a causa precisam ser seus. O objetivo é automatizar o que for repetitivo para que você tenha fôlego. Com a comunicação organizada, sobra tempo para construir relacionamentos de verdade e focar no que nenhuma máquina substitui a confiança e o olho no olho com quem apoia a sua organização. 
Por Camila Pasin 30 de abril de 2026
Empresas brasileiras deixaram de ser apenas financiadoras e se tornaram plataformas de engajamento. Entenda como transformar uma simples doação em uma verdadeira aliança de impacto.
Por Gabriel Pires 9 de abril de 2026
Minha OSC precisa de um código de ética? No terceiro setor, valores sem regras claras podem gerar conflitos e riscos. Entenda por que o código de ética é essencial para a gestão das OSCs.
mostrar mais

Participe do nosso grupo no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão

Entrar para o grupo