O futuro dos centavos: o que a economia digital pode ensinar às organizações sociais sobre microdoações

26 de março de 2026

Para muitas organizações sociais, ampliar e diversificar as fontes de financiamento continua sendo um dos maiores desafios de sustentabilidade. Em um cenário de transformação digital acelerada, novas infraestruturas de pagamento estão criando oportunidades para que pequenos valores, somados em escala, se tornem uma fonte relevante de recursos para causas sociais. 


Uma dessas mudanças vem de um lugar aparentemente simples: o futuro das moedas. Nos últimos anos, a discussão sobre o fim das moedas físicas, especialmente as de baixo valor, deixou de ser apenas um tema operacional para os bancos centrais e passou a ocupar a mesa de varejistas, governos e empresas de tecnologia. 


Esse movimento global evidencia uma tendência irreversível: o dinheiro físico está encolhendo e forçando o mercado a reinventar a lógica dos pequenos valores. A pergunta inevitável é: e o Brasil? A resposta é que estamos mais inseridos nessa transformação do que parece e, em alguns aspectos, já saímos na frente. 


O uso de dinheiro físico no Brasil está encolhendo rapidamente: em 2019, 76,6% dos pagamentos no país eram feitos em espécie; em 2023, essa proporção caiu para 40,5%. No mesmo período, o Pix cresceu de forma exponencial e hoje é utilizado por 76% da população brasileira, tornando-se o meio de pagamento mais popular e frequente do país (Banco Central do Brasil – Pesquisa “O Brasileiro e sua Relação com o Dinheiro”).

 

Mesmo com esse cenário cada vez mais sem uso de dinheiro físico, o não centavo perde importância, apenas muda de função. A transição mundial do dinheiro físico para o digital abre espaço para soluções que reduzam custos operacionais, facilitem a vida do consumidor, tragam impacto social para o centro das relações de consumo e transformem o varejo no principal motor de microdoações. 

Como as organizações sociais podem acompanhar essas mudanças 


Para organizações da sociedade civil, entender essa transformação nos meios de pagamento pode abrir novas possibilidades de mobilização de recursos. Alguns caminhos importantes incluem: 

  • Acompanhar tendências de pagamentos digitais, como Pix, carteiras digitais e novos modelos de microdoação integrados ao varejo
  • Explorar parcerias com empresas e plataformas de pagamento, que cada vez mais incorporam mecanismos de doação em suas jornadas de compra.
  • Investir em educação financeira e cultura de doação, mostrando ao público como pequenos valores podem gerar impacto quando somados em escala.
  • Acompanhar pesquisas e dados do setor, como estudos do Banco Central, relatórios de filantropia e iniciativas que conectam tecnologia e impacto social. 


Esse é um sinal claro de que, no futuro da economia digital, cada centavo continua contando, especialmente quando ele deixa de ser físico e passa a ser propósito. 


Mayda Companhone - Head de produtos no Movimento Arredondar. Com formação em Comunicação Social (2006) e especialização em Marketing Digital e E-commerce (2015-2016), sua jornada profissional é marcada pela constante inovação. Atuou inicialmente com produtos digitais focados em e-commerce até 2021, e a partir de 2021, mergulhou no dinâmico mundo das fintechs. Estudou Product Management e Product Discovery pela PM3 entre 2024 e 2025. Desde então, tem sido fundamental no desenvolvimento de produtos financeiros disruptivos, incluindo BaaS, Crédito, PIX, cobranças e plataformas de orquestração de pagamentos.


Inscreva-se na nossa Newsletter

Últimas publicações

Por Instituto Phomenta 25 de junho de 2026
Manter uma Organização da Sociedade Civil (OSC) de portas abertas no Brasil é um desafio diário de sobrevivência. Historicamente, a sustentabilidade financeira é o maior gargalo do terceiro setor, mas, frente ao montante de trabalho e às obrigações do dia a dia, ainda não conseguimos olhar para ela de forma estratégica. Assim, tratamos a busca por recursos como um evento de última hora, e não como um processo diário. Os dados do setor desenham um cenário alarmante sobre a estrutura das organizações brasileiras. Segundo a pesquisa da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR)*, 37% dos respondentes apontam como a maior dificuldade da captação a necessidade de dividir o tempo com outras demandas da instituição. Na maioria dos casos, a função é acumulada pela diretoria ou por técnicos que já estão sobrecarregados com a operação na ponta. O resultado é um ciclo vulnerável, especialista em "apagar incêndios": uma corrida desesperada contra o tempo para preencher formulários complexos apenas quando o caixa já entrou no vermelho. Diante dessa escassez crônica de tempo, a Inteligência Artificial (IA) passou a ser uma ferramenta de infraestrutura obrigatória para viabilizar a sustentabilidade institucional, mas poucas organizações ainda sabem como usá-la. A maioria das ONGs usa IA sem estratégia A rotina ideal de captação exige monitoramento constante do mercado, leitura minuciosa de editais, adequação técnica de propostas e relatórios rigorosos de prestação de contas. Mas você leu bem: ideal . Não é o que temos à mão no dia a dia. Para equipes enxutas, a IA se tornou o caminho para assumir essa carga operacional. Na captação de recursos, a máquina atua — ou deveria atuar — como um copiloto técnico: fazendo a triagem de diretrizes complexas e adaptando a linguagem de projetos para diferentes perfis de financiadores, devolvendo ao profissional o tempo necessário para pensar estrategicamente. Porém, de acordo com o levantamento do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) , feito com mais de 1,5 mil organizações, 62% assumem que ainda estão em um estágio baixo ou inexistente de adoção de IA. Vivemos em uma constante urgência para adotar a tecnologia, mas o pouco background gerou um uso amador e desordenado. Um mapeamento recente conduzido também pelo IDIS com mais de 500 entidades revelou que 95% das organizações sociais utilizam IA sem qualquer política ou orientação formal, e 75% dependem exclusivamente de ferramentas gratuitas de mercado. O risco aqui é que, com a soma da pouca estratégia e da falta de substância, as ONGs só consigam gerar, por meio da IA, propostas superficiais e desconectadas da realidade do território. São materiais incipientes, que podem levar à desclassificação imediata dos projetos pelos avaliadores dos editais. Como usar a IA a seu favor? Como resposta direta a esse cenário de equipes sobrecarregadas e necessidade de profissionalização tecnológica, a Fundação FEAC, com apoio do Instituto Phomenta, estruturou o projeto Captação com Causa. A iniciativa de 18 meses foi desenhada justamente para aplicar a IA como uma solução de sustentabilidade em 10 OSCs selecionadas de Campinas. Para combater o uso desordenado e a dependência de plataformas gratuitas apontados pelas pesquisas, o programa introduz no dia a dia das instituições bots customizados e programados especificamente para o contexto do terceiro setor. Em vez de soluções genéricas, as organizações ganham um sistema que filtra editais de forma preditiva e qualifica a escrita técnica das propostas, reduzindo drasticamente o tempo gasto na formatação dos projetos. O foco principal do projeto, que conta com um match funding de R$ 100 mil, é estruturar a captação como uma rotina viável. Por meio de assessoramentos individuais e coletivos, o programa prepara os profissionais para utilizarem a IA com postura crítica, garantindo que a tecnologia trabalhe a serviço da estratégia humana. Ao transformar a tecnologia em uma aliada, o Captação com Causa mira na mobilização de R$ 800 mil entre as participantes e na comprovação de que, com o método correto, a captação de recursos pode deixar de ser um susto sazonal e se tornar uma estratégia previsível, perene e sustentável. Quer saber mais sobre o Captação com Causa? Confira nosso último artigo! *Fonte: Censo ABCR
Por Instituto Phomenta 11 de junho de 2026
Nem todo edital é uma oportunidade. Entenda os riscos do desvio de missão e como captar recursos de forma estratégica.
Por Jaice Balduino 1 de junho de 2026
O doador brasileiro está mudando: mais seletivo, exigente e orientado por impacto. Descubra o que as organizações sociais precisam oferecer para conquistar e fidelizar quem doa no cenário atual.
Por Instituto Phomenta 26 de maio de 2026
Quem está no dia a dia da gestão de uma ONG conhece bem o dilema: a gente passa tanto tempo cuidando dos projetos e atendendo a ponta que a nossa própria estrutura vai ficando para trás. Já diz o ditado: “em casa de ferreiro…”. Nosso financeiro roda no limite, a equipe fica sobrecarregada, os processos são travados e a liderança vive exausta. A verdade é que a gente se acostumou a operar no modo de sobrevivência. Então, que tal dar um passo para trás e avaliar o todo? Durante o FIFE 2026, o sociólogo Domingos Armani trouxe uma provocação que cutucou feridas necessárias. Ele alertou que muitas organizações ainda insistem em carregar crenças e estigmas que funcionam como mapas obsoletos. Só que, o grande problema de usar um mapa velho é que o mundo mudou, e o desenho antigo já não bate com o terreno real de hoje. Insistir na ideia de que investir na própria estrutura é "gastar dinheiro que deveria ir para o projeto" é um desses mapas velhos que precisamos rasgar. Fortalecer a casa, o chamado Desenvolvimento Institucional (DI), é o que garante que a ONG continue existindo e gerando impacto no longo prazo. E essa mudança de mentalidade muda tudo, inclusive o jeito de captar recursos. Mudar a postura para financiar a sua estratégia Captar recursos para o Desenvolvimento Institucional, ou seja para estruturar a gestão, investir em tecnologia e manter o time funcionando, exige parar de pedir dinheiro apenas para o "projeto da vez". No painel da Plataforma Conjunta, ainda no FIFE, o debate girou em torno de como virar essa chave diante dos financiadores. Para ajudar a avaliar como a sua organização está se posicionando, montamos um checklist prático com os principais aprendizados da mesa: Checklist de postura para o fortalecimento da ONG [ ] Você se explica pela estratégia ou pelo portfólio? Quando vai conversar com um parceiro, você gasta todo o tempo listando as oficinas da semana ou apresenta primeiro a missão e a visão de futuro da organização? Grandes parceiros querem financiar o futuro da sua causa, não apenas uma ação pontual. [ ] Você sabe compartilhar vulnerabilidades? Se a sua organização fosse perfeita e não tivesse nenhum problema de gestão, ela não precisaria de apoio. Fale da sua vulnerabilidade, mas com estratégia. Acompanha o próximo ponto! [ ] O desafio vem acompanhado de uma solução? Mostrar os pontos fracos da gestão para o parceiro só funciona se você já apresentar a rota para resolver o problema. A vulnerabilidade precisa vir colada com a sua capacidade de planejamento. [ ] O estigma da escassez foi abandonado? A gestão já superou a velha crença de que o Terceiro Setor precisa trabalhar sofrendo, com ferramentas defasadas e computadores lentos? Modernizar a estrutura interna é uma decisão de eficiência, não um luxo. Saiba que você pode merece e precisa de estrutura. Modernizar para não parar no caminho Se os mapas antigos não funcionam mais, o papel de quem gere é desenhar novas rotas. Olhar para o Desenvolvimento Institucional serve para dar musculatura para a organização. Quando paramos de “vender o almoço para pagar o jantar” e começamos a financiar a nossa própria estratégia, a ONG ganha a sustentabilidade que precisa para transformar a realidade na ponta de forma estruturada e contínua.
Por Instituto Phomenta 14 de maio de 2026
Quem trabalha em ONG sabe que a comunicação costuma ser o pratinho que mais cai. Com tantas atividades executadas ao mesmo tempo, a estratégia acaba ficando para trás porque o operacional consome todo o dia. Mas o uso da Inteligência Artificial (IA) tem mostrado que dá para mudar esse cenário. Esse foi um dos temas centrais do Fórum Interamericano de Filantropia Estratégica (FIFE 2026), o principal encontro sobre gestão do Terceiro Setor no Brasil. O debate focou em como a tecnologia pode organizar processos e liberar tempo para o que realmente importa. O cenário brasileiro é curioso: de um lado, a OpenAI aponta que o Brasil é o terceiro país que mais usa o ChatGPT no mundo (atrás apenas de EUA e Índia), com cerca de 140 milhões de mensagens diárias enviadas por aqui. Por outro lado, o uso estratégico nas ONGs ainda engatinha. Um levantamento do IDIS com mais de 1,5 mil organizações revela que 62% delas ainda estão em um estágio baixo ou inexistente de adoção de IA. Ou seja, a tecnologia está na nossa mão, mas o setor social ainda está descobrindo como transformá-la em aliada da gestão. Para tirar proveito real dessas ferramentas, o segredo é o jeito que você as alimenta. Durante a palestra de Marco Iarussi, publicitário social e fundador da Curta Causa, aprendemos que o "treinamento" que você dá à IA é o que define se o resultado será genérico ou útil. Mão na massa: Passo a passo para montar seu plano com IA Para a IA aprender sobre a sua realidade e não entregar respostas vazias, siga este roteiro: 1. Não mude de conversa Escolha um único chat para tratar do seu plano de comunicação, seja no ChatGPT, Gemini ou Claude. Se você abre uma conversa nova toda vez, a IA "esquece" o contexto. Mantendo o mesmo canal, ela guarda o histórico e entende as necessidades específicas da sua organização. 2. Dê informações reais Antes de pedir o plano completo, descubra o que a IA já "pensa" sobre você. Isso serve para corrigir erros e fornecer dados que ela ainda não tem. Prompt: "O que você sabe sobre a causa [inserir sua causa] e o que conhece sobre o trabalho da [nome da sua ONG]?" 3. Alinhe o que é um plano de verdade Veja se o robô entende o seu universo. Se ele tiver uma visão muito comercial, o plano parecerá uma propaganda de loja, o que não funciona para o setor social. Prompt: "Para você, o que não pode faltar em um plano de comunicação para uma ONG? Liste os pontos principais." (Leia e diga o que você concorda ou não). 4. Descubra o que ninguém está falando Use a ferramenta para encontrar novos ângulos e sair do óbvio. Prompt: "O que o pessoal mais fala sobre [sua causa] hoje? E o que você acha que ainda não foi dito, mas que ajudaria as pessoas a entenderem melhor o nosso impacto?" 5. Peça o plano prático Agora que o chat está treinado, peça a estrutura final. Prompt: "Com base em tudo o que já conversamos aqui, monte um calendário de 30 dias para as nossas redes sociais. O foco deve ser [ex: prestação de contas ou atrair novos voluntários]." Onde entra a ética e o seu papel Usar a tecnologia para facilitar o dia a dia é inteligência de gestão, mas exige cuidado. A IA serve para fazer o primeiro rascunho e organizar as ideias, mas a palavra final, a conferência dos dados e o olhar humano sobre a causa precisam ser seus. O objetivo é automatizar o que for repetitivo para que você tenha fôlego. Com a comunicação organizada, sobra tempo para construir relacionamentos de verdade e focar no que nenhuma máquina substitui a confiança e o olho no olho com quem apoia a sua organização. 
Por Camila Pasin 30 de abril de 2026
Empresas brasileiras deixaram de ser apenas financiadoras e se tornaram plataformas de engajamento. Entenda como transformar uma simples doação em uma verdadeira aliança de impacto.
mostrar mais

Participe do nosso grupo no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão

Entrar para o grupo