Quando medir impacto social não é necessário

6 de fevereiro de 2025

Há quatro anos (em 2020), Esther Duflo, uma das ganhadoras do prêmio Nobel de Economia em 2019, participou do 10º evento internacional da XP Investimentos no Brasil. Participação à distância (por vídeo-entrevista), porém bastante interessante. 


Só relembrando, a razão do Prêmio Nobel em Economia ter sido concedido a Esther Duflo, juntamente com Abhijit Banerjee (seu marido) e Michael Kremer, foi a contribuição de suas pesquisas experimentais para atestarem a efetividade de políticas públicas para a redução da pobreza global. Conforme ela fez questão de ressaltar, com a premiação eles conseguiram evidenciar a importância dos “experimentos clínicos randomizados” (com grupos do experimento e grupos de controle) aplicados ao campo do desenvolvimento econômico e das políticas públicas. 


Duflo e seus companheiros do Nobel são ardorosos defensores do rigor metodológico para avaliar a efetividade das políticas públicas, para saber o que funciona e o que não funciona. São métodos baseados em técnicas estatísticas complexas e acessíveis apenas a iniciados, de longa maturação e muito onerosos. 


Para além das políticas e programas públicos, ter impacto social tornou-se atualmente um pré-requisito obrigatório. Tudo deve ter impacto benéfico (social ou ambiental) para justificar a sua razão de existir: são os projetos de impacto, as ongs de impacto, os investimentos de impacto, as empresas de impacto, e por aí vai…. 


Daí pergunto:Se medir impacto implica em métodos tão complexos e caros, como avaliar o impacto social e ambiental das iniciativas conduzidas por cada ONG ou empresa? 


Uma vez que recursos estão sendo desembolsados com a finalidade explicitada de ter impacto social, então é mandatório verificar se os resultados pretendidos foram realmente atingidos. Ainda mais tendo em vista a nossa realidade atual, tão cheia de problemas de pobreza, injustiças, desequilíbrios e sofrimentos de toda ordem. 


Pois boas intenções não bastam; ou melhor, mudar o discurso, mas continuar atuando como sempre. É uma questão ética cumprir o que se promete. 


Mas, devemos ter clareza de que pouquíssimas iniciativas comportam   avaliação de impacto, segundo o rigor metodológico experimental preconizado por Duflo. Para começar, é preciso que sejam iniciativas de grande porte e com amplo raio de influência, que justifique uma avaliação de impacto comme il faut; e também com bastante recursos disponíveis para financiar essa avaliação.  Por outro lado, avaliar impacto de forma pouco criteriosa não transmite a confiabilidade demandada pelos stakeholders envolvidos, não consegue ser ferramenta de gestão útil, além de representar desperdício de tempo e recursos. 


Então, como sair desse dilema? 


Como se vê, estamos frente ao seguinte imbróglio: hoje em dia quase todas as organizações, lucrativas ou não, dizem operar com impacto. Porém, a medição correta do impacto é tão complexa e onerosa que tem se mostrado acessível a pouquíssimas instituições, normalmente do setor público e organismos internacionais. 


Ao final de sua entrevista nesse evento da XP, Esther Duflo deu a sua orientação. Sim, é preciso ser rigoroso e disciplinado para medir os impactos de estratégias que são inovadoras. Uma vez já testados e comprovados os impactos dessas estratégias (ou dessas teorias de mudança), elas passam a fazer parte de um “portfólio de bons projetos”, que poderão ser implementados por outras organizações. Então, quando a estratégia for replicada, não haverá mais a necessidade de testar o seu impacto, pois já foi medido. 


Dou aqui um exemplo. Suponha uma nova estratégia de alfabetização de adultos.  Digamos que essa nova estratégia foi aplicada em 10 municípios. Ao final de 5 anos, foi feita a avaliação experimental de impacto com todo o rigor estatístico e, concluiu-se que houve aumento significativo na fluência de leitura dos adultos alfabetizados pelo novo método quando comparado com aqueles alfabetizados pelo método antigo. 


Com isso, o novo método de alfabetização ganha status de tecnologia social, e passa a compor o “portfolio de bons projetos”. Assim, quando uma determinada organização social for executar o projeto em uma outra região, já sabe de antemão que o método é efetivo para a alfabetização de adultos. Será necessário (apenas) avaliar a implementação do projeto, se ela seguiu à risca os procedimentos do novo método. 


Do que disse Duflo, a efetividade da teoria da mudança (ou da estratégia) precisa ser inicialmente confirmada com todo o rigor estatístico da pesquisa experimental. Mas, uma vez comprovada, daí para frente o que conta é a boa qualidade da implementação. 


De fato, faz todo o sentido. O que não faz sentido, e costuma ocorrer com bastante frequência, é ver financiadores de iniciativas de impacto social e ambiental exigirem sempre medições de impacto toda vez que uma (mesma) teoria da mudança for aplicada. 


 


Maria Cecília Prates é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape. Pesquisadora na FGV / IBRE na área social por muitos anos, e depois tem feito monitorias, consultorias, pesquisas em avaliação de projetos sociais e RSC. Site: www.estrategiasocial.com.br 


Inscreva-se na nossa Newsletter

Últimas publicações

Por Instituto Phomenta 15 de janeiro de 2026
O adoecimento mental da população brasileira tem se intensificado nos últimos anos e já se reflete de forma direta no mundo do trabalho. O aumento de afastamentos por transtornos mentais, a ampliação de quadros de ansiedade e a exaustão profissional passaram a ocupar o centro dos debates sobre produtividade, gestão de pessoas e sustentabilidade organizacional. No Terceiro Setor, esse cenário não é diferente — e apresenta contornos ainda mais críticos. Dados da Pesquisa Saúde Mental e Bem-Estar no Terceiro Setor (2023), realizada pelo Instituto Phomenta, revelam que 55% dos profissionais do setor expressam algum nível de preocupação com sua saúde mental e bem-estar. Esse contexto foi debatido no Webinar Tendências para o Terceiro Setor 2026, promovido pelo Instituto Phomenta, que apontou a saúde mental como uma das principais tendências e desafios estruturais para as organizações sociais nos próximos anos. A pesquisa ouviu 842 profissionais, de 214 cidades, em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal. Os dados mostram que o alto comprometimento com a causa convive com estresse constante, sensação de urgência permanente e dificuldade de estabelecer limites entre vida pessoal e trabalho, um paradoxo cada vez mais presente no cotidiano das organizações da sociedade civil. Cuidar de quem cuida Durante muito tempo, o trabalho no Terceiro Setor esteve associado à ideia de propósito como fator de proteção emocional. Os dados da pesquisa indicam que essa narrativa já não se sustenta. Entre os respondentes, 38% classificam sua saúde mental como regular e 17% como ruim, evidenciando um cenário de alerta que afeta tanto profissionais quanto lideranças. O recorte de gênero revela desigualdades importantes. As mulheres, que representam 65% da força de trabalho no Terceiro Setor, são as que expressam maiores níveis de preocupação: 60% relatam algum grau de insatisfação com sua saúde mental e bem-estar, frente a 45% dos homens. Entre os jovens, os índices são ainda mais elevados. Profissionais de 18 a 24 anos e de 25 a 34 anos apresentam os piores indicadores, com 69% e 70%, respectivamente, avaliando sua saúde mental como regular ou ruim. Esses dados foram destacados no Webinar Tendências para o Terceiro Setor 2026 como um sinal de que o setor precisa repensar suas práticas internas se quiser manter equipes engajadas e sustentáveis. A NR-1 e o impacto direto na gestão das organizações Outro ponto central do debate foi a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1). A partir de maio de 2025, organizações com pessoas contratadas sob regime CLT passam a ter a responsabilidade de identificar, prevenir e gerenciar riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Entre os fatores de risco mais recorrentes, a pesquisa da Phomenta aponta: excesso de demandas e tarefas, indicado por 64% dos respondentes como principal fator de estresse; jornadas prolongadas e dificuldade de equilíbrio entre vida pessoal e trabalho; ausência de reconhecimento e suporte institucional; conflitos interpessoais e condições precárias de trabalho. Os efeitos desse modelo aparecem nos sintomas relatados: 77% dos profissionais mencionam ansiedade como um dos principais impactos, e 64% relatam exaustão física. Durante o webinar, foi reforçado que o cumprimento da NR-1, embora necessário, não é suficiente para enfrentar um problema estrutural. O desafio está na revisão das práticas de gestão de pessoas, incluindo distribuição de tarefas, modelos de liderança, processos decisórios e a forma como o cuidado é incorporado, ou negligenciado, na cultura organizacional. Saúde mental como estratégia de sustentabilidade A pesquisa também evidencia que mais de 70% dos respondentes não percebem ações intencionais de suas organizações voltadas à promoção do bem-estar. Esse dado foi amplamente debatido no Webinar Tendências para o Terceiro Setor 2026, que destacou a urgência de transformar o cuidado em estratégia institucional. Entre as organizações que adotam ações voltadas à saúde mental, os profissionais citam iniciativas como atendimento psicológico, espaços de diálogo, formações, flexibilidade no trabalho e momentos de convivência. Ainda assim, esses esforços seguem sendo exceção, e não regra. No Terceiro Setor, cuidar da saúde mental das equipes deixou de ser um tema secundário. Trata-se de uma condição para a permanência das pessoas, para a qualidade do trabalho realizado e para a coerência entre missão institucional e práticas internas. A crise de saúde mental convida o setor a um exercício de autocrítica. Não é possível enfrentar desigualdades externas se, internamente, as relações de trabalho reproduzem exaustão, urgência permanente e invisibilização do cuidado. Em 2026, organizações que colocarem as pessoas no centro da gestão estarão mais preparadas para sustentar seu impacto social no longo prazo. Assista completo:
Por Instituto Phomenta 12 de janeiro de 2026
As transformações no cenário internacional de financiamento foram um dos alertas mais sensíveis apresentados no Webinar: Tendências de 2026 para o Terceiro Setor, realizado pelo Instituto Phomenta. Em um contexto de instabilidade política, mudanças de prioridades globais e retração de recursos externos, organizações brasileiras já sentem os impactos de uma filantropia internacional mais seletiva, menos previsível e cada vez mais estratégica. Em 2026, essa tendência se consolida e exige das organizações sociais um reposicionamento em relação à forma como acessam, gerenciam e diversificam suas fontes de recursos. A retração do financiamento internacional Durante o webinar, foram destacados movimentos recentes que ajudam a explicar o cenário atual, como a redução de repasses de países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o enfraquecimento de programas tradicionais de cooperação internacional e o encerramento ou redirecionamento de iniciativas históricas, como a USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional). Essas mudanças não acontecem de forma isolada. Elas refletem disputas geopolíticas, reorientação de agendas nacionais e uma priorização maior de crises internas por parte de países doadores. Para muitas organizações do Sul Global, isso representa a perda de fontes que, por décadas, sustentaram projetos e estruturas institucionais. Menos recursos, mais exigências Além da diminuição do volume de recursos, o webinar destacou um aumento significativo no nível de exigência dos financiadores internacionais que permanecem ativos. Entre os critérios mais observados estão: capacidade de gestão financeira e institucional; governança estruturada; indicadores consistentes de resultados; alinhamento com agendas globais específicas; histórico de parcerias e execução. Em 2026, organizações com baixa maturidade institucional tendem a enfrentar ainda mais barreiras para acessar recursos internacionais, mesmo quando atuam em causas prioritárias. O papel do financiamento público no Brasil Em contraste com a retração internacional, observamos o crescimento dos repasses federais no Brasil nos últimos anos. Esse movimento abre oportunidades, mas também traz desafios próprios. Acesso a recursos públicos exige preparo técnico, capacidade de prestação de contas, adequação jurídica e fôlego financeiro para lidar com prazos e burocracias. Para muitas organizações, isso demanda investimentos prévios em estrutura e equipe, o que nem sempre é possível sem apoio externo. Ainda assim, o aumento do financiamento público reforça a importância de olhar para o território nacional como parte estratégica da sustentabilidade financeira. Diversificação como estratégia de sobrevivência Uma das principais reflexões trazidas é que depender de uma única fonte de recursos se torna cada vez mais arriscado. Em 2026, a diversificação deixa de ser recomendação e passa a ser condição de sobrevivência. Isso envolve combinar diferentes fontes, como: filantropia nacional; parcerias com empresas; recursos públicos; doações individuais; prestação de serviços alinhados à missão. O impacto das mudanças na autonomia das organizações As transformações na filantropia internacional também afetam a autonomia das organizações sociais. Com menos recursos disponíveis e maior competição, cresce o risco de adaptação excessiva a agendas externas, em detrimento das demandas reais dos territórios. Por isso a importância de manter o foco na missão e no impacto social, mesmo diante de pressões financeiras. Organizações mais preparadas institucionalmente tendem a negociar melhor, fazer escolhas mais estratégicas e preservar sua coerência. O que essa tendência exige das organizações Em 2026, o cenário de financiamento será mais restrito, mais técnico e mais competitivo. Organizações que investem em desenvolvimento institucional, planejamento financeiro e fortalecimento da gestão terão mais condições de atravessar esse contexto com menos rupturas. Como discutido no webinar, adaptar-se às mudanças da filantropia internacional não significa abandonar princípios, mas sim construir bases mais sólidas para seguir atuando com impacto, autonomia e sustentabilidade no longo prazo. Confira o Conteúdo:
Por Instituto Phomenta 5 de janeiro de 2026
A confiança no Terceiro Setor está em alerta. Entenda por que transparência, governança e coerência se tornaram decisivas para as organizações em 2026.
Por Instituto Phomenta 29 de dezembro de 2025
Agentes de IA ganham espaço no Terceiro Setor em 2026, apoiando captação, operação e gestão. Entenda a tendência, seus usos e os cuidados para organizações sociais.
Por Mariana Moraes 11 de dezembro de 2025
Antes de definir metas ou pensar nos posts do ano, olhe para dentro da sua organização. Saiba aqui o que se perguntar antes de montar seu planejamento estratégico.
Por Instituto Phomenta 2 de dezembro de 2025
Este é o primeiro de cinco artigos da série intitulada Vozes dos Territórios: uma jornada decolonial na Filantropia Brasileira. A série dedica-se a compartilhar com o ecossistema de impacto as experiências e aprendizados na construção da Comunidade Territórios do Amanhã - uma iniciativa Próspera Social, com realização do Instituto Phomenta. 
mostrar mais

Participe do nosso grupo no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão

Entrar para o grupo