O Papel das ONGs no “novo normal” da Sociedade Pós COVID-19

4 de agosto de 2022

Este conteúdo foi produzido por Larissa Dutra


O Festival da ABCR aconteceu presencialmente no final do mês de junho, depois de dois anos no formato online. O objetivo do evento foi construir pontes e diálogos entre captadores de recursos e doadores, e além da Phomenta, outras dezenas de ONGs do país inteiro estiveram presentes. 


Foram dois dias de intensas discussões sobre o contexto no qual estamos, como lidar com as adversidades trazidas para o mundo pós pandemia, e como se manter resistente em todas as perspectivas. 


O cenário atual aponta uma sensação crescente na sociedade: a de que o pior da crise oriunda da pandemia já passou. Segundo levantamento feito pela Fiocruz, mais de 40% da população acha que a pandemia já terminou, e mais de 70% se sente confortável para estar em grandes aglomerações. Mas quando olhamos para dentro das organizações sociais, o que se apresenta é a continuidade da crise, com o agravante do aumento da instabilidade econômica. 


Na mesa geral no início do evento, as organizações presentes pontuaram como o terceiro setor foi e é fundamental para manter a condição básica de sobrevivência de muitas camadas da sociedade, como é o caso das mulheres.


Segundo a pesquisa do Ipea de 2018, metade dos lares brasileiros são chefiados por mulheres. E boa parte delas perdeu seus empregos e teve que descobrir novas formas de se manter, e de cuidar dos familiares. Durante a pandemia, o Instituto ainda aponta que  “Os indicadores mostraram que as mulheres seguem em desvantagem em relação aos homens. No segundo trimestre de 2019, a taxa de ocupação delas (46,2%) era inferior à do sexo masculino (64,8%). No mesmo período de 2020, houve redução para 39,7% no caso das mulheres e 58,1% para os homens. Mesmo antes da pandemia, as mulheres já possuíam uma maior chance de mudar da situação de ocupada para inativa e também uma menor chance de entrar na condição de ocupada; no entanto, a crise intensificou ainda mais essas probabilidades.”


O nível de empregabilidade das mulheres no ano de 2022 é igual ao de 30 anos atrás, um retrocesso que tem como consequência uma sociedade mais empobrecida. 


Para Carola Matarazzo do Movimento Bem Maior e palestrante da ABCR 2022, se por um lado a crise trouxe desafios nunca antes experimentados, por outro ela aponta a oportunidade para que as organizações encontrem na inovação novas formas de existir e se manter.


E é nesse cenário desafiador e cheio de possibilidades que as organizações precisam desenvolver seus planos estratégicos e entender que são fundamentais para a reconstrução da sociedade pós pandemia. 


Papel das ONGs no ápice da crise


No ápice da crise, as ONGs precisaram parar e repensar seu modo de atuar e escolher, entre tantas demandas urgentes, quais seriam as primeiras atendidas. 


As necessidades básicas foram o foco. Milhares de pessoas começaram a se engajar para levar comida para quem teve que largar tudo e ficar em casa para não se contaminar. 


Além disso, as ONGs, que são reconhecidas pelo seu trabalho olho no olho, tiveram que rever toda a sua estrutura. Mas como trabalhar com a captação de recursos sem os encontros? 

Esse foi o maior desafio do Greenpeace, segundo Vivian Fasca, diretora de marketing e captação de recursos da organização, que contou que a organização teve que reformular a sua maneira de abordar potenciais doadores. E o que antes era feito nas ruas, durante a crise, ficou completamente remoto. 


O Greenpeace criou uma verdadeira base de telemarketing para conseguir chegar até os doadores. O formato foi tão bem executado que se espalhou mundo afora. 

E o que ficou nítido durante os encontros promovidos pelo Festival ABCR é que as ONGs tiveram dois papéis fundamentais: o de conter a calamidade pública e atender as demandas básicas e de se adaptar para continuar com os projetos que não podiam parar. 


E agora? 


Com a vacinação, o isolamento social foi diminuindo, algumas atividades puderam ser retomadas e as necessidades estão mudando. 


Ficou claro como o terceiro setor responde às demandas e desafios sociais mais complexos. E agora, é hora de consolidar tudo que foi projetado durante os anos mais intensos da pandemia. 


Aumentar o uso das tecnologias foi fundamental para poder continuar existindo. Por isso, é importante se manter atualizado e à frente, absorvendo inovação e pensando em estratégias para aumentar o acesso da população à elas. 


Uma das maneiras de pensar o acesso, é envolver os voluntários. Eles são a melhor ponte entre as ONGs e as pessoas atendidas. E isso destaca que o processo é tão importante quanto o impacto social. 


O papel colaborativo das ONGs também está em destaque e precisa ser planejado e estruturado para se manter. Viver em rede, entender quais outras organizações trabalham com o mesmo foco e na mesma região aumenta as chances de captação de recursos e de impacto social, como afirma Carola Matarazzo ao final da primeira sessão geral do festival “[...] muita coragem e depois, sem dúvida nenhuma, manter o foco na colaboração - não somos concorrentes, somos complementares e interdependentes… Pensar em novas formas de colaboração é tarefa urgente”.


Fontes 

https://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=37963

https://www.em.com.br/app/noticia/economia/2020/02/16/internas_economia,1122167/amp.html





Larissa Dutra é jornalista da Phomenta 


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Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer um desafio estrutural: muitas organizações de base, especialmente em territórios periféricos, ainda têm dificuldade de incorporar tecnologia às suas soluções. Não por falta de visão, mas por falta de acesso à educação, à formação técnica e a investimentos sociais. É comum vermos tecnologias avançadas sendo desenvolvidas por startups e organizações de impacto, enquanto quem atua diretamente no território não dispõe dos recursos necessários para utilizá-las. Sem articulação, essa equação não fecha. Por isso, outra tendência que se consolida é a valorização de redes, consórcios e articulações territoriais. Organizações que atuam de forma isolada tendem a ter mais dificuldade de acessar investimentos. Financiadores buscam cada vez mais iniciativas coletivas, capazes de envolver múltiplos atores, setores e saberes. 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Tecnologias como a Inteligência Artificial precisam ser desenvolvidas e utilizadas com base em princípios claros: respeito à privacidade e à LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), justiça social, mitigação de vieses discriminatórios, controle social sobre dados e sistemas, segurança da informação e responsabilidade ambiental. O impacto climático da tecnologia, muitas vezes invisível, também precisa entrar na equação. Regulamentação e compromisso das empresas e investidores são indispensáveis. O financiamento das organizações também passa por mudanças relevantes. Doações online, campanhas como o Dia de Doar, cessão de tecnologias e licenças por empresas e, sobretudo, o fortalecimento dos mecanismos de incentivo fiscal têm ampliado as possibilidades de sustentabilidade. Quando uma empresa direciona parte de seus impostos para projetos sociais no território onde atua, o recurso retorna diretamente para a comunidade, em forma de educação, inovação e oportunidades. 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Você pode amar muito um time e ainda assim vê-lo perder campeonatos por anos. Pode ter a maior torcida do país, uma história gigante e uma camisa pesada. Mas sem gestão, isso não se sustenta. No terceiro setor acontece algo muito parecido. Sou corinthiana e não acompanho o futebol tão de perto. Mesmo assim, é impossível ignorar o que Palmeiras e Flamengo vêm construindo nos últimos anos. Escrevo este artigo no final de 2025 e, ao olhar para os principais campeonatos do período recente, Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil, esses dois clubes seguem protagonizando finais, títulos e campanhas consistentes. Não por acaso, também passaram a aparecer em premiações internacionais que reconhecem excelência em gestão, como o Globe Soccer Awards. Mas nem sempre foi assim. E é exatamente aí que essa história interessa às organizações da sociedade civil. Quando a virada não acontece no campo Palmeiras e Flamengo já viveram fases marcadas por dívidas, crises internas e resultados bem abaixo do potencial que tinham. A mudança não começou com um craque, nem com um gol histórico. Começou fora de campo. Por volta de 2012 e 2013, os dois clubes passaram a tratar a gestão como eixo central. Planejamento financeiro, profissionalização das equipes, governança e visão de longo prazo deixaram de ser discurso e passaram a orientar decisões concretas. Se você não gosta de futebol, continue comigo. O ponto aqui não é o esporte. É entender que amor, tradição e propósito são fundamentais, mas não substituem uma boa gestão. Com gestão, a gente vai mais longe. O que o Palmeiras ensina No Palmeiras, a virada tem um nome bastante conhecido: Paulo Nobre. Ao assumir a presidência do clube em 2013, encontrou um cenário delicado, com dívidas e pouca previsibilidade. Uma das decisões mais simbólicas foi emprestar recursos próprios para reorganizar as finanças do time. Um gesto arriscado, mas inserido em uma estratégia maior. A partir daí, vieram parcerias estratégicas como a Crefisa, a profissionalização da gestão e a criação de novas fontes de receita. A modernização do Allianz Parque transformou o estádio em um ativo que gera renda muito além dos jogos, com shows e eventos. É a lógica de enxergar a estrutura como meio para sustentar a missão, algo bastante familiar para quem atua no terceiro setor. O Flamengo e a coragem de arrumar a casa O Flamengo sempre teve popularidade e potencial. O que faltava era organização. A virada começou com decisões duras e pouco populares, como uma política rigorosa de controle de gastos e reorganização financeira. Antes de investir pesado em contratações, o clube investiu em processos, equipe técnica qualificada e responsabilidade fiscal. Os títulos vieram depois. Não como milagre, mas como consequência. O que tudo isso tem a ver com as OSCs? Muito mais do que parece. Os dois clubes mostram que investir na base (jovens atletas em formação para o time principal) é apostar no longo prazo, mesmo quando o retorno não é imediato. No terceiro setor, isso aparece na formação de equipes, no fortalecimento institucional e no desenvolvimento de lideranças. Eles também reforçam uma verdade incômoda: amor não é estratégia. Paixão move, mas não organiza fluxo de caixa, não constrói indicadores e não garante sustentabilidade. Há ainda a importância de diversificar fontes de receita, inclusive para organizações grandes e reconhecidas, e de contar com profissionais qualificados, além de investir em quem já faz parte da equipe. Nada disso acontece do dia para a noite. O processo é longo, exige constância e escolhas difíceis. Um convite para quem lidera organizações sociais  Se você lidera uma OSC, vale a reflexão. O quanto da sua energia está concentrada apenas na causa e o quanto está direcionada para fortalecer a gestão que sustenta essa causa? Gestão não esfria o propósito. Pelo contrário. Ela protege a missão, amplia o impacto e garante que o trabalho continue existindo daqui a cinco, dez ou vinte anos. No futebol e no terceiro setor, amor é o ponto de partida. Gestão é o que transforma esse amor em legado.
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